Uma Crossdresser Gordinha Complicada e Imperfeita

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Ser homem é uma vantagem no trabalho.

Pesquisa com transexuais mostra preconceito contra mulheres no trabalho

A socióloga americana Kristen Schilt concluiu que homens que se submetem à cirurgia de mudança de sexo perdem salário e poder na carreira. Já as mulheres que assumem sua identidade masculina experimentam uma ascensão profissional

Thiago Cid - Revista Época

 Reprodução

Cansada de tentar detectar o preconceito de gênero no ambiente de trabalho, a socióloga Kristen Schilt, da Universidade de Chicago, teve uma idéia para demonstrar como o sexo influencia a evolução da carreira e a folha de pagamento dos funcionários. Em parceria com o economista Matthew Wiswall, da Universidade de Nova York, ela usou as experiências de transexuais em seus ambientes de trabalho antes e depois da mudança de sexo. Com esse método ousado, ela tentou diminuir um dos principais problemas para estudar as discriminações relacionadas ao sexo: o fato de que elas, geralmente, são encobertas por outras justificativas, como formação ou critérios de desempenho e comprometimento. Segundo a pesquisadora, seu estudo permitiu comparar a situação de pessoas com exatamente o mesmo capital humano, porém de sexos diferentes.

Dentro de sua pesquisa, Kristen esbarrou em outro assunto mais polêmico e desconhecido do que a discriminação em relação às mulheres e que passou a ser seu foco principal: como é o ambiente de trabalho para os transexuais? Segundo a Organização Mundial de Saúde, a transexualidade um transtorno de identidade e se manifesta pelo desejo de viver e ser aceito como uma pessoa do sexo oposto àquele do nascimento. As pessoas transexuais, no entanto, acham ofensiva essa designação e contestam o uso do termo transtorno. Esse conflito entre o cérebro e o corpo tem início na gestação, quando a programação sexual do cérebro - que ocorre antes da formação dos órgãos sexuais - não corresponde ao sexo biológico. As estimativas são que um em cada 30 mil homens e uma em cada 100 mil mulheres têm esse conflito de identidade.

As conclusões da pesquisa de Kristen Schilt evidenciam, em parte, o óbvio. Segundo seu estudo, o ambiente de trabalho, assim como qualquer outro meio social, é um ambiente hostil. Mas outras percepções desafiam o senso comum e mostram o privilégio que o gênero masculino pode ter no mercado de trabalho.

Com base no relato de mulheres transexuais - que nasceram com o sexo biológico masculino, mas têm identidade feminina - e dos homens transexuais - que nasceram com o sexo feminino, mas têm identidade masculina -, a socióloga americana descobriu que, em média, as "novas" mulheres, homens que submeteram a uma cirurgia de troca de sexo, tiveram perdas de salário e de autoridade. Já os "novos" homens relataram um pequeno acréscimo nos rendimentos e mais autoridade entre os colegas.

Kristen exemplifica a situação com o caso do neurobiologista Ben Barres, da Universidade de Stanford. Ben nasceu Barbara e já tinha uma carreira acadêmica de sucesso quando decidiu fazer a transição de gênero. Ele relatou que certas pessoas que não souberam de sua mudança afirmaram que ele era muito melhor que sua irmã, Barbara. Para Kristen, o depoimento do neurobiologista é sintomático da visão machista no mercado de trabalho e ilustra os benefícios que os homens transexuais eventualmente podem ter.

A conclusão vai ao encontro da percepção da socióloga Berenice Bento, da UnB, autora dos livros A (re)invenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual e O que é transexualidade. Berenice afirma que, baseada nas pesquisas brasileiras, não é possível constatar os ganhos materiais dos homens transexuais, mas quase todos relatam um ganho subjetivo: liberdade. Segundo a socióloga brasileira, essa liberdade seria traduzida em aspectos do comportamento masculino. “É uma obrigação menor com a aparência, poder ter um certo desleixo para se vestir, poder andar sozinho à noite”, diz.

 Reprodução

Por outro lado, as mulheres transexuais freqüentemente não agüentam o preconceito e as agressões que sofrem durante o processo de transição de sexo. É o caso da militante transexual Carla Machado. Formada pela USP e com MBA em marketing, Carla largou o emprego de nove anos em uma multinacional por não agüentar a hostilidade no trabalho. Ela conta que, desde criança, sentia-se uma mulher e só se deu conta de que era um menino ao chegar à puberdade. Daí viveu um período que chamou de fase andrógina. Ela se vestia com roupas neutras e escondia a identidade feminina para conseguir terminar a faculdade e encontrar um emprego. Aos poucos, foi sentindo a necessidade de se libertar e começou a tomar hormônios. As mudanças, porém, não passaram despercebidas na empresa.

“Primeiro deixaram de me chamar para as reuniões semanais com a diretoria. Depois algumas colegas para quem eu contei minha situação espalharam a notícia. Eu sabia que o diretor de recursos humanos não queria que eu permanecesse na empresa. Fiz um acordo que me deu vantagens e fui embora. Eu não podia ficar lá”, afirma.

A hora de mudar de sexo

Um outro ponto detectado pelo estudo de Kristen Schilt foi que os homens transexuais fazem a transição de gênero em média 10 anos antes de as mulheres transexuais. As meninas geralmente vislumbram os privilégios de pertencer ao sexo masculino e mudam a aparência física ainda no final da adolescência ou durante a faixa dos vinte anos. Já os homens receiam perder o emprego, a independência financeira ou até mesmo magoar a família se assumirem sua identidade feminina. Muitos, por imposição da sociedade, chegam a se casar e ter filhos.

Helena, uma transexual que não prefere não revelar sua identidade, relatou que a decisão de assumir a transexualidade só veio aos 43 anos. Ela teve uma breve carreira militar, era casada e tem uma filha. A auto-repressão quase a enlouqueceu. Helena tinha medo de perder o emprego de artista plástica em uma grande produtora cultural. “Mas chegou um momento em que eu não pude mais agüentar. Ao mesmo tempo que ainda tenho um pouco de dificuldade em me aceitar, era uma violência comigo mesma negar que eu era uma mulher. As pessoas tomam um choque, mas tive a felicidade de minha família entender e de os colegas de trabalho aceitar”.

O desfecho de aceitação da história de Helena, no entanto, não reflete a maioria dos casos, apesar de não ser possível determinar o que é maioria, já que não há estatísticas sobre a população transexual. Nem estimativas. De acordo com a professora Berenice Bento, não há políticas públicas de proteção e inserção dos transexuais na sociedade. No site do Ministério do Trabalho há um programa chamado Brasil Raça e Gênero que afirma, em termos vagos, possuir ações para a inclusão dos transexuais no mercado de trabalho. Ao ser solicitada, a assessoria do Ministério informou que, apesar de tais medidas constarem no programa, nenhuma ação ou política foi estabelecida. A Secretaria Especial de Direitos Humanos também não tem programas específicos para transexuais. O Ministério Público do Trabalho não tem números sobre os processos por preconceitos contra transexuais no mercado de trabalho.

O preconceito contra transexuais

A escassez de dados ajuda a deixar ainda mais distante das vistas da sociedade a situação dos transexuais, que, segundo Berenice, é “absolutamente trágica”. A inserção no mercado formal é baixíssima. Em sua tese de doutorado, a professora analisou um grupo de 20 transexuais de diferentes classes sociais escolhidas aleatoriamente. Das 20, apenas uma havia entrado na faculdade e, mesmo assim, não tinha conseguido concluir os estudos por conta do preconceito.

O cenário para as transexuais, no entanto, é de ligeira melhora, afirma a militante Carla. A principal razão é a recente decisão do Ministério da Saúde de incluir a cirurgia de mudança de sexo na lista de procedimentos pagos pelo SUS. A transferência das ações do Ministério para a área da saúde da mulher agradou as transexuais, que querem ter o reconhecimento de que não são homens que se vestem de mulher, mas mulheres de fato. Mas a evolução ainda é insuficiente na opinião da socióloga Berenice Bento, que vê no Estado o principal agressor das transexuais por causa da ausência de políticas públicas e da ação violenta da polícia. “Se faltam diretrizes básicas para a proteção física das transexuais, pensar em inserção no mercado de trabalho é algo muito distante”, diz.

"Os homens que mudam de sexo ficam em desvantagem"
Em entrevista a ÉPOCA, a pesquisadora Kristen Schilt, da Universidade de Chicago, afirma que o preconceito contra as mulheres transexuais no ambiente de trabalho reflete a discriminação contra o sexo feminino
Thiago Cid
 Reprodução
Kristen Schilt
Ser homem é uma vantagem no trabalho

A professora Kristen Schilt, da Universidade de Chicago, tinha como objetivo desmascarar o preconceito contra as mulheres, ainda latente mesmo no século 21. Para deixar evidente a discriminação no mercado de trabalho, ela usou a experiência de transexuais: o que aconteceria com um homem no mercado de trabalho se ele mudasse de sexo? O exemplo é útil porque representa apenas uma mudança - a de gênero - em meio a fatores fixos, como formação e competência profissional. Por um método inovador, a pesquisadora chegou a uma conclusão já esperada: a de que as mulheres levam desvantagem na carreira. Confira, abaixo, a entrevista que a pesquisadora concedeu a ÉPOCA.

