Header Ads

Como fica a relação quando os papéis sexuais são indefinidos ou trocados?

The image “http://br.geocities.com/crossdresserbr/images/fotos/marieclaire/marieclair114.gif” cannot be displayed, because it contains errors.

MARIE CLAIRE

Textos e fotos extraídos do site da Revista Marie Claire. Foram colocados aqui em razão da possibilidade dos editores tirarem a matéria do ar para dar lugar a outras.


CASAIS UNISSEX

Eles dividem sonhos, a rotina e também a lingerie. É assim o casamento de mulheres que escolheram como parceiros um travesti ou homens que, apesar de se definirem como heterossexuais, adoram usar salto alto e vestido. Como fica a relação quando os papéis sexuais são indefinidos ou trocados?

Por Eliane Trindade

Fotos: Everton Ballardin

LIANE E SUSSU

Meu Marido de Batom

The image “http://br.geocities.com/crossdresserbr/images/fotos/marieclaire/liasussu.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.

A voz no interfone é grave. A distância do corredor até a entrada da casa, uma típica residência de classe média em São Paulo, é curta. Lia atende a porta. Veste um elegante conjunto de minissaia e blazer pretos, camisa branca e meia-calça. De salto alto, maquiagem pesada e cabelos longos cuidadosamente arrumados, faz o papel de anfitriã. Oferece uma bebida e explica que Su, a dona da casa, se atrasou e deve chegar logo. Tudo aparentemente dentro do script, se Lia não fosse um recatado pai de família. "Me visto assim, mas não desmunheco nem faço voz de bicha", corta, seco. A peruca e as roupas femininas – que ocupam um terço do armário dele, um executivo de uma multinacional italiana – são usadas em casa e em festas privê. Lia é porta-voz de uma espécie de liga paulistana de Crossdresser (CD), que reúne homens que cultivam o hábito de se vestir de mulher. Entre eles, os populares travestis e drag queens, mas também heterossexuais. Lia afirma se enquadrar na última categoria. É pai de três adolescentes (frutos do primeiro casamento), que desconhecem a secreta identidade paterna.

Lia divide a fantasia e o guarda-roupa com a atual mulher, Su, com quem está casado há quatro anos. Ela/Ele jura de pés juntos que nunca sentiu desejo por homens nem quer mudar de sexo. E, para encerrar o assunto, conta com o aval da companheira: "Ele é muito macho", garante Su, que se desculpa pelo atraso e participa ativamente da conversa. Ela fica completamente à vontade ao lado do marido travestido. "Se chego em casa e ele está vestido como homem, percebo de cara que há algum problema", relata. "Agora, quando ele se veste de mulher, está feliz."

Durante o dia no escritório, Lia (ele concordou em falar desde que sua identidade masculina não fosse revelada) usa terno e gravata. No entanto, preserva algo do seu mundo feminino: as calcinhas. Ele não usa cueca – só tem duas –, que coloca sobre a lingerie quando vai jogar futebol com os amigos. As vestes masculinas estão confinadas em um canto do armário. O espaço maior é ocupado por vestidos de noite, camisolas, minissaias, blusas. Modelos mais exuberantes e sexy dos que os usados por Su, que faz um estilo clássico. Ela tem 28 anos, é secretária executiva, formada em Letras. Só descobriu a exótica preferência do parceiro quando o flagrou com as unhas dos pés pintadas de rosa. Depois do susto e de muita conversa, a fantasia hoje é compartilhada.

A primeira calcinha

Lia, um homem de 37 anos, resume sua rotina como Cross Dresser: "Em casa estou sempre vestido de mulher. Coloco até sutiã e uso duas próteses de silicone como enchimento. Se eu pudesse sair na rua assim e não fosse apontado como um ET, usaria roupas femininas no meu dia-a-dia. É com elas que me sinto mais confortável. Gosto de estar assim, de saia e saltos altos. Não é uma fantasia de me transformar em mulher. As roupas não implicam um lado sexual. Para mim, estou normal quando me visto assim. Quando estou vestido com as roupas da Lia, é como se desse férias ao meu lado masculino. Fico mais sensível. Isso começou na infância. Assistia a desenhos animados e me identificava com os personagens femininos. Comprei a primeira calcinha aos 14 anos e joguei fora quando arrumei uma namorada. Cheguei a achar que fosse gay ou que era doença. Mas nunca senti atração por homens. Me defino como um hetero, que às vezes se veste de modo não-convencional".

