18/04/2010

Transexuais saem do armário e a ciência mostra que a mudança de sexo não é perversão

Nasce uma mulher
Transexuais saem do armário e a ciência mostra que a mudança de sexo não é perversão

De todas as variantes da sexualidade humana, nenhuma é tão incompreendida quanto o transexualismo, a bizarra experiência de nascer com cromossomos, genitais e hormônios de um sexo - mas ter a convicção íntima de pertencer ao gênero oposto. Enquanto gays, lésbicas e travestis assumem os órgãos genitais que têm, transexuais repudiam o que a natureza lhes legou. Vivem um estranhamento em relação ao próprio corpo que desencadeia tentativas de automutilação e suicídio.

QUERO TER MINHA LUA-DE-MEL
Marília Gabriela, 22 anos, maquiadora



CONVERSÃO
Marília, depois da cirurgia de mudança de sexo, e na adolescência, como Errolclaud

Fiz a cirurgia de mudança de sexo há dois meses. Nos primeiros dias senti dores incríveis. Gemia o tempo todo e mal podia mover e trançar as pernas. O incômodo durou dez dias e nenhum analgésico resolvia. Mas valeu a pena porque hoje me sinto uma mulher completa. Só me arrependo de não ter feito a operação antes. Sinto-me mulher desde que me conheço por gente. Nasci em Belo Horizonte e, aos 5 anos, já destruía o estojo de maquiagem da minha mãe, Marília. Aos 10, as amigas dela olhavam o meu cabelo chanel e diziam: 'Que linda menina você tem'. Ela não se deixava abalar pelos comentários e sempre compreendeu meu sofrimento. Mamãe tem acompanhado toda a transformação do meu corpo. Comecei a tomar hormônios femininos aos 13 anos. Depois vieram a prótese nos seios, o silicone no corpo, a lipoaspiração. Sonho em me casar e há um ano namoro um administrador de empresas de 32 anos. Estava sozinha na fila do cinema quando ele se aproximou. No terceiro encontro, contei que era transexual. Ficou transtornado, mas disse que fiz bem de contar tudo logo no início. Acho que já estava envolvido pelo meu caráter e pela minha beleza. Continuou comigo mesmo assim. Ainda não tivemos relações porque não gosto de sexo anal. Daqui a um mês, quando estiver totalmente recuperada, teremos nossa lua-de-mel como marido e mulher.


A crise de identidade sexual começa cedo e produz resultados dramáticos, como revelam os depoimentos ao longo desta reportagem. Filho único de um casal mineiro, o garoto Errolclaud foi registrado em 1980 com o nome do pai, um mecânico de Belo Horizonte. Desde sempre, fugiu ao padrão masculino. Aos 5 anos, maquiava-se para ir à escola. Aos 7, fantasiava que uma pílula mágica o transformaria em mulher. Aos 13, descobriu que o elixir redentor não existia, mas os hormônios femininos fariam alguma coisa parecida.

A transformação radical foi concluída há dois meses, com a metamorfose do pênis em vagina pela força do bisturi de um cirurgião plástico. Aos 22 anos de idade, hoje uma loira escultural aguarda a oficialização da mudança de nome que adotou há alguns anos. Errolclaud virou Marília Gabriela, uma justa homenagem à mãe. Refeita da cirurgia que esperou por toda a vida, a mineira exala felicidade. 'A recuperação é dolorida, mas faria tudo de novo - e bem antes, se pudesse', diz.

