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Procure entender os 10 “D” da transgeneridade

CRISES PESSOAIS: OS 10 "D" DA TRANSGENERIDADE

Por Letícia Lanz - www.leticialanz. org


Crises pessoais são inevitáveis na vida de qualquer pessoa que se aventura mais fundo na descoberta de si mesma e aceitar-se como transgênero é a crise mais profunda que um homem pode experimentar.

Todo mundo sabe que, uma vez "aceso o sinal" da transgeneridade, ele jamais se apaga. O desejo de se travestir pode variar em intensidade e freqüência, mas não desaparece. Quando eu pensava que jamais voltaria a pensar em me travestir, depois de uma purge que já durava mais de quinze anos, redescobri o desejo depois de um trauma existencial grave. Traumas normalmente "remexem" todas as camadas de "lixo" existencial acumulado, assim como um terremoto remexe as camadas do solo. E tudo que estava aparenetemente acomodado, volta à superfície, torna-se "ferida exposta", exigindo cuidado e atenção.



É preciso entender que, na maioria absoluta dos casos, o desejo de se travestir é um fenômeno psicossocial extremamente complexo e de repercussões extremamente graves e profundas na vida de uma pessoa. Aquelas pessoas que estão sendo movidas pelo desejo de se tornarem, ainda que temporariamente, membros do gênero oposto, estão experimentando o que chamamos de “processo disfórico”, isto é, um sentimento de inadequação em relação a si mesmo, que pode variar de uma simples insatisfação com a própria aparência (masculina) até uma insatisfação profunda com a própria genitália. Em qualquer grau de intensidade, a disforia pode produzir níveis de sofrimento psíquico quase insuportáveis.

Um aviso que sempre dou às pessoas que repentinamente “se descobrem” transgêneras: CUIDADO COM O QUE COMEÇAM E COMO COMEÇAM pois, se você não tem idéia clara do terreno onde está pisando, inevitavelmente, os tombos vão se tornar muito mais freqüentes dos que as pingas...

Longe se ser apenas um “vício de caráter” ou uma leviandade, como muitas pessoas ainda consideram, o travestismo contém uma tremenda carga de energia vital, uma carga tão forte que, se mal administrada, PODE FACILMENTE DESTRUIR A VIDA PESSOAL (física e mental) E SOCIAL DE QUALQUER PESSOA!!! Os suicídios entre transgêneros ocorrem num percentual muitos pontos acima da média de ocorrência na população cisgênera.

O problema é que a maioria começa a lidar com o seu travestismo num total oba-oba, olhando apenas para as “pingas”, para a sedução maravilhosa que pode exercer num homem a figura feminina, em todos os sentidos. A maioria se traveste como se isso fosse tão somente um simples e delicioso passatempo, fazendo questão absoluta de desconhecer a quantidade absurdamente alta de "energia vital" concentrada nesse desejo. Porém, mais cedo ou mais tarde, vão ter que descobrir o “lado sinistro” da força descomunal que é a transgeneridade.

Procure entender os 10 “D” da transgeneridade:

Descoberta

Descompressão

Deslumbramento

Decepção

Depressão

Desespero

Desmistificação

Depuração

Definição e Decisão

Desenvolvimento

1 – Descoberta

Para muitas de nós, ocorre ainda na primeira infância, quando as roupas, objetos, brinquedos, passatempos e posturas do universo feminino começam a exercer sobre nós uma atração invulgar para a nossa condição de meninos. É quando a gente começa a se sentir dividida entre as demandas sociais que nos são impostas pela nossa condição de homens e as demandas do nosso corpo e da nossa psiquê. Esse também é um conflito que para a maioria jamais será nem ao menos equacionado, quanto mais superado.

Já na fase adulta, a descoberta em geral se manifesta através de uma curiosidade intensa pela vida de homens que conseguiram cruzar a barreira da masculinidade e ingressar no universo feminino. Crossdressers e Travestis assumidos, assim como Transexuais, exercem um desmedido fascínio nas pessoas transgêneras. E não se trata do mesmo fascínio que, pela sua ambigüidade, exercem sobre o público masculino em geral. Trata-se da vontade de íntima da gente se tornar um deles.

A descoberta é dura, sob todos os aspectos e sob todos os pontos de vista. Por isso mesmo, muitos transgêneros “desistem” daqui mesmo, antes de tentarem qualquer outro passo, recalcando o impulso transgênero para as profundezas do inconsciente.

Muito poucos se deixam levar pelo impulso ainda na infância, assumindo abertamente seu desejo pelo universo feminino e vivendo, ainda muito cedo, todos os numerosos conflitos dessa “inclinação”.

Mais alguns poucos se rendem, em algum momento de suas vidas, e baixam as espetaculares “defesas” que constroem para protege-los dessa inexplicável motivação em querer vestir-se e/ou comportar-se como mulher, sendo homem.

