11 de dez de 2008

Patricia Araújo - Essa mulher tem um segredo


Patricia Araújo - Essa mulher tem um segredo

Da Marie Claire - Por Silvia Pilz. Fotos: Fernando Louza - e outras que peguei na net


Não se deixe enganar pelo rostinho delicado: a vida de Patricia Araújo renderia um livro perturbador. Aos 13 anos, foi expulsa da escola em que estudava por comportamento inadequado. Aos 15, casou com um homem 20 anos mais velho. Aos 18, foi ganhar dinheiro de forma nada convencional... pera lá, não vamos estragar a fantasia. Dedique alguns minutos a Patricia. Vai valer a pena.


Chego ao apartamento de Patricia Araújo, em Copacabana, por volta das 18h, numa terça-feira ensolarada. De cara lavada, calça de moletom e camiseta, é ainda mais bonita e sensual do que nas fotos que havia visto: o tipo de mulher que enlouquece os homens e vai ficando mais sedutora ao longo da conversa - charme misturado com Angel ou J'adore, seus perfumes prediletos. Ao longo das quatro horas que passo ali, o telefone rosa-bebê não pára de tocar. Ela atende e repete como um mantra: 'Agora não posso. Estou ocupadinha'. Patricia me convida e eu invado seu mundo. Ao me despedir, me conduz à porta e encontra a vizinha no corredor. Deixo as duas combinando uma caminhada pelo calçadão de Copacabana. Cenas ordinárias de uma vida cotidiana. Mas essa história não é bem assim.

Patricia nasceu há 25 anos, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro, em uma família de classe média-baixa. Ao ver aquela criança tão morena e forte, os pais decidiram dar a ela um nome nobre: Felipe. E foi Felipe que, aos 12 anos, entendeu que gostava mais de meninos do que de meninas. Tudo ficou claro quando André, colega de classe na escola pública, pediu um beijo e Felipe não viu nisso um problema. Nascia o rascunho de Patricia.


Felipe cresceu um garoto extremamente feminino. No colégio e na rua, seus gestos e atitudes fora dos padrões chamavam mais a atenção dos meninos do que das meninas. A orientadora da escola, intrigada com o que não conseguia catalogar como comportamento humano com registro prévio, vivia convocando Patricia para conversar: queria entender quem era aquela criança.


'Eu tinha medo de confessar meu segredo, mas achei que a intenção dela era apenas me ajudar.' Assim, aos 13, amaciado pela orientadora, confessou sua predileção por rapazes. Resultado: acabou expulso da escola por comportamento inadequado. Estava na sétima série. 'Foi um trauma, a maior discriminação por que já passei', diz.


Ainda ferido, mas decidido a sair pelo mundo sendo quem era, foi conversar com os pais. 'Disse que me enxergava como uma mulher, que não me via como homem e que sentia atração por meninos.' Os pais -Severino, segurança, e Terezinha, dona-de-casa -, ambos evangélicos, ficaram assustados e sem saber o que dizer. Mas a reação fortemente negativa do irmão mais velho fez com que Severino encontrasse a resposta. 'Meu pai calou a boca dele num segundo, dizendo que eu era filho dele e que, independente de minhas preferências sexuais, ele me apoiaria.'



Patrícia Araújo no ônibus: Beleza Feminina'Eu cheguei à conclusão de que, no meu universo, do meu jeito, sou feliz. A hipocrisia do mundo acabou me fortalecendo bastante'



Assim, aos 13 anos, Felipe começou a se vestir de forma mais feminina e a encarar o mundo com os olhos de uma mulher. Nessa época, conheceu um travesti que morava perto de sua casa e que deu a dica: 'Se você tomar pílulas anticoncepcionais, compostas de hormônios femininos, vai se transformar ainda mais'. Como nunca teve muito pêlo no corpo, nem gogó, e era dono de feições delicadas, a transformação foi rapidamente notada.


Os pais, seguindo à risca o 'não julgarás', nada diziam, apenas observavam. Nessa toada, não é de espantar que, aos 15 anos, Felipe tenha virado alvo de fofocas no bairro. Era conhecido como o travesti da rua, vítima de chacotas. Não foi uma época fácil, suportada apenas por causa do apoio da família. E, mesmo assim, não por muito tempo. Na primeira oportunidade, Felipe, a cada dia mais Patricia e a cada dia mais precoce na aparência, foi embora dali: durante um passeio que fez com amigas a São Paulo, conheceu um rapaz e começou a namorar.