Descobertas científicas e uma onda de lançamentos literários tratam essa desarmonia como um problema genuinamente médico, que nada tem a ver com preferências sexuais. Para a ciência, a causa da patologia é uma divergência trágica entre a programação sexual do cérebro e o formato dos genitais, um problema que ocorre durante a gestação. Em meados de outubro, o cientista Eric Vilain, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, reafirmou a tese de que o sexo do embrião é determinado pelo cérebro - muito antes do desenvolvimento de testículos ou ovários. Num estudo com camundongos, verificou-se que alguns genes tramam a formação do cérebro feminino ou masculino antes que o corpo comece a ser banhado por hormônios de um sexo ou do outro. Um erro nessa troca de mensagens provoca o resultado perturbador: cabeça de mulher aprisionada em corpo de homem, ou vice-versa.
A descoberta vai ao encontro do estudo publicado pelo Instituto do Cérebro, na Holanda, em 1995. Depois de dissecar o encéfalo de seis transexuais nascidas com genitália masculina, os pesquisadores descobriram uma peculiaridade na região do cérebro que regula o comportamento de gênero. A área era menor que a dos homens e idêntica à das mulheres. Baseada nessas evidências, a medicina registrou o chamado transtorno de identidade sexual no Código Internacional de Doenças. Atinge uma em cada 10 mil pessoas identificadas ao nascer como meninos e uma em 30 mil registradas como meninas.

Transexuais e suas famílias vivem uma árdua experiência. Os garotos não entendem por que precisam usar roupas masculinas, desprezam carrinhos e chuteiras, empreendem investidas furtivas ao guarda-roupa da mãe. As meninas com cérebro masculino acham normal andar sem camisa e seguir esportes abrutalhados. Atônitos, os pais assistem à demolição de seus sonhos ä e ao fim da harmonia doméstica. Os filhos levam vida amorosa complicadíssima. Rejeitam o rótulo de homossexuais e escondem os órgãos genitais na hora do sexo.

Nascida Alexandre Miranda, a curitibana Maité Schneider estudou em colégio franciscano e fazia de tudo para escapar das aulas de educação física com os garotos. O pai, um engenheiro civil, estranhava seu comportamento. Numa busca incansável por diagnóstico, peregrinou com o filho por bibliotecas e psiquiatras. Maité começou a tomar hormônios femininos por conta própria e, aos 18 anos, foi internada na UTI por dosagem excessiva. O pai aceitou o destino. 'Ele é o meu anjo da guarda, um protetor que a maioria das transexuais não tem', emociona-se Maité. 'Ele sempre disse que o mais importante é minha felicidade.'

Hoje está definido que a síndrome só pode ser aplacada por tratamento cirúrgico, embora os médicos refutem a expressão mudança de sexo. 'Não mudamos nada', diz o cirurgião plástico Jalma Jurado, o mais experiente no Brasil, com 200 operações no currículo, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, no interior paulista. 'Apenas adequamos o sexo ao cérebro.'

DESTRUÍ MINHAS FOTOS DE HOMEM
Katielly Lanzini, 40 anos, jornalista

Sempre quis ser menina. Tinha inveja da sainha plissada e das meias brancas de minhas irmãs. Quando estava sozinha, usava roupas femininas. Sentia-me mulher, mas não podia revelar minha condição. Tive uma educação muito repressiva em Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul. Minha mãe dizia: 'Deus me livre de ter um filho fresco'. Casei duas vezes e tive quatro filhos. A angústia era tamanha que pensei em suicídio. Com o apoio da minha ex-mulher, concluí que o melhor era sair do armário. Meus filhos entenderam. As pessoas subestimam a capacidade das crianças de compreender as diferenças. A transformação começou em 1988. Tomei hormônios, coloquei silicone nos seios, reduzi o nariz. Procuro disfarçar a voz e pretendo corrigir o pomo-de-adão. Já retirei os testículos e estou à espera da cirurgia principal. Vai ser como reencarnar em vida. Nas eleições, fui candidata a deputada estadual pelo PFL, mas não me elegi. Recentemente, percorri os arquivos dos jornais de Chapecó, no interior de Santa Catarina, onde morava, e furtivamente destruí as fotos do tempo em que era jornalista e assinava reportagens com o nome de batismo, Nedson. Quero eliminar meu passado.