A maioria, entretanto, passará toda a sua existência mantendo essa motivação duramente recalcada, sem se permitir jamais trazê-la à tona.

2) Descompressão

Quando a pessoa se rende à descoberta da sua transgeneridade, invariavelmente sua primeira ação é vestir-se como mulher e olhar-se no espelho. Muitas se masturbam, ao se verem numa condição em que sempre desejaram secretamente estar, produzindo orgasmos da maior intensidade.

Embora quase todos os homens tenham, vez por outra, uma eventual curiosidade a respeito de como seria vestir-se e portar-se como mulher, na fase de descompressão o transgênero começa a fazer isso como um ritual, de maneira quase compulsiva. Ele passa a associar o estar como mulher a um estado de intenso prazer existencial, que não se esgota no simples orgasmo. Começa a sentir um desejo de continuidade desse estado e de repetição, que pode evoluir para um desejo intenso de permanência.


O transgênero verdadeiro não se contenta com a “visão do espelho”. Seu travestismo não tem o caráter puramente fetichista que pode ter para um homem qualquer ao se ver no “espelho do armário”, travestido de mulher. Ele quer, necessita, deseja ardentemente ir além do espaço do armário. Precisa apresentar-se como mulher ao mundo e quer que o mundo o reconheça como tal.


Portanto, um desdobramento natural da fase de descompressão é a saída do transgênero para o mundo. Para um transgênero, a sensação de sair “montada” às ruas, “com todo mundo te olhando” (ainda que, na verdade, ninguém esteja nem aí pra você...) é uma das coisas mais recompensadoras e fascinantes na vida. Como constam de todos os depoimentos de quem sai pela primeira vez, não há como descrever a sensação sentida, assim como vale todos os preços e sacrifícios pagos.

Pode-se avaliar a dor imensa de uma pessoa, verdadeiramente transgênera, “prendendo” esse desejo indefinidamente, em nome da manutenção de uma fachada social aceitável. A energia bloqueada, mais cedo ou mais tarde, vai se manifestar, na forma de um câncer ou de um surto psíquico.

3) Deslumbramento

É a fase que segue à saída do armário, quando tudo parece flores e a sensação de profundo bem-estar parece que não vai se esgotar nunca, ainda que a saída ocorra em caráter eventual e furtivo.

Aqui existe uma outra distinção radical entre o impulso eventual de qualquer homem em se vestir como mulher e o desejo profundo de um homem transgênero em ser/estar mulher.

As “deslumbradas”, adjetivo comumente dado às meninas recentemente saídas do armário, deleitam-se com tudo que vêm, com tudo que vivem pela primeira vez. Por falta de direcionamento, de saber realmente quem são e o que estão vivendo, a maioria se deixa levar pelo prazer intenso, misturando, inclusive, satisfação sexual e transgeneridade, como se fossem uma coisa só.

Baladas, saídas, encontros, fotinhos e comprinhas se tornam o centro da vida. Não se pensa em mais nada do que na maravilhosa sensação de se ter as pernas e as axilas depiladas ou na roupa maravilhosa que vamos usar na próxima saída...

A maioria exagera mais do que pode na fase do “deslumbramento”. Como diz o ditado, “quem nunca comeu melado...”

Em geral, o “deslumbramento” leva o crossdresser a sentir-se “poderosa” demais - e totalmente invulnerável. Pouca cuidam para viver a fase de deslumbramento com algum planejamento e organização. Assim, vão deixando rastros e pelos-na-cerca”, dezenas de “pequenos problemas” que, a médio prazo, poderão se transformar em infernos de Dante. A maioria, em pleno deslumbramento, mantém sua prática em segredo, na convicção de que, se fizerem “tudo direitinho”, nunca a mulher, a namorada, a esposa, a família ou os amigos notarão “nada de diferente”... O problema é que, praticando crossdressing, não há como fazer tudo direitinho sem deixar vestígio...

O deslumbramento pode durar muito tempo ou acabar-se rapidamente. Como pode fazer a crossdresser querer estender ao máximo a sua duração, recorrendo ao uso de estimulantes, álcool e até drogas mais pesadas. Em pleno oba-oba, vale tudo, até sexo inseguro e uso indiscriminado de hormônios.

4) Decepção

O fim inevitável de todo deslumbramento é a decepção ou “desgosto” que surge das mais diversas fontes e nos momentos mais insuspeitos. A decepção é um “choque de realidade” na grande fantasia de ser mulher de um homem transgênero.

