Uma Crossdresser Gordinha Complicada e Imperfeita

“Shemale”, um Gênero que veio para ficar


“Shemale”, um Gênero que veio para ficar

Revista Brazil 141


Um corpo escultural, curvas estonteantes, cabelos, unhas, mãos e pés bem tratados, bundinha redonda e empinadinha, seios maravilhosos... saborosíssimos!

Sensualidade sem precedentes...

...São tantas qualidades femininas, que nem parece que a referência é para nasceram como homens... e hoje são o quê? A lagarta vira borboleta depois da metamorfose. E shemale, que ao pé da letra significa – masculino? O que seria?

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Mas não existe borboleta macho-fêmea, ou é macho, ou é fêmea. E shemale? É um indivíduo híbrido? Não! Então é um ser que tem os dois sexos e usa aquele que lhe for mais conveniente em determinado momento? Sim, só que não tem boceta, usa o cu para satisfazer os homens. Então é homossexual! Pode ser! Tem pênis? Sim! E dos grandes, geralmente! Então é hetero e bissexual? É também! Então é Cassim e Cassado!

Ainda há pouca informação sobre gênero shemale especificamente. O que se encontra aos montes, são filmes pornô onde as atrizes estão claramente caracterizadas como fêmea-macho, ou Cela - ele, pois com calcinha, parece mulher, sem calcinha, as shemale exibem um cacete, quase sempre avantajado.

Ao contrário das drag queens, por exemplo, uma shemale não tem a cara excessivamente pintada. Elas vivem, em geral, da prostituição ou da atuação nos filmes pornográficos. Mas isso não é regra, há quem apenas queira realizar e satisfazer um desejo pessoal, simplesmente.



É um novo gênero de homossexuais que não dispensaram o cacete, nem tentaram diminuí-lo, ou escondê-lo, muito menos extraí-lo cirurgicamente, pelo contrário, como os homens, as shemales preservam e até idolatram o membro viril, e o exibem com orgulho. Assim podem ser aceitas no mercado pornográfico e na prostituição. Já do lado pessoal, poderão proporcionar prazer e realizar fantasias aos homens e mulheres, que querem transar com uma fêmea que tem pau.

São os assumidos que tiveram a oportunidade de transformarem-se em mulher, mas não cem por cento. A intervenção cirúrgica ocorre em todo o corpo com implante de silicone - nos seios, na face na boca e na bunda - e os tratamentos de beleza, somados aos hormônios, deixaram-nas com aspectos femininos, quase que na totalidade.

É mais ou menos o que os travestis faziam antigamente, mas com uma diferença, a shemale fica com o cacete original. Muitos travestis faziam algum tipo de tratamento para atrofiar o pênis. A opção de ficar com o pinto, mantendo o seu tamanho e características originais, vem se tornando cada vez mais comum hoje em dia e gerando dúvidas com relação a identidade da shemale - quem olha diz: é mulher! É como ocorria com os travestis, só que com estes, a transformação era completa em alguns casos com cirurgia de transgenitação. Caso da Roberta Close, por exemplo.



Mas será uma opção para realizar suas próprias fantasias, ou será uma escolha profissional 3 haja vista que, na industria pornográfica, as shemales vem ganhado cada vez mais espaço.

Muitas transgêneros acabam entrando no mercado de filmes pornô e na prostituição em virtude do preconceito e do estigma atribuído pela sociedade, que não lhes abre as portas, pela incompreensão à sua condição, e os marginaliza esquecendo que eles têm as mesmas necessidades sociais dos outros cidadãos.

A identidade de gênero é interpretada na sociologia quanto a identificação pessoal - se indivíduo se identifica como sendo um homem, ou uma mulher, ou se o mesmo se vê como fora dos padrões.

Há provavelmente tantas formas e complexidades de identidades sexuais e identidades de gênero como há seres humanos, e há a mesma quantidade de formas de trabalhar as identidades de gênero no cotidiano. Muitas vezes, o elo entre identidade de gênero e papel social de gênero não é claro.


Talvez isso seja pelo fato da condição de identidadeD, pois algumas shemales querem ser mulheres e se dizem exclusivamente femininas, não masculinas, independente da orientação sexual. Cada uma faz a sua escolha no âmbito da sexualidade e satisfaz tanto o homem, quanto a mulher. Apesar de muitas delas afirmarem que não gostam do sexo com mulheres.

Porém, uma shemale tem condições de fazer o papel heterossexual, caso queira, podendo realizar os fetiches femininos. Já no papel de homossexuais, CelasD realizam também os fetiches masculinos - como os travestis, que aliás, eram originalmente, pessoas que se vestiam com roupas do sexo oposto e se apresentavam em shows e espetáculos. Mais tarde, essa prática também passou a fazer parte do comportamento das drag queens e transformistas.

Por sinal, a palavra travesti já está muito batida, pois se liga à prática da prostituição, com forte apelo erótico e fetichista. Muitos travestis não gostam de ser chamados assim. Agora, a palavra vem sendo substituída por transgêneros o CTD do GLBT - pelas entidades de defesa dos Direitos Humanos, que enxergam esse neologismo como uma idéia politicamente correta de uma pessoa que está entre os gêneros, não sendo nem macho nem fêmea, tampouco, tendo que viver necessariamente da prostituição.

Pode se entender que shemale e travesti, são transgêneros, que se referem, principalmente, às pessoas que apresentam suas identidades de gênero oposta ao sexo designado no nascimento, mas que não pretendem se submeter à cirurgia de redesignação sexual - CRS.



Travestilidade, enquanto transgeneridade, é uma condição identitária e não uma orientação sexual. Portanto, as pessoas que se autodenominam travestis e shemales, podem se identificar como homossexuais, heterossexuais, bissexuais ou assexuais.

Mas as shemales enfrentam diversos problemas sociais por terem feito essa opção sexual, pois isso não segue os parâmetros sexualmente sadios. As shemales querem ser vistas pela sociedade como pessoas corretas, que fizeram sua escolha entre os gêneros. Sem uma designação macho ou fêmea, homem ou mulher. É como se fosse os dois, ou individualmente, ou ao mesmo tempo. É uma luta que está sendo travada pela comunidade de travestis e shemales, pois como qualquer outro indivíduo, os shemales têm direitos e deveres perante a sociedade e, acima de tudo, tem sentimentos também.

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Mas venhamos e convenhamos, independente de qualquer coisa, as shemales são um show de sensualidade, pois aparecem inteiramente depiladas, com cabelos alongados, unhas feitas e pintadas, sobrancelhas aparadas, seios lindos - apesar de serem próteses de silicone 3 e contornos maravilhosos, que deixam muita mulher no chinelo.

Aos poucos, a revolução sexual atinge um maior número de pessoas. O caminho está sendo trilhado e os preconceitos deixados de lado. O que era bizzarro antigamente, hoje é normal. Pioneiros aqueles que enfrentam os obstáculos, sem medos, nem vergonha de chegar onde pretendiam. Essas pessoas - ao contrário do que muita gente pensa - têm a cabeça feita, feita para ser feliz! Como dizem os estudiosos em biologia e sociologia: O sexo entre as orelhas é mais importante que o sexo entre as pernas.
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Adoção: Justiça amapaense concede o direito de ser mãe à transexual

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Reconhecer uma transexual não só como cidadã plena de direitos, mas especialmente, como mãe, foi o que a justiça amapaense fez ao conceder, no dia 26 de junho, a custódia de uma menina de nove meses à comerciante Verônica Oliveira de Moraes. O juiz auxiliar Luiz Nazareno Borges Hausseler, da Vara da Infância e Juventude da Comarca de Santana, foi o responsável pela sentença.

Para chegar a esta decisão, o magistrado declarou que a condição de transexual de Verônica – que nasceu homem, mas que psicologicamente tem certeza de ser mulher - não compromete o desejo de ser mãe e cuidar da criança como se fosse filha. “Para efeitos legais, Verônica é uma mulher. Além do mais, ela vem demonstrando zelo e responsabilidade no lidar diário com a infante. Ademais, não restou evidenciado qualquer impedimento legal”, ressaltou.

Hausseler se baseou na investigação feita por psicólogos e assistentes sociais que declararam que a transexual estava cuidando bem da criança. De acordo com o juiz, a orientação afetivo-sexual de uma pessoa ou a sua transgeneridade, por si só, não acarretam desvios comportamentais que a inabilite ao pleno e responsável exercício da paternidade ou maternidade.

Verônica Oliveira ajuizou o pedido de adoção requerendo liminarmente a guarda provisória da criança em outubro de 2007, quando a mesma lhe foi entregue com poucos dias de vida por uma amiga. A falta de condições financeiras foi o motivo alegado pela mãe biológica – que é garçonete e tem outros três filhos - para entregar a menina a adoção.

Na época, a transexual estava casada e o pedido de adoção foi feito em conjunto com seu companheiro. No decorrer do processo, Verônica se separou e o nome do então marido foi retirado dos autos. Mesmo solteira, a comerciante prosseguiu com o pedido e a nova condição civil também não se constituiu empecilho para a ação. A guarda provisória foi autorizada pela juíza Ana Lúcia Bezerra, titular da Vara da Infância e Juventude de Santana.

Na sentença que estabeleceu a guarda definitiva, o juiz Hausseler esclareceu que “não há registro de nenhuma conduta atentatória à dignidade da criança. Pelo contrário, tanto o estudo social juntado nos autos do processo, como os depoimentos testemunhais e as informações apresentadas pela própria mãe biológica da criança dão conta de que esta foi acolhida e é muito bem tratada no lar substituto”.

A Promotoria da Infância e Juventude de Santana, por sua vez, manifestou-se favorável ao pedido de adoção, enfatizando em seu parecer, que a condição de transexual da autora, não constitui nenhum impedimento, sob pena de violação do princípio da dignidade da pessoa humana, previsto na Constituição.

Para o promotor Paulo Celso Ramos, que acompanhou o caso, a sociedade está evoluindo e os conceitos estão mudando. “Hoje, os nossos tribunais estão progredindo no sentido de permitir a adoção independentemente da opção sexual, um exemplo disso é a Justiça do Rio Grande do Sul que já permite a adoção nas relações homo-afetivas”, explicou.

Segundo o promotor, nos casos de adoção, em primeiro lugar está o bem estar da criança. “Se for constatado que ela será bem tratada, terá afeto, amor e segurança, isso é o que determina uma decisão favorável da justiça. A escolha da religião, da opção sexual é uma liberdade que a Constituição prevê, então temos que respeitar”, declarou.

Esta não foi a primeira vez que o juiz Hausseler julga processos desta natureza. Decisão semelhante ao caso de Verônica Oliveira já foi proferida anteriormente pelo magistrado, que foi favorável ao pedido de adoção por parte de um homossexual, processo esse, que tramitou na justiça da Comarca de Tartaurgalzinho. “Não permitir que um casal homossexual ou transgênero integre a fila de pretendentes ou esteja com a guarda provisória de um menor é flagrante desrespeito aos princípios constitucionais da igualdade e do respeito à dignidade humana”, concluiu o juiz.

De: Justiça do Estado do Amapá
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Procure entender os 10 “D” da transgeneridade

CRISES PESSOAIS: OS 10 "D" DA TRANSGENERIDADE

Por Letícia Lanz - www.leticialanz. org


Crises pessoais são inevitáveis na vida de qualquer pessoa que se aventura mais fundo na descoberta de si mesma e aceitar-se como transgênero é a crise mais profunda que um homem pode experimentar.

Todo mundo sabe que, uma vez "aceso o sinal" da transgeneridade, ele jamais se apaga. O desejo de se travestir pode variar em intensidade e freqüência, mas não desaparece. Quando eu pensava que jamais voltaria a pensar em me travestir, depois de uma purge que já durava mais de quinze anos, redescobri o desejo depois de um trauma existencial grave. Traumas normalmente "remexem" todas as camadas de "lixo" existencial acumulado, assim como um terremoto remexe as camadas do solo. E tudo que estava aparenetemente acomodado, volta à superfície, torna-se "ferida exposta", exigindo cuidado e atenção.



É preciso entender que, na maioria absoluta dos casos, o desejo de se travestir é um fenômeno psicossocial extremamente complexo e de repercussões extremamente graves e profundas na vida de uma pessoa. Aquelas pessoas que estão sendo movidas pelo desejo de se tornarem, ainda que temporariamente, membros do gênero oposto, estão experimentando o que chamamos de “processo disfórico”, isto é, um sentimento de inadequação em relação a si mesmo, que pode variar de uma simples insatisfação com a própria aparência (masculina) até uma insatisfação profunda com a própria genitália. Em qualquer grau de intensidade, a disforia pode produzir níveis de sofrimento psíquico quase insuportáveis.