'Ele era paulista, uns 30 e tantos anos, dono de uma rede de concessionárias de carros. Era hétero e, mesmo sabendo que eu era uma mulher presa a um corpo masculino, me levou para São Paulo.' Antes de casarem, namoraram por alguns meses, e o empresário freqüentou com status de namorado a casa da família na Ilha do Governador. Morando em São Paulo, levando vida de casada, assumiu Patricia de vez. Patrocinada pelo parceiro, fez suas duas cirurgias plásticas: nariz e silicone nos seios. Viveu vida de dona-de-casa. Tudo parecia perfeito. Mas, depois de quase quatro anos, o relacionamento acabou porque o empresário começou a ter crises de possessividade.


Patricia voltou para a Ilha do Governador- agora, mais do que nunca, uma mulher. Ali, fez supletivo e concluiu o ensino médio. Mas rapidamente sacou que, como travesti, não encontraria espaço no mercado tradicional de trabalho (algumas tentativas frustradas como modelo a desanimaram). 'O mundo não está preparado para incorporar o travesti ao mercado de trabalho. A prostituição acaba sendo, além de um negócio viável e rentável, nossa única alternativa.' Triste e desapontada, e ainda dividida entre a idéia de tentar uma carreira convencional e vender o corpo, encarou a segunda opção. Depois de alguns meses, juntou um dinheiro e, aos 18 anos, foi para a Itália, a disneylândia do turismo sexual da categoria, fazer negócios longe de casa.


Em terra estrangeira, o dinheiro vinha fácil, mas não gostou do tratamento das colegas. 'É um submundo podre e triste. Como todas já sofreram muito, encaram a vida de um jeito duro e predatório. Penei para me adequar, até porque minha história de vida não carrega muitos sofrimentos. E nunca deixei ninguém me dominar: nunca me meti em encrencas, nunca apanhei, nunca deparei com clientes agressivos. Perto do que vejo nas ruas, sou uma privilegiada.'



Depois de um ano, voltou ao Brasil trazendo na bagagem a experiência da vida clandestina. 'Não é prazeroso fazer parte de um grupo marginal. Ninguém que se prostitui é totalmente feliz', diz. 'Olha, a prostituição é como uma droga, um vício, algo que absorve toda a sua energia e te faz escrava. Pode acabar com você. Mas criei um escudo que separa meu corpo da alma. O que vendo é meu corpo, nunca minha alma. E isso liberta.' Ainda assim, confessa que quer parar.



'É meu sonho, assim que fizer um pé-de-meia bom. Chego lá!', diz isso e ri. Mas a alegria contagiantemente carioca camufla algumas angústias, que ela vai revelando aos poucos. 'A minha maior aflição é saber que represento sexo. Ninguém me pergunta se eu li tal livro, ninguém quer bater papo ou ir ao cinema. Sou sinônimo de sexo e isso me deixa carente por um tipo de amor que não esteja vinculado a sexo ou a dinheiro.' Quando percebe que o papo está ficando cinza, dá a guinada: 'Por isso, se alguém me leva para tomar uma água de coco na praia e passeia pelo calçadão comigo, leva também meu coração', ri, debochada.


Patricia mora com os pais. Uma casa simples, mas ampla, freqüentada pelos irmãos e pelos sobrinhos que ela adora. O apartamento em que estamos é o privé onde recebe seus clientes -alguns, empresários importantes no cenário nacional; outros, caras famosos. Um 'programa' com Patricia vale R$ 500, e ela faz mais de três por noite. Os homens que a visitam, todos autoproclamados héteros, são casados e compartilham de um mesmo desejo: de que Patricia seja a ativa da ocasião. É por isso que o travesti precisa ter um membro que funcione. 'Esses homens querem ter a ilusão de que estão transando com uma mulher, mas é pelo pênis que se interessam. Alguns chegam aqui tão excitados que, às vezes, demoram mais para tirar a roupa do que para gozar.' Porque a sexualidade humana é uma coisa cheia de camadas e subcamadas, nunca faltará companhia a Patricia. 'Mas não me iludo. Quem entra aqui não quer conhecer Patricia. Quer realizar taras. O homem é um chimpanzé insaciável e a grande contradição é que fomos criados para acreditar que nosso intelecto pode superar nossos instintos. Só que não supera, vou te contar.' Mesmo assim, diz que a vida clandestina e marginal pode acabar sendo romântica. 'Outro dia, ganhei flores.'