Invariavelmente, uma dessas fontes é o espelho. Paradoxalmente, a imagem projetada e as fotos, que foram grandes fontes de satisfação na fase de deslumbramento, transformam- se, de uma hora para outra, em carrascos implacáveis. A gente se olha no espelho e não encontra mais aquela antiga satisfação de se ver “vestida de mulher”. Não há mais aquela incrível sensação de bem-estar que havia no início da fase de deslumbramento, em que uma simples “saia com blusinha”, um tamanquinho de madeira, e um batom, comprados na C&A, eram capazes de fazer a festa.
Na verdade, a fonte dessa decepção não é o espelho ou as fotos, mas o “olhar crítico” da “mulher interior”, representante implacável do ideal de mulher que cada homem tem dentro de si e que o transgênero é inexplicavelmente compelido a vivenciar “na própria pele”:
- como me falta cintura!

- onde estão os meus seios?

- essas sombrancelhas. ..

- como minhas pernas são musculosas!
- e esse “cinza” que ficou sob a maquiagem? Que vergonha!
- pra que tanto ombro!

- olha só os meus lábios... fininhos...

- e essas “ruguinhas”?...

É essa decepção com o próprio corpo, e a tentativa de manter o deslumbramento em alta, que leva, quase sempre, à intensificação da compra de roupas, calçados e adereços, à realização de laser e/ou ao uso ou à intensificação do uso de hormônios, vistos como solução milagrosa para todos os nossos “aspectos faltantes” de mulher. No caso dos hormônios, a maioria se vale de contraceptivos e anti-androgênicos (remédios anti-masculinizante s) “receitados” em algum site da internet ou aprendidos de alguma outra “menina veterana”. E as conseqüências desse uso inadvertido podem resultar em decepção ainda mais dramática.

A decepção também costuma ser provocada por uma casual descoberta, por terceiros, da nossa condição de travestista. Nessa hora, todo o castelo de ilusões vem abaixo, com muito choro e ranger de dentes. A decepção é ainda maior se há uma esposa ou namorada ou parente ou colega desumano e incompreensivo, disposto a transformar o evento num grande “rebu”.

Depois de uma descoberta indesejada, muita gente costuma voltar para a vida no armário, num processo de recolhimento voluntário que chamamos de “purge” - ou purgamento. “Purges” acabam resultando em “Urges”, com novas fases de deslumbramento e decepção, num processo interminável de convivência nada saudável com a própria transgeneridade.

Mas as que enfrentam as decepções de peito aberto também não ficam, pelo menos no princípio, em melhores condições do que aquelas que voltam espavoridas para a segurança dos seus armários. Diante da decepção,Tanto voltar para o armário quanto seguir adiante causa muita depressão.

5) Depressão

Depressão é o sofrimento provocado uma aguda sensação de impotência e menos-valia. Num quadro depressivo, a pessoa se sente um lixo, totalmente incapaz e, pior ainda, indesejosa, de lidar com suas próprias dificuldades e limitações.

Os que voltam para o armário, recebem a depressão de modo totalmente conformado, como o preço pago para recuperar a segurança e não seguir adiante, enfrentando potencialmente decepções ainda maiores

Para os transgêneros que compreendem o estado de depressão como uma fase a ser vencida, serão impostos uma série de desafios, muitos dos quais a pessoa está totalmente despreparada para enfrentar. É nesse momento que muitas pessoas transgêneras procuram ajuda médica e/ou psicoterápica. Poucas, entretanto, conseguem encontrar a ajuda adequada de que realmente necessitam, seja pela dificuldade de se abrirem com o médico ou terapeuta a respeito da sua condição, seja pela total inépcia da maior parte dos profissionais de saúde (física e mental) em lidar com a condição transgênera, por total desconhecimento do que esse fenômeno realmente é e representa na vida de uma pessoa.

A verdade é que a saída da depressão, para os que desejam seguir adiante (e sair do círculo vicioso de “urges” e “purges” é uma fase ainda mais terrível.

6) Desespero



Todas que resolvem seguir adiante, a despeito da depressão, têm que passar pelo “inferno astral” de toda pessoa transgênera que eu chamo aqui de “desespero”.

O desespero é um momento em que vemos tudo ruir à nossa volta. Nossas antigas crenças e valores já não nos servem mais e ainda não temos idéia nítida do que realmente somos ou poderemos vir-a-ser..

É uma fase de total desestruturação, em que são muito comuns as crises existenciais agudas, os surtos momentâneos de raiva e, naturalmente, até a vontade de acabar com tudo de uma vez só.

Mesmo vivendo a fase de desespero ao lado de uma S/O inteiramente solidária e participativa, e com o apoio honesto e seguro de uma analista freudiana, minha fase de desespero foi o pior momento que já passei em toda a minha vida. Havia dias de eu não ter certeza, pela manhã, se eu ainda iria estar inteiro à noite.