Um aviso que sempre dou às pessoas que repentinamente “se descobrem” transgêneras: CUIDADO COM O QUE COMEÇAM E COMO COMEÇAM pois, se você não tem idéia clara do terreno onde está pisando, inevitavelmente, os tombos vão se tornar muito mais freqüentes dos que as pingas...

Longe se ser apenas um “vício de caráter” ou uma leviandade, como muitas pessoas ainda consideram, o travestismo contém uma tremenda carga de energia vital, uma carga tão forte que, se mal administrada, PODE FACILMENTE DESTRUIR A VIDA PESSOAL (física e mental) E SOCIAL DE QUALQUER PESSOA!!! Os suicídios entre transgêneros ocorrem num percentual muitos pontos acima da média de ocorrência na população cisgênera.

O problema é que a maioria começa a lidar com o seu travestismo num total oba-oba, olhando apenas para as “pingas”, para a sedução maravilhosa que pode exercer num homem a figura feminina, em todos os sentidos. A maioria se traveste como se isso fosse tão somente um simples e delicioso passatempo, fazendo questão absoluta de desconhecer a quantidade absurdamente alta de "energia vital" concentrada nesse desejo. Porém, mais cedo ou mais tarde, vão ter que descobrir o “lado sinistro” da força descomunal que é a transgeneridade.

Procure entender os 10 “D” da transgeneridade:

Descoberta

Descompressão

Deslumbramento

Decepção

Depressão

Desespero

Desmistificação

Depuração

Definição e Decisão

Desenvolvimento

1 – Descoberta

Para muitas de nós, ocorre ainda na primeira infância, quando as roupas, objetos, brinquedos, passatempos e posturas do universo feminino começam a exercer sobre nós uma atração invulgar para a nossa condição de meninos. É quando a gente começa a se sentir dividida entre as demandas sociais que nos são impostas pela nossa condição de homens e as demandas do nosso corpo e da nossa psiquê. Esse também é um conflito que para a maioria jamais será nem ao menos equacionado, quanto mais superado.

Já na fase adulta, a descoberta em geral se manifesta através de uma curiosidade intensa pela vida de homens que conseguiram cruzar a barreira da masculinidade e ingressar no universo feminino. Crossdressers e Travestis assumidos, assim como Transexuais, exercem um desmedido fascínio nas pessoas transgêneras. E não se trata do mesmo fascínio que, pela sua ambigüidade, exercem sobre o público masculino em geral. Trata-se da vontade de íntima da gente se tornar um deles.

A descoberta é dura, sob todos os aspectos e sob todos os pontos de vista. Por isso mesmo, muitos transgêneros “desistem” daqui mesmo, antes de tentarem qualquer outro passo, recalcando o impulso transgênero para as profundezas do inconsciente.

Muito poucos se deixam levar pelo impulso ainda na infância, assumindo abertamente seu desejo pelo universo feminino e vivendo, ainda muito cedo, todos os numerosos conflitos dessa “inclinação”.

Mais alguns poucos se rendem, em algum momento de suas vidas, e baixam as espetaculares “defesas” que constroem para protege-los dessa inexplicável motivação em querer vestir-se e/ou comportar-se como mulher, sendo homem.

A maioria, entretanto, passará toda a sua existência mantendo essa motivação duramente recalcada, sem se permitir jamais trazê-la à tona.

2) Descompressão

Quando a pessoa se rende à descoberta da sua transgeneridade, invariavelmente sua primeira ação é vestir-se como mulher e olhar-se no espelho. Muitas se masturbam, ao se verem numa condição em que sempre desejaram secretamente estar, produzindo orgasmos da maior intensidade.

Embora quase todos os homens tenham, vez por outra, uma eventual curiosidade a respeito de como seria vestir-se e portar-se como mulher, na fase de descompressão o transgênero começa a fazer isso como um ritual, de maneira quase compulsiva. Ele passa a associar o estar como mulher a um estado de intenso prazer existencial, que não se esgota no simples orgasmo. Começa a sentir um desejo de continuidade desse estado e de repetição, que pode evoluir para um desejo intenso de permanência.


O transgênero verdadeiro não se contenta com a “visão do espelho”. Seu travestismo não tem o caráter puramente fetichista que pode ter para um homem qualquer ao se ver no “espelho do armário”, travestido de mulher. Ele quer, necessita, deseja ardentemente ir além do espaço do armário. Precisa apresentar-se como mulher ao mundo e quer que o mundo o reconheça como tal.


Portanto, um desdobramento natural da fase de descompressão é a saída do transgênero para o mundo. Para um transgênero, a sensação de sair “montada” às ruas, “com todo mundo te olhando” (ainda que, na verdade, ninguém esteja nem aí pra você...) é uma das coisas mais recompensadoras e fascinantes na vida. Como constam de todos os depoimentos de quem sai pela primeira vez, não há como descrever a sensação sentida, assim como vale todos os preços e sacrifícios pagos.

Pode-se avaliar a dor imensa de uma pessoa, verdadeiramente transgênera, “prendendo” esse desejo indefinidamente, em nome da manutenção de uma fachada social aceitável. A energia bloqueada, mais cedo ou mais tarde, vai se manifestar, na forma de um câncer ou de um surto psíquico.

3) Deslumbramento

É a fase que segue à saída do armário, quando tudo parece flores e a sensação de profundo bem-estar parece que não vai se esgotar nunca, ainda que a saída ocorra em caráter eventual e furtivo.

Aqui existe uma outra distinção radical entre o impulso eventual de qualquer homem em se vestir como mulher e o desejo profundo de um homem transgênero em ser/estar mulher.

As “deslumbradas”, adjetivo comumente dado às meninas recentemente saídas do armário, deleitam-se com tudo que vêm, com tudo que vivem pela primeira vez. Por falta de direcionamento, de saber realmente quem são e o que estão vivendo, a maioria se deixa levar pelo prazer intenso, misturando, inclusive, satisfação sexual e transgeneridade, como se fossem uma coisa só.

Baladas, saídas, encontros, fotinhos e comprinhas se tornam o centro da vida. Não se pensa em mais nada do que na maravilhosa sensação de se ter as pernas e as axilas depiladas ou na roupa maravilhosa que vamos usar na próxima saída...

A maioria exagera mais do que pode na fase do “deslumbramento”. Como diz o ditado, “quem nunca comeu melado...”

Em geral, o “deslumbramento” leva o crossdresser a sentir-se “poderosa” demais - e totalmente invulnerável. Pouca cuidam para viver a fase de deslumbramento com algum planejamento e organização. Assim, vão deixando rastros e pelos-na-cerca”, dezenas de “pequenos problemas” que, a médio prazo, poderão se transformar em infernos de Dante. A maioria, em pleno deslumbramento, mantém sua prática em segredo, na convicção de que, se fizerem “tudo direitinho”, nunca a mulher, a namorada, a esposa, a família ou os amigos notarão “nada de diferente”... O problema é que, praticando crossdressing, não há como fazer tudo direitinho sem deixar vestígio...

O deslumbramento pode durar muito tempo ou acabar-se rapidamente. Como pode fazer a crossdresser querer estender ao máximo a sua duração, recorrendo ao uso de estimulantes, álcool e até drogas mais pesadas. Em pleno oba-oba, vale tudo, até sexo inseguro e uso indiscriminado de hormônios.

4) Decepção

O fim inevitável de todo deslumbramento é a decepção ou “desgosto” que surge das mais diversas fontes e nos momentos mais insuspeitos. A decepção é um “choque de realidade” na grande fantasia de ser mulher de um homem transgênero.

Invariavelmente, uma dessas fontes é o espelho. Paradoxalmente, a imagem projetada e as fotos, que foram grandes fontes de satisfação na fase de deslumbramento, transformam- se, de uma hora para outra, em carrascos implacáveis. A gente se olha no espelho e não encontra mais aquela antiga satisfação de se ver “vestida de mulher”. Não há mais aquela incrível sensação de bem-estar que havia no início da fase de deslumbramento, em que uma simples “saia com blusinha”, um tamanquinho de madeira, e um batom, comprados na C&A, eram capazes de fazer a festa.
Na verdade, a fonte dessa decepção não é o espelho ou as fotos, mas o “olhar crítico” da “mulher interior”, representante implacável do ideal de mulher que cada homem tem dentro de si e que o transgênero é inexplicavelmente compelido a vivenciar “na própria pele”:
- como me falta cintura!

- onde estão os meus seios?

- essas sombrancelhas. ..

- como minhas pernas são musculosas!
- e esse “cinza” que ficou sob a maquiagem? Que vergonha!
- pra que tanto ombro!

- olha só os meus lábios... fininhos...

- e essas “ruguinhas”?...

É essa decepção com o próprio corpo, e a tentativa de manter o deslumbramento em alta, que leva, quase sempre, à intensificação da compra de roupas, calçados e adereços, à realização de laser e/ou ao uso ou à intensificação do uso de hormônios, vistos como solução milagrosa para todos os nossos “aspectos faltantes” de mulher. No caso dos hormônios, a maioria se vale de contraceptivos e anti-androgênicos (remédios anti-masculinizante s) “receitados” em algum site da internet ou aprendidos de alguma outra “menina veterana”. E as conseqüências desse uso inadvertido podem resultar em decepção ainda mais dramática.

A decepção também costuma ser provocada por uma casual descoberta, por terceiros, da nossa condição de travestista. Nessa hora, todo o castelo de ilusões vem abaixo, com muito choro e ranger de dentes. A decepção é ainda maior se há uma esposa ou namorada ou parente ou colega desumano e incompreensivo, disposto a transformar o evento num grande “rebu”.

Depois de uma descoberta indesejada, muita gente costuma voltar para a vida no armário, num processo de recolhimento voluntário que chamamos de “purge” - ou purgamento. “Purges” acabam resultando em “Urges”, com novas fases de deslumbramento e decepção, num processo interminável de convivência nada saudável com a própria transgeneridade.

Mas as que enfrentam as decepções de peito aberto também não ficam, pelo menos no princípio, em melhores condições do que aquelas que voltam espavoridas para a segurança dos seus armários. Diante da decepção,Tanto voltar para o armário quanto seguir adiante causa muita depressão.

5) Depressão

Depressão é o sofrimento provocado uma aguda sensação de impotência e menos-valia. Num quadro depressivo, a pessoa se sente um lixo, totalmente incapaz e, pior ainda, indesejosa, de lidar com suas próprias dificuldades e limitações.

Os que voltam para o armário, recebem a depressão de modo totalmente conformado, como o preço pago para recuperar a segurança e não seguir adiante, enfrentando potencialmente decepções ainda maiores

Para os transgêneros que compreendem o estado de depressão como uma fase a ser vencida, serão impostos uma série de desafios, muitos dos quais a pessoa está totalmente despreparada para enfrentar. É nesse momento que muitas pessoas transgêneras procuram ajuda médica e/ou psicoterápica. Poucas, entretanto, conseguem encontrar a ajuda adequada de que realmente necessitam, seja pela dificuldade de se abrirem com o médico ou terapeuta a respeito da sua condição, seja pela total inépcia da maior parte dos profissionais de saúde (física e mental) em lidar com a condição transgênera, por total desconhecimento do que esse fenômeno realmente é e representa na vida de uma pessoa.

A verdade é que a saída da depressão, para os que desejam seguir adiante (e sair do círculo vicioso de “urges” e “purges” é uma fase ainda mais terrível.

6) Desespero



Todas que resolvem seguir adiante, a despeito da depressão, têm que passar pelo “inferno astral” de toda pessoa transgênera que eu chamo aqui de “desespero”.

O desespero é um momento em que vemos tudo ruir à nossa volta. Nossas antigas crenças e valores já não nos servem mais e ainda não temos idéia nítida do que realmente somos ou poderemos vir-a-ser..

É uma fase de total desestruturação, em que são muito comuns as crises existenciais agudas, os surtos momentâneos de raiva e, naturalmente, até a vontade de acabar com tudo de uma vez só.

Mesmo vivendo a fase de desespero ao lado de uma S/O inteiramente solidária e participativa, e com o apoio honesto e seguro de uma analista freudiana, minha fase de desespero foi o pior momento que já passei em toda a minha vida. Havia dias de eu não ter certeza, pela manhã, se eu ainda iria estar inteiro à noite.

