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Reflexões e Desabafos - By Katia Steelman Walker: Na dominação psicológica, vou fundo. O homem tem de achar que ele não é nada e que eu sou tudo...

"Gosto de dominar os homens na cama"

Marie Claire Edição 159 - Jun/04
Lilith Dumm é o nome fantasia da funcionária de uma corretora de seguros que tem uma vida sexual pouco comum. Ela é dominadora, uma mulher que tem prazer controlando seus parceiros. Isso significa bater, mandar e humilhar. Aos 36 anos, bem resolvida com sua sexualidade, Lilith coleciona vários "submissos". E, como muitas solteiras, está à espera de um amor
"Fui criada em um vilarejo no interior do Rio Grande do Sul. Tive uma infância livre, em meio a cavalos, vacas e árvores. Era uma região de lavoura, passava um rio atrás da minha casa. Minha mãe é costureira, meu pai tinha uma mercearia ali. Os vizinhos ficavam a 1 km de casa. Para namorar, eu tinha de ir a festas na cidade vizinha. Levei muito tempo para conhecer um motel, tinha mais de 20 anos.

Não me lembro de ter sentido nenhuma frustração sexual até os 24 anos. Minha primeira vez foi aos 14 anos, num carnaval, com um menino que conheci na praia. Nada especial. Doeu muito, depois nos vimos umas três vezes, mas não rolou mais nada. Levei uns seis meses para transar de novo. Não fiquei traumatizada, mas também não achei maravilhoso. Só comecei a gostar de sexo mais tarde, depois de ter transado com outros caras.

Aos 16 anos, em uma relação casual, engravidei da minha filha, que hoje tem 19 anos. Sou a filha mais velha de três, ouvi sermão dos meus pais, mas eles acabaram me apoiando para levar a gravidez adiante.

Foi barra pesadíssima ser mãe aos 17 anos. Tive depressão pós-parto, queria ser livre como as minhas amigas. Meus irmãos eram pequenos -um tinha 3 anos; outro 5 - eu ainda ajudava a minha mãe a cuidar deles. Anos depois minhas amigas me disseram que eu me fechei muito naquela época. Também fiquei malfalada na vizinhança, percebi que eu tinha perdido a minha reputação. Achei que não precisava mais zelar por ela, então, entrei numa fase de sair com todo mundo. Enquanto fiz o sexo tradicional, que a gente encontra em qualquer esquina e é sem graça para mim, tive vários parceiros, mas nenhum relacionamento fixo. Eu achava que quantidade pesava mais do que qualidade. Não eram grandes transas, mas eu não tinha consciência da minha insatisfação.

Perto dos 20 anos, me mudei para Porto Alegre com a minha filha para trabalhar. Nessa época, o sexo convencional já não me satisfazia mais. Dos 24 aos 30 anos, até pensei que era fria, apesar de sentir desejo. Eu não tinha nenhum parceiro fixo, nenhuma paixão. Nessa fase, comecei a entrar em sites de encontro na internet. Eu, que me considerava liberada sexualmente, vi que ainda tinha muitos nós para desatar. Por exemplo: eu não tinha fantasias sexuais, não é estranho? E me assustava com as fantasias que as pessoas me contavam. A primeira vez que um cara me propôs transar vestido de mulher -e eu de homem- eu disse um não retumbante. Mas aquela idéia não saiu da minha cabeça.
Foi assim, pesquisando na internet, que descobri e comecei a praticar BDSM -sigla que significa Bandage (amarrar), Dominação e Sadomasoquismo. Um dia, um desses caras com quem eu me correspondia me indicou um site de fetiches e comecei a pesquisar sobre homens que gostam de transar vestidos de mulher. Descobri os crossdresser, heterossexuais que levam uma vida normal, sem se depilar, por exemplo, e achei a idéia bem interessante.