Patricia é um ser humano difícil de ser classificado por nossa míope capacidade de compreensão. Se apaixona como mulher, mas faz amor como um homem. Transita livremente entre os dois gêneros e, por isso, se permite analisar tanto um quanto o outro. 'Tem mulher que se fantasia de enfermeira para agradar o cara. Ah, se elas soubessem que muitos desejam ardentemente aquilo que elas não têm', suspira, poderosa. 'Sabe, me sinto mais desejada do que várias delas. Os homens que vêm aqui são casados, têm filhos, se dizem héteros, mas morrem de tesão por mim e pelo que posso oferecer. Querem se sentir dominados, querem ser penetrados. O travesti mexe com a cabeça masculina de um jeito forte. Não falo da boca pra fora. Este apartamento poderia ser usado como laboratório da sexualidade.'


'Os homens que transam comigo querem ter a ilusão de que estão com uma mulher. Mas é pelo pênis que se interessam de verdade'


Patricia, a alquimista de sexo, continua tecendo sua teia. 'De um modo geral, quando me percebem na rua, os homens, seja lá de que tipo forem, ficam excitados, impacientes. É da natureza deles. O problema são os que repudiam, aqueles que pensam na gente somente quando estão se masturbando.' Para ela, esses são os que acabam batendo nos travestis que ficam nas ruas, porque é a forma que encontram de liberar aquela energia reprimida. 'No fundo, estão se espancando, se punindo por sentirem aquelas coisas que, no mundo deles, são inadmissíveis. O mundo é cheio de desencontrados e insatisfeitos.'

Pergunto, então, se Patricia é feliz desse jeito, uma mulher refém do corpo masculino, um ser humano de difícil catalogação. 'Já passei da fase de me vitimar por ter nascido homem e querer ser mulher', diz. 'A hipocrisia do mundo me amadureceu. Além do quê, algumas amigas que fizeram a operação [de transformação de sexo] não têm mais a capacidade de sentir prazer, e isso eu não quero para mim. Eu quero sentir prazer. Sabe, cheguei à conclusão de que eu, no meu mundo, dentro da minha realidade, sou feliz.' O fato de seu RG carregar o nome de Felipe não causa constrangimentos. 'As pessoas levantam uma sobrancelha e me medem, mas ninguém faz escândalo quando vê os documentos e descobre que me chamo Felipe. Não ligo. Empino o nariz e sigo em frente.'


Uma "rapidinha" com Patricia

Nome Felipe Araújo

Idade 25

Maior elogio recebido De uma senhora, no elevador. Ela disse que eu era uma das mulheres mais bonitas que já havia visto e que, nas passarelas, eu arrasaria a Raica. Elogio de homem não tem valor.

Qual a diferença entre gay, travesti e transexual? O gay se sente atraído por pessoas do mesmo sexo, mas não tem o desejo de se transformar fisicamente. O travesti busca ressaltar a feminilidade, mas não abre mão do pênis. O transexual é o travesti depois da cirurgia de troca de sexo.
Quanto dura um 'programa'? Se estiver em noite inspirada, 15 minutos.
O que gostaria de ser? Meu sonho sempre foi ser modelo ou veterinária. Mas hoje sonho em ser atriz, e adoraria fazer um ensaio sensual em revista masculina.

Um filme que marcou sua vida? 'King Kong'. Choro com a delicadeza dele ao tratar da mocinha.

O que dizer para quem não aceita que vocês existem? Somos todos seres humanos. Somos todos iguais. Por isso, não julguem as pessoas e respeitem as diferenças. Elas fazem parte deste mundo cheio de contradições.

5 comentários:

MINK disse...

É, se o Ronaldo ficasse com ela, acho que todos perdoariam... Patrícia é mais mulher que muita mulherzinha por aí, se nasceu Felipe foi um acidente genético.

Parabéns pela matéria e - só pra constar - é como eu sempre digo: "a Ilha do Governador" vai dominar o mundo =)

Anônimo disse...

Linda.Sem palavras

Amoroso 69 disse...

Pois eu não me importava nada de fazer sexo com ela conssegue ser e é mais mulher que muitas mulheres são

sasha disse...

Ela e' muito linda!

ALEXANDRA BOON CD disse...

A Patrícia é um belo exemplo de Travesti, muito bonita como sempre, beijo amore, se conserve sempre assim Linda.

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