7) Desmistificação

A única saída para o desespero é a desmistificação total e radical do significado da transgeneridade em nossa vida. É quando eu comecei a compreender que o processo íntimo que eu estava vivendo estava muito longe dos conceitos e rótulos, interditos culturais e proibições morais que me tinham sido impostas desde a minha mais tenra infância. Desmistificar é desmascarar, para de mentir pra gente mesmo e encarar a nossa própria verdade, a despeito de tudo que isso possa representar pra gente mesmo e para os outros. Eu sou assim e pronto! E que se danem os rótulos que me impuserem. A vida é minha e só eu posso decidir como eu quero e vou vive-la. Tenho que arcar com o peso das minhas escolhas, por mais que elas me conduzam a becos sem saída ou sejam do total desagrado das outras pessoas.

Desmistificar é enxergar a realidade sem véus de qualquer espécie. É o momento da verdade na vida de um transgênero.

8) Depuração

Uma vez desmistificado processo para mim mesmo, a aceitação dele se torna uma simples conseqüência. Não é necessário mais nenhum esforço para me mostrar aos outros do jeito que eu sou, quando eu quiser que eles me vejam assim.

Depuração é, assim, a fase de separar o “joio do trigo”: o que eu quero do que eu não quero; o que eu posso do que eu não posso; o que eu sou do que eu não sou; o que eu gosto do que eu não gosto; o que eu estou disposto a enfrentar do que eu desejo me resguardar; o risco aceitável do risco inaceitável; o que é meu e o que é do outro, etc., etc.

Feita a depuração, com a limpeza e eliminação de tudo que está “sobrando” dentro do processo, eu estou apto para dar um grande salto qualitativo na vivência da minha transgeneridade.

9) Definição e decisão

A minha grande e inspiradora amiga Jorgete del Rio conclama a toda CD em começo de viagem que procure antes de mais nada definir, com a máxima clareza possível, o que realmente pretende ao se travestir.

Definir o crossdressing é estabelecer os alvos e os limites da sua jornada.

Uma boa maneira que encontrei de fazer isso, foi utilizando a velha e boa regra de planejamento de estabelecer o “que, quando, onde e como”.
1- Que: Com que propósito você se traveste? Você quer apenas representar o papel de mulher, de vez em quando, como expressão da sua ambigüidade, ou o seu desejo vai mais longe, ao ponto de querer ser e viver como mulher em tempo integral? Você pretende ser uma “lady” ou uma “vagaba”? Seu negócio é o glamour das altas rodas ou a “pista”? Você quer “dar” ou “impressionar”?

2 – Quando: Quando você deseja se travestir? De noite? De dia? Sempre? 24h por dia, 360 dias por ano?

3 – Onde: Onde você quer se travestir? Na rua? Em casa? Só em certos locais e eventos? Quais eventos?

4 – Como: De que forma pretende se travestir? De maneira aberta e escancarada, pra todo mundo ver e saber? De modo mais do que restrito, apenas para você e o seu espelho? Abrindo o jogo inteiramente para a esposa, aceite ela ou não, ou escondendo tudo dela, indefinidamente? De modo temporário ou de modo definitivo? Usando apenas recursos superficiais de roupa e maquiagem ou empregando laser, eletrólise, hormônios e cirurgias feminilizantes?



Uma fez feitas a definição do seu crossdressing, é tomar a decisão de fazer... e fazer!

Lembre-se que muitas coisas condicionam muitas outras coisas. Se você define que quer se travestir 24h por dia e 360 dias por ano vai ser totalmente impossível guardar isso em sigilo absoluto: - tem que abrir o jogo. Da mesma forma, se você decide que quer ter seios – e quer usar hormônios para isso – vai ter que abrir o jogo com um médico basicamente confiável, como também vai ter que se conformar em ter os seios aparecendo se, simultaneamente, decidiu que não quer viver 24h/360 dias como mulher.

10) Desenvolvimento



Esta não é, de maneira nenhuma, uma fase de culminância do travestismo. Da mesma forma que jamais poderá ser vista como uma etapa totalmente isenta de problemas e dificuldades.

Basicamente, a fase de desenvolvimento do crossdressing poderia ser vista como uma permanente reedição de fases anteriores, onde há, inclusive, lugar para aquela sensação inigualável do período de deslumbramento. A única diferença é que agora existe consciência do que está sendo feito, consciência do preço a se pagar para viver o que se deseja e, sobretudo, aceitação da transgeneridade como um aspecto básico da própria personalidade.

Agora eu sei que é impossível separar o ato de me travestir do restante do meu ser: - não se tratam de dois momentos separados e em conflito um com o outro, mas de dois aspectos de um único ser que sou eu, como ser integral, de carne, osso, mente e espírito.

Aliás, é apenas esse conflito de separação, que me foi imposto pela sociedade, que motivou toda essa difícil jornada de descoberta e aceitação da pessoa que eu realmente sou.
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"Crossdressers" & "Travestis" similaridades & diferenças

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Qual é a diferença entre "Crossdressers" e "Travestís"?

Ambos gostam de vestir e usar roupas e acessórios do sexo feminino, assemelhando-se a uma Mulher ou fêmea! Alguém sabe estabelecer, a exata diferença?

Fórum do Yahoo

http://www.lancenet.com.br/resources/500298.jpg
RESPOSTA 1 - Travestis geralmente se vestem de mulher para se prostituirem. Crossdressers são homens, não necessariamente gays, que por algum motivo fantasiam com o sexo oposto se vestindo dessa maneira. Há homens casados que vão para a cama com suas esposas vestido de mulher.

http://lh3.ggpht.com/_F8l8KYFMHig/R_-9b-AUO3I/AAAAAAAAADw/zv7pFVNVf0Y/girly+crossdresser.jpg

RESPOSTA 2 - Crossdessers são homens que se vestem de mulher, alguns a maioria é homossexual ou bissexual, mas isso não é regra, já travestis são homens que se "transformam" em mulheres através de hormônios e plasticas, muitos se prostituem, mas isso também não é regra, existem travestis que levam uma vida normal, trabalham e até namoram, com homens...

Como se vê Essa é uma questão cuja resposta não tem um consenso, pois nem todos estão de acordo sobre a fronteira existente entre Crossdressers e Travestis.

Depois há que distinguir quando o Crossdresser ou Travesti é feito por um homem ou uma mulher. Sim. Também existem mulheres biológicas que se dedicam a essa prática, embora numa menor proporção. Digamos que segundo os estudos oficiais mais recentes, a cada 3 ou 4 indivíduos masculinos praticando Crossdresser ou Travesti, existe 1 indivíduo feminino. Só que as mulheres passam despercebidas, pois a sociedade em que vivemos, acha aceitável uma mulher vestir-se com roupas masculinas, embora cinicamente, não dê ao homem o mesmo direito, ou seja, homem que utilize uma peça feminina, é logo criticado e marginalizado.

Como depreendo pela sua atual pergunta e outras anteriores, que está com mais interesse, nesta questão quando praticado por homens, vou cingir-me a esse campo.

Digamos que a palavra "Travesti" tendo uma conotação muito pejorativa, obriga a que muitos dos seus elementos se digam "Crossdressers" e daí resulta ainda uma confusão maior.

Sendo uma questão que ao longo dos anos me interessou, tenho feito imensas pesquisas e algumas viagens a lugares considerados como centros nevrálgicos da existência de ambos os grupos, como por exemplo Paris, (Pigalle, Quartier Latin etc.) onde cheguei a viver, e onde pude conviver com vários Crossdressers e Travestis, quer hormonizados quer não. Com o tempo, fui percebendo através de conversas (a maioria gosta imenso de conversar, tal qual as mulheres biológicas) a sua história. E acredite, que há sempre uma história, por vezes fantástica, por detrás de cada um destes seres.

Assim, posso lhe dizer, com uma grande margem de segurança, que a semelhança entre Crossdressers e Travestis, apenas reside no fato de, tal como vc diz, ambos usarem roupas e acessórios femininos.

O Crossdresser é uma pessoa que vive uma dualidade de personalidade. Continua a gostar de ser homem, aliás tem orgulho e prazer em ser homem, embora, por vezes tenha necessidade imperiosa de se vestir de mulher, embora sem o desejar ser. Embora em alguns casos fantasie, frente ao espelho, estar a ser penetrado numa imaginária vagina.

Geralmente é casado, tem filhos e ama fazer sexo com mulheres, sendo heterossexual. Por vezes a sua fantasia, leva-o a, durante o ato sexual com a esposa ou companheira, imaginar que de repente trocou de orgão sexual com ela, e então é ele que está sendo penetrado na sua imaginária vagina e conseguem ter e dar muito prazer.

Quando a vontade de se vestir de mulher chega, (e muitas das vezes, essa vontade deve-se a traumas psicológicos que a pessoa sofreu na sua vida, a maioria na infância), utiliza roupas e adereços femininos com maior ou menor grau de esmero, consoante o grau de exigência que a sua parte psicológica lhe exige, e os seus conhecimentos da matéria.

Existem até os que fazem cursos de maquiagem, cozinha, trico, etc.
Começa com uma sandália, mais tarde já apetece juntar uma meia, meses ou semanas mais tarde, avançam para uma saia, uns brincos, até que mais tarde (e podem passar-se meses ou anos, nesta transição) já se vestem integralmente de mulher, já usam peruca e maquilhagem e já anseiam sair à rua, abandonando aquilo que se convencionou chamar de "garota de armário", numa alusão aquelas "moças" que apenas se transformam entre quatro paredes.

Depois vem a fase dolorosa de contar à esposa, pois mais cedo ou mais tarde, ela inevitavelmente vai descobrir. Aí a maioria não encontra compreensão, pois é muito difícil para uma mulher biológica, aceitar que aquele machão com quem casou, afinal gosta de, por vezes, ser mulher. Não compreendem e acham que ele virou gay. Aí, uma percentagem grande de casamentos termina em divórcio, pois elas não admitem ter "outra" em casa.

Alguns Crossdressers, muito poucos, têm a felicidade de encontrarem nas companheiras aprovação para a sua fantasia. Essas esposas, segundo relato das próprias, além de não perderem o marido, ainda ganham uma amiga e companheira de compras. Podem ter conversas sobre vestidos e culinária, ou qualquer outra coisa do universo feminino, pois geralmente os maridos quando vestidos de mocinhas, costumam adorar ter essas conversas e podem dar conselhos sob a óptica feminina, mas tb sob a visão do macho. E, segundo as esposas, eles nunca mais refilam por elas terem assinaturas de várias revistas femininas. Tudo isto sem perderem o marido na cama, pois geralmente, ao acabar o "segredo", o homem fica emocionalmente mais liberto e imensamente grato à esposa pela compreensão, daí as relações sexuais melhorarem significativamente.

Tb há as que gostam imenso de ter uma ajudante ou criada, já que normalmente os Crossdressers adoram fazer faxina, ou seja, uma vez vestidos de menina, gostam de se ocupar de todas as tarefas iminentemente femininas como seja, arrumar a casa, cozinhar, lavar a roupa ou a loiça, etc.

Algumas mulheres, aceitam de tal forma o “novo marido”, que o ajudam a tornar-se cada vez mais, uma autêntica mulher, altura em que o crossdresser pode dizer que tem uma S.O.. Inclusive chegam a sair para a rua com eles vestidos de menina e irem a Cdsessions, convivendo com outros Crossdressers e suas S.O.’s. É nesta fase, que alguns Crossdressers, muitas vezes a pedido da própria esposa, vão para a cama de calcinha, soutien e cinto de ligas, pois isso excita as parceiras. Puderem ir para a cama com uma mulher, mas gozarem as delicias de ter um macho a fazer sexo com elas, é segundo dizem algumas, uma coisa espectacular.

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Quanto aos travestis, a coisa é bem diferente. Psicologicamente gostam de se sentir mulheres. Alguns, poucos, só o fazem para fins artísticos, actuando em espectáculos de cabaret's ou casas similares, mas a maioria o que gosta mesmo é de ser mulher. Podem ser ou não hormonizados, isto é, tomar hormónios. Vários fazem operações plásticas para implantação de seios artificias, nádegas (bumbum) ou maçãs do rosto, recorrendo ao silicone. Geralmente são homossexuais e procuram companheiros masculinos. Podem ser sexualmente ativos ou passivos. Alguns são bissexuais, mas a maioria tem como aspiração viver apenas como mulher, embora sem renegar o seu sexo. Outros tem a fantasia de viver com outro travesti e terem relações sexuais, ambos vestidos de mulher.

A mente humana, é uma caixinha de surpresas, e tudo depende da evolução do distúrbio emocional. Mesmo aqueles que são Crossdressers puros, não estão livres de o seu distúrbio emocional evoluir para um bissexualidade e transitarem para o grupo dos travestis, desejando inclusive pôr silicone ou tomar hormônios.