Depois de muita conversa em salas de chat, conheci um rapaz com quem transei pela primeira vez pelo telefone e tive um dos maiores orgasmos da minha vida. Comecei a brincar verbalmente, dizendo: 'Vou te morder, vou te dar umas palmadas...'. E ele gostava da ideia de ser amarrado. Foi uma experiência muito louca porque quem assumiu o controle da situação foi uma mulher que parecia não ser eu. Agi com uma convicção impressionante para quem nunca tinha feito aquilo.

Depois de um ano de pesquisas na internet, parti para a ação. Marquei encontro com um homem com quem tinha falado poucas vezes numa loja de conveniência. Eu me sentia uma colegial. A vontade bateu e fomos para o motel. Ele disse que gostava de apanhar e falei que bater não me atraía. Gosto mesmo é de mandar e ser obedecida. Mas amarrei, bati, e foi muito bom. Fiquei insegura se o estava amarrando direito, se ele estava gostando, afinal, era minha primeira vez. O mais difícil foi bater, porque não gosto de violência. E nunca apanhei. Meus pais eram rígidos, religiosos, mas nunca foram violentos comigo.
"Na dominação psicológica, vou fundo. O homem tem de achar que ele não é nada e eu sou tudo. Se ele é casado, não acho que estou tomando o espaço da outra, estou ocupando um lugar vago. É até saudável que eles tenham uma dona, assim não traem as mulheres porque a dona não deixa"
Foi ótimo ver aquele homem subjugado. A ideia de que posso fazer o que quiser com o parceiro me fascina, metade do meu prazer vem daí. A outra metade vem de morder, montar nele como se fosse uma menina. Mas minha grande preferência são as lingeries: meias 7/8, calcinha, corpete, sutiã, visto tudo neles.

Não sou uma rainha típica do universo BDSM, aquela que fica sentada no trono e tem um monte de súditos ao redor. Não gosto de couro, geralmente uso um body de lingerie. Eu me considero uma dominadora porque gosto que as coisas sejam do meu modo, e quero isso de forma consciente, sem ter de manipular ninguém. Sou franca com os homens que se relacionam comigo. E, quem não me obedece, não serve para mim.

Mas não peço coisas absurdas. Gosto de podolatria -o fetiche por pés, por exemplo. Também me agrada inverter os papéis homem-mulher. Claro que eles têm de gostar, mas me dá o maior prazer quando eles fazem só para me agradar. No começo, podem estranhar a idéia de ser penetrados, mas acabam gostando.

Cada um dos meus submissos é diferente, por isso, tenho vários. Gosto de me encontrar com um de cada vez. Cheguei a me envolver com três simultaneamente. Já tive o masoquista psicológico, aquele que gosta de ser humilhado, de ouvir que é um incapaz; já tive o crossdresser; o doméstico, que cuida da casa para mim...

Os domésticos eu encontro na internet. Tenho uma amiga que só arranja escravo para limpar a casa dela. Ela tem faxina de graça e, às vezes, nem faz nada com eles. Depois de tudo limpinho, manda os caras embora. É raro, mas se aparece um gay querendo ser doméstico, aceito. Aliás, quando comecei a dominar gays, pensei: 'Será que estou dentro do armário, será que sou homossexual?'. Então conheci uma garota, que dominei por um ano. Foi bom, mas dobrar um homem me faz sentir muito mais poderosa.
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O tipo que me dá mais trabalho é o crossdresser, porque a carga psicológica da dominação é ainda mais pesada do que o normal. Eu não posso perder o controle, ele tem de ser tratado no feminino, ouvir que não serve para nada além de ser 'minha mulherzinha'. E não pode ser um teatrinho, ele tem de sentir a minha força, de verdade. Também não gosto de masoquistas. Digamos que eu resolva bater: pego meu chicotinho, dou três chicotadas e paro porque resolvi tomar um café. Um submisso aceita isso numa boa, já um masoquista não. Se eu não bater do jeito que ele quer, ele vai embora e não volta.
"Não atribuo a minha preferência sexual a nada, acho cretinice buscar respostas para isso. Esse é o meu gosto. Por que tem gente que gosta de feijão e gente que gosta de lentilha? Não quero me enfiar em consultório de psicólogo. Já fiz terapia, tive alta e nem falei de sexo"
Claro que me preocupo com a segurança, porque meus dominados se entregam totalmente. Tenho limites ao bater, que são estabelecidos assim: o parceiro me procura dizendo que quer uma dona e eu converso com ele para fazer o perfil. Digo que só gosto de bater até deixar vermelho. Se a gente se ententer, ótimo. A gente combina uma 'palavra de segurança', que não pode ter a ver com a situação, tipo 'pare' ou 'está doendo'. Tem de ser uma palavra que jamais apareceria na cena, como 'framboesa', por exemplo. Se ele estiver amordaçado, a gente combina um gesto. Se também estiver amarrado, combinamos um grunhido diferente. Mas submisso meu jamais precisou dizer a palavra de segurança porque eu nunca exagerei. Vou testando os limites aos poucos, principalmente se for a primeira vez dele. Mas se eu sei que não estou machucando e o cara usa a palavra de segurança, não saio mais com ele. Isso quebra o clima de sedução e de confiança entre a senhora e o submisso.