PIONEIRISMO
O grupo do urologista Carlos Cury tornou-se referência no interior paulista
RECORDE
Jalma Jurado operou 200 pacientes

Até outubro, a cirurgia era considerada experimental no Brasil. Há duas semanas, o Conselho Federal de Medicina decidiu permitir que seja realizada em qualquer instituição pública ou privada. 'A técnica está bastante aprimorada, mas os médicos precisam se cercar de cuidados para que não caia na vulgaridade', diz o cirurgião plástico Antônio Gonçalves Pinheiro, conselheiro do CFM. Os hospitais interessados em oferecer o procedimento devem manter cirurgiões, endocrinologistas, psicólogos, psiquiatras, sexólogos e assistentes sociais treinados para atender esse público tão especial. A cirurgia só deve ser realizada depois de dois anos de avaliação dos pacientes, quando realizam testes psicológicos que rastreiam os sinais de transexualismo. O objetivo é evitar que pessoas confusas com sua sexualidade embarquem numa viagem sem volta. Homossexuais ou travestis que, num momento de dúvida, optassem pelo bisturi iriam se sentir literalmente castrados mais tarde.

A decisão do CFM pode dar vazão à demanda reprimida. Estima-se que 8 mil brasileiros registrados como homens são transexuais, mas apenas 500 conseguiram fazer a operação. Agora que o procedimento deixou de ser experimental, abre-se até a possibilidade de ser custeado pelo SUS - embora deva demorar um bom tempo até que hospitais públicos formem grupos especializados nesse complexo tipo de cirurgia. Já a transformação dos genitais femininos em masculinos - pela técnica que aumenta o clitóris da mulher até torná-lo semelhante a um pênis - continuará sendo experimental devido aos resultados insatisfatórios.

MEU PAI DISSE QUE PREFERIA MORRER
Guta Silveira, 35 anos, secretária



LIVRE
O adolescente Silvio tornou-se a exuberante Guta

Nunca gostei de roupas e brinquedos de menino. Na adolescência, achei que fosse gay. Meu pai é um locutor de rádio e ex-juiz de futebol bastante conhecido em São José do Rio Preto, no interior paulista. Quando ele se acostumou com a idéia de ter um filho homossexual, eu descobri que na verdade era mulher. Ele ficou chocado. Disse que preferia morrer a aceitar que eu fizesse a cirurgia. Rompemos relações, mas minha mãe apoiou minha decisão. Depois da operação, sofri o que chamam de Síndrome do Príncipe Encantado. Antes, achava que meus relacionamentos eram curtos porque não era uma mulher completa. Quando conquistei um órgão sexual feminino, descobri o prazer, mas continuei sofrendo desilusões amorosas. Descobri que os homens são volúveis mesmo e não há como mudar isso.


Só com muita determinação alguém se propõe a mudar de sexo. É difícil imaginar procedimento tão aflitivo quanto o que cria uma genitália feminina a partir da masculina. A pele e os nervos do pênis são utilizados para revestir internamente a fenda aberta no períneo, a chamada neovagina. A maioria das operadas aprova o resultado. Dizem sentir prazer, principalmente no fundo do canal vaginal, onde é adaptada a glande do pênis, uma usina de sensibilidade.

Os médicos são capazes de construir o clitóris, mas nem sempre ele funciona como zona erógena. Por isso, 99% das transexuais brasileiras sonham com a operação em Bangcoc, na Tailândia, onde os cirurgiões Suporn Watanyusakul e Preecha Tiewtranon criam um órgão idêntico ao das mulheres a partir de tecido da uretra e se aproximam da perfeição estética. A transformação custa US$ 6 mil, valor inferior ao cobrado por outros expoentes, como Yvon Menard e Pierre Brassard, no Canadá (US$ 7 mil) e Toby Meltzer, nos Estados Unidos (US$ 15 mil).

MUDANÇA DE PERSPECTIVA
Alguns fatos que marcaram a história do transexualismo no Brasil e no mundo

1931
Instituto Hirschfeld de Ciência Sexual, em Viena, apresenta a primeira cirurgia de mudança de sexo. Consistia em retirada do pênis e criação de uma vagina

1952
Aos 26 anos, o ex-soldado George Jorgensen Jr. torna-se o primeiro americano a passar pela cirurgia e vira celebridade. Adota o nome de Christine (na foto, de casaco de pele)

1962
A Universidade da Califórnia, em Los Angeles, aplicava tratamento comportamental para 'ensinar' meninos e meninas transexuais a se conformar com os genitais. Os resultados eram pífios

1969
O brasileiro Airton Galiaci (Jacqueline) é o primeiro latino-americano a ser operado. A cirurgia foi realizada em Casablanca, no Marrocos

1971
A primeira operação brasileira foi realizada em São Paulo pelo médico Roberto Farina, que acabou preso por lesões corporais. Farina foi absolvido. A Justiça concluiu que a cirurgia era o único meio de aplacar a angústia do transexual

1984
Roberta Close (foto à esq.) torna-se a primeira transexual a posar nua para uma revista masculina no Brasil, antes de passar pela cirurgia, na Inglaterra

1997
O Conselho Federal de Medicina autoriza a realização de cirurgias experimentais de mudança de sexo em hospitais universitários

2001
A transexual espanhola Angela Fernandez, de 28 anos, casa-se oficialmente com Angel Romera, de 22. Depois de uma batalha judicial, ela conquistou a primeira licença para casar no país


FICO ENCABULADA COM MEU PARCEIRO
Maité Schneider, 30 anos



BELEZA
Alexandre, aos 16 anos, e hoje, como Maité

Sofro muito em Curitiba, cidade que não respeita a diversidade sexual. Em jantares de família, minha mãe pedia para eu chegar antes ao restaurante. Dizia que tinha vergonha de andar comigo na rua. Estudei até o 20 ano de Direito, falo alemão, mas ninguém me emprega. Acham que serei incompetente. Trabalho numa banca de revistas e me tornei ativista de uma organização de direitos humanos, o Instituto Paranaense 28 de Junho. A vida afetiva também nunca foi muito fácil. Costumava ficar longe dos homens porque é muito difícil explicar minha situação. Ainda não fiz a operação de mudança de sexo. Estou guardando dinheiro para fazer a cirurgia na Tailândia, onde os resultados são melhores. Acabei me apaixonando por um namorado e moramos juntos há dois anos e meio. Ele não me pressiona para que eu faça a cirurgia, mas preciso dela para realizar minhas fantasias. Por enquanto, ficamos só nos beijos e carícias. Só vou para a cama com uma toalhinha para cobrir meu pênis. Deixamos a luz bem fraquinha e fico muito encabulada. Se eu tiver uma ereção, estraga o clima.

No Brasil, é difícil consegui-la por menos de R$ 3 mil. A Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, uma autarquia paulista, foi a primeira a criar uma unidade especializada. Desde 1998, o urologista Carlos Cury operou 32 pacientes. 'Elas renascem com a operação, mas só devem fazê-la se estiverem preparadas', diz.

A cirurgia é delicada e envolve riscos graves como incontinência urinária e formação de feridas nos lábios vaginais causadas por má circulação. Algumas pacientes ficam insatisfeitas e precisam passar por nova intervenção. 'Oitenta por cento voltam para fazer reparos', admite o médico. O grupo de Cury dispõe de uma estrutura de acompanhamento psicológico, social, jurídico e de reabilitação física. Antes e depois da operação, as pacientes recebem cuidados que garantem uma aparência feminina verossímil. Hormônios para esculpir o corpo, modulação da voz, reeducação dos trejeitos e do andar, retirada do pomo-de-adão.

Ao fim do processo, ficam bastante femininas, como Guta Silveira, a voluptuosa secretária da equipe do doutor Carlos Cury que tem até um site em que revela todos os detalhes da mudança (www.gutasilveira.hpg.com.br). Aos 3 anos de idade, Guta (então Silvio Luís Silveira) desfilava pela casa com as roupas da mãe. Filho de uma dona-de-casa e de um juiz de futebol, cresceu na conservadora São José do Rio Preto como um homossexual pouco convicto. Na adolescência, entrou em crise de identidade. 'Não era menino nem menina, não era gay nem travesti', lembra. 'Sentia-me um E.T.' Começou a fazer as pazes consigo mesma nos anos 80, quando Roberta Close posou nua numa revista masculina - antes e depois da cirurgia para mudar o sexo. A mais famosa transexual brasileira alvoroçou os homens (que esgotaram as duas edições) e deu visibilidade à questão.

ROTEIRO DA TRANSFORMAÇÃO
Como é a cirurgia de criação da genitália feminina

ANTES DEPOIS

Infográfico: Erika Onodera

1 - O pênis é esvaziado, mas a pele e os nervos do órgão são preservados. Ele é introduzido na abertura feita no períneo

2 - O tecido do pênis serve de revestimento para a nova vagina. A glande, muito sensível, fica no fundo do canal e imita o colo do útero

3 - Os testículos são extraídos. Com a pele, o cirurgião constrói os lábios vaginais. O aspecto final é muito semelhante à genitália feminina

'Os transexuais não são homens que desejam se tornar mulheres', explica o psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa, da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana. 'Psicologicamente, eles já são mulheres.' Até os anos 70, alguns terapeutas defendiam a idéia de que seria possível reverter esse quadro com terapia comportamental. Caso emblemático foi divulgado em 1973 pelo sexólogo americano John Money. Ele recomendou que o garoto Bruce Reimer - que teve o pênis acidentalmente amputado numa cirurgia de fimose - fosse criado como menina. A criança recebeu uma vagina, hormônios femininos e terapia. Durante alguns anos, Money divulgou resultados satisfatórios. Mas a contraprova surgiu aos 14 anos: o paciente desistiu de viver como menina, teve o pênis reconstruído e, alguns anos depois, se casou e adotou filhos.


Embora a identidade sexual resulte de uma combinação entre estrutura orgânica e pressão social, ninguém 'aprende' a ser homem ou mulher. Na impossibilidade de mudar a cabeça dos transexuais, resta a transformação da genitália. A maioria, após a cirurgia, adota um romantismo fora de moda. Sonha com o príncipe encantado que lhe dará filhos (ainda que adotivos), flores e uma casa no campo. 'São Amélias, com orgulho', resume o cirurgião Carlos Cury. Entre quatro paredes, tendem a ser conservadoras - um esforço de diferenciação dos travestis, cuja imagem se associa à promiscuidade. Ser feminina, para elas, pressupõe abusar de sobrancelhas esculpidas, saltos finíssimos e vestidos justos, que muitas mulheres já deixaram para trás.

Um grande enigma para os especialistas é entender a cabeça dos parceiros das transexuais. Esses homens gostam de mulher, mas escolhem companheiras que tiveram ou têm pênis. As explicações vão do amor incondicional a fantasias inconfessas. 'Os parceiros são heterossexuais, mas o psiquismo deles é uma incógnita', diz o psiquiatra Costa.

GÊNEROS NA ESTANTE
O transexualismo numa safra de livros recém-lançados nos EUA


How Sex Changed


Ao percorrer a trajetória da transexualidade nos Estados Unidos - das primeiras cirurgias aos dias de hoje -, a historiadora americana Joanne Meyerowitz demonstra como a definição do sexo dos indivíduos deixou de ser uma obviedade para se transformar em algo maleável e complexo.


Normal

A psicoterapeuta americana Amy Bloom explora a diversidade de gêneros e sexualidade em entrevistas com transexuais, travestis e transgêneros, pessoas que celebram a ambigüidade sexual e não aceitam ser classificadas como do sexo masculino ou feminino.

Middlesex

O romance do americano Jeffrey Eugenides narra a história de um hermafrodita. Apesar da genitália ambígua, o personagem é aparentemente uma menina. Na puberdade, porém, os testículos se desenvolvem e o clitóris se transforma em pênis.

Scanty Particulars

O terceiro livro da britânica Rachel Holmes é uma biografia de James Barry, um dos mais importantes médicos do Exército britânico na era vitoriana. Dândi e famoso por ter realizado a primeira cesariana bem-sucedida, Barry viveu toda a vida como homem. No leito de morte, em 1865, descobriu-se que era mulher e havia dado à luz.

Fotos: reprodução


POSSO ME APAIXONAR POR MULHERES
Martha Freitas, 52 anos, sexóloga

Nasci com cabeça de mulher, mas reprimi essa realidade quanto pude. Como engenheiro químico de prestígio, dei aulas em universidades e fui consultor de indústrias petroquímicas e de fertilizantes. Tive de enterrar essa carreira porque a masculinidade do ambiente não permitiria que eu virasse a Marthinha de uma hora para outra. Não passaria sequer da portaria das empresas. Fiz um mestrado em sexologia e hoje me dedico a atender pessoas com transtornos de identidade sexual. Quando ligam procurando o 'falecido', digo que ele está no Exterior. Antes da transformação, casei e tive filhos. Não tenho mais contato com eles. Era um amante do tipo que as mulheres gostam. Fiz a cirurgia aos 47 anos e hoje vivo no Rio. Ganhei uma vagina, tenho mais prazer e estou em paz comigo mesma. Mas, confesso, sou bissexual. Posso me apaixonar tanto por homens quanto por mulheres.

Os mistérios não param por aí. Nem todas as transexuais adotam o estilo papai-e-mamãe. Algumas desejam se livrar da genitália discordante para ter a liberdade de ser hétero, bi ou homossexual. Como qualquer mulher poderia fazer. Bissexual, a sexóloga Martha Freitas, de 52 anos, foi operada há cinco. 'Precisava adequar meu corpo ao cérebro feminino, mas posso me apaixonar por homens ou mulheres', conta. Pesquisadora do transexualismo (que ela denomina disforia de gênero), conquistou prestígio internacional. Seu site (www.gendercare.com) recebe consultas do mundo inteiro - de pediatras americanos interessados nos testes que ela desenvolveu para diagnóstico em crianças a gente sedenta por informação em rincões da Amazônia ou da África.

Martha dedicou-se a essas pesquisas com o mesmo afinco com que, na fase masculina, se tornou Ph.D. em engenharia química. Ela viveu como homem durante 45 anos e teve de abandonar a carreira quando decidiu assumir sua condição. Assim como ela, muitos transexuais só se revelam na idade madura. Na infância, tentam sublimar o desconforto e, por pressão da família ou insegurança, cumprem o papel social ditado pelos órgãos genitais. Tornam-se senhores respeitáveis, têm filhos e constroem carreiras sólidas até a erupção do conflito interior.


O PRAZER DEPENDE DA PESSOA CERTA
Rudy Pinho, 53 anos, cabeleireira

Desde a infância em Minas agia como menina. Mas não pude me expor logo no início porque durante a ditadura era muito perigoso sair na rua maquiada ou vestida de mulher. Fiz a cirurgia em 1989 na Suécia. Já existia a parte de construção do clitóris e o resultado foi muito bom. Fiquei bem satisfeita. Assim como qualquer mulher, às vezes tenho orgasmo e às vezes não. O prazer depende de um todo, de estar com a pessoa certa. Sou casada com um homem de 35 anos que conheço desde os 12. Também tive a chance de ser mãe. Adotei uma criança de 6 dias que hoje é um homenzarrão de 24 anos.


De um dia para o outro, trocam a gravata pelo salto alto e iniciam a grande transformação física. 'Fico entre a cruz e a espada nesses casos', diz o cirurgião plástico Jalma Jurado. 'Sempre me pergunto se ao fazer o bem individual não estou levando o inferno para uma família inteira.' O encontro da transexual consigo mesma quase sempre significa morrer para a família, mudar de cidade, abandonar a carreira. Sem documentos compatíveis com a nova aparência, elas raramente conseguem empregos formais. Resignam-se a vôos-solo, em atividades marcadas pelo estigma da homossexualidade. São cabeleireiras, maquiadoras, esteticistas. No Brasil, sempre foi mais fácil fazer a cirurgia que alterar o nome na certidão de nascimento.

Mas os ventos estão mudando. Mais receptivos e informados, os juízes passaram a conceder a alteração com maior freqüência. 'A mudança dos papéis é terapêutica, tão importante quanto a adequação cirúrgica', acredita a advogada Tereza Rodrigues Vieira, que defendeu 16 processos de mudança de nome e sexo nos documentos e ganhou 14. A vida de constrangimentos civis pode estar perto do fim. Só quando deixar de receber o olhar enviesado de quem suspeita de fraude, os transexuais viverão o pleno direito de votar, dirigir automóveis e assinar cheques.

OS VELHOS AMIGOS SE CONSTRANGEM
Rusty Mae Moore, 60 anos, economista

CASAL: Rusty Mae (de blusa vermelha), com a companheira Chelsea

Vivi como homem até 1993, tive três filhos e construí uma carreira acadêmica na Universidade Hofstra, em Long Island. Eu era o economista americano Russel Moore. Fiz pesquisas no Brasil nos anos 70 e dei aulas na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. De volta aos EUA, decidi fazer a cirurgia de mudança de sexo. Fui bem recebida, embora alguns alunos rissem. Não importava. Mudei meu nome para Rusty Mae Moore e continuei na universidade. Em 2000, fui ao Brasil assistir a conferências e encontrei colegas da FGV como o ex-ministro Bresser Pereira e o senador Eduardo Suplicy. Mas não tentei me apresentar a eles, não queria provocar embaraço. Sou bissexual e tenho uma companheira lésbica, Chelsea. Transexual como eu, nasceu com genitália masculina. Fizemos a cirurgia juntas, em 1995. Aprendi que o amor se baseia na conexão espiritual, não na configuração dos corpos.



Fonte: Revista Epoca - Por: Cristiane Segatto
Fotos: Maurilo Clareto/ÉPOCA,
Arquivo pessoa, Marcia Leite/Ed. Globo, Ito Cornelsen/ÉPOCA

3 comentários:

Paulo disse...

entrei neste blog por acaso Kate , procurava uma Amiga tambem de nome Kate , mas ainda bem que me enganei , passo a me apresentar , sou o PAULO e neste momento namoro uma linda Mulher travesti a BETTY eu a Amo e ela me Ama , mas sofremos muito e sempre nos apontam o dedo , não somos respeitados , já me chamaram a min e a ela de Maricas e Gays a ela de aberração que tristeza , nimguem respeita que nós temos Amor um por o outro , neste momento vivemos juntos como marido e mulher , e a cada dia que passa mais apaixonados estamos um por o outro , obrigado pr poder desabafar Kate

Roberta de Oliveira disse...

Oi! Desculpa eu estar invadindo seu espaço, é que eu coloquei um video no youtube, minha transição hormonal (8 meses). Quando você tiver um tempinho livre, dê uma olhadinha lá. Muito obrigada e mais uma vez desculpa tá.



http://www.youtube.com/watch?v=lqphHFQdk8s

Katia Steelman Walker disse...

Roberta parabens pela sua coragem e iniciativa. Seu video complementa a postagem que repliquei. Adicionei seu blog a minha lista de favoritos... bjs!

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