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Dentre os travestis, existem tb os que apenas querem ser 100% mulheres, e recusam-se a ter relações sexuais com homens, enquanto não tiverem vagina. Como eles dizem, "sentem-se mulheres presas dentro de um corpo masculino" e não fazem cirurgias para colocar implantes de silicone, mas sim para alterar as feições do rosto, para outras mais femininas. Mais tarde, são tb operados para mudança de sexo, após o que passam a ter uma vida de mulher, acabando na maioria das vezes por casar com um homem. Há quem diga que estas pessoas pertencem ao chamado 3.º sexo. Embora o verdadeiro nome seja “transexual”.
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Após fazerem a operação de mudança de sexo, passam de travestis a transexuais e em alguns países, como por exemplo Portugal, a lei permite-lhes que no seu bilhete de identidade passe a constar como sendo do sexo feminino, podendo inclusive mudar de nome, embora dentro de certos condicionalismos. No entanto, para que tudo isto seja possível, é necessário que a pessoa seja acompanhada pelas entidades de saúde competentes, tendo de se submeter a inúmeras consultas de psicologia e psiquiatria e viver como mulher durante um certo período de tempo, antes da operação, para que não haja dúvidas dos médicos, que é exatamente isso que a pessoa pretende, já que não há retrocesso.
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Reflexões e Desabafos - By Katia Steelman Walker: Na dominação psicológica, vou fundo. O homem tem de achar que ele não é nada e que eu sou tudo...

"Gosto de dominar os homens na cama"

Marie Claire Edição 159 - Jun/04
Lilith Dumm é o nome fantasia da funcionária de uma corretora de seguros que tem uma vida sexual pouco comum. Ela é dominadora, uma mulher que tem prazer controlando seus parceiros. Isso significa bater, mandar e humilhar. Aos 36 anos, bem resolvida com sua sexualidade, Lilith coleciona vários "submissos". E, como muitas solteiras, está à espera de um amor
"Fui criada em um vilarejo no interior do Rio Grande do Sul. Tive uma infância livre, em meio a cavalos, vacas e árvores. Era uma região de lavoura, passava um rio atrás da minha casa. Minha mãe é costureira, meu pai tinha uma mercearia ali. Os vizinhos ficavam a 1 km de casa. Para namorar, eu tinha de ir a festas na cidade vizinha. Levei muito tempo para conhecer um motel, tinha mais de 20 anos.

Não me lembro de ter sentido nenhuma frustração sexual até os 24 anos. Minha primeira vez foi aos 14 anos, num carnaval, com um menino que conheci na praia. Nada especial. Doeu muito, depois nos vimos umas três vezes, mas não rolou mais nada. Levei uns seis meses para transar de novo. Não fiquei traumatizada, mas também não achei maravilhoso. Só comecei a gostar de sexo mais tarde, depois de ter transado com outros caras.

Aos 16 anos, em uma relação casual, engravidei da minha filha, que hoje tem 19 anos. Sou a filha mais velha de três, ouvi sermão dos meus pais, mas eles acabaram me apoiando para levar a gravidez adiante.

Foi barra pesadíssima ser mãe aos 17 anos. Tive depressão pós-parto, queria ser livre como as minhas amigas. Meus irmãos eram pequenos -um tinha 3 anos; outro 5 - eu ainda ajudava a minha mãe a cuidar deles. Anos depois minhas amigas me disseram que eu me fechei muito naquela época. Também fiquei malfalada na vizinhança, percebi que eu tinha perdido a minha reputação. Achei que não precisava mais zelar por ela, então, entrei numa fase de sair com todo mundo. Enquanto fiz o sexo tradicional, que a gente encontra em qualquer esquina e é sem graça para mim, tive vários parceiros, mas nenhum relacionamento fixo. Eu achava que quantidade pesava mais do que qualidade. Não eram grandes transas, mas eu não tinha consciência da minha insatisfação.

Perto dos 20 anos, me mudei para Porto Alegre com a minha filha para trabalhar. Nessa época, o sexo convencional já não me satisfazia mais. Dos 24 aos 30 anos, até pensei que era fria, apesar de sentir desejo. Eu não tinha nenhum parceiro fixo, nenhuma paixão. Nessa fase, comecei a entrar em sites de encontro na internet. Eu, que me considerava liberada sexualmente, vi que ainda tinha muitos nós para desatar. Por exemplo: eu não tinha fantasias sexuais, não é estranho? E me assustava com as fantasias que as pessoas me contavam. A primeira vez que um cara me propôs transar vestido de mulher -e eu de homem- eu disse um não retumbante. Mas aquela idéia não saiu da minha cabeça.
Foi assim, pesquisando na internet, que descobri e comecei a praticar BDSM -sigla que significa Bandage (amarrar), Dominação e Sadomasoquismo. Um dia, um desses caras com quem eu me correspondia me indicou um site de fetiches e comecei a pesquisar sobre homens que gostam de transar vestidos de mulher. Descobri os crossdresser, heterossexuais que levam uma vida normal, sem se depilar, por exemplo, e achei a idéia bem interessante.

Depois de muita conversa em salas de chat, conheci um rapaz com quem transei pela primeira vez pelo telefone e tive um dos maiores orgasmos da minha vida. Comecei a brincar verbalmente, dizendo: 'Vou te morder, vou te dar umas palmadas...'. E ele gostava da ideia de ser amarrado. Foi uma experiência muito louca porque quem assumiu o controle da situação foi uma mulher que parecia não ser eu. Agi com uma convicção impressionante para quem nunca tinha feito aquilo.

Depois de um ano de pesquisas na internet, parti para a ação. Marquei encontro com um homem com quem tinha falado poucas vezes numa loja de conveniência. Eu me sentia uma colegial. A vontade bateu e fomos para o motel. Ele disse que gostava de apanhar e falei que bater não me atraía. Gosto mesmo é de mandar e ser obedecida. Mas amarrei, bati, e foi muito bom. Fiquei insegura se o estava amarrando direito, se ele estava gostando, afinal, era minha primeira vez. O mais difícil foi bater, porque não gosto de violência. E nunca apanhei. Meus pais eram rígidos, religiosos, mas nunca foram violentos comigo.
"Na dominação psicológica, vou fundo. O homem tem de achar que ele não é nada e eu sou tudo. Se ele é casado, não acho que estou tomando o espaço da outra, estou ocupando um lugar vago. É até saudável que eles tenham uma dona, assim não traem as mulheres porque a dona não deixa"
Foi ótimo ver aquele homem subjugado. A ideia de que posso fazer o que quiser com o parceiro me fascina, metade do meu prazer vem daí. A outra metade vem de morder, montar nele como se fosse uma menina. Mas minha grande preferência são as lingeries: meias 7/8, calcinha, corpete, sutiã, visto tudo neles.

Não sou uma rainha típica do universo BDSM, aquela que fica sentada no trono e tem um monte de súditos ao redor. Não gosto de couro, geralmente uso um body de lingerie. Eu me considero uma dominadora porque gosto que as coisas sejam do meu modo, e quero isso de forma consciente, sem ter de manipular ninguém. Sou franca com os homens que se relacionam comigo. E, quem não me obedece, não serve para mim.

Mas não peço coisas absurdas. Gosto de podolatria -o fetiche por pés, por exemplo. Também me agrada inverter os papéis homem-mulher. Claro que eles têm de gostar, mas me dá o maior prazer quando eles fazem só para me agradar. No começo, podem estranhar a idéia de ser penetrados, mas acabam gostando.

Cada um dos meus submissos é diferente, por isso, tenho vários. Gosto de me encontrar com um de cada vez. Cheguei a me envolver com três simultaneamente. Já tive o masoquista psicológico, aquele que gosta de ser humilhado, de ouvir que é um incapaz; já tive o crossdresser; o doméstico, que cuida da casa para mim...

Os domésticos eu encontro na internet. Tenho uma amiga que só arranja escravo para limpar a casa dela. Ela tem faxina de graça e, às vezes, nem faz nada com eles. Depois de tudo limpinho, manda os caras embora. É raro, mas se aparece um gay querendo ser doméstico, aceito. Aliás, quando comecei a dominar gays, pensei: 'Será que estou dentro do armário, será que sou homossexual?'. Então conheci uma garota, que dominei por um ano. Foi bom, mas dobrar um homem me faz sentir muito mais poderosa.
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O tipo que me dá mais trabalho é o crossdresser, porque a carga psicológica da dominação é ainda mais pesada do que o normal. Eu não posso perder o controle, ele tem de ser tratado no feminino, ouvir que não serve para nada além de ser 'minha mulherzinha'. E não pode ser um teatrinho, ele tem de sentir a minha força, de verdade. Também não gosto de masoquistas. Digamos que eu resolva bater: pego meu chicotinho, dou três chicotadas e paro porque resolvi tomar um café. Um submisso aceita isso numa boa, já um masoquista não. Se eu não bater do jeito que ele quer, ele vai embora e não volta.
"Não atribuo a minha preferência sexual a nada, acho cretinice buscar respostas para isso. Esse é o meu gosto. Por que tem gente que gosta de feijão e gente que gosta de lentilha? Não quero me enfiar em consultório de psicólogo. Já fiz terapia, tive alta e nem falei de sexo"
Claro que me preocupo com a segurança, porque meus dominados se entregam totalmente. Tenho limites ao bater, que são estabelecidos assim: o parceiro me procura dizendo que quer uma dona e eu converso com ele para fazer o perfil. Digo que só gosto de bater até deixar vermelho. Se a gente se ententer, ótimo. A gente combina uma 'palavra de segurança', que não pode ter a ver com a situação, tipo 'pare' ou 'está doendo'. Tem de ser uma palavra que jamais apareceria na cena, como 'framboesa', por exemplo. Se ele estiver amordaçado, a gente combina um gesto. Se também estiver amarrado, combinamos um grunhido diferente. Mas submisso meu jamais precisou dizer a palavra de segurança porque eu nunca exagerei. Vou testando os limites aos poucos, principalmente se for a primeira vez dele. Mas se eu sei que não estou machucando e o cara usa a palavra de segurança, não saio mais com ele. Isso quebra o clima de sedução e de confiança entre a senhora e o submisso.

Já na dominação psicológica, vou fundo. O homem tem de achar que ele não é nada e que eu sou tudo. Se sei que ele tem um compromisso fixo, deixo que continue, desde que não faça jogos de dominação com a pessoa. Não estou tirando o espaço da outra, estou apenas ocupando um lugar vago. Não é traição. É até saudável que os caras tenham uma dona, assim eles não traem suas mulheres porque a dona não deixa. Quando vejo meus submissos na rua com a namorada ou a mulher, acho engraçado.

Sei que não sou fácil na cama. Posso exercer minha dominação, não ter penetração e mesmo assim ter orgasmo. Costumo deixar claro que, mesmo que eu peça 'por favor', nunca é um pedido, é sempre uma ordem. E isso vai além da cama. Na rua, eles beijam meus pés, me chamam de senhora o tempo todo e, se levam uma dura na frente do garçom, por exemplo, ficam calados. O jogo é esse mesmo.

Claro que também gosto de carinho, de conversa. Isso a cama dá. Às vezes só quero beijo na boca, cafuné e café na cama. E tenho isso com alguns com quem desenvolvo uma relação afetiva. Não é fácil acontecer, porque ter afeto não significa que eu não queira ser a dona do meu parceiro.

Nesses cinco anos, me envolvi emocionalmente duas vezes. E, há pouco tempo, vivi uma grande paixão. Só que ele não agüentou o tranco. Casado, me procurou pela internet. Quando nos vimos, bateu uma forte atração, sabíamos que ele era minha propriedade. Ele foi o único homem com quem pensei em morar junto. Dispensei alguns meninos ocasionais, fiquei só com ele e mais dois. Nos apaixonamos, ele acabou largando a mulher. Mas, um mês depois, acabou. Ele não agüentou a barra de se separar e ficar longe dos filhos. Saí dessa história machucada porque apostei tudo, a ponto de ter topado viver junto, dividir o mesmo espaço. Logo eu, que nunca tinha cogitado essa idéia.

Geralmente tenho os submissos com quem encontro de 15 em 15 dias no motel, e aqueles que se tornam meus parceiros, que vão à minha casa, conhecem minha filha. Ela sabe de tudo, temos uma relação transparente. Quando comecei a pesquisar na internet, contava as coisas para ela. Optei por ser uma mãe amiga, que não controla o horário nem fiscaliza a bolsa. Tive a preocupação de ensiná-la a respeitar as diferenças e não me acho maluca por isso. Nunca discutimos por causa da minha vida sexual. Ela apenas diz para eu não encontrar com desconhecidos em locais que não são públicos. O meu instinto de mãe aparece quando ela está triste ou não come direito, ou mata aula. Agora ela está sem namorado, está na fase de 'ficar' com os garotos. Somos companheiras, às vezes vamos juntas a boates.