ÉPOCA – A senhora utilizou os transexuais como uma ferramenta para analisar as relações de gênero no ambiente de trabalho. Acha que essa estratégia foi eficiente ou acabou esbarrando no preconceito apenas contra os transexuais?

Kristen Schilt -
É difícil separar essas duas coisas. As reações sobre transexualidade são reações sobre o gênero. Uma das mulheres transexuais com quem conversei me disse que, ao contar sua intenção no trabalho, um colega perguntou por que ela gostaria de ser uma cidadã de segunda classe. Ele disse isso tanto pelo fato de ela ser uma transexual, mas também pelo fato de se assumir mulher.

ÉPOCA – A conclusão de seu estudo é de que os homens transexuais têm ganhos de salário e autoridade, e as mulheres transexuais têm perdas financeiras e de autoridade.
Kristen -
Primeiro é preciso deixar claro que os homens transexuais nem sempre tiveram experiências positivas. Mas, comparados com as mulheres transexuais, eles geralmente se saem melhor. Aparentemente há menos resistência e mais abertura para os transexuais no ambiente de trabalho. Em meu estudo, pelo menos, eles não tiveram grandes perdas. Não é que eles passaram a ganhar mais, mas não ficaram em desvantagem da forma que as transexuais femininas ficaram.

ÉPOCA – Vocês detectaram que, na média, os transexuais femininos fazem a transição de gênero 10 anos mais tarde que os transexuais masculinos. O que isso quer dizer?
Kristen -
Há várias razões, mas a principal é que na sociedade americana há um pouco mais de espaço para mulheres que querem adotar uma conduta masculina. Se já é chocante a mudança de sexo em uma sociedade com preconceitos velados, um homem querer ser mulher é algo mais chocante ainda. Por isso, penso que as mulheres transexuais encontram mais oposição, elas têm perdas maior e, por isso, costumam esperar mais. Especialmente em empregos especializados, existe uma idéia geral de que talvez eles não serão capazes de mantê-los após a transição para o sexo feminino. Eles esperam ou adiam por causa das possibilidades de perda de salário, de autoridade e até do próprio emprego. No entanto, cedo ou tarde fazem a transição.

ÉPOCA – Eles relataram alguma mudança nas habilidades para realizar o trabalho após a mudança de sexo?
Kristen -
Eu não acredito que as habilidades mudam. As pessoas acreditam que as habilidades tenham mudado. Uma transexual feminina que escreve programas de computador me contou que um colega pergunto se ela ainda sabia programar. As pessoas pensam que as capacidades mudam porque o sexo muda. Mas o capital humano não é algo que se perde.

ÉPOCA – Que tipos de experiências negativas os transexuais relataram ter vivido no ambiente de trabalho?
Kristen -
As transexuais femininas muitas vezes perdem o emprego de anos por causa da transição. Não perdem por causa da mudança de sexo, mas por pequenas questões que nunca haviam sido um problema. As pessoas passam a julgá-las mais. Apesar de velado, sabemos que o problema não é o desempenho no trabalho, mas a transexualidade. Algumas vezes os colegas são abertos e dizem que o transexual não é mais bem-vindo no ambiente de trabalho.

ÉPOCA – E o que os homens transexuais relatam?
Kristen -
Eles disseram que alguns colegas demonstram incômodo, mas a resistência é menor. Nós últimos tempos, conversei pessoalmente com 65 transexuais masculinos no Texas e na Califórnia. As experiências contadas foram relativamente positivas. Aqui nos EUA ser homem é uma vantagem no trabalho.

ÉPOCA – Quais outras conclusões você pode tirar de seu estudo?
Kristen -
Uma coisa que percebi com meus estudos é que, se você quer melhorar o ambiente de trabalho para os transexuais, os empregadores realmente têm um papel-chave. Se um funcionário diz que pretende mudar de sexo, o chefe deve reunir os empregados, afirmar as políticas de boas relações na empresa, ter um amparo psicológico se for preciso e deixar claro que o assédio não vai ser permitido. Quando o empregador diz que não sabe como ajudar, não sabe o que dizer, os colegas que não estão satisfeitos se sentirão livres para expressar isso.

ÉPOCA – Existem políticas nos EUA para transexuais no ambiente de trabalho?
Kristen -
Não há lei nacional, mas há uma proposta em tramitação no Congresso. Há 11 estados e algumas cidades com leis locais para a proteção de transexuais no trabalho. Coisas em nível local, como é comum aqui nos EUA por causa do federalismo.

ÉPOCA – O que os americanos pensam dos transexuais?
Kristen -
Infelizmente não há discussão a respeito. Não temos muitos dados sobre o assunto. As pesquisas sobre transexuais geralmente só focam os próprios transexuais. Não sabemos muito a respeito da percepção sobre eles.

ÉPOCA – Você conhece algo sobre os transexuais brasileiros?
Kristen -
Eu li um livro sobre travestis escrito pelo sociólogo Don Kulick, da Universidade de Chicago. Pelo que li, há muitos transexuais envolvidos com prostituição. Aqui nos EUA certamente a comunidade transexual no mercado de trabalho formal é muito maior. Mas a minha impressão é que, no Brasil, as pessoas sabem mais sobre os transexuais, mesmo que seja sobre os marginalizados. Aqui eu creio que é algo mais velado. É impressionante, mas há americanos que não sabem nada sobre transexuais, apesar de um ativismo político crescente da classe. Creio que o fato de haver mais transexuais no mercado formal de trabalho se dê porque há toda uma mentalidade e uma indústria legal para apoiar o trabalho. Mesmo quando as pessoas acham que é ruim ser gay ou transexual, eles pensam que todos devem trabalhar. A mentalidade americana diz que o trabalho é fundamental.

ÉPOCA – Você afirmou que, nos anos de 1970 e 1980, os transexuais americanos costumavam trabalhar em profissões menos qualificadas e típicas do outro sexo. Por exemplo, transexuais femininos podiam somente ser cabeleireiros ou secretárias e os transexuais masculinos trabalhavam como operários. Isso ainda é uma realidade?
Kristen -
Naquela época, a comunidade médica que trabalhava com transexuais dizia que, se uma pessoa quer ser uma mulher, ela deveria ter um emprego de mulher. Apesar de ser uma percepção sectária, eram nichos em que os transexuais encontravam menos preconceitos e mais pessoas em situação semelhante. O que realmente aconteceu aqui foi o crescimento da visibilidade do ativismo transexual no meio dos anos de 1990, com a afirmação de que os transexuais deveriam ter qualquer tipo de trabalho que eles quisessem. Se eu era um advogado quando homem, eu não deveria me tornar uma secretária quando me transformar em uma mulher. Esse ativismo criou um espaço social para os transgêneros nos EUA.

ÉPOCA – Com a ajuda do governo?
Kristen -
Eu diria que eles fizeram tudo por eles mesmos. Temos percebido muita resistência do governo para mudar as leis do trabalho e as leis contra intolerância. Transexuais não estão incluídos nestas leis. O que eu percebo é que o apoio maior aos transexuais está vindo do setor de negócios ou corporativo. As empresas estão adotando regras de proteção para os empregados transexuais em seu ambiente de trabalho. Se o governo não os protege, ao menos a sua empresa, sim.

ÉPOCA – E onde eles geralmente trabalham?
Kristen -
Eu diria que atualmente está muito diversificado. Entre as transexuais femininas de nosso estudo, eu diria que cerca de metade delas está em trabalhos especializados, que exigem formação acadêmica. A outra metade está em trabalhos braçais ou sociais, como assistentes sociais e líderes comunitários. Para os transexuais masculinos, por eles serem mais jovens, boa parte está na faculdade e trabalha em empregos temporários para ter renda para os estudos. Os que não estão neste grupo estão divididos em empregos que exigem qualificação e em trabalhos manuais. O que eu certamente não diria é que existem trabalhos específicos para os transexuais.

ÉPOCA – E por que as empresas estão fazendo isso?
Kristen -
As empresas adotaram uma mentalidade que diz que a diversidade da força de trabalho é muito benéfica ao rendimento e à eficiência na produção. E os transexuais fazem parte dessa diversidade. Eles têm uma visão de mundo e uma experiência por conta do que já passaram e podem acrescentar muito ao grupo. As empresas pensam que, se elas querem os melhores empregados, não podem excluir as pessoas por causa do gênero. E os transexuais também são consumidores.