Já na dominação psicológica, vou fundo. O homem tem de achar que ele não é nada e que eu sou tudo. Se sei que ele tem um compromisso fixo, deixo que continue, desde que não faça jogos de dominação com a pessoa. Não estou tirando o espaço da outra, estou apenas ocupando um lugar vago. Não é traição. É até saudável que os caras tenham uma dona, assim eles não traem suas mulheres porque a dona não deixa. Quando vejo meus submissos na rua com a namorada ou a mulher, acho engraçado.

Sei que não sou fácil na cama. Posso exercer minha dominação, não ter penetração e mesmo assim ter orgasmo. Costumo deixar claro que, mesmo que eu peça 'por favor', nunca é um pedido, é sempre uma ordem. E isso vai além da cama. Na rua, eles beijam meus pés, me chamam de senhora o tempo todo e, se levam uma dura na frente do garçom, por exemplo, ficam calados. O jogo é esse mesmo.

Claro que também gosto de carinho, de conversa. Isso a cama dá. Às vezes só quero beijo na boca, cafuné e café na cama. E tenho isso com alguns com quem desenvolvo uma relação afetiva. Não é fácil acontecer, porque ter afeto não significa que eu não queira ser a dona do meu parceiro.

Nesses cinco anos, me envolvi emocionalmente duas vezes. E, há pouco tempo, vivi uma grande paixão. Só que ele não agüentou o tranco. Casado, me procurou pela internet. Quando nos vimos, bateu uma forte atração, sabíamos que ele era minha propriedade. Ele foi o único homem com quem pensei em morar junto. Dispensei alguns meninos ocasionais, fiquei só com ele e mais dois. Nos apaixonamos, ele acabou largando a mulher. Mas, um mês depois, acabou. Ele não agüentou a barra de se separar e ficar longe dos filhos. Saí dessa história machucada porque apostei tudo, a ponto de ter topado viver junto, dividir o mesmo espaço. Logo eu, que nunca tinha cogitado essa idéia.

Geralmente tenho os submissos com quem encontro de 15 em 15 dias no motel, e aqueles que se tornam meus parceiros, que vão à minha casa, conhecem minha filha. Ela sabe de tudo, temos uma relação transparente. Quando comecei a pesquisar na internet, contava as coisas para ela. Optei por ser uma mãe amiga, que não controla o horário nem fiscaliza a bolsa. Tive a preocupação de ensiná-la a respeitar as diferenças e não me acho maluca por isso. Nunca discutimos por causa da minha vida sexual. Ela apenas diz para eu não encontrar com desconhecidos em locais que não são públicos. O meu instinto de mãe aparece quando ela está triste ou não come direito, ou mata aula. Agora ela está sem namorado, está na fase de 'ficar' com os garotos. Somos companheiras, às vezes vamos juntas a boates.

Eu me considero careta em alguns aspectos. Drogas, por exemplo, sou contra. Não faço apologia disso, já passei pela fase do baseado, o problema é que as pessoas acabam indo do baseado para drogas mais pesadas. Também não acho legal fazer sexo a três, embora não me considere moralista. Imoral é mentir, roubar, passar a perna nos outros, ser violento gratuitamente. No sexo, imoral é a pedofilia [atração sexual por crianças]. Tudo é permitido, até as coisas que eu não faria, desde que as duas pessoas aceitem. Para isso, elas precisam entender o que estão fazendo, e uma criança não entende isso.
Atualmente estou com um só escravo, mas cheguei a ter 15 simultaneamente, incluindo os virtuais. Não transo com todos, só com os que me dão vontade. Perdi as contas de quantos homem já tive. Sei que já beijei mais de 500, eu adoro beijar! E, quando transo, não cobro nada. Não sou prostituta. Só exijo que eles paguem o motel, o restaurante e que cada um tenha seus próprios 'brinquedos'.

As pessoas pensam que BDSM é pura violência, mas é apenas uma fonte alternativa de prazer, que tem limites, medidas de segurança e fantasias combinadas entre os parceiros. Tem muito garoto de 18 anos na internet dizendo que quer fazer inversão de papéis e que nunca foi dominado. Ficou fácil encontrar submissos em chats. A coisa foi parar até na TV: a Claudia Abreu usa um chicotinho na novela das 8 ["Celebridade", da Globo].

Não atribuo a minha preferência sexual a nada, acho cretinice buscar respostas para isso. Esse é o meu gosto, a minha preferência. Por que tem gente que gosta de feijão e gente que prefere lentilha? Nunca senti culpa nem encanei que levo vida dupla nem tenho interesse de me enfiar em consultório de psicólogo. Aos 26 anos fiz terapia por oito meses, tive alta e nem falei de sexo. Fiz porque estava amargurada com a vida, pelos dramas existenciais que levam qualquer pessoa à terapia, como: 'Quem sou eu, o que estou fazendo neste planeta?'.

No ambiente profissional e familiar, as pessoas me consideram como aquela que nunca fez o tipo certinha, nada mais. Acho que é porque eu faço a linha doidona, exponho minhas idéias sem medo e não tenho preconceito com nada. Sou sindicalista, luto por um mundo melhor para todo mundo. Sei que as pessoas me acham liberal, só não sabem o quanto. Já comentei com um amigo que eu achava especial e ele recebeu mal, disse: 'Nunca me convide pra ir à sua casa'. Fiquei magoada, a amizade nunca mais foi a mesma. Não cheguei a perder nenhuma amizade, mas algumas enfraqueceram quando eu contei. No trabalho, duas amigas sabem e acham engraçado, ficam meio assustadas, querem saber como funciona, pensam que a coisa se limita a bater. Elas não entendem a complexidade de um jogo de dominação, mas eu também não me esforço pra explicar.

Não falo disso com mais ninguém. Sou discreta. No meu tempo livre, gosto de ler ficção, comer bem, encontrar amigos e dizer o que penso, sem meias palavras. Minha idéia de felicidade é estar bem com minha consciência, ver minha filha bem, amar e ser correspondida -o que não é fácil, porque sei muito bem o tipo de homem que quero.
Gostaria de ter uma relação estável. Quero um homem que queira uma dona e que possa passear comigo em horário nobre; que não seja casado, para eu não ter de me preocupar em não deixar marcas na pele dele. Mas sei que não vou encontrar esse homem numa festa. Se vejo um cara charmoso na rua, penso logo na energia que vou ter de gastar para saber se ele é mesmo quem eu procuro. O máximo que acontece é a gente conversar, dar uns beijos e, quando digo que gosto de fazer papel de homem, eles saem correndo."
Depoimento a Fernanda Cirenza
* Todos os nomes foram trocados a pedido da entrevistada
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