Eu me considero careta em alguns aspectos. Drogas, por exemplo, sou contra. Não faço apologia disso, já passei pela fase do baseado, o problema é que as pessoas acabam indo do baseado para drogas mais pesadas. Também não acho legal fazer sexo a três, embora não me considere moralista. Imoral é mentir, roubar, passar a perna nos outros, ser violento gratuitamente. No sexo, imoral é a pedofilia [atração sexual por crianças]. Tudo é permitido, até as coisas que eu não faria, desde que as duas pessoas aceitem. Para isso, elas precisam entender o que estão fazendo, e uma criança não entende isso.
Atualmente estou com um só escravo, mas cheguei a ter 15 simultaneamente, incluindo os virtuais. Não transo com todos, só com os que me dão vontade. Perdi as contas de quantos homem já tive. Sei que já beijei mais de 500, eu adoro beijar! E, quando transo, não cobro nada. Não sou prostituta. Só exijo que eles paguem o motel, o restaurante e que cada um tenha seus próprios 'brinquedos'.

As pessoas pensam que BDSM é pura violência, mas é apenas uma fonte alternativa de prazer, que tem limites, medidas de segurança e fantasias combinadas entre os parceiros. Tem muito garoto de 18 anos na internet dizendo que quer fazer inversão de papéis e que nunca foi dominado. Ficou fácil encontrar submissos em chats. A coisa foi parar até na TV: a Claudia Abreu usa um chicotinho na novela das 8 ["Celebridade", da Globo].

Não atribuo a minha preferência sexual a nada, acho cretinice buscar respostas para isso. Esse é o meu gosto, a minha preferência. Por que tem gente que gosta de feijão e gente que prefere lentilha? Nunca senti culpa nem encanei que levo vida dupla nem tenho interesse de me enfiar em consultório de psicólogo. Aos 26 anos fiz terapia por oito meses, tive alta e nem falei de sexo. Fiz porque estava amargurada com a vida, pelos dramas existenciais que levam qualquer pessoa à terapia, como: 'Quem sou eu, o que estou fazendo neste planeta?'.

No ambiente profissional e familiar, as pessoas me consideram como aquela que nunca fez o tipo certinha, nada mais. Acho que é porque eu faço a linha doidona, exponho minhas idéias sem medo e não tenho preconceito com nada. Sou sindicalista, luto por um mundo melhor para todo mundo. Sei que as pessoas me acham liberal, só não sabem o quanto. Já comentei com um amigo que eu achava especial e ele recebeu mal, disse: 'Nunca me convide pra ir à sua casa'. Fiquei magoada, a amizade nunca mais foi a mesma. Não cheguei a perder nenhuma amizade, mas algumas enfraqueceram quando eu contei. No trabalho, duas amigas sabem e acham engraçado, ficam meio assustadas, querem saber como funciona, pensam que a coisa se limita a bater. Elas não entendem a complexidade de um jogo de dominação, mas eu também não me esforço pra explicar.

Não falo disso com mais ninguém. Sou discreta. No meu tempo livre, gosto de ler ficção, comer bem, encontrar amigos e dizer o que penso, sem meias palavras. Minha idéia de felicidade é estar bem com minha consciência, ver minha filha bem, amar e ser correspondida -o que não é fácil, porque sei muito bem o tipo de homem que quero.
Gostaria de ter uma relação estável. Quero um homem que queira uma dona e que possa passear comigo em horário nobre; que não seja casado, para eu não ter de me preocupar em não deixar marcas na pele dele. Mas sei que não vou encontrar esse homem numa festa. Se vejo um cara charmoso na rua, penso logo na energia que vou ter de gastar para saber se ele é mesmo quem eu procuro. O máximo que acontece é a gente conversar, dar uns beijos e, quando digo que gosto de fazer papel de homem, eles saem correndo."
Depoimento a Fernanda Cirenza
* Todos os nomes foram trocados a pedido da entrevistada
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Como fica a relação quando os papéis sexuais são indefinidos ou trocados?

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MARIE CLAIRE

Textos e fotos extraídos do site da Revista Marie Claire. Foram colocados aqui em razão da possibilidade dos editores tirarem a matéria do ar para dar lugar a outras.


CASAIS UNISSEX

Eles dividem sonhos, a rotina e também a lingerie. É assim o casamento de mulheres que escolheram como parceiros um travesti ou homens que, apesar de se definirem como heterossexuais, adoram usar salto alto e vestido. Como fica a relação quando os papéis sexuais são indefinidos ou trocados?

Por Eliane Trindade

Fotos: Everton Ballardin

LIANE E SUSSU

Meu Marido de Batom

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A voz no interfone é grave. A distância do corredor até a entrada da casa, uma típica residência de classe média em São Paulo, é curta. Lia atende a porta. Veste um elegante conjunto de minissaia e blazer pretos, camisa branca e meia-calça. De salto alto, maquiagem pesada e cabelos longos cuidadosamente arrumados, faz o papel de anfitriã. Oferece uma bebida e explica que Su, a dona da casa, se atrasou e deve chegar logo. Tudo aparentemente dentro do script, se Lia não fosse um recatado pai de família. "Me visto assim, mas não desmunheco nem faço voz de bicha", corta, seco. A peruca e as roupas femininas – que ocupam um terço do armário dele, um executivo de uma multinacional italiana – são usadas em casa e em festas privê. Lia é porta-voz de uma espécie de liga paulistana de Crossdresser (CD), que reúne homens que cultivam o hábito de se vestir de mulher. Entre eles, os populares travestis e drag queens, mas também heterossexuais. Lia afirma se enquadrar na última categoria. É pai de três adolescentes (frutos do primeiro casamento), que desconhecem a secreta identidade paterna.

Lia divide a fantasia e o guarda-roupa com a atual mulher, Su, com quem está casado há quatro anos. Ela/Ele jura de pés juntos que nunca sentiu desejo por homens nem quer mudar de sexo. E, para encerrar o assunto, conta com o aval da companheira: "Ele é muito macho", garante Su, que se desculpa pelo atraso e participa ativamente da conversa. Ela fica completamente à vontade ao lado do marido travestido. "Se chego em casa e ele está vestido como homem, percebo de cara que há algum problema", relata. "Agora, quando ele se veste de mulher, está feliz."

Durante o dia no escritório, Lia (ele concordou em falar desde que sua identidade masculina não fosse revelada) usa terno e gravata. No entanto, preserva algo do seu mundo feminino: as calcinhas. Ele não usa cueca – só tem duas –, que coloca sobre a lingerie quando vai jogar futebol com os amigos. As vestes masculinas estão confinadas em um canto do armário. O espaço maior é ocupado por vestidos de noite, camisolas, minissaias, blusas. Modelos mais exuberantes e sexy dos que os usados por Su, que faz um estilo clássico. Ela tem 28 anos, é secretária executiva, formada em Letras. Só descobriu a exótica preferência do parceiro quando o flagrou com as unhas dos pés pintadas de rosa. Depois do susto e de muita conversa, a fantasia hoje é compartilhada.

A primeira calcinha

Lia, um homem de 37 anos, resume sua rotina como Cross Dresser: "Em casa estou sempre vestido de mulher. Coloco até sutiã e uso duas próteses de silicone como enchimento. Se eu pudesse sair na rua assim e não fosse apontado como um ET, usaria roupas femininas no meu dia-a-dia. É com elas que me sinto mais confortável. Gosto de estar assim, de saia e saltos altos. Não é uma fantasia de me transformar em mulher. As roupas não implicam um lado sexual. Para mim, estou normal quando me visto assim. Quando estou vestido com as roupas da Lia, é como se desse férias ao meu lado masculino. Fico mais sensível. Isso começou na infância. Assistia a desenhos animados e me identificava com os personagens femininos. Comprei a primeira calcinha aos 14 anos e joguei fora quando arrumei uma namorada. Cheguei a achar que fosse gay ou que era doença. Mas nunca senti atração por homens. Me defino como um hetero, que às vezes se veste de modo não-convencional".

Su, com voz suave e pausada, também dá seu ponto de vista: "Nas primeiras vezes que dormi na casa dele, notei que havia algumas roupas de mulher no armário. A primeira coisa que pensei foi: 'É um garanhão'. Na cama, ele foi uma agradável surpresa. O sexo é sempre muito bom. Só percebi algo de estranho quando vi as unhas dos pés dele pintadas. Pressionei e ele acabou contando que gostava de se vestir como mulher. No início fiquei grilada. Aos poucos, fui relaxando, porque ele não precisa estar travestido para ter uma ereção. Quando ele me mostrou os sites na internet e acompanhava os bate-papos nos chats, só tinha gays e travestis, mas fui me inteirando de que existem outros homens como ele. Tenho plena confiança em sua masculinidade. Por isso, topo participar desta fantasia. Não é a roupa que define a sua sexualidade. O fato de ele se vestir de mulher é uma coisa reservada, da nossa intimidade. Não conheço outra mulher que aceite com totalidade essa situação, como eu. Me integrei ao grupo de CDs, vou às festas e tenho curiosidade sobre eles. Procuro não ficar fazendo leitura de nada, vou vivendo. É uma coisa que me alegra e diverte. Acho saudável, não tem putaria. Tampouco sou lésbica. Nunca tive fantasias de transar com uma mulher. Vivo a dele e estou adorando. Tanto que, quando vamos pra cama, a senha é: 'Vamos brincar?'".

Lia e Su não estão sozinhos nessa "brincadeira". Em São Paulo, pelo menos outros 30 homens participam das reuniões e se intitulam Cross Dresser. A maioria é homossexual. Entre os hetero, há poucos solteiros. Quase todos têm mulher e filhos. "Não fique surpreso se descobrir que aquele seu chefe metido a machão adora colocar cinta-liga e batom", diverte-se Lia. Ele cita o exemplo de "Betinha", sua melhor amiga: é casado, tem filhos e a mulher sabe que é um CD, mas não lida bem com a situação. Lia mostra o álbum de fotos das reuniões, aonde todos chegam à paisana, com suas roupas de trabalho, e aos poucos vão se montando. Em questão de minutos, começam a brotar Marilyns, Lisa Minellis e outras mulheres exuberantes. Na internet, pululam sites de Cross Dresser. Pela rede, Lia descobriu que não estava sozinho e que suas preferências tinham até nome.

"Foi uma alegria saber que existem outros CDs. Isso foi há três anos, quando entrei em um site de busca procurando por páginas GLS e me deparei com um clube – o Brazilian Cross Dresser Club – com mais de 600 sócios. Devorei a biografia das meninas do BCC. Liguei imediatamente para Su e pedi que ela também acessasse a página: 'Você vai ver que eu não sou veado'. Me associei e passei a ir a reuniões e festas. Batemos papo e colocamos roupas de festa maravilhosas. Mas o melhor dos encontros é sujar o copo de batom."

Su participa de algumas reuniões. "O primeiro encontro com o grupo foi estranho, me senti um peixe fora d'água. Depois, fui ganhando confiança e até passei a ajudar alguns a se vestir de mulher. Tentei me filiar a um clube americano que reúne mulheres de CDs. Mas desisti. Elas só pensam em debater a questão. Ficam todo o tempo querendo respostas. Só que cada um tem um modo de pensar e de agir. Também não consegui me entender bem com as mulheres dos CDs brasileiros. A maioria é dona de casa, que prefere fazer de conta que não está acontecendo nada."

Teorizar sobre relacionamentos como o de Lia e Su é mesmo difícil. A psicanalista Anna Elisa Güntert, professora da PUC, de São Paulo, trabalhou com avaliação psicológica de transexuais e sabe que não dá para generalizar. "As relações são muito únicas", pondera. "O que se pode concluir desses amores é que houve um conluio de fantasias, que até pode durar a vida toda."

GABI E LOU MOREIRA

Juntos há cinco anos, Lou Moreira, uma paulista de 42 anos, e Gabi, um belo travesti 15 anos mais jovem, vivem um desses amores unissex. Eles ainda não encontraram uma categoria para definir a própria relação. Gabi leva na carteira de identidade o nome de Carlos José de Souza. Com uma peruca loira que realça sua tez clara, lentes de contato verdes, plataforma salto 20 e roupas sexy, ele sobe no palco, onde se transforma em Gabi, a Bionda. É como transformista que ganha a vida, encarnando personagens como Madonna. Em casa, surge o Carlinhos, como é tratado na intimidade. "Não somos mais passíveis de definição", avisa Lou. "Me apaixonei por um ser humano, que tecnicamente é homem, o que nos tornaria, em tese, heterossexuais. Mas não é tão simples, vivemos um terceiro momento."

Traição à causa

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O casamento de um travesti com uma mulher é visto como cena do apocalipse até no próprio meio GLS. O preconceito vem de todos os lados. No mundo gay masculino, Gabi é apontada como traidora da causa: se montou para ficar com homens e acabou virando "bolacha" (sapatão). As lésbicas não entendem a opção de Lou, que se assumiu desde a adolescência e chegou a militar no movimento. Não aceitam o fato de que, ao se apaixonar por um travesti, a ex-integrante do Grupo de Ação Lesbo-Feminista é feliz hoje no papel de dona de casa que faz comidinha para o marido. E mais: Lou não abre mão da porção masculina de Gabi. Os heterossexuais também tentam rotular o casal. "Os mais conservadores vêem a nossa relação como uma regeneração e não é nada disso", emenda a Bionda.

Gabi e Lou levam no corpo as marcas da relação. Em 1996, tatuaram na mão a letra inicial do nome de ambos, simbolizando uma aliança eterna. Foi uma resposta à Igreja Católica. Eles tentaram se casar no religioso, mas a questão foi levada ao Tribunal Eclesiástico, que suspendeu o casório e estipulou um prazo de dois anos para que os noivos voltassem ao normal.

Ou seja, para subir ao altar, Gabi teria que tirar o silicone e passar a se vestir como homem. Eles levam uma vida de casal classe média. Lou já foi roqueira e empresária da noite, mas hoje é a produtora de Gabi, que também é taróloga. As tarefas domésticas são divididas. Gabi é a mulherzinha da casa, gosta de arrumar tudo, mas é um desastre na cozinha. Lou reina entre as panelas. É uma cozinheira de mão-cheia, tanto que o maridão engordou 15 quilos depois do casamento. É ele, ou melhor, Gabi, quem conta como essa história começou: "Foi numa festa GLS. Eu estava montada: de saia xadrez, meião, fazendo um estilo 'colegial francesa'. Lá, me deparei com a Lou e pensei: 'Que bicha é essa?!'. Logo depois, percebi que era mulher e fiquei mais interessada ainda. Nos encontramos no banheiro e fui ao ataque. Coloquei os meus peitos siliconados pra fora e brinquei: 'Pega! É igual ao de mulher'. Imaginei que, se ela fosse uma sapata convicta, iria perder o rebolado. Aí, ela pegou. Tremendo, mas pegou. Lou é tímida, às vezes se sente mocinha. Começou a rolar um clima. Só que ela estava namorando uma mulher, há um ano. Eu também tinha um caso com um cara. Mesmo assim, começamos a sair e um mês depois assumimos a relação e não nos separamos mais. No primeiro mês não rolou cama, só trocamos beijinhos".

Com olhar nostálgico, Lou também se recorda daquele começo: "Foi muito especial. Um dia antes, eu pedi para ele: 'Tira a roupa'. Eu precisava vê-lo nu antes de transar, pra eu encarar aquilo com naturalidade. Ele tirou e colocou as roupas rapidamente. Ficou tímido. No dia seguinte, quando aconteceu, foi maravilhoso. Naquele momento, eu tive certeza: isso é amor. Todas as tentativas anteriores de transar com homem não foram legais. Da minha parte, a coisa não ia. Com a Gabi foi diferente, apesar de ter ficado assustada na hora. Também não foi como transar com uma mulher. Não foi só sexo. Eu já tive sexo com homens antes e não senti prazer. Com a Gabi foi prazer do começo ao fim. Quando a vejo montada, a minha fantasia não é sexual. O legal é saber que por trás daquela maquiagem e daquilo tudo tem um homem. O que me atrai nela não é a estética feminina, mas sim a sua feminilidade. Eu sou muito masculina. Então, me apaixonei por esse homem feminino".

Homem 2000

O ciúme também é ao quadrado, já que apontado para os dois sexos. "Foram altos barracos, sempre por ciúme de homem e de mulher, e isso valia para ambos", recorda-se Gabi. Elas garantem que isso é passado. Lou, no entanto, ainda se incomoda diante do modo como os homens tratam os travestis. "Para eles, travesti é puta. Já chegam com tudo", irrita-se. "Aí, eu boto o cara pra correr." Mas admite que hoje tem mais ciúme de mulher: "Elas caem matando pra cima da Gabi".

O casal está reformando a casa e pensa em ter um filho. "Estamos investindo todo dia, mas a Gabi tomou cargas fortíssimas de hormônios femininos, o que diminui a quantidade de esperma", explica Lou. Para conseguir engravidar a parceira, Gabi vai precisar tomar hormônios masculinos. Só que isso significa a volta dos pêlos, incompatível com o transformismo. "Vamos esperar uns três anos", adia Gabi. Como Lou está correndo contra o relógio biológico, se não der, pretendem adotar uma criança. Gabi já é pai de um garoto de 7 anos, que vive com a mãe. "Sou um travesti lésbica, reincidente", brinca. Gabi viveu com a ex-mulher até o bebê completar 3 meses. "Não tenho uma boa relação com a minha ex-mulher. Faz mais de um ano que não vejo meu filho. Quando vou visitá-lo, coloco um boné e camisa para tampar os peitos. Ele me chama de 'papai-Xuxa', pois já me viu na televisão." Com tantas nuances, a história de Lou e Gabi vai virar livro. "O mais difícil e o mais maravilhoso da minha relação com a Gabi foi o encontro com a mulher que eu sou", resume Lou. Gabi usa as mesmas palavras e diz ter encontrado um ser masculino dentro de si. "Um homem do ano 2000: com peito e cara de mulher, mas um grande homem."

ADELE E MARISOL

"É difícil amar alguém desejado por homens e mulheres"

A italiana Adele Caprio viveu uma intensa história de amor com um travesti brasileiro. O romance acabou. Ficou a nostalgia

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"Quando saiu um artigo no jornal mais lido da Itália com uma foto minha e de Marisol, no dia 9 de janeiro de 1997, nossa vida virou de cabeça para baixo. Me apresento: sou Adele Caprio, jornalista e dramaturga. Atualmente, trabalho como diretora no mundo do espetáculo, em Roma. Naquela época tinha 35 anos e dirigia o telejornal de maior audiência da televisão italiana, o 'TG 5'. Oito meses antes da reportagem, havia conhecido Marisol, um travesti brasileiro. Foi amor à primeira vista: me apaixonei de um modo irracional, como só o amor pode ser. Nos conhecemos no dia que cheguei ao meu novo apartamento. Sua beleza exótica me chamou a atenção, assim como seu olhar quase infantil. Disse um 'Oi', perguntei qual o seu nome e ele respondeu: 'Mauro', e saiu correndo. Não o vi durante semanas. Até que uma amiga me contou que uma tal de Marisol tinha gravado em vídeo o desfile Miss Trans, para o qual fui convidada, mas não pude ir. Foi aí que descobri que Marisol era Mauro.

Fui a sua procura e bateu a dúvida: como chamá-lo? Concluí que era melhor não usar nome nenhum. Falei do vídeo e ele me convidou para assistir na mesma hora. Mauro subia a escada na minha frente, em silêncio, quando de repente se virou e disse: 'Fique atenta, eu gosto de mulher'. Respondi: 'Não minta... e depois, o que me importa?'. Entramos no seu apartamento. Fomos para o quarto, onde estava o vídeo. Logo que começamos a assistir, a tensão entre nós já se fazia sentir. Minha atenção se concentrava nele ali ao meu lado. Mauro começou a acariciar meus cabelos e eu retribuí. Deixei a racionalidade de lado, quando ele sussurrou: 'Faz muito tempo que não faço amor com amor'. As suas palavras tocaram fundo. Não podia nem queria escapar. Fazer amor com Mauro foi uma experiência absolutamente maravilhosa. Ao final, ele me perguntou docemente: 'Quer ser a minha namorada?'. Devolvi a pergunta: 'Você tem certeza de que quer uma namorada?'. Ele disse que sim.

Naquela madrugada, ele me ligou e pediu para que eu fosse até o estacionamento. Chegando lá, não reconheci a figura alta, elegante, de salto alto e longos cabelos negros. Era Marisol. Com o coração aos pulos, eu a abracei. Um mês depois, decidimos morar juntos. Obviamente, o nosso jamais foi um amor idílico. Mil e um problemas para resolver a cada dia, nada mais, nada menos do que acontece com qualquer outro casal. De Marisol, amei a sensibilidade feminina, o senso artístico, o modo de se vestir e se maquiar, a alegria e a filosofia de decidir dia a dia o que fazer da própria vida. Paradoxalmente, o seu lado feminino estimulou a minha feminilidade: passei a me cuidar mais. É claro que tive crises de identidade. Me questionava como podia amar um homem que se vestia de mulher. Até me perguntava se não era lésbica. Procurei um psicólogo. Este médico iluminado simplesmente me disse: 'Adele, você desde pequena lutou pela sobrevivência e isso a fez desenvolver mais o lado masculino. Aprenda agora a desenvolver a feminilidade'. E foi o que aconteceu ao lado de Marisol.

Com Marisol vivi um período de alegria e de dor, como em todos os relacionamentos. Chegou também o momento do adeus, depois de um ano de convivência. Mentiria se dissesse que viver com um travesti é uma vida 'normal'. Nada é fácil ou de graça: é tudo uma conquista. Alugar um apartamento juntos não foi difícil: o fiz em meu nome, porque tinha referências. Mas a síndica não gostou de Marisol e fez um monte de confusão. Chegou a chamar a polícia para nos fiscalizar. Os policiais pediram nossos documentos e, como não encontraram nada de irregular, nos deixaram em paz. São muitos os episódios que me vêm à mente quando recordo nossa vida em comum. Um dos mais divertidos era fazer compras juntas. Nos divertia escolher o mesmo vestido, de números diferentes, e depois ver a cara de espanto das vendedoras. O maior problema que enfrentei com Marisol foi o meu ciúme. Reconheço que sou uma mulher muito possessiva, mas posso assegurar que é de fato muito difícil amar uma pessoa que é admirada e desejada tanto por homens quanto por mulheres. No início, essa coisa me fazia rir e até experimentava um certo tipo de orgulho. Com o passar do tempo, a atmosfera entre nós foi se tornando cada vez mais pesada. Marisol percebeu que este era o meu ponto fraco e jogava com o meu ciúme de maneira cada vez mais pesada. Até que a corda arrebentou: uma noite, em uma discoteca, ela começou a flertar com um rapaz na minha frente. Eu fiz uma cena e brigamos furiosamente. Aquilo me fez tão mal que decidi deixá-la. Eu sou assim: mergulho de corpo e alma nas coisas em que acredito, mas, uma vez decidido, sou determinada e não volto atrás.

De ponta-cabeça

Agora, depois de três anos, posso fazer um balanço daquele período mágico que foi a minha vida com um travesti. Estou casada com um homem italiano e acabo de me tornar mãe de uma garotinha, de 4 meses. Eu gostei muito, muito de Marisol. Tive vontade de me casar com ela, de ter um filho. Mas o destino não quis que isso acontecesse. O fato de tê-la encontrado já me fez feliz. Amar um travesti gira de ponta-cabeça a tua vida (na família, no trabalho, os amigos, todos te criticam). Mas mexe também com a tua cabeça, pois modifica toda uma série de regras que nos são impostas desde cedo: a divisão (arbitrária) entre masculino e feminino, entre bons e maus, entre belos e feios. O amor não vê essas divisões. O amor é uma energia positiva que não faz distinção entre os seres humanos.

Depois desta experiência, posso afirmar que não existem nem heterossexuais nem homossexuais. Existem somente seres sexuais. A coisa mais importante é amar com o coração. O sexo é somente um meio para comunicar este amor. Como será essa comunicação amorosa é secundário. Esta tese central que sustenta o livro que escrevi sobre a minha experiência: 'Viados non é un luna park. La mia vita con le trans'. Hoje, não tenho mais tantas oportunidades de me encontrar com Marisol e outros travestis que são meus amigos. A minha vida tornou-se um pouco mais... melancólica. A alegria e a vontade de viver que eles irradiam são contagiosas. É impossível esquecê-los."

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Como entender o universo ambíguo de um “crossdresser”?

Dentro de mim mora um anjo

Ele é pai, marido e homem de negócios. Debaixo da camisa, esconde seios e o desejo irrefreável de vestir-se de mulher. Como entender o universo ambíguo de um “crossdresser”?