ÉPOCA – Há uma estimativa de quantos transexuais existem nos EUA?
Kristen - É a pergunta que mais ouço. Não é uma população grande como a dos gays e lésbicas e infelizmente não sabemos a resposta para esta pergunta. Eu costumo responder que há mais do que as pessoas pensam.

ÉPOCA – Existe uma explicação para o fato de você ter notado que os transexuais possuem uma formação acadêmica melhor do que a população em geral?
Kristen -
Eu diria que porque eles são pessoas insistentes, porque até mesmo aqui nos EUA há uma idéia de que são tão marginalizadas que não podem viver como as outras pessoas. Mas esse dado é explicado pelo fato de onde colhemos nossas informações. Fomos a convenções de transexuais, eventos cuja participação custa dinheiro, como inscrição, viagem, hospedagem. Então posso dizer que nossa amostragem se baseou em transexuais da classe média. Também para participar de uma conferencia transexual você tem de saber sobre o movimento ativista transexual, e essa politização geralmente acontece com pessoas que possuem certa formação intelectual. Com certeza, há muitos transexuais nos EUA em profissões marginalizadas, que têm índices de educação mais baixos do que os da população média.

ÉPOCA – Qual é a importância do seu estudo?
Kristen - Ele é importante por duas razões. A primeira é que sabemos muito pouco sobre as experiências dos transexuais, seu modo de viver, de pensar, de relacionar com o mundo. Ele traz um pouco de luz para o que eles passam no dia-a-dia. A maior parte dos estudos leva em conta o porquê da transexualidade, o que os faz tomar essa decisão. É ainda uma forma de resistência ao fato de que eles existem. O meu estudo os aceita como uma realidade e não quer saber por que eles existem, mas pretende de alguma forma melhorar sua condição de vida. É importante saber as razões da transexualidade, mas existe muito mais e quero saber o que acontece com a vida deles. Em um segundo nível, quero mostrar que a discriminação por gênero no ambiente de trabalho é algo que realmente acontece. A pesquisa nos mostra a desvalorização do feminino e das mulheres no ambiente de trabalho, sejam transexuais ou não. É uma forma de olhar o quanto o gênero influencia na carreira.

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Being a Woman

Esse outro vídeo me fez pensar o quanto são belas as mulheres e porque nós as crossdressers as admiramos tanto ao ponto de querermos ser como elas...

Lindo, muito lindo...

Being a Woman


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Um videozinho bem legal de uma crossdresser que eu achei muito bonita...

Um videozinho bem legal de uma crossdresser que eu achei muito bonita...

Segue...

Luana Di Castro_CD







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Crosdressers, sapos e seus mundos secretos.


Do Blog da Reicla

Hoje acho que resolvi mostrar meu lado ácido, pode ser por influencia da gripe que me atacou e mexeu com meus sentidos.

Mas enfim, resolvi falar de algumas coisas que me incomodaram recentemente. Uma delas é sobre essa divisão rígida dos “mundos” de quem pratica o crossdressing.

Tudo bem que exista o medo da exposição, a proteção das identidades, para que as crossdressers não sofram nada em suas vidas “normais”, tipo perder o emprego, a família ficar sabendo, e tal.

Mas isso acho um pouco exagerado, pelo menos eu percebo isso. Os mundos ficam muito separados.

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Com raras exceções, as crossdressers só saem com outras crossdresser quando estão praticando o crossdressing, ou seja, não se reúnem quando estão de “sapo”. (sapo é como as Cds se denominam quando não estão vestidas de mulher).

O problema que vejo nisso é que a amizade fica prejudicada, não dá continuidade no relacionamento. Penso que se não dá pra sair montada, que saia de “sapo” mesmo e encontre as pessoas que certamente estão mais aptas a entender os seus problemas.

Mas o que acontece é que mal se trocam telefones, ou seus nomes de “sapo”.

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Talvez eu seja a mais louca de todas, por me expor mais,e não ter tantos medos, mas de qualquer forma fica a minha sugestão para que se promova um entrosamento maior e reforce as amizades entre as Cds.
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Ivete Sangalo - Piriri Pompom / Problemática / Só As Cabeças




Para "desopilar"... Um "videozinho" dessa super artista que adoro!!!!!!!!!!!

Ivete Sangalo!

Performática e maravilhosa!!!



http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2007/05/150_2434-Ivete%20Sangalo.jpg


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Travestismo Fetichista. São Etiquetas ou Estigmas?

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Travestismo Fetichista, também chamado “Autoginefília”
Durante un Tempo Por Blanchard, Bailey e Lawrence:
São Etiquetas ou Estigmas?

[A sub-page of the TS informational page, by Lynn Conway] Link direto AQUI

Alguns homens inclinam intensamente ao crossdressing, se preocupam pelos sentimentos descontrolados de dependência ao crossdressing e à masturbação, e procuram ajuda sócio-psicológica para controlar a dependência. Os psiquiatras têm considerado que esse grupo, conforme o Manual Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR, 2000,) sofre uma “doença mental” chamado “fetichismo travesti.” Não se sabe a causa da condição, nem há remédio, salvo ajudar que a pessoa não se preocupe tanto, e a aceite e desfrute.


Infelizmente essa velha etiqueta psiquiátrica tem uma imagem extremamente negativa e tem o efeito iatrogênico de intensificar a culpabilidade e a vergonha das mesmas pessoas que consultam aos psiquiatras para ajuda. A prática mesma dos psiquiatras de colocar etiquetas difamatórias tem causado muito da dor desnecessária que sentem os crossdressers a respeito da "condição" (assim esses psiquiatras também se asseguram um fluxo constante de clientes).

Durante alguns anos recentes, entre 2000 e 2004 aproximadamente, a situação se empiorou ainda mais quando um gangue de sexólogos (Ray Blanchard, J. Michael Bailey e Anne Lawrence) tentaram etiquetar quase todas as mulheres transexuais com o mesmo velho diagnóstico estigmatizante.


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Aconteceu da maneira seguinte:


Durante os anos 80 o sexólogo
Ray Blanchard do Instituto Clarke de Canadá (agora o CAMH) criou a nova palavra “autoginefília” para substituir “fetichismo travesti,” e a descreveu como a condição de “sentir excitação sexual (inclusive se masturbar) ao se ver como uma mulher ou ao fantasiar de ser uma.” Afirmou que isto era uma “parafília sexual” similar à pedofília e zoofília, e começou a falar desta palavra fabricada como si fosse um grande descobrimento científico. Logo, se pôs a “provar cientificamente” que a masturbação ao fantasiar de si mesmo como uma mulher era uma causa básica do transexualismo, assim negando a existência de identidades de gênero cruzado.

No sistema médico canadense, a maioria da gente transgênero tinham que passar pela clínica de Blanchard para receber ajuda médica. Aí, todos os clientes transgênero foram interrogados insistentmente sobre hábitos de masturbação, e não tinham nenhuma idéia que serviam como sujeitos de pesquisa para provar a teoria de Blanchard (quem tal vez acreditou o velho mito que a masturbação conduz à loucura?). Qualquer relato de masturbação ao “pensar de si como uma mulher” se considerou evidência concreta de “autoginefília,” mesmo quando a pessoa não se masturbava de maneira masculina, mas simplesmente pensava de si como uma mulher porque assim se via. Como sabemos, quase todo o mundo se masturba às vezes, inclusive as mulheres nascidas e as transexuais. Não é surpreendente que com o passo do tempo Blanchard diagnosticou “autoginefília” na maioria das pacientes transexuais.

Tristemente para Blanchard, esta teoria ganhou poucos aderentes. Para meados dos anos 90 a teoria era, fora do Instituto Clarke, uma curiosidade histórica. Enquanto isso, fetichistas travestis continuavam passando por várias clínicas transgênero mas foram autorizadas muito poucas para a SRS salvo os que foram diagnosticadas pelo Clarke. Sobretudo, a grande maioria dos homens sabem bem que se castrar não vai melhorar o prazer sexual masculino. Em adição, se soube que os homens fetichistas que tinham se submetido à SRS muitas vezes se tornaram loucos uns anos depois, como no caso de Gregory/Gloria Hemingway (veja também a página de Lynn Advertência Sobre a SRS).

[Algumas clínicas como o Clarke continuam a especializar nos casos de fetichistas mais velhos como Gregory/Gloria, que não sofrem de disfória de identidade de gênero, e autorizam algumas para a SRS. Pensando que estes outros pacientes são mulheres transexuais, elas que realmente sofrem de disfória de identidade de gênero podem receber uma impressão chocante e falsa do que poderia ser o futuro. O refrão entre os conselheiros nestas clínicas é que as transexuais são homens com uma doença mental e que fazer a transição vai destruir a vida deles e lhes custará tudo. Se um conselheiro utilizar estas palavras, procure outro conselheiro! Procure alguém que te ajude a tomar boas decisões e que te prepare para um bom resultado em vez de te fortalecer contra um mau.]