Su, com voz suave e pausada, também dá seu ponto de vista: "Nas primeiras vezes que dormi na casa dele, notei que havia algumas roupas de mulher no armário. A primeira coisa que pensei foi: 'É um garanhão'. Na cama, ele foi uma agradável surpresa. O sexo é sempre muito bom. Só percebi algo de estranho quando vi as unhas dos pés dele pintadas. Pressionei e ele acabou contando que gostava de se vestir como mulher. No início fiquei grilada. Aos poucos, fui relaxando, porque ele não precisa estar travestido para ter uma ereção. Quando ele me mostrou os sites na internet e acompanhava os bate-papos nos chats, só tinha gays e travestis, mas fui me inteirando de que existem outros homens como ele. Tenho plena confiança em sua masculinidade. Por isso, topo participar desta fantasia. Não é a roupa que define a sua sexualidade. O fato de ele se vestir de mulher é uma coisa reservada, da nossa intimidade. Não conheço outra mulher que aceite com totalidade essa situação, como eu. Me integrei ao grupo de CDs, vou às festas e tenho curiosidade sobre eles. Procuro não ficar fazendo leitura de nada, vou vivendo. É uma coisa que me alegra e diverte. Acho saudável, não tem putaria. Tampouco sou lésbica. Nunca tive fantasias de transar com uma mulher. Vivo a dele e estou adorando. Tanto que, quando vamos pra cama, a senha é: 'Vamos brincar?'".

Lia e Su não estão sozinhos nessa "brincadeira". Em São Paulo, pelo menos outros 30 homens participam das reuniões e se intitulam Cross Dresser. A maioria é homossexual. Entre os hetero, há poucos solteiros. Quase todos têm mulher e filhos. "Não fique surpreso se descobrir que aquele seu chefe metido a machão adora colocar cinta-liga e batom", diverte-se Lia. Ele cita o exemplo de "Betinha", sua melhor amiga: é casado, tem filhos e a mulher sabe que é um CD, mas não lida bem com a situação. Lia mostra o álbum de fotos das reuniões, aonde todos chegam à paisana, com suas roupas de trabalho, e aos poucos vão se montando. Em questão de minutos, começam a brotar Marilyns, Lisa Minellis e outras mulheres exuberantes. Na internet, pululam sites de Cross Dresser. Pela rede, Lia descobriu que não estava sozinho e que suas preferências tinham até nome.

"Foi uma alegria saber que existem outros CDs. Isso foi há três anos, quando entrei em um site de busca procurando por páginas GLS e me deparei com um clube – o Brazilian Cross Dresser Club – com mais de 600 sócios. Devorei a biografia das meninas do BCC. Liguei imediatamente para Su e pedi que ela também acessasse a página: 'Você vai ver que eu não sou veado'. Me associei e passei a ir a reuniões e festas. Batemos papo e colocamos roupas de festa maravilhosas. Mas o melhor dos encontros é sujar o copo de batom."

Su participa de algumas reuniões. "O primeiro encontro com o grupo foi estranho, me senti um peixe fora d'água. Depois, fui ganhando confiança e até passei a ajudar alguns a se vestir de mulher. Tentei me filiar a um clube americano que reúne mulheres de CDs. Mas desisti. Elas só pensam em debater a questão. Ficam todo o tempo querendo respostas. Só que cada um tem um modo de pensar e de agir. Também não consegui me entender bem com as mulheres dos CDs brasileiros. A maioria é dona de casa, que prefere fazer de conta que não está acontecendo nada."

Teorizar sobre relacionamentos como o de Lia e Su é mesmo difícil. A psicanalista Anna Elisa Güntert, professora da PUC, de São Paulo, trabalhou com avaliação psicológica de transexuais e sabe que não dá para generalizar. "As relações são muito únicas", pondera. "O que se pode concluir desses amores é que houve um conluio de fantasias, que até pode durar a vida toda."

GABI E LOU MOREIRA

Juntos há cinco anos, Lou Moreira, uma paulista de 42 anos, e Gabi, um belo travesti 15 anos mais jovem, vivem um desses amores unissex. Eles ainda não encontraram uma categoria para definir a própria relação. Gabi leva na carteira de identidade o nome de Carlos José de Souza. Com uma peruca loira que realça sua tez clara, lentes de contato verdes, plataforma salto 20 e roupas sexy, ele sobe no palco, onde se transforma em Gabi, a Bionda. É como transformista que ganha a vida, encarnando personagens como Madonna. Em casa, surge o Carlinhos, como é tratado na intimidade. "Não somos mais passíveis de definição", avisa Lou. "Me apaixonei por um ser humano, que tecnicamente é homem, o que nos tornaria, em tese, heterossexuais. Mas não é tão simples, vivemos um terceiro momento."

Traição à causa

The image “http://br.geocities.com/crossdresserbr/images/fotos/marieclaire/tvlesbica.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.

O casamento de um travesti com uma mulher é visto como cena do apocalipse até no próprio meio GLS. O preconceito vem de todos os lados. No mundo gay masculino, Gabi é apontada como traidora da causa: se montou para ficar com homens e acabou virando "bolacha" (sapatão). As lésbicas não entendem a opção de Lou, que se assumiu desde a adolescência e chegou a militar no movimento. Não aceitam o fato de que, ao se apaixonar por um travesti, a ex-integrante do Grupo de Ação Lesbo-Feminista é feliz hoje no papel de dona de casa que faz comidinha para o marido. E mais: Lou não abre mão da porção masculina de Gabi. Os heterossexuais também tentam rotular o casal. "Os mais conservadores vêem a nossa relação como uma regeneração e não é nada disso", emenda a Bionda.

Gabi e Lou levam no corpo as marcas da relação. Em 1996, tatuaram na mão a letra inicial do nome de ambos, simbolizando uma aliança eterna. Foi uma resposta à Igreja Católica. Eles tentaram se casar no religioso, mas a questão foi levada ao Tribunal Eclesiástico, que suspendeu o casório e estipulou um prazo de dois anos para que os noivos voltassem ao normal.

Ou seja, para subir ao altar, Gabi teria que tirar o silicone e passar a se vestir como homem. Eles levam uma vida de casal classe média. Lou já foi roqueira e empresária da noite, mas hoje é a produtora de Gabi, que também é taróloga. As tarefas domésticas são divididas. Gabi é a mulherzinha da casa, gosta de arrumar tudo, mas é um desastre na cozinha. Lou reina entre as panelas. É uma cozinheira de mão-cheia, tanto que o maridão engordou 15 quilos depois do casamento. É ele, ou melhor, Gabi, quem conta como essa história começou: "Foi numa festa GLS. Eu estava montada: de saia xadrez, meião, fazendo um estilo 'colegial francesa'. Lá, me deparei com a Lou e pensei: 'Que bicha é essa?!'. Logo depois, percebi que era mulher e fiquei mais interessada ainda. Nos encontramos no banheiro e fui ao ataque. Coloquei os meus peitos siliconados pra fora e brinquei: 'Pega! É igual ao de mulher'. Imaginei que, se ela fosse uma sapata convicta, iria perder o rebolado. Aí, ela pegou. Tremendo, mas pegou. Lou é tímida, às vezes se sente mocinha. Começou a rolar um clima. Só que ela estava namorando uma mulher, há um ano. Eu também tinha um caso com um cara. Mesmo assim, começamos a sair e um mês depois assumimos a relação e não nos separamos mais. No primeiro mês não rolou cama, só trocamos beijinhos".

Com olhar nostálgico, Lou também se recorda daquele começo: "Foi muito especial. Um dia antes, eu pedi para ele: 'Tira a roupa'. Eu precisava vê-lo nu antes de transar, pra eu encarar aquilo com naturalidade. Ele tirou e colocou as roupas rapidamente. Ficou tímido. No dia seguinte, quando aconteceu, foi maravilhoso. Naquele momento, eu tive certeza: isso é amor. Todas as tentativas anteriores de transar com homem não foram legais. Da minha parte, a coisa não ia. Com a Gabi foi diferente, apesar de ter ficado assustada na hora. Também não foi como transar com uma mulher. Não foi só sexo. Eu já tive sexo com homens antes e não senti prazer. Com a Gabi foi prazer do começo ao fim. Quando a vejo montada, a minha fantasia não é sexual. O legal é saber que por trás daquela maquiagem e daquilo tudo tem um homem. O que me atrai nela não é a estética feminina, mas sim a sua feminilidade. Eu sou muito masculina. Então, me apaixonei por esse homem feminino".

Homem 2000

O ciúme também é ao quadrado, já que apontado para os dois sexos. "Foram altos barracos, sempre por ciúme de homem e de mulher, e isso valia para ambos", recorda-se Gabi. Elas garantem que isso é passado. Lou, no entanto, ainda se incomoda diante do modo como os homens tratam os travestis. "Para eles, travesti é puta. Já chegam com tudo", irrita-se. "Aí, eu boto o cara pra correr." Mas admite que hoje tem mais ciúme de mulher: "Elas caem matando pra cima da Gabi".

O casal está reformando a casa e pensa em ter um filho. "Estamos investindo todo dia, mas a Gabi tomou cargas fortíssimas de hormônios femininos, o que diminui a quantidade de esperma", explica Lou. Para conseguir engravidar a parceira, Gabi vai precisar tomar hormônios masculinos. Só que isso significa a volta dos pêlos, incompatível com o transformismo. "Vamos esperar uns três anos", adia Gabi. Como Lou está correndo contra o relógio biológico, se não der, pretendem adotar uma criança. Gabi já é pai de um garoto de 7 anos, que vive com a mãe. "Sou um travesti lésbica, reincidente", brinca. Gabi viveu com a ex-mulher até o bebê completar 3 meses. "Não tenho uma boa relação com a minha ex-mulher. Faz mais de um ano que não vejo meu filho. Quando vou visitá-lo, coloco um boné e camisa para tampar os peitos. Ele me chama de 'papai-Xuxa', pois já me viu na televisão." Com tantas nuances, a história de Lou e Gabi vai virar livro. "O mais difícil e o mais maravilhoso da minha relação com a Gabi foi o encontro com a mulher que eu sou", resume Lou. Gabi usa as mesmas palavras e diz ter encontrado um ser masculino dentro de si. "Um homem do ano 2000: com peito e cara de mulher, mas um grande homem."

ADELE E MARISOL

"É difícil amar alguém desejado por homens e mulheres"

A italiana Adele Caprio viveu uma intensa história de amor com um travesti brasileiro. O romance acabou. Ficou a nostalgia

The image “http://br.geocities.com/crossdresserbr/images/fotos/marieclaire/tvmulher.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.

"Quando saiu um artigo no jornal mais lido da Itália com uma foto minha e de Marisol, no dia 9 de janeiro de 1997, nossa vida virou de cabeça para baixo. Me apresento: sou Adele Caprio, jornalista e dramaturga. Atualmente, trabalho como diretora no mundo do espetáculo, em Roma. Naquela época tinha 35 anos e dirigia o telejornal de maior audiência da televisão italiana, o 'TG 5'. Oito meses antes da reportagem, havia conhecido Marisol, um travesti brasileiro. Foi amor à primeira vista: me apaixonei de um modo irracional, como só o amor pode ser. Nos conhecemos no dia que cheguei ao meu novo apartamento. Sua beleza exótica me chamou a atenção, assim como seu olhar quase infantil. Disse um 'Oi', perguntei qual o seu nome e ele respondeu: 'Mauro', e saiu correndo. Não o vi durante semanas. Até que uma amiga me contou que uma tal de Marisol tinha gravado em vídeo o desfile Miss Trans, para o qual fui convidada, mas não pude ir. Foi aí que descobri que Marisol era Mauro.

Fui a sua procura e bateu a dúvida: como chamá-lo? Concluí que era melhor não usar nome nenhum. Falei do vídeo e ele me convidou para assistir na mesma hora. Mauro subia a escada na minha frente, em silêncio, quando de repente se virou e disse: 'Fique atenta, eu gosto de mulher'. Respondi: 'Não minta... e depois, o que me importa?'. Entramos no seu apartamento. Fomos para o quarto, onde estava o vídeo. Logo que começamos a assistir, a tensão entre nós já se fazia sentir. Minha atenção se concentrava nele ali ao meu lado. Mauro começou a acariciar meus cabelos e eu retribuí. Deixei a racionalidade de lado, quando ele sussurrou: 'Faz muito tempo que não faço amor com amor'. As suas palavras tocaram fundo. Não podia nem queria escapar. Fazer amor com Mauro foi uma experiência absolutamente maravilhosa. Ao final, ele me perguntou docemente: 'Quer ser a minha namorada?'. Devolvi a pergunta: 'Você tem certeza de que quer uma namorada?'. Ele disse que sim.

Naquela madrugada, ele me ligou e pediu para que eu fosse até o estacionamento. Chegando lá, não reconheci a figura alta, elegante, de salto alto e longos cabelos negros. Era Marisol. Com o coração aos pulos, eu a abracei. Um mês depois, decidimos morar juntos. Obviamente, o nosso jamais foi um amor idílico. Mil e um problemas para resolver a cada dia, nada mais, nada menos do que acontece com qualquer outro casal. De Marisol, amei a sensibilidade feminina, o senso artístico, o modo de se vestir e se maquiar, a alegria e a filosofia de decidir dia a dia o que fazer da própria vida. Paradoxalmente, o seu lado feminino estimulou a minha feminilidade: passei a me cuidar mais. É claro que tive crises de identidade. Me questionava como podia amar um homem que se vestia de mulher. Até me perguntava se não era lésbica. Procurei um psicólogo. Este médico iluminado simplesmente me disse: 'Adele, você desde pequena lutou pela sobrevivência e isso a fez desenvolver mais o lado masculino. Aprenda agora a desenvolver a feminilidade'. E foi o que aconteceu ao lado de Marisol.

Com Marisol vivi um período de alegria e de dor, como em todos os relacionamentos. Chegou também o momento do adeus, depois de um ano de convivência. Mentiria se dissesse que viver com um travesti é uma vida 'normal'. Nada é fácil ou de graça: é tudo uma conquista. Alugar um apartamento juntos não foi difícil: o fiz em meu nome, porque tinha referências. Mas a síndica não gostou de Marisol e fez um monte de confusão. Chegou a chamar a polícia para nos fiscalizar. Os policiais pediram nossos documentos e, como não encontraram nada de irregular, nos deixaram em paz. São muitos os episódios que me vêm à mente quando recordo nossa vida em comum. Um dos mais divertidos era fazer compras juntas. Nos divertia escolher o mesmo vestido, de números diferentes, e depois ver a cara de espanto das vendedoras. O maior problema que enfrentei com Marisol foi o meu ciúme. Reconheço que sou uma mulher muito possessiva, mas posso assegurar que é de fato muito difícil amar uma pessoa que é admirada e desejada tanto por homens quanto por mulheres. No início, essa coisa me fazia rir e até experimentava um certo tipo de orgulho. Com o passar do tempo, a atmosfera entre nós foi se tornando cada vez mais pesada. Marisol percebeu que este era o meu ponto fraco e jogava com o meu ciúme de maneira cada vez mais pesada. Até que a corda arrebentou: uma noite, em uma discoteca, ela começou a flertar com um rapaz na minha frente. Eu fiz uma cena e brigamos furiosamente. Aquilo me fez tão mal que decidi deixá-la. Eu sou assim: mergulho de corpo e alma nas coisas em que acredito, mas, uma vez decidido, sou determinada e não volto atrás.

De ponta-cabeça

Agora, depois de três anos, posso fazer um balanço daquele período mágico que foi a minha vida com um travesti. Estou casada com um homem italiano e acabo de me tornar mãe de uma garotinha, de 4 meses. Eu gostei muito, muito de Marisol. Tive vontade de me casar com ela, de ter um filho. Mas o destino não quis que isso acontecesse. O fato de tê-la encontrado já me fez feliz. Amar um travesti gira de ponta-cabeça a tua vida (na família, no trabalho, os amigos, todos te criticam). Mas mexe também com a tua cabeça, pois modifica toda uma série de regras que nos são impostas desde cedo: a divisão (arbitrária) entre masculino e feminino, entre bons e maus, entre belos e feios. O amor não vê essas divisões. O amor é uma energia positiva que não faz distinção entre os seres humanos.

Depois desta experiência, posso afirmar que não existem nem heterossexuais nem homossexuais. Existem somente seres sexuais. A coisa mais importante é amar com o coração. O sexo é somente um meio para comunicar este amor. Como será essa comunicação amorosa é secundário. Esta tese central que sustenta o livro que escrevi sobre a minha experiência: 'Viados non é un luna park. La mia vita con le trans'. Hoje, não tenho mais tantas oportunidades de me encontrar com Marisol e outros travestis que são meus amigos. A minha vida tornou-se um pouco mais... melancólica. A alegria e a vontade de viver que eles irradiam são contagiosas. É impossível esquecê-los."

Nenhum comentário