Revista Época - Ivan Martins (texto) e Ricardo Corrêa (fotos)

Quem me vê assim cantando
Não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
Que tem a boca pintada
Que tem as unhas pintadas
Que passa horas a fio
No espelho do toucador

Trecho da música de Suely Costa e Cacazo

RICARDO CORRÊA
IDENTIDADE SECRETA
Márcia se exibe, mas esconde sob a máscara o rosto de Márcio. Tem sido assim desde os 4 anos de idade

Por qualquer ângulo que se olhe, o advogado Márcio é um homem de sorte. Tem uma mulher linda, filhas amorosas, saúde e boa aparência. Aos 45 anos, por força do próprio trabalho, é dono de um sólido patrimônio. Seus negócios lhe asseguram o que se costuma chamar de independência financeira. Márcio trabalha no escritório que montou em casa, viaja quando deseja e pode dar-se ao luxo de passar uma tarde inteira, no meio da semana, fazendo a lição de casa com a filha mais velha, de 12 anos. Tem uma vida tranqüila, invejável mesmo, exceto por aquilo que ele chama de “meu problema”. Duas vezes por semana, Márcio sai do apartamento onde mora e vai para outro, no centro velho de São Paulo, onde se veste, dos pés à cabeça, das sandálias de salto 12 à longa cabeleira castanha, como mulher.

Com quase 1,90 metro de altura, 90 quilos e ombros de remador, a figura feminina que ele compõe nessas ocasiões não é muito delicada. Mas isso não faz diferença. Márcio é “crossdresser”, palavra que designa um grupo de homens que sofrem a compulsão de trajar-se e portar-se como mulher. “Montado”, quer dizer, vestido de mulher, Márcio transforma-se em Márcia. E parece perfeitamente feliz. Na pele dela, de minissaia e blusa justinha, pode passar a noite no computador, exibindo-se pela câmera web em sites de encontros. Ou pode sair e jantar fora com amigos crossdressers como ele. Em ocasiões mais raras, tem encontros sexuais com homens. Essa é sua vida secreta, de que apenas sua mulher e algumas poucas pessoas têm conhecimento.

Numa enorme prova de confiança, Márcio permitiu que eu acompanhasse seu cotidiano durante três semanas. Abriu as portas de suas duas casas, me apresentou sua mulher, mostrou-me retratos do casamento e fotos das filhas. Fui com ele a um encontro de trabalho, conheci o grupo de que ele participa – o Brazilian Crossdresser Club, ou BCC – e conversei, autorizado por ele, com um dos psicólogos com quem se tratou. O resultado dessa convivência está exposto a seguir, com mudanças e omissões que permitem proteger a identidade de Márcio e de sua família. Foi uma exigência dele e da mulher, e faz sentido. Em setembro de 2000, a revista Marie Claire publicou a foto de um casal que vivia de forma semelhante. Apesar de escondida por um leque, a mulher foi reconhecida. Seu marido, exposto, foi demitido da multinacional em que trabalhava. Márcio não pode ser demitido porque é patrão, mas tem muito a perder. “Minha intimidade com meu marido está perfeitamente resolvida”, diz Priscilla, de 27 anos, casada com Márcio desde 2003. “Meu único medo é a exposição e o escândalo. As pessoas não entendem. Tratariam a ele como doente e a mim como louca ou oportunista. Isso atrapalharia um relacionamento que é muito bom.”

Márcio e Priscilla vivem protegidos por uma redoma de segredo e, dentro dela, levam uma vida que não é fácil nem simples. Há dois anos, desde que começou a tomar hormônios, Márcio não pode mais ir à praia ou partilhar a piscina dos amigos. Seus mamilos cresceram e se transformaram em seios, que ele torna ainda mais femininos com a marca de biquíni do bronzeamento artificial. A cintura grossa de esportista foi afinada com lipoescultura. As nádegas, arredondadas por um implante. Pêlos no rosto já não há. Assim como as axilas, as faces sofreram depilação a laser, permanente. Cabelos compridos e lisos, sobrancelhas delineadas e as unhas longas e tratadas completam o personagem. Na maior parte do tempo, quando não está travestido, Márcio usa faixas ou coletes cirúrgicos sob a camisa folgada para esconder os seios. Isso tem de ser feito mesmo em casa, por causa dos empregados.

Na manhã em que fui trabalhar com ele, Márcio vestia uma camiseta e uma jaqueta de couro. Não se percebia nada. Os cabelos, amarrados em rabo-de-cavalo, não chamam a atenção, assim como o brinco. Há muita gente assim nas ruas de São Paulo. O que salta aos olhos é o formato das sobrancelhas e as unhas longas. A advogada com quem ele formalizou a assinatura de um contrato pareceu nada notar. Ou foi discreta. Márcio diz que nas raras ocasiões em que tem de ir ao Fórum, uma ou duas vezes por ano, sua aparência chama a atenção, mas juízes e colegas sabem que a discriminação é ilegal. Limitam-se a olhar discretamente. Ainda assim, ele prefere resolver quase tudo sem sair de casa, por telefone ou internet. Delega a outros advogados a administração diária de seus três negócios. Coisas que outras pessoas fazem normalmente, como ir à academia, estão proibidas para ele, por causa das formas femininas. “Eu teria de usar um top”, diz ele. E acrescenta, com um traço de melancolia: “Não recomendo hormônios para ninguém. O custo pessoal é muito alto”.

RICARDO CORRÊA
VIDA DUPLA
Duas vezes por semana, o empresário de 1,90 metro se transforma em mulher e pode terminar a noite com um homem

Márcio diz que começou a tomar pílulas anticoncepcionais aos 14 anos. Queria uma pele mais feminina, menos pêlos, talvez um pouco de quadris e seios. Foi descoberto pelo pai – e mandado a um psicólogo. Parou por um tempo, mas a pulsão era forte e retornou. Desde pequeno ele se vestia de menina. Adolescente, pôs um cofre no quarto onde guardava seus pertences de mulher: sapatos, vestidos, meias... Márcio afirma que não foi um garoto afeminado, ao contrário. Diz que se destacava nos esportes, chamava a atenção das meninas, participava com sucesso de atividades de grupo. Lutou jiu-jítsu e capoeira e, mais de uma vez, saiu no braço com os colegas da escola de elite na qual estudava, em São Paulo. Esse lado macho convivia, na clandestinidade, com as sessões privadas de travestismo. “Eu me sentia diferente, sabia que era diferente, mas ninguém notava”, afirma. Esse relato confere perfeitamente com a descrição da psicanalista brasileira que mais entende de crossdressers, a paulistana Eliane Kogut. Ela acompanhou os integrantes do BCC por sete anos. Vários deles foram pacientes em seu consultório. Eliane defendeu, em 2006, uma tese de doutorado na PUC de São Paulo sobre esse grupo social. Na tese, diz que eles começam a se vestir de menina por volta dos 4 anos e que essa compulsão irrefreável – e inexplicável – os acompanha pelo resto da vida. Sem prejuízo, diz ela, da masculinidade. Os crossdressers, também chamados CDs, não foram meninos delicados nem são homens afeminados. Namoram, casam, têm filhos e sofrem com o desejo de se vestir de mulher. “Antes da internet a vida deles era um inferno”, afirma Eliane. “Viviam isolados, cada um deles sentindo-se uma aberração”.

RICARDO CORRÊA
DE BOCA PINTADA
Márcia fica feliz no toucador, mas a aparência feminina é um problema social para Márcio

O senso comum sugere que esses homens são homossexuais reprimidos. Eliane afirma que o senso comum está errado. “Não há registro, na literatura médica ou na minha experiência, de crossdresser que tenha se revelado homossexual”, diz ela. O caso de Márcio é exemplar. Quando está de sapo – isto é, vestido como homem na gíria dos crossdressers –, ele não se distingue, pelos modos, de um sujeito qualquer de sua classe social. Talvez seja até um pouco mais assertivo que a média. Fala alto, coloca-se com firmeza, não há sinal de maneirismos em sua linguagem corporal. No trato com a mulher, tem uma postura de macho dominante – fala muito, rouba a cena, às vezes “explica” os sentimentos da parceira. Nada ofensivo ou grosseiro, mas a velha patronagem masculina está lá. Antes de conhecer Priscilla, ele teve dois casamentos e uma fieira de namoradas. Jovem, bonito, bem-sucedido, diz que transitava num universo de festas freqüentado por modelos, artistas e filhas de empresários. Como qualquer homem de meia-idade, adora exibir conquistas passadas. “Eu estava procurando”, afirma, enquanto segura a mão da mulher e a olha de um jeito carinhoso. Toda vez que se envolvia com uma garota, diz Márcio, tentava descobrir os sentimentos dela sobre práticas de sexo menos convencionais. A maioria não passava no teste. Eram conservadoras e, como tais, descartadas. Nas duas vezes anteriores em que se casou, as mulheres sabiam sobre Márcia, sua persona feminina. Era uma precondição. Com Priscilla, foi diferente.

Mais que tolerar, ela tornou-se cúmplice. Embora 18 anos mais nova, tinha experiência sexual e – nas palavras dela – “vontade de fazer coisas diferentes”. “Na primeira vez em que saímos, ela me disse que tinha a fantasia de vestir-se de homem com um homem vestido de mulher”, diz Márcio. Segundo Priscilla, era apenas uma brincadeira. Soou como presságio aos ouvidos do futuro marido. Namoraram, noivaram de aliança no dedo e casaram-se rapidamente, com todos os festejos e formalidades: o garanhão que se vestia de mulher às escondidas e a mocinha espevitada com rosto de Mirian Rios. No fim de maio, durante as festas que antecederam a Parada Gay de São Paulo, Márcia e Priscilla foram juntas ao The Week, conhecida balada gay de São Paulo. “Ela estava deslumbrante. Eu estava com uma saia curtíssima, mas ninguém nos deu bola”, diz Márcio.

O objeto do desejo dos crossdressers é a mulher
que eles constroem, não a outra pessoa

Há uma chance real de que isso dê certo? É possível que um homem que gosta de se sentir mulher e uma garota de gosto sexual apimentado formem um casal estável? Se depender da opinião dos psicólogos, sim. “Essas pessoas podem ser até mais felizes”, diz Oswaldo Rodrigues, do Instituto Paulista de Sexologia. “Elas têm coragem de fazer coisas que outros não têm coragem de fazer. Isso une e dá sentido a sua vida.” Do ponto de vista dos psicólogos, todo casamento é uma espécie de arranjo existencial mais ou menos precário e não existe um deles que seja igual ao outro. O arranjo de Márcio e Priscilla é de um tipo raro. O tempo de sua duração e a intensa ligação entre os parceiros sugerem que se trata de algo sólido. “Se as pessoas não estão vinculadas, esse tipo de união acaba em dois tempos”, diz Rodrigues. Ele já recebeu em seu consultório, no bairro de Perdizes, vários casais desse tipo. Diz que, tipicamente, a conversa começa com o homem dizendo a ele: “Doutor, explica para a minha mulher que não tem nada de errado comigo”. Claro que não é tão simples. Mas as pessoas, quando se querem e se entendem, costumam arrumar um jeito de organizar a vida. “Não é o sexo que mantém os casamentos. É o cotidiano, é a cumplicidade”, diz Rodrigues.

RICARDO CORRÊA
AUTOIMAGEM
Márcia refletida no espelho de teto de seu quarto. Se a persona feminina é aceita pela família, a angústia diminui

Sexo, porém, é uma grande questão. Márcio não se furta a discuti-la. Diz que sua relação com a mulher é “perfeitamente normal”, embora haja consenso de que os hormônios femininos que ele toma (progesterona e estrogênio) derrubam a libido. “Eu transava todos os dias. Agora, com os hormônios e com o convívio, a freqüência baixou para um ou dois dias por semana”, afirma. Num casamento de cinco anos, parece perfeitamente normal. Mas a estatística não diz tudo. É por isso que eu sinto intensa curiosidade diante de Priscilla tão logo somos apresentados. Ela tampouco recusa a conversa sobre sexo, embora seja mesquinha nos detalhes. Vestida como a universitária que era até o ano passado, de tênis, jeans e blusa branca, prende os cabelos e acende um cigarro antes de fixar os olhos castanhos em mim. “A Márcia não piorou minha vida sexual”, afirma.