7) Desmistificação

A única saída para o desespero é a desmistificação total e radical do significado da transgeneridade em nossa vida. É quando eu comecei a compreender que o processo íntimo que eu estava vivendo estava muito longe dos conceitos e rótulos, interditos culturais e proibições morais que me tinham sido impostas desde a minha mais tenra infância. Desmistificar é desmascarar, para de mentir pra gente mesmo e encarar a nossa própria verdade, a despeito de tudo que isso possa representar pra gente mesmo e para os outros. Eu sou assim e pronto! E que se danem os rótulos que me impuserem. A vida é minha e só eu posso decidir como eu quero e vou vive-la. Tenho que arcar com o peso das minhas escolhas, por mais que elas me conduzam a becos sem saída ou sejam do total desagrado das outras pessoas.

Desmistificar é enxergar a realidade sem véus de qualquer espécie. É o momento da verdade na vida de um transgênero.

8) Depuração

Uma vez desmistificado processo para mim mesmo, a aceitação dele se torna uma simples conseqüência. Não é necessário mais nenhum esforço para me mostrar aos outros do jeito que eu sou, quando eu quiser que eles me vejam assim.

Depuração é, assim, a fase de separar o “joio do trigo”: o que eu quero do que eu não quero; o que eu posso do que eu não posso; o que eu sou do que eu não sou; o que eu gosto do que eu não gosto; o que eu estou disposto a enfrentar do que eu desejo me resguardar; o risco aceitável do risco inaceitável; o que é meu e o que é do outro, etc., etc.

Feita a depuração, com a limpeza e eliminação de tudo que está “sobrando” dentro do processo, eu estou apto para dar um grande salto qualitativo na vivência da minha transgeneridade.

9) Definição e decisão

A minha grande e inspiradora amiga Jorgete del Rio conclama a toda CD em começo de viagem que procure antes de mais nada definir, com a máxima clareza possível, o que realmente pretende ao se travestir.

Definir o crossdressing é estabelecer os alvos e os limites da sua jornada.

Uma boa maneira que encontrei de fazer isso, foi utilizando a velha e boa regra de planejamento de estabelecer o “que, quando, onde e como”.
1- Que: Com que propósito você se traveste? Você quer apenas representar o papel de mulher, de vez em quando, como expressão da sua ambigüidade, ou o seu desejo vai mais longe, ao ponto de querer ser e viver como mulher em tempo integral? Você pretende ser uma “lady” ou uma “vagaba”? Seu negócio é o glamour das altas rodas ou a “pista”? Você quer “dar” ou “impressionar”?

2 – Quando: Quando você deseja se travestir? De noite? De dia? Sempre? 24h por dia, 360 dias por ano?

3 – Onde: Onde você quer se travestir? Na rua? Em casa? Só em certos locais e eventos? Quais eventos?

4 – Como: De que forma pretende se travestir? De maneira aberta e escancarada, pra todo mundo ver e saber? De modo mais do que restrito, apenas para você e o seu espelho? Abrindo o jogo inteiramente para a esposa, aceite ela ou não, ou escondendo tudo dela, indefinidamente? De modo temporário ou de modo definitivo? Usando apenas recursos superficiais de roupa e maquiagem ou empregando laser, eletrólise, hormônios e cirurgias feminilizantes?



Uma fez feitas a definição do seu crossdressing, é tomar a decisão de fazer... e fazer!

Lembre-se que muitas coisas condicionam muitas outras coisas. Se você define que quer se travestir 24h por dia e 360 dias por ano vai ser totalmente impossível guardar isso em sigilo absoluto: - tem que abrir o jogo. Da mesma forma, se você decide que quer ter seios – e quer usar hormônios para isso – vai ter que abrir o jogo com um médico basicamente confiável, como também vai ter que se conformar em ter os seios aparecendo se, simultaneamente, decidiu que não quer viver 24h/360 dias como mulher.

10) Desenvolvimento



Esta não é, de maneira nenhuma, uma fase de culminância do travestismo. Da mesma forma que jamais poderá ser vista como uma etapa totalmente isenta de problemas e dificuldades.

Basicamente, a fase de desenvolvimento do crossdressing poderia ser vista como uma permanente reedição de fases anteriores, onde há, inclusive, lugar para aquela sensação inigualável do período de deslumbramento. A única diferença é que agora existe consciência do que está sendo feito, consciência do preço a se pagar para viver o que se deseja e, sobretudo, aceitação da transgeneridade como um aspecto básico da própria personalidade.

Agora eu sei que é impossível separar o ato de me travestir do restante do meu ser: - não se tratam de dois momentos separados e em conflito um com o outro, mas de dois aspectos de um único ser que sou eu, como ser integral, de carne, osso, mente e espírito.

Aliás, é apenas esse conflito de separação, que me foi imposto pela sociedade, que motivou toda essa difícil jornada de descoberta e aceitação da pessoa que eu realmente sou.

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