Mais tarde, no meio dos anos 90, J. Michael Bailey, um catedrático pouco conhecido da Universidade Northwestern, se enamorou à teoria de Blanchard (tal vez porque Bailey adorava o Blanchard, que era na época um personagem de muito poder político entre os sexólogos). Bailey tinha estudado homens homossexuais, mas não sabia nada sobre mulheres transexuais. Para poder se dar una aura de credibilidade como pesquisador do transexualismo, Bailey entrevistou um grupo muito reduzido de mulheres transexuais. Convenceu elas de ser entrevistadas por meio de lhes oferecer cartas de autorização para a SRS. Logo, começou a colaborar com Blanchard para ressuscitar a teoria velha do segundo.


Ao redor de 1999,
Anne Lawrence, M.D. também se enamorou à teoria de Blanchard. Lawrence, um recém-transicionada fetichista (sem disfória de identidade de gênero) que mantinha um site Web de apoio médico para mulheres transexuais, começou a descrever a experiência dela como “ser um homem preso no corpo de um homem,” porque queria desfrutar sexualmente de se converter em um homem no corpo de uma mulher. Lawrence se auto-proclamou um “autoginéfilo” e começou a promover a teoria de Blanchard no site dela, e começou a acusar quase todas as mulheres transexuais de ser autoginéfilos ou de mentir sobre isto.

Blanchard, Bailey e Lawrence (BBL) imediatamente se juntaram com o objetivo de estabelecer a teoria de Blanchard como um fato científico por meio de afirmá-la constantemente, tal vez em busca de fama científica. Por pura força de personalidade e muita intimidação, conseguiram um domínio político completo sobre a teoria de transexualismo entre os sexólogos durante os anos 1999 a 2003, ressuscitando a teoria de Blanchard a todo custo. Ninguém se atreveu os opôr, assim que lhes deve ter parecido que a teoria “vinha ganhando aceitação.” Nesta época Bailey conseguiu se elevar ao cargo de Presidente da faculdade de psicologia da Universidade Northwestern, provavelmente com a forte recomendação de Blanchard.


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Bailey, Blanchard e Lawrence ganharam confiança e fizeram um grande lançamento público da teoria na primavera de 2003 quando foi publicada pela prestigiosa editorial das Academias Nacionais. Levando o título muito estigmatizante O Homem Que Suspiraria Ser Uma Rainha: A Ciência da Variação de Gênero e Transexualismo, a capa do livro mostrou as pernas muito masculinas, peludas e nodosas de um homem em sapatos de salto alto. Incrivelmente a teoria de Blanchard se afirmou no livro como si fosse um fato científico. Não havia nenhuma menção de pesquisas mais recentes que revelaram a existência de identidades de género biológicamente establecidas. Foi o começo de uma controvérsia enorme entre este gangue de sexólogos e quase a totalidade da comunidade transgênero.

Tinha chegado um momento crucial para a comunidade transexual. Depois de ler as muitas declarações transfóbicas do livro, a gente transgênero ao redor do mundo se organizou por meio da internet para pesquisar, criticar e combatir as idéias que propagavam BBL. Como resultado destas pesquisas, se descobriu evidência ampla de que Bailey não tinha feito o trabalho e a publicação conforme às normas vigentes de pesquisa e ética científica.

Os sujeitos de pesquisa de Bailey têm levado numerosas queixas formais na administração da Universidade Northwestern, com a ajuda de investigadores voluntários transexuais. Bailey foi acusado de não informar as entrevistadas que eram sujeitas de pesquisa, de publicar detalhes das narrativas confidenciais sem permissão, de seduzir um agradecido sujeita de pesquisa (para quem tinha escrito uma carta de autorização para a SRS) e outra má conduta similarmente grave.

Como resultado, a Universidade Northwestern lançou uma averiguação administrativo formal sobre os métodos de pesquisa e conduta ética de Bailey. Enquanto isso, a HBIGDA (a associação internacional de psicoterapistas profissionais que estabelecem as normas de cuidado para a gente transgênero) escreveu uma carta pública à Universidade Northwestern na qual denunciou o livro de Bailey por danar as relações entre os pesquisadores de sexo e a comunidade transgênero. Atrapalhado pela rejeição do protegido Bailey (e por conseqüência da teoría dele) pela HBIGDA, Blanchard, zangado, se demitiu como sócio da organização para evitar sofrer mais rejeição dos demais sócios.

O prestigioso Southern Poverty Law Center (Centro Sulino Para os Direitos dos Pobres) também denunciou o livro como “ciência rara” em um relatório investigativo especial que tratou a violência contra mulheres transgênero. Logo, Madeline H. Wyndzen, PhD., analizou cuidadosamente a teoria e os relatórios iniciais das pesquisas de Blanchard e demonstrou que eram completamente defeituosos em um análise compreensivo que publicou na internet. Investigações mais tarde revelaram que Lawrence, ao enfrentar uma investigaçáo por torpeza moral, tinha sido forçado a se demitir do cargo de anestesista de hospital. Finalmente, como resultado da investigação interna que conduzia caladamente a administração da Universidade Northwestern, Bailey se viu forçado a demitir a cargo de liderança intelectual como presidente da faculdade de psicologia durante o outono de 2004. Ao voltar ao trabalho menos prestigioso de professor ordinário, Bailey não comentou sobre o que lhe tinha passado. O silêncio dele, e o da universidade, é muito expressivo da vergonha que tinha atraido.

Para mais informação sobre a teoria de Blanchard, o livro de Bailey, e a queda de Bailey, Blanchard e Lawrence, veja Andrea James' BBL Clearinghouse (em inglês), O Relatório Investigativo de Lynn Conway sobre o livro de Bailey, e o artigo de Joan Roughgarden “Psicologia Pervertida.” (Pt) Especialistas, historiadores e eticistas encontrarão documentação mais detalhada desse fiasco científico na página Web “esquema histórico dos acontecimentos e links à evidência.”

Infelizmente, essa era só a mais recente de uma série longa de teorias desacreditadas do transexualismo que têm proposto psiquiatras, sexólogos e outros especialistas. No futuro, em vez de inventar etiquetas altamente estigmatizantes para descrever as mulheres transexuais, e em vez de disputar eternamente entre si o significado dessas etiquetas, é melhor que os sexólogos façam algo mais produtivo: devem empreender seguimentos de transições de gênero no mundo real, para nos ajudar a entender quias fatores dão lugar a transições com resultado positivo e quais não.

Nesse ínterim, quando se ouve a palavra “autoginefília,” a traduça “fetichismo travesti.” Logo, faz a pergunta, “tem esse termo qualquer significado real? Ou é, por outro lado, nada mais que outra estigma oficial mascarada como uma classificação científica?” Para mais esclarecimento sobre as palavras fabricadas que “definem” condições inexistentes como doenças mentais, vale a pena ler sobre a condição inexistente de “ninfomania” e como se parece à inexistente “autoginefília.”

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Britney mostra que deu a volta por cima no clipe de Womanizer.


Adorei!!!!!!!!!! Cada vez que escuto “Womanizer”, gosto mais da música. É chiclete, gruda na cabeça, tem uma boa melodia e agora acaba de ganhar um videoclipe divertido que dá uma lição nos caras mulherengos.


Adoro a secretária (deve ser secretária mesmo porque executiva não se encaixa no perfil de Britney Spears) que sai dançando pelo escritório.
Garçonete sexy? Secretária safadinha? Loirinha sedutora? Parece que Britney Spears incorporou várias mulheres para dar uma lição de moral naqueles caras mulherengos.
Deve ser mais ou menos isso que nós veremos no clipe de “Womanizer”, que daqui a alguns dias já deve vazar na internet. Estamos de olho!

Britney tá magra, tá bonita e a música já tá prontinha pra bombar. Se a popstar fosse esperta, incluía uma versão de “The bitch is back”, do Elton John, no novo CD.
A letra não encaixa perfeitamente?
I was justified when I was five
Raising cane, I spit in your eye
Times are changing, now the poor get fat
But the fevers gonna catch you when the bitch gets back
(…)
Im a bitch, Im a bitch
Oh the bitch is back
Stone cold sober as a matter of fact
I can bitch, I can bitch
`cause Im better than you
Its the way that I move
The things that I do
Britney está mesmo de volta. E agora com mais bom gosto. You go, bitch!
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Crossdressers: homens de batom

Ficou no passado o tempo em que vestido, salto alto e maquiagem eram acessórios exclusivos do público feminino.

Os crossdressers, homens que vestem roupas do sexo oposto por satisfação pessoal, também não abrem mão das bijuterias e das longas perucas.

Os CDs, como os adeptos do 'hobby' são conhecidos, são heterossexuais que possuem o fetiche de se transformar em mulher.

O termo crossdresser (vestir-se ao contrário, na tradução literal) foi importado para o Brasil em 1997, mesmo ano de criação do BCC (Brasilian Crossdresser Club), grupo cujo objetivo é reunir e dar suporte — principalmente psicológico — aos praticantes.

De acordo com a presidente Kelly Neta (pseudônimo, foto ao lado), 51 anos, os CDs são homens que desejam uma identidade feminina, não significando que haja atração por pessoas do mesmo sexo. "Fazemos isso por puro fetiche, não é nada relacionado à opção sexual. No meu caso, sou hétero e muito bem casado. Porém, podem existir CDs que são homossexuais, mas isso não é regra", afirma.

O BCC possui atualmente 400 filiados, espalhados por 19 Estados brasileiros. Segundo Kelly Neta, o crossdressing é muito mais praticado do que se imagina, mas a maioria esconde o 'hobby' por conta do preconceito. "Muitos confundem a prática do crossdressing com os travestis. O que nos difere é a questão da comercialização do sexo e as alterações no corpo. Os CDs não têm nenhuma conotação sexual e não fazem modificações físicas permanentes, como silicones, uma vez que mantemos a identidade masculina", explica.


Apesar do cuidado que muitos CDs têm em preservar a identidade, alguns se produzem com peças do guarda-roupa feminino e saem às ruas sem intimidação. "Vamos a bares, restaurantes, shoppings e à praia, de biquíni e tudo mais, sempre sem invadir o espaço dos outros", explica Kelly. Para ela, mesmo com a caracterização feminina, o intuito não é se passar por mulher. "Nós temos a consciência de que não somos damas. Por isso nos vestimos apenas por entretenimento".

Os filiados ao BCC têm média de idade entre 45 e 50 anos e pertencem a diversas camadas sociais. "Têm até muita gente importante que não pode revelar a identidade por medo do preconceito e das conseqüências no meio em que vive", diz Kelly. É o caso do CD Nádia (pseudômino), 25 anos, morador de Mauá. "Todos acham que um homem que gosta de usar roupas femininas é homossexual. Esse é o meu maior medo, pois as pessoas não aceitam e confundem o fetiche com a opção sexual simplesmente por não conhecer o assunto", afirma.

No caso de Nádia, o interesse por saias e maquiagens surgiu na infância. "Eu vestia roupas da minha mãe e da minha irmã. Fazia tudo escondido. Cresci achando que era um bicho estranho, por isso tinha medo de contar para alguém".

De acordo com o BCC, Nádia é considerada um crossdresser de armário, pois não tem coragem de sair em público como mulher. Outra dificuldade para ela é assumir a opção para a namorada. "Hoje tenho um relacionamento com uma garota há quatro meses. Ela ainda não sabe, pois não sei se aceitaria. Vou conhecê-la bem primeiro, depois decido se conto", diz.

Louise (pseudônimo, foto à direita), 42 anos, de Porto Alegre (RS), também compartilha a opinião de que a aceitação por parte do parceiro é um dos principais desafios de um crossdresser. "No momento estou solteira. Só pretendo iniciar um novo relacionamento com alguém que saiba e goste de mim como CD", afirma.

Louise também tem receio de ser reconhecida como CD, mas arrisca algumas saídas. "Aqui em Porto Alegre, mesmo nos locais GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis), existem poucas crossdressers e o pessoal ainda estranha nossa presença. Eu saio mais quando viajo para cidades maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro, pois lá existe uma diversidade maior de opções e não tenho receio de encontrar algum conhecido", explica.

Suporte emocional - De acordo com a relações públicas do BCC, Patrícia Din (pseudônimo), 53 anos, o preconceito é a barreira que impede que os CDs assumam a posição perante a sociedade. Isso gera um conflito emocional e muitas vezes o praticante precisa de ajuda. "No clube, temos uma equipe de profissionais, inclusive no ramo psicológico, que vai ajudar o CD a se aceitar e a encarar a opção com naturalidade", explica. Segundo Patrícia, o apoio da família também é fundamental. "A minha mãe sabe que sou crossdresser e aceita numa boa. Ela até já fez um vestido para mim (risos)", revela.


Mas a maioria dos CDs vive uma realidade bem diferente de Patrícia, já que nem todas as famílias conseguem aceitar o fetiche como um 'hobby' comum. Porém, existem mulheres que aprendem a lidar com a opção do parceiro. Elas são as chamadas S/Os (Supportive Opposite) — pessoas do sexo oposto que apóiam e dão suporte emocional ao CD. Nesse sentido, Kelly Neta é uma privilegiada. Sua esposa, Maria Luiza, 43 anos, acompanha o marido em todos os momentos. "Ajudo a Kelly a comprar roupas, maquiagens e tudo mais o que precisar. Encaro tudo numa boa, já que o fetiche é bacana", revela.

Apesar do clima descontraído de Maria Luiza, ela revela que no início a aceitação não foi tão fácil assim. "Tudo começou como uma palhaçada, até que chegou o momento em que ele falou sério comigo e explicou que era um desejo incontrolável. Eu não sabia o que pensar e demorou um tempo até eu digerir a idéia de que meu marido gostava de se vestir de mulher", conta.

A Internet é a principal aliada das CDs
Não existe uma data exata para o início do crossdressing no Brasil, mas pode-se afirmar que a internet foi a principal aliada para divulgação da prática. Tanto Nádia quanto Louise conseguiram respostas para suas dúvidas por meio da rede mundial de computadores. "Descobri a palavra crossdresser quando surgiu a internet no Brasil e comecei a acessar, em 1996. Antes não sabia o que eu era e não fazia a menor idéia de que pudessem existir tantas pessoas iguais a mim pelo mundo", lembra Louise.

Para Nádia, a web foi essencial para desmistificar a atração que sentia. "A internet me ajudou a conhecer o termo crossdresser e o site do BCC [Brasilian Crossdresser Club]. Busquei informações sobre o assunto [inclusive médicas] em sites do exterior, principalmente de Portugal e Estados Unidos, e me identifiquei de primeira", recorda Nádia.

Atualmente, a internet continua a ser a principal ferramenta de socialização dos CDs. No Orkut, site de relacionamentos do Google, existem inúmeras comunidades dedicadas ao tema. Nádia é fundadora da comunidade "Cdzinhas do ABC", que possui 40 membros da região. Já Louise mantém a "Cultura Crossdresser", com 1.687 participantes.

Como o BCC não possui uma sede física, o site www.bccclub.com.br é o canal pelo qual os adeptos se informam sobre os eventos, tiram dúvidas e realizam debates sobre a prática. Para Kelly Neta, "a internet foi a grande responsável pela expansão do BCC e da prática crossdresser por todo o País". Ela tem também um site pessoal com informações sobre o mundo CD (www.kellyneta.com.br).

O que dizem os médicos?
Analisar um crossdresser é um desafio até mesmo para a área médica. Isso ocorre por falta de informações e estudos detalhados sobre a prática. Para o coordenador do Departamento de Psicoterapia e do Projeto Discriminação da ABP (Associação Brasileira de Psicoterapia), Telmo Kiguel, desde muito tempo os homens se vestem de mulher como forma de diversão. "Isso é comum no Carnaval até nos dias de hoje. Enquanto o objetivo da prática for a satisfação pessoal, tudo bem", explica.
Para Kiguel, é comum que a sociedade encare o crossdressing com estranheza. "Nenhum fetiche é visto pelas pessoas como uma coisa natural. Mesmo assim, desde que essa opção não passe a afetar a personalidade da pessoa e suas relações pessoais, afetivas e a convivência social, do ponto de vista médico não há problema algum", diz.

Na opinião do psicoterapeuta e sexólogo Ronaldo Pamplona, o crossdressing é uma variação do transexualismo. "Porém, eles não se vestem como mulher apenas para o ato sexual e sim para uma realização particular. Normalmente, quando eles estão caracterizados, sentem uma paz enorme", afirma o médico.


Identidade - Segundo Pamplona, existe uma explicação científica para que homens sintam atração pelo universo feminino. "Existe uma área do cérebro, chamada Ipotalámo, que possui várias estrias. Elas são as células responsáveis pela identidade de gênero de cada um, que é o comportamento feminino ou masculino que a pessoa vai desenvolver. Normalmente nas mulheres as estrias originárias são maiores e vice-versa", diz.



O médico explica ainda que, no caso dos homens que desejam se transformar no sexo oposto, as células femininas são um pouco mais desenvolvidas. "Por isso, cientificamente, a pessoa já nasce com essa pré-disposição. É uma variação do ser humano. Alguns levam a vida normalmente, apesar do lado feminino desenvolvido. Já no caso dos CDs, transexuais e travestis, essa característica é predominante", afirma.

Para Pamplona, o preconceito em relação aos CDs só vai acabar quando houver informação. "É importante ressaltar que identidade de gênero é totalmente diferente de orientação sexual. A identidade determina o comportamento feminino e masculino, já a orientação define a opção sexual [heterossexual ou homossexual]. Muitas pessoas não fazem essa diferenciação e geram o preconceito", diz.

Por: Fernanda Borges - Do Diário do Grande ABC OnLine





 
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Dois lados de uma mesma moeda

O recente caso do capitão-de-corverta da marinha que realizou uma polêmica operação de mudança de sexo (nota do blog - quem conhece o assunto sabe que "ele" não operou) trouxe à tona um assunto que já não escandaliza tanto quanto na época em que a transexual Roberta Close chamou a atenção do país. Apesar disso, muita gente ainda não sabe a diferença entre transexualismo e pessoas que vestem roupas usualmente próprias do sexo oposto, por fetiche, independente de sua orientação sexual. São os chamados crossdressers, ou simplesmente, “CDs”, como eles se autodenominam.

Em seu trabalho de conclusão de curso, o psicólogo Carlos André investigou a fundo a formação da identidade sexual do seleto grupo de pessoas que realizam esta forma milenar de exercício da sexualidade. Segundo ele, a maior dificuldade na realização da pesquisa foi conseguir com que os praticantes falassem sobre o assunto, uma vez que a maioria se mostra bem reservada e preocupada com a revelação de suas identidades. “A grande maioria das pessoas que são crossdressers teme a vulgarização do tema“, afirma.

Para alguns, considerados aberrações ou até mesmo perigosos, os crossdressers, muitas vezes, são rejeitados no mercado de trabalho e pelas próprias famílias. Segundo o pesquisador, a dificuldade de definir um limite entre a sexualidade humana normal e anormal reside no fato de que estes conceitos estão mais relacionados a atitudes sociais do que a dados científicos. Assim, a determinação do que é ser um crossdresser seria, segundo ele, uma construção social. “A determinação de roupas específicas para o sexo masculino e feminino varia em cada cultura”, conclui.

Segundo a psicóloga clínica Eliane Kogut, a maioria dos crossdressers é composta por homens casados. “Quando no papel masculino, não apresentam trejeitos afeminados e quando “montados” embora suavizem os gestos e voz, não se apresentam como uma mulher afetada ou como um homem efeminado, ou ainda como uma caricatura”, afirma a especialista em sexualidade, que ano passado publicou um livro sobre perversão e orientou Carlos André em seu trabalho de conclusão de curso.

De acordo com a tese de doutorado da autora, travestis são considerados crossdressers, entretanto a maioria dos praticantes dessa forma de satisfação erótica não utiliza hormônios nem cirurgias plásticas para se assemelharem ao sexo oposto. Dentre os casos observados, distingui-se o de homens heterossexuais que usam determinadas peças femininas escondidos das parceiras e em outros casos, as utilizam como item de fantasia para incremento da relação sexual, prática conhecida como eonismo.
É o caso do CD M.H, casado há 15 anos: “Sou casado e minha esposa participa de tudo e me domina há mais de um ano…Como você pode perceber sou uma crossdresser submissa e como tal me porto. Sou uma sissy da minha esposa” afirma o dentista de 39 anos.
Algumas pessoas encontram na internet a solução para suas angústias e medo da rejeição. O médico e professor universitário de 43 anos, Zara, afirma na entrevista, em sua forma de “sapo” (termo usado quando o crossdresser não está travestido): “Como homem sou heterossexual e como mulher sou lésbica.” Em busca de respostas ao desejo que o persegue desde a infância, ao se deparar com casos na internet, sobreveio-lhe um alívio pela descoberta da existência de outros iguais.
“Nem me lembro quantos anos tinha quando usei as primeiras peças femininas de minha mãe. Quando ficava sozinho em casa, eu corria para o quarto dela para poder vestir suas roupas”, relembra Zara, que pediu para que sua identidade verdadeira fosse mantida em sigilo absoluto.
Além de contribuir para a aproximação dos Crossdressers em sites sobre o tema ou listas de discussão, a rede mundial de computadores facilitou a diferenciação dos travestis, das transexuais e das drag-queens. Aos poucos as letras CD (CrossDresser) apareceram e passaram a designar homens que gostam de vestirem-se de maneira feminina.
O site www.bcc.com.br (Brazilian Crossdressing Club) é um exemplo da integração virtual entre CD’s. Com mais de 500 membros assinantes, o site do Clube criado em 1997 disponibiliza relatos, biografias, história do crossdresing e divulga eventos e encontros entre os associados, que pagam R$ 120,00 de anuidade.

 Encontro de Crossdressers em São Paulo

Carlos André acredita que talvez estejamos andando no sentido de compreender um pouco mais sobre a questão. Ele afirma que os sujeitos crossdressers não apenas desejam viver e serem aceitos como sendo de natureza oposta a de seu sexo biológico e conclui afirmando que superam as características físicas de homens, e vivificam suas identificações com o gênero feminino, por meio de suas performances que os auxiliam na constituição de seus corpos, desejos e paixões.

Por: Leonardo Sales - Fonte: deliriummmm
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PRÁTICAS SEXUAIS DITAS “DESVIANTES”: PERVERSÃO OU DIREITO À DIFERENÇA?

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PRÁTICAS SEXUAIS DITAS “DESVIANTES”:

PERVERSÃO OU DIREITO À DIFERENÇA?

in Revista Terapia Sexual - Clínica - Pesquisa e Aspectos Psicossocias, Vol. VI, 1, 34-52.

(Trabalho apresentado no 16th World Congress “Sexuality and Human Development: From Discourse to Action” 10-14 March, 2003 Havana, Cuba)

http://www.ceccarelli.psc.br/artigos/portugues/doc/crist.doc


Autora: Maria Cristina Martins, Psicóloga Clínica e Especialista em Sexualidade Humana – Unicamp - Campinas – SP – BRASIL

E-mail: machriss@globo.com

Co-autor: Paulo Roberto Ceccarelli, Psicólogo, Psicanalista, Ph.D em Psicopatologia e Psicanálise por Paris VII, Paris – França; Professor do Dep. De Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – BRASIL

E-mail: pr@ceccarelli.psc.br

Homepage: www.ceccarelli.psc.br

INTRODUÇÃO

A Internet tornou-se mais um veiculo onde pessoas, de forma ocasional ou rotineira, podem desfrutar e realizar fantasias e desejos muitas vezes inconfessáveis e frustrados em seus relacionamentos amorosos e sexuais, de forma segura e anônima sem que suas identidades reais sejam reveladas. Da mesma forma, a Internet propicia oportunidades para que homens e mulheres, independente de orientação sexual, estado civil, idade e com distintas preferências sexuais, possam tornar concreto no mundo “real”, um contato iniciado e mantido através da comunicação on-line (Martins & Grassi, 2001). Partindo-se da premissa que a definição de “normalidade” é histórica e culturalmente construída, conceitos como “normal”, “saudável” e “patológico” estão sendo questionados por todos os profissionais que se interessam pelo estudo e compreensão da sexualidade humana. As inúmeras manifestações da sexualidade humana, assim como as mais variadas buscas de prazer, confirmam uma vez mais que no ser humano a sexualidade não está vinculada à procriação.

A dinâmica da sexualidade humana – o que leva um sujeito a ter a sexualidade que tem – vem sendo objeto de estudo desde a Antiguidade sem que um consenso tenha sido alcançado, o que têm levado à busca de novos paradigmas para compreender os comportamentos sexuais ditos “desviantes”. Uma das razões que dificulta a compreensão dos interesses sexuais não convencionais é que o paradigma sexual tradicional, baseado na psicologia, psiquiatria como também na opinião popular, assume que a procriação é a mais importante função biológica (Fog, 1992). A maioria dos dados coletados e estudados sobre comportamentos ditos “desviantes” foram baseados em casos considerados patológicos. Tais estudos foram feitos sob a ótica médica forense, ou tendo como referência pessoas que procuravam tratamento psiquiátrico e/ou psicológico por suas preferências sexuais “desviarem” do comportamento sexual “normal” (Ceccarelli, 2000). Este último entendido como o relacionamento sexual heterossexual, finalizado com a penetração genital e com o intuito de procriar. Certas práticas sexuais ditas “desviantes” como o Sadismo e o Masoquismo Sexual, como também o Fetichismo são categorizados como “parafilias” e comportamentos disfuncionais pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - 4a Edição (1995) da Associação Americana de Psiquiatria (APA) e pela Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde –10th Revisão (1999) da Organização Mundial da Saúde, o que tem gerado muitos debates em relação ao seu critério diagnóstico, com o qual muitos profissionais que se interessam pelo estudo das práticas sexuais “alternativas”, não concordam.

O objetivo do presente estudo é explorar a sexualidade humana nas suas mais diversas variações como o BDSM (Bondage/Disciplina, Dominação/Submissão, Sadismo/Masoquismo) ou SM, Fetichismo, através de um questionário on-line enviado à um grupo de pessoas que se descrevem como praticantes de BDSM e Fetichismo e que tem na Internet o seu referencial para a troca e procura de informações, assim como para a procura de parceiros que partilham das mesmas fantasias sexuais.

Este estudo não tem a intenção de incentivar ou condenar a escolha de práticas sexuais, mas explorar a diversidade da sexualidade humana adulta de um grupo de pessoas dentro do contexto da sociedade brasileira contemporânea.

MÉTODO

Um e-mail foi enviado às várias listas de discussão e classificados postados em websites dirigidos aos praticantes de BDSM consensual e Fetichismo do Brasil e que utilizam a Internet como um meio para a troca e obtenção de informações e contatos com pessoas que partilham das mesmas fantasias sexuais. Explicou-se o caráter exploratório do estudo, o qual seria basicamente conduzido por e-mail, onde a identidade real dos participantes seria preservada. Os interessados deveriam ter mais de 18 anos de idade, não importando sua orientação sexual e estado civil. Aos voluntários foi pedido que entrassem em contato replicando ao e-mail enviado. Cento e onze pessoas de vários estados brasileiros manifestarem interesse em participar. Foi-lhes enviado, então, um questionário abordando questões como: o que os levava a usar a Internet; quais as práticas sexuais em que estavam envolvidos; como e quando se interessaram por atividades sexuais consideradas “diferentes” e como se sentiam em relação a ter prazer com práticas consideradas não convencionais.

Informações sobre a idade, formação religiosa, sexo, estado civil, nível de escolaridade, e orientação sexual, também foram objeto de interesse para a pesquisa. Não foi objetivo do presente estudo, estabelecer critérios diagnósticos da amostra pesquisada nem tampouco descrever em detalhes as práticas sexuais não convencionais.

REVISÃO

Apesar da crescente evolução observada ao longo dos anos nas ciências humanas e nas áreas tecnológica e científica, a sexualidade ainda é objeto de muita especulação, preconceitos e tabus. Se observarmos as diversas reações da atualidade frente às manifestações sexuais, veremos o quanto tais reações permanecem imutáveis ao longo da história. Embora a “revolução sexual” dos anos sessenta e os inúmeros movimentos objetivando o reconhecimento dos direitos humanos, sobretudo os feministas, tenham mudado o cenário social, a sexualidade continua sendo um enigma para o ser humano e objeto de muitas discussões desde a Antiguidade.

No séc. V, a partir dos grandes Padres da Igreja - Agostinho, Jerônimo e Tomás de Aquino, o cristianismo passa a vincular sexualidade e procriação: o exemplo inquestionável a seguir é a vida "naturalmente heterossexual" dos animais. Toda prática sexual que escapasse a esta norma traria o chamado “estigma negativo do prazer”. Surge a partir de então, uma forma de moralidade que é essencialmente uma moralidade sexual. As práticas “contra a natureza” - consideradas atentado ao pudor, aos bons costumes, e à opinião pública - acarretam severas sanções para que o “normal” seja mantido. Entretanto, a história assim o mostra, tal objetivo nunca foi alcançado: a sexualidade sempre escapou a toda e qualquer tentativa de normatização (Ceccarelli, 2000).

Na segunda metade do século XIX aparece o discurso psiquiátrico contemporâneo que, marcado pela mesma visão moralista, dá continuidade às posições teológicas e jurídicas, trazendo para a ordem médica o que, até então, era do jurídico. Os grandes psicopatólogos da época, dentre eles, Havellock-Ellis (1888) e Kraftt-Ebing (1890), classificaram e etiquetaram as práticas sexuais que escapavam aos ditames morais. Traçou-se um minucioso inventário das sexualidades ditas desviantes, onde novas formas de práticas sexuais, que utilizam o outro para a obtenção de prazer e a finalidade natural da sexualidade – a procriação – é subvertida, são criadas: homossexualismo, voyeurismo, exibicionismo, sadismo, masoquismo, juntando-se à infindável nosografia psiquiátrica da época. É também nesta época que termos que, mais tarde, tornaram-se clássicos, são aí introduzidos: perversão (1882, Charcot e Magna), narcisismo (1888, Havellock-Ellis), auto-erotismo (1899, Havellock-Ellis), sadismo e masoquismo (1890, Krafft-Ebbing) [Ceccarelli, 2000].

No final do Séc. XIX, e de forma ainda mais contundente no início do XX, Sigmund Freud em seu texto mais importante sobre a sexualidade, os "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade" publicado em 1905, sustenta que subordinar a sexualidade à função reprodutora é “um critério demasiadamente limitado”. Na perspectiva freudiana, a sexualidade é contra a natureza, ou seja, em se tratando de sexualidade, não existe uma “natureza humana”. (Ceccarelli, 2000).

Joyce McDougall e o conceito de “Neo-Sexualidade”

A autora contemporânea Joyce McDougall (1997) fez uma importante e inovadora leitura crítica de Freud em relação à perversão. Segundo a perspectiva teórica desta autora, a palavra “perversão”, denota uma conotação depreciativa e em direção ao mal, já que nunca se ouve que alguém foi “pervertido” para o bem. A autora sustenta que além da implicação moralista no uso vernacular da palavra, o atual padrão de classificações psiquiátricas e psicanalíticas é igualmente questionável. Ao se rotular e diagnosticar alguém como “neurótico”, “psicótico”, “psicossomático” ou “perverso”, não se leva em consideração as inumeráveis variações de estrutura psíquica de cada categoria clínica, perdendo-se de vista o aspecto mais notável aspecto dos seres humanos em sua estrutura genética, que é a sua “singularidade” (McDougall, 1997, p 186). Em relação às chamadas sexualidades perversas como o fetichismo e as práticas sadomasoquistas, constata que as mesmas acontecem na qualidade de jogos eróticos nas atividades sexuais de adultos não-perversos, sejam estes heterossexuais ou homossexuais, sendo que tais práticas não despertam conflito, pois não são experienciadas como compulsivas ou como condições exclusivas para o prazer sexual. Já os adultos heterossexuais e homossexuais que só tem roteiros eróticos fetichistas ou sadomasoquistas, para os quais essas práticas sexuais são a única via de acesso às relações sexuais, deve-se tomar o cuidado quanto a desejar que essas pessoas percam essas versões heterodoxas de desejo, simplesmente porque podem ser consideradas sintomáticas. Ao invés de “perversão”, McDougall (1997, p 188) prefere nomeá-las como “neo-sexualidades”. Segundo a autora, o termo “perversão” seria mais apropriado “como um rótulo para atos em que um indivíduo impõe desejos e condições pessoais a alguém que não deseja ser incluído naquele roteiro sexual (como no caso do estupro, do voyeurismo e do exibicionismo) ou seduz um indivíduo não-responsável (como uma criança ou um adulto mentalmente perturbado”).[McDougall, 1997, p 192].

Os Manuais de Saúde Mental e o Projeto ReviseF65

Svein Skeid é um dos responsáveis pelo projeto ReviseF65 ou Projeto CID (www.revisef65.org), o qual tem como objetivo através de um website e um grupo de discussões na Internet de mobilizar grupos SM/Couro/Fetichista e profissionais da área da saúde mental mundial, com o intuito de retirar o diagnóstico psiquiátrico (“parafilias”) do Fetichismo, Transvestismo e Sadomasoquismo, da Classificação Estatística Internacional das Doenças e Problemas de Saúde (www.revisef65.org/ICD10.html), publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O diagnóstico de “parafilia” pode servir como justificativa à estigmatização e violência contra as minorias sexuais. Vários relatos de violência contra praticantes do Sadomasoquismo e Fetichismo, podem ser encontrados no website do ReviseF65 (www.revisef65.org). A U.S Leather Leadership Conference relata que de trinta a cinqüenta por cento da população SM sofre discriminação, violência ou perseguição devido a sua orientação sexual. O Projeto CID (ICD) afirma “que estigmatizar minorias através de diagnóstico de sua orientação sexual é tão desrespeitoso como discriminar pessoas por sua raça, etnia ou religião (www.desejosecreto.com.br/revisef65.html). Trata-se sem dúvida de uma proposta legítima em defesa dos direitos humanos das minorias sexuais.

Países como a Dinamarca, em consonância com as necessidades e direitos legítimos das minorias sexuais, retirou totalmente o diagnóstico de sadomasoquismo em 1995 de seus manuais de saúde.

O Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais-4a.Edição (DSM-IV, 1995, pp 495), também classifica o Fetichismo, o Sadismo e o Masoquismo Sexual como “parafilias”, onde além de ter fantasias e impulsos sexuais, recorrentes e intensos ou comportamentos envolvendo tais práticas (Critério A), essas fantasias, impulsos sexuais ou comportamentos devem causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo (Critério B).[DSM-IV, 1995, p 495]. Caso o Critério B não seja atendido, as variantes sexuais acima não são consideradas patológicas ou sintomáticas, configurando-se apenas uma variação da sexualidade humana adulta.

Devido à falta de informação, desconhecimento do que se tratam as práticas eróticas consensuais, seus praticantes são erroneamente confundidos com vítimas ou perpetradores de atos coercitivos de violência e abuso sexual.

Conceitos e Práticas BDSM

As práticas sadomasoquistas consensuais e fetichistas não são facilmente definidas, pois abrangem um leque de comportamentos onde muitos dos praticantes não apreciam todos os papéis e atividades, estando a descrição detalhada de cada prática BDSM e fetichista, fora do âmbito do presente estudo. Focaremos, no entanto, os termos mais gerais.

O termo “BDSM’, que se refere ao universo sadomasoquista como um todo, envolve todos os seus aspectos – dominação, submissão, bondage, disciplina, sadismo e masoquismo, enquanto “SM” significa “sadomasoquismo” (Paschoal, 2002, p 14). Entretanto, a relação entre os dois termos é análoga à distinção entre os termos “homossexual” e “gay” (Moser, 1996, p 24).

Segundo a perspectiva teórica deste autor, “Dominação e Submissão (DS), implica na transferência deliberada do controle psicológico e sexual de um parceiro para o outro, sem que haja necessariamente, elementos de dor física ou humilhação. O termo “Bondage e Disciplina”, “B&D” ou B/D, refere-se às práticas sexuais com variados tipos de imobilização ou restrição física, enquanto “Disciplina” indica a representação de fantasias que se relacionam à punição/castigo, como por ex, a fantasia “professor/estudante”. “Humilhação” refere-se às cenas de “role-play” nas quais o parceiro dominante detém o controle do poder sobre o parceiro submisso, infligindo e ritualizando torturas psicológicas, como insultos verbais de conotação sexual. Em relação aos termos “sadista” e “masoquista”, existe uma conotação mais fisiológica, de natureza sexual, onde as pessoas experimentam sensações de prazer ao dar e/ou receber cuidadosamente controladas sensações de dor, como no caso de levar chineladas ou chicotadas (Moser, 1996, p 25). Já a palavra “leather” é usada na comunidade sadomasoquista por gays e lésbicas (Moser, 1996, p 63).

Outros comportamentos também geralmente incluídos na prática sadomasoquista são o “age-play”, um fetiche no qual exige-se que o parceiro atue como tendo uma idade diferente, algumas vezes mais velho ou mais novo (representando um bebê, por ex.); a feminização forçada ou voluntária dos submissos masculinos que vestem saltos altos, cintas-ligas e vestimentas femininas (crossdressing) e também jogos sexuais que envolvem urinas e excrementos. Paschoal (2002, p 16) sustenta que “cada um desses conceitos tem aspectos pessoais, individuais e únicos, tais como as pessoas que os praticam...Cada um é livre para escolher qual deles prefere e como prefere....Não há como seguir os vários conceitos de forma literal, já que a criatividade humana e as liberdades individuais são o que há de mais precioso no ser humano”.

Com a mesma criatividade, a comunidade BDSM criou o termo “baunilha” (“vanilha”), para se referir às práticas sexuais convencionais que não envolvem nenhum componente SM (Scott, 1997, p 3). A tríade “Sanidade, Segurança e Consensualidade” (Brame G, Brame W & Jacobs, 1993, p 49) é considerada uma norma básica das práticas não convencionais consensuais e jamais pode ser ignorada ou negligenciada. Paschoal (2002, p 22) afirma que a não existência de qualquer um dos aspectos SSC, torna toda e qualquer relação BDSM totalmente inviável.

Por “Consensualidade”, Moser (1996, p 31), entende o acordo voluntário firmado entre os participantes do jogo erótico, no qual os limites de cada participante são honrados. Esclarece que, não se pode chamar o abuso doméstico que ocorre entre um casal de SM, pois o SM é consensual e o abuso imposto a um parceiro não é. Podemos usar como exemplo o intercurso sexual e o estupro, onde o primeiro é consentido e o segundo é imposto sob coação. Portanto, a diferença entre o sadomasoquismo e a verdadeira violência, encontra-se no consentimento informado (“informed consent”) [Moser, 1996, p31]. A “Sanidade” refere-se à conscientização do que os participantes estão fazendo numa cena SM: trata-se de uma fantasia e que não corresponde à realidade. Certas práticas BDSM implicam em riscos consideráveis. Nesse sentido, o conhecimento do parceiro, o estabelecimento de limites e saber os riscos inerentes a cada prática, são fatores importantíssimos para que o jogo erótico BDSM seja seguro e prazeroso. Vale dizer também, que segurança engloba também algumas proibições. Como é extremamente importante que se tenha completa consciência sobre o que se está fazendo, o uso do álcool e de qualquer tipo de droga é severamente desaconselhado antes ou durante a cena ou jogo BDSM (Paschoal, 2002, p 27). Caso algum limite físico ou psicológico seja ultrapassado, o uso da “safeword” ou “palavra de segurança” restabelece os limites da segurança física e emocional dos participantes e o jogo é imediatamente interrompido.(Paschoal, 2002, p 25).

Segundo Brame, G, Brame, W & Jacobs (1993, p 358), a origem da palavra fetish vêm da palavra em português feitiço e consta que foi usada pela primeira vez por exploradores portugueses do séc. XV para descrever figuras sagradas. No seu sentido antropológico o fetiche está ligado à artefatos sagrados investidos de poderes espirituais. Para os fetichistas, o fetiche erótico é o próprio símbolo do divino, podendo excitar e mesmo induzir os seus devotos ao êxtase. Exemplos de fetiches eróticos são encontrados naqueles que admiram um par de sapatos, ao invés do pé que o veste; ou então o próprio pé é considerado extremamente excitante, em detrimento do corpo humano como um todo. Todos os seres humanos são fetichistas em algum grau. Na cultura brasileira, as nádegas são objeto de adoração nacional, enquanto na cultura americana, há uma extrema valorização dos seios. Na China, um pé feminino pequeno é extremamente sexy. Isso demonstra que diferentes culturas elegem seus próprios fetiches. Como Paschoal (2002, p 68) muito bem ilustra, “um fetiche seria uma preferência específica dentro de um universo de possibilidades...o BDSM está mais para uma fantasia repleta de fetiches. Assim como um masoquista prefere (ou tem o fetiche de) receber dor, ou ser torturado exclusivamente com cordas; ou com velas; ou com gelo; ou com todas as alternativas; ou com nenhuma delas. O sádico prefere ( ou tem o fetiche de ) causar dor. Tudo são fetiches”.

No tocante à realidade brasileira, a Internet tornou-se um poderoso veículo para a procura de informações e contatos de pessoas que se interessam pelas práticas eróticas sadomasoquistas e fetichistas, contribuindo largamente para a formação de uma subcultura “virtual” de minorias sexuais. O movimento BDSM brasileiro encontra-se num estágio embrionário, mas crescente, com centenas de websites (vide www.associacaobdsm.com.br) e listas de discussões (www.yahoo.com.br e www.msn.com.br), na tentativa de se formar um movimento agregador que proporcione reconhecimento, visibilidade e contatos fora da realidade “virtual”, seguindo uma tendência internacional proposta pela organização americana “The National Coalition for Sexual Freedom” (NCSF) que luta para garantir direitos iguais nas áreas legal, política e social para os adultos que estão engajados na práticas de expressões sexuais alternativas. Segundo os artigos sobre SM disponibilizados em seu website (www.ncsfreedom.org.), a NCSF esclarece que o Sadomasoquismo não é abuso nem violência doméstica, sendo este último “um padrão de comportamento intencional de intimidação com o objetivo de coagir ou isolar o outro parceiro sem o seu consentimento”(www.ncsfreedom.org/what.htm), opostamente ao que ocorre nas práticas BDSM, onde os parceiros envolvidos concordam sobre tudo o que vai acontecer no jogo erótico, além de serem pessoas muito bem informadas sobre as possíveis conseqüências na troca erótica do jogo de poder. Esclarece ainda que a violência doméstica pode ocorrer em qualquer grupo de pessoas, inclusive entre os que praticam SM, mas com a diferença de que dentro da comunidade sadomasoquista, a violência doméstica não é perdoada e suas vