13 de set de 2011

Patrícia Araújo: "Quero ser a Deborah Secco travesti", diz transex mais bonita do Brasil


Nem é preciso pedir um close nela. Com medidas generosas – 1.80m, 102cm de quadril e 97cm de busto – a modelo Patrícia Araújo atrai naturalmente os olhares por onde passa. Muitos de admiração, outros de inveja, mas nenhum que atreva negar sua beleza.

Em 2008, a carioca revelou um segredo à revista feminina Marie Claire: não nasceu mulher, é uma travesti. A informação não diminuiu os olhares. Ao contrário. Foi convidada no ano seguinte para o posto tradicionalmente ocupado pela top Gisele Bündchen no encerramento dos desfiles do Fashion Rio 2009.

A empreitada a arremessou para a mídia, rendeu novos trabalhos, fotos, e até a oportunidade de ter pontas como atriz. Ganhou um episódio na série “A Lei e o Crime” e nas novelas “Luz do Sol” e “Vidas Opostas”, da Rede Record.

Longe do Brasil, Patrícia desfilou e representou o País em Toronto, Canadá, no evento Brazilian Bool. E venceu quatro concursos de Miss, entre eles, o Miss T-Girl World e o Miss Universo Trans.

Em entrevista exclusiva ao Virgula LifeStyle, a modelo fala sobre preconceito, opina sobre Lea T e afirma que Deborah Secco - eleita a mulher do ano pela revista “Alfa” - é a sua principal referência de feminilidade. Confira:




Você está de volta ao Brasil e já pensa retomar a carreira. Como foi começar em 2009, substituindo o posto geralmente ocupado por Gisele no Fashion Rio?
Foi maravilhoso, pois não imaginava que seria aquela bomba. Pelo menos aqui, no Rio de Janeiro, não se falava em outra coisa. Estive em todos os jornais, televisão, muitos comentários. Achei aquilo muito chique, um sonho realizado. Mas eu não estava preparada, ficava um pouco acanhada e não aproveitei tanto. De qualquer maneira, o evento ajudou muito minha carreira, pois apareceram muitos trabalhos e me deixaram conhecida.

Em tempos de Lea T e Andrej Pejic, encontra dificuldades para dar seguimento na carreira de modelo?
Existem dificuldades, claro. Ainda rola muito preconceito, mas acho depende muito mais do esforço da pessoa, da sua vontade de correr atrás. Sinceramente, comigo, já acostumei, tiro de letra. Tive essa oportunidade, fiz inúmeros trabalhos, conheci pessoas legais, estou mais tranquila, mas sempre pinta trabalho. Fico triste com as meninas travestis que estão começando agora. É muito mais complicado.

O que pensa sobre a exposição da modelo transexual Lea T?
Acho que ela ajuda a quebrar estigmas, é positiva esta fama, mas não a considero um furacão como a Gisele. Para mim, ela tem uma beleza normal, nada tão espetacular. Conheço outras trans maravilhosas que poderiam dar muito certo como modelo. Mas elas mandam books para agências, mas quando falam que são travestis... A Lea T deu sorte de ter um empurrão de outra pessoa lá de fora.

Você também já tentou entrar em uma agência de modelos?
Antes de aparecer na mídia, fui a uma agência e um cara falou: “na minha agência tem muita garotinha, menor de idade. Então, apesar de você ser linda, você é travesti e os pais não vão gostar”. Eu não entendo, mas tudo bem. Fora daqui é diferente. Em Roma, por exemplo, tive um trabalho maravilhoso. Estava na rua e uma menina me chamou, falou que precisava de uma modelo como eu. Falei que era travesti e eles não se importaram. Fiz umas fotos de biquíni e foi maravilhoso. Acho que quebro um pouco o preconceito com minha presença, por ser simpática e saber respeitar a todos.

Prefere passarela ou fotos?
Gosto bastante de foto, pois sou bastante fotogênica. Para passarela, consideram meu corpo mais parecido com o de miss. Também sou alta, tenho 1.80m, cintura fina, gostosona. Não desisti de passarela, não. Qualquer trabalho que pintar neste sentido, eu vou com tudo.

Em sua opinião, Roberta Close ainda é a trans que teve mais importância no Brasil?
Com certeza. Quando ela estourou, eu era criancinha e peguei uma grande parte deste estouro. Até hoje não surgiu um furacão como a Roberta Close. Para mim ela é uma diva, maravilhosa e desbancava qualquer mulher da época. Hoje, muita gente me compara a ela, inclusive várias amigas dela. Falam: “vocês são diferentes fisicamente, mas tem aquela mesma coisa de chegar e parar o ambiente”.



Você disse que o preconceito é veiculado à inveja. Por ser uma travesti muito bonita, você sofre muito preconceito?
Sofri inveja de algumas mulheres. Às vezes estou em uma loja e uma mulher chega com o marido, dá um olhar de inveja, depois começa a rir... Hoje, mesmo, uma mulher passou por mim com o namorado e ficou querendo alfinetar: “não é mulher, é travesti”. Então eu vejo que não é pelo preconceito por ser travesti, é mais pela inveja por eu ser bonita. Mas entre as modelos, não sofro. A Isabeli Fontana e outras modelos que estiveram comigo nem tem por que ter inveja. Aliás, a Isabeli é chiquérrima, linda, uma fofa!

Você foi Miss Brasil Transex 2002, Miss T-Girl World 2004, Miss Universo Trans 2005 e ainda hoje é considerada a travesti mais bonita do Brasil. O que estes títulos representam para você?
Sempre uma vitória a mais. Nasci um menino, com corpo de menino e espírito de mulher. E hoje sou vista como uma figura totalmente feminina e admirada por isso. Me sinto realizada por minha família ver o que sou, chegar à casa da minha mãe e ver inúmeros troféus, faixas. Não é aquela coisa de vaidade, é mais uma questão de vitória. Eu consegui, consegui meu espaço. É maravilhoso.

Existe alguma mulher que você se inspira?
Sempre achei a Luiza Brunet maravilhosa, principalmente quando eu era novinha. Mas hoje em dia acho que a Deborah Secco é a grande inspiração. Gosto do trabalho, também conheci ela pessoalmente, acho linda. Eu queria ser uma Déborah Secco travesti (risos). Tanto pela oportunidade de trabalho, quanto pela beleza.

Para você, tudo bem ser identificada como travesti? Ou você gostaria de ser vista como mais uma bela mulher?
O que me incomoda não é ser conhecida como travesti, são os trabalhos. Quando me chamam para fazer uma ponta em uma série, em uma novela, é sempre para fazer a travesti. Não tenho problema em ser reconhecida como travesti, até porque eu sei que sou uma, sou bem amada, já tive inúmeros namorados maravilhosos. Mas gostaria de fazer outros papéis, outras participações, até porque tenho estrutura para isso. Já fiz teatro, televisão, e poderia fazer uma mulher, por exemplo.

Qual é o seu maior sonho?
Acho que já realizei a maioria dos meus sonhos. Adoraria encontrar o meu príncipe encantado e viver feliz. Profissionalmente, gostaria de fazer mais novelas, mais séries, desfiles. Se as pessoas abrissem a mente, tudo seria mais legal. Não que eu me ache muita coisa, mas as pessoas gostam daquilo que foge do convencional. E eu tenho exatamente isso.

Do Virgula - Via Bol












































Patricia nasceu há 25 anos, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro, em uma família de classe média-baixa. Ao ver aquela criança tão morena e forte, os pais decidiram dar a ela um nome nobre: Felipe. E foi Felipe que, aos 12 anos, entendeu que gostava mais de meninos do que de meninas. Tudo ficou claro quando André, colega de classe na escola pública, pediu um beijo e Felipe não viu nisso um problema. Nascia o rascunho de Patricia.

Felipe cresceu um garoto extremamente feminino. No colégio e na rua, seus gestos e atitudes fora dos padrões chamavam mais a atenção dos meninos do que das meninas. A orientadora da escola, intrigada com o que não conseguia catalogar como comportamento humano com registro prévio, vivia convocando Patricia para conversar: queria entender quem era aquela criança. 'Eu tinha medo de confessar meu segredo, mas achei que a intenção dela era apenas me ajudar.' Assim, aos 13, amaciado pela orientadora, confessou sua predileção por rapazes. Resultado: acabou expulso da escola por comportamento inadequado. Estava na sétima série. 'Foi um trauma, a maior discriminação por que já passei', diz.

Ainda ferido, mas decidido a sair pelo mundo sendo quem era, foi conversar com os pais. 'Disse que me enxergava como uma mulher, que não me via como homem e que sentia atração por meninos.' Os pais -Severino, segurança, e Terezinha, dona-de-casa -, ambos evangélicos, ficaram assustados e sem saber o que dizer. Mas a reação fortemente negativa do irmão mais velho fez com que Severino encontrasse a resposta. 'Meu pai calou a boca dele num segundo, dizendo que eu era filho dele e que, independente de minhas preferências sexuais, ele me apoiaria.'

Assim, aos 13 anos, Felipe começou a se vestir de forma mais feminina e a encarar o mundo com os olhos de uma mulher. Nessa época, conheceu um travesti que morava perto de sua casa e que deu a dica: 'Se você tomar pílulas anticoncepcionais, compostas de hormônios femininos, vai se transformar ainda mais'. Como nunca teve muito pêlo no corpo, nem gogó, e era dono de feições delicadas, a transformação foi rapidamente notada. Os pais, seguindo à risca o 'não julgarás', nada diziam, apenas observavam. Nessa toada, não é de espantar que, aos 15 anos, Felipe tenha virado alvo de fofocas no bairro. Era conhecido como o travesti da rua, vítima de chacotas. Não foi uma época fácil, suportada apenas por causa do apoio da família. E, mesmo assim, não por muito tempo. Na primeira oportunidade, Felipe, a cada dia mais Patricia e a cada dia mais precoce na aparência, foi embora dali: durante um passeio que fez com amigas a São Paulo, conheceu um rapaz e começou a namorar.

'Ele era paulista, uns 30 e tantos anos, dono de uma rede de concessionárias de carros. Era hétero e, mesmo sabendo que eu era uma mulher presa a um corpo masculino, me levou para São Paulo.' Antes de casarem, namoraram por alguns meses, e o empresário freqüentou com status de namorado a casa da família na Ilha do Governador. Morando em São Paulo, levando vida de casada, assumiu Patricia de vez. Patrocinada pelo parceiro, fez suas duas cirurgias plásticas: nariz e silicone nos seios. Viveu vida de dona-de-casa. Tudo parecia perfeito. Mas, depois de quase quatro anos, o relacionamento acabou porque o empresário começou a ter crises de possessividade.

Patricia voltou para a Ilha do Governador- agora, mais do que nunca, uma mulher. Ali, fez supletivo e concluiu o ensino médio. Mas rapidamente sacou que, como travesti, não encontraria espaço no mercado tradicional de trabalho (algumas tentativas frustradas como modelo a desanimaram). 'O mundo não está preparado para incorporar o travesti ao mercado de trabalho. A prostituição acaba sendo, além de um negócio viável e rentável, nossa única alternativa.' Triste e desapontada, e ainda dividida entre a idéia de tentar uma carreira convencional e vender o corpo, encarou a segunda opção. Depois de alguns meses, juntou um dinheiro e, aos 18 anos, foi para a Itália, a disneylândia do turismo sexual da categoria, fazer negócios longe de casa.

Em terra estrangeira, o dinheiro vinha fácil, mas não gostou do tratamento das colegas. 'É um submundo podre e triste. Como todas já sofreram muito, encaram a vida de um jeito duro e predatório. Penei para me adequar, até porque minha história de vida não carrega muitos sofrimentos. E nunca deixei ninguém me dominar: nunca me meti em encrencas, nunca apanhei, nunca deparei com clientes agressivos. Perto do que vejo nas ruas, sou uma privilegiada.'

Depois de um ano, voltou ao Brasil trazendo na bagagem a experiência da vida clandestina. 'Não é prazeroso fazer parte de um grupo marginal. Ninguém que se prostitui é totalmente feliz', diz. 'Olha, a prostituição é como uma droga, um vício, algo que absorve toda a sua energia e te faz escrava. Pode acabar com você. Mas criei um escudo que separa meu corpo da alma. O que vendo é meu corpo, nunca minha alma. E isso liberta.' Ainda assim, confessa que quer parar. 'É meu sonho, assim que fizer um pé-de-meia bom. Chego lá!', diz isso e ri. Mas a alegria contagiantemente carioca camufla algumas angústias, que ela vai revelando aos poucos. 'A minha maior aflição é saber que represento sexo. Ninguém me pergunta se eu li tal livro, ninguém quer bater papo ou ir ao cinema. Sou sinônimo de sexo e isso me deixa carente por um tipo de amor que não esteja vinculado a sexo ou a dinheiro.' Quando percebe que o papo está ficando cinza, dá a guinada: 'Por isso, se alguém me leva para tomar uma água de coco na praia e passeia pelo calçadão comigo, leva também meu coração', ri, debochada.

Patricia mora com os pais. Uma casa simples, mas ampla, freqüentada pelos irmãos e pelos sobrinhos que ela adora. O apartamento em que estamos é o privé onde recebe seus clientes -alguns, empresários importantes no cenário nacional; outros, caras famosos. Um 'programa' com Patricia vale R$ 500, e ela faz mais de três por noite. Os homens que a visitam, todos autoproclamados héteros, são casados e compartilham de um mesmo desejo: de que Patricia seja a ativa da ocasião. É por isso que o travesti precisa ter um membro que funcione. 'Esses homens querem ter a ilusão de que estão transando com uma mulher, mas é pelo pênis que se interessam. Alguns chegam aqui tão excitados que, às vezes, demoram mais para tirar a roupa do que para gozar.' Porque a sexualidade humana é uma coisa cheia de camadas e subcamadas, nunca faltará companhia a Patricia. 'Mas não me iludo. Quem entra aqui não quer conhecer Patricia. Quer realizar taras. O homem é um chimpanzé insaciável e a grande contradição é que fomos criados para acreditar que nosso intelecto pode superar nossos instintos. Só que não supera, vou te contar.' Mesmo assim, diz que a vida clandestina e marginal pode acabar sendo romântica. 'Outro dia, ganhei flores.'

Patricia é um ser humano difícil de ser classificado por nossa míope capacidade de compreensão. Se apaixona como mulher, mas faz amor como um homem. Transita livremente entre os dois gêneros e, por isso, se permite analisar tanto um quanto o outro. 'Tem mulher que se fantasia de enfermeira para agradar o cara. Ah, se elas soubessem que muitos desejam ardentemente aquilo que elas não têm', suspira, poderosa. 'Sabe, me sinto mais desejada do que várias delas. Os homens que vêm aqui são casados, têm filhos, se dizem héteros, mas morrem de tesão por mim e pelo que posso oferecer. Querem se sentir dominados, querem ser penetrados. O travesti mexe com a cabeça masculina de um jeito forte. Não falo da boca pra fora. Este apartamento poderia ser usado como laboratório da sexualidade.'

Trecho da Reportagem da Revista Marie Clarie

2 comentários:

Anônimo disse...

Amo a Patrícia Araújo há muito tempo....o primeiro fetiche que tive foi com a "professorinha Joyce" (que tive o prazer de conhecer pessoalmente em Fortaleza). Na época mesmo com minha namorada (que conhecia minha tara por travestis) não resisti e parei pra cumprimentar a Joyce. Patrícia ém uito mais. É perfeita, divina! T Power!

Manoel Messias Pereira disse...

Patricia o meu desejo é que tenha um excelente ano de 2014, e que toda a felicidade do Natal, permaneça neste seu coração, pelo ano vindouro.E que a Paz estejas contigo.Beijos

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