Estamos na sala de estar da garçonnière de seu marido, que ela ajudou a decorar. Ao nosso redor estão sete homens de idades variadas, vestidos de mulher. Tratam-se por Kelly, Elisabeta, Márcia... O marido de Priscilla é um deles. Priscilla conta que ficou chocada quando o viu “montado” pela primeira vez, mas acabou se acostumando – embora, ainda hoje, se incomode com os trejeitos femininos de Márcia. “É chato, mas todo mundo tem defeitos”, diz ela. Sim, mas poucos homens depilam as sobrancelhas e fazem crescer seios. “Não me incomoda”, afirma Priscilla. “A aparência dele foi mudando aos poucos. Só percebo quando olho as fotografias”. Com o perdão da intrusão, a vida sexual do casal não foi destruída pelas formas femininas dele? “Não”, ela responde. “O desejo não vem necessariamente do corpo. Depois de um tempo de casamento, a vida sexual muda muito, mesmo que o corpo não mude.” Pode ser apenas uma racionalização, mas Priscilla a sustenta com convicção. Na tarde em que conversei com os dois na casa deles, dias depois, Márcio gabava-se de que a noite anterior do casal tinha sido “espetacular”. Ela limitou-se a olhá-lo de lado, em silêncio desaprovador, como as mulheres fazem com freqüência diante das gabolices sexuais dos maridos. Era uma cena de casamento perfeitamente corriqueira, até na banalidade.

Os psicólogos dizem que as mulheres de crossdressers têm em comum o pavor de que seus maridos se revelem homossexuais. Priscilla diz que não é seu caso. Mesmo que Márcio saia com homens de vez em quando, ela diz “ter certeza” de que ele gosta de mulher. A tese de doutorado de Eliane Kogut propõe uma abordagem diferente desse assunto. Diz que o erotismo dos crossdressers – aquilo que dispara e sustenta a excitação – é voltado para eles mesmos, não para outros homens ou mulheres. Quando fazem sexo com uma mulher, excitam-se ao se colocar mentalmente no lugar delas. Se estiverem com homens, a excitação sexual vem da confirmação de sua identidade feminina. “O objeto final do desejo deles é a mulher que são capazes de montar”, diz Eliane. “É um erotismo autocentrado.” Há outro argumento robusto contra a tese da homossexualidade reprimida: se o sujeito deseja ocultar desejos homoeróticos, seria improvável fazê-lo vestido de mulher, atraindo ainda mais atenção para sua feminilidade.

Quando não está vestido de mulher, ele usa uma faixa para ocultar seus seios

No caso de Márcio e Priscilla, o desejo, como quer que ele se manifeste, mistura-se aos cuidados mútuos. Quando ele sai para um encontro com outro homem, ou mesmo quando vai entrevistar um candidato a sócio do BCC, o casal combina códigos de segurança ao celular. “Há muito homófobo por aí”, diz ele. Da mesma forma, quando ela sai para encontros com outros homens, o que também acontece, ele às vezes faz questão de conhecer o sujeito. “Me preocupa a segurança dela”, afirma. Afetivamente, claro, o risco é permanente. A mulher jovem e linda pode se apaixonar por um sujeito mais másculo ou apenas mais simples do que ele, diz Márcio. “Mas eu também posso encontrar outra mulher, não posso? Ninguém está 100% seguro”, afirma.

Quantas pessoas vivem dessa maneira? Na tese de Eliane Kogut cita-se uma estatística do início dos anos 90, segundo a qual algo entre 0,5% e 3% da população seria composta de crossdressers e travestis. O intervalo é grande – e os porcentuais provavelmente não significam nada. Sabe-se que o BCC reúne no Brasil cerca de 350 associados, mas isso também não diz muito. Julga-se, ou melhor, suspeita-se que a maioria dos CDs é casada. Nos Estados Unidos, a mais antiga associação mundial de crossdressers, fundada em 1976 com o nome de Tri-Ess International (ou Sociedade para o Segundo Eu), promove festas anuais gigantescas, mas a organização não informa quantos associados tem. Se faltam estatísticas, existe alguma história. O imperador romano Heliogábalo, que reinou brevemente no século III, vestia-se de mulher publicamente. Chegou a encenar um defloramento ao se casar com um escravo. Foi morto por seus soldados. O Chevalier d’Eon é outra figura famosa no panteão da ambigüidade. Viveu no século XVIII na corte francesa, como nobre e diplomata. Fugiu para a Inglaterra depois da revolução de 1789 e lá morreu sem que se soubesse exatamente a que gênero pertencia. Houve apostas na Bolsa de Londres que terminaram com a autópsia: era homem. Recentemente, foi publicada nos Estados Unidos a biografia de Gregory Hemingway, filho de Ernest, escritor tido como o mais durão do século XX. No livro, escrito por John Hemingway (neto de Ernest), descobre-se que Gregory, além de bipolar e autodestrutivo, tinha um problema insolúvel de identidade de gênero: o mesmo homem que caçava elefantes na África e se atirava sobre as mulheres em toda parte freqüentava os bares do Estado de Montana vestido de mulher. Teve quatro casamentos, os dois últimos em meio a intensas transformações cirúrgicas que fizeram dele (quase) uma senhora.

Casos como esse de Gregory Hemingway sublinham a confusão no mundo das novas sexualidades. Crossdressers se diferenciam de travestis por não se prostituir, por transitar regularmente entre a situação de homem e mulher – os travestis ficam montados permanentemente – e, em certa medida, por ser mais contidos na modificação corporal. CDs raramente fazem implantes de silicone e cirurgias. Márcio, com seios e esculturas corporais, está no limite das duas categorias. Há, por fim, os transexuais, aqueles que se sentem mulheres aprisionadas no corpo de homens. Estes às vezes passam anos na condição de crossdressers antes de se decidir por uma operação de mudança de sexo. Eliane Kogut diz que 6% dos CDs que ela acompanhou em sua pesquisa fizeram a cirurgia e assumiram a identidade de mulher. Tudo isso, claro, é visto pela psiquiatria tradicional por uma lente rigorosa e desaprovadora. Ao contrário da homossexualidade, o travestismo ainda é considerado patologia, um transtorno de identidade de gênero. “Com o tempo, isso vai mudar”, afirma Eliane. “A homossexualidade só deixou de ser considerada doença em 1974”.

Diante de um senhor alto e corpulento, vestido com sandália branca e peruca ruiva, é difícil esconder o desconforto. Estou no apartamento de Márcia, conversando com um grupo do Brazilian Crossdressers Club. A organização foi criada há 11 anos com o objetivo de ajudar os CDs e colocá-los em contato uns com os outros. O grupo se comunica por meio do site www.bccclub.com.br. Ali eles trocam literatura, serviços e organizam um grande encontro anual, o Holliday En Femme, durante o qual passam um fim de semana inteiro vestidos de mulher. O senhor alto de peruca ruiva acabou de se integrar ao grupo, com cognome de Márcia Polari. Tímido, está vivendo as primeiras experiências de sair em público vestido de mulher. Ele é médico, casado, pai de filhos adultos. Diz que costumava montar-se apenas nos Estados Unidos, quando viajava. Comprava roupas íntimas e calçados de mulher no Wal-Mart, trancava-se no quarto do hotel – e ali passava horas imerso em fantasias. Agora é diferente. Desde que conheceu o BCC, tem se “montado” com freqüência. Seu lado feminino está exigindo mais – a ponto de ele se perguntar sobre o futuro de seu casamento. Sua mulher não sabe da vida paralela. Semanas atrás, o grupo de crossdressers contratou um profissional para maquiar a “novata” pela primeira vez. De costas para o espelho, recebeu base, batom e seus olhos foram pintados. Quando a cadeira girou e ele se viu no espelho de maquiagem, soltou um grito: “Esta sou eu!”. Aos 62 anos.

“Se existisse uma pílula que eliminasse a Márcia, eu tomaria. Seria mais simples”

Psicólogos e psicanalistas dizem que a angústia dos CDs será tanto mais grave quanto mais clandestinos eles viverem. “Quanto mais você tem a esconder, maior a angústia”, diz Eliane. A pulsão de vestir-se de mulher emerge com mais força em períodos de ansiedade e frustração, como ocorre com viciados em drogas. É o período que os CDs chamam de “urge”. Quando finalmente se vestem, sentem um prazer que é propriamente sexual, e a ansiedade se reduz. A isso, porém, segue-se um período de culpa, durante o qual tomam a decisão de “nunca mais” se travestir. Ao sentimento negativo, os CDs dão o nome de “purge”. Os períodos opostos, de entrega e negação, parecem se alternar ao longo da vida dos crossdressers. “Conheci um deles que tinha feito quatro guarda-roupas”, diz Eliane. Quando o sujeito encontra um lugar seguro para a persona feminina em sua vida – como ocorreu com Márcio –, a gangorra desacelera e a angústia decresce. A mulher de Márcio diz que ele se tornou muito mais produtivo nos últimos anos, quando Márcia passou a ter um papel importante na vida deles. O que parece difícil é livrar-se definitivamente da pulsão. Os CDs dizem que não há ex-crossdresser, ainda que médicos como Oswaldo Rodrigues relatem casos de pacientes que deixaram essa situação para trás. “O ser humano é o animal mais plástico que existe”, diz ele. “Toda compulsão é mutável”.

O site do Tri-Ess americano contém um documento eloqüente para quem deseja entender o universo dos crossdressers: os 12 direitos das mulheres de CDs. A lista contém coisas engraçadas – “Temos o direito de ser consultadas antes que usem nossas jóias e maquiagem” – e outras de teor sombrio. “Temos o direito ao corpo masculino dos nossos maridos”, diz o documento. “Nenhuma parte no casamento tem o direito de alterar o corpo sem o consentimento do outro”. Esse comentário revela um comportamento dos crossdressers que é motivo de grande ansiedade entre suas esposas: a tendência a avançar na personificação feminina, a ponto de colocar em risco o trabalho, a família e o convívio social. Márcio tinha cabelos curtos, raspava a barba e aparava as unhas quando se casou com Priscilla. Hoje, toma hormônios, se depila e montou um apartamento para seu lado mulher. Os CDs com quem conversei dizem que “testar os limites da transformação” é um clássico entre eles.

Pergunto ao casal Márcio–Priscilla onde a mudança física dele vai parar. Ele, sem hesitar, diz que já parou. Ela faz um gesto de incerteza. “As mulheres são muito importantes na vida dos CDs. Elas dão o limite”, afirma a psicanalista Eliane. Priscilla usa palavras parecidas para falar de seu casamento: “Eu me sinto a âncora dele”. A filha adolescente de Márcio vem sendo informada aos poucos da situação e, segundo ele, recebe tudo “com naturalidade”. Ela é capaz, por exemplo, de fazer piada com os seios do pai e de rir quando ele, num arroubo de moça, “precisa” comprar uma sandália exposta na vitrine do shopping. Tamanho 41. Parece grotesco? Semanas atrás, eu também acharia. Depois de conviver com Márcio e sua família, depois de conversar com seus amigos e de ouvir os psicólogos, minha opinião mudou. O sujeito é bom pai, bom marido e leva uma vida sexual da pesada. E daí? Tanto quanto eu pude perceber, ele não faz mal a ninguém. Pesa sobre seus atos, ademais, uma camada de inevitabilidade. Na primeira vez em que conversamos, Márcio me disse: “Se existisse uma pílula que acabasse com a Márcia, eu tomaria. A vida seria mais simples”. Quem duvida?

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Sobre este blog

Aqui eu não sou homem ou mulher. Sou um adepto do crossdresing. Sou uma Crossdresser - CD ou CDzinha. Desde os 9 anos, adoro lingeries e roupas sexyes. Levo uma vida normal masculina e tenho uma vida clandestina feminina.

Me proponho aqui a falar um pouco de tudo, em especial das Crossdressers, dos transexuais, dos Travestis e da enorme comunidade
LGBT existente em todo o mundo. Um estilo de vida complicado e confuso (para alguns)... Este espaço também se presta para expor a minha indignação quanto ao ódio e preconceito em geral.

Observo que esse é um blog onde parte do que aqui posto pode ser considerado como orientado sexualmente para adultos, ou seja, material destinado a pessoas maiores de 18 anos. Se você não atingiu ainda 18 anos, ou se este tipo de material ofende você, ou ainda se você está acessando a internet de algum país ou local onde este tipo de material é proibido por lei, NÃO siga 'navegando'.

Sou um Crossdresser {homem>mulher} casada {com mulher - que nada sabe} e não sou um 'pedaço de carne'.

Para aqueles que eventualmente perguntam sobre o porque do termo 'Crossdresser GG', eu informo que lógico que o termo trata das minhas medidas. Ja que de fato visto 'GG'. Entretanto alcunhei que 'GG' de Grande e Gorda, afinal minhas medidas numéricas femininas para Blusas, camisetas e vestidos são tamanho: 50 e Calças, bermudas, shorts e saias são tamanho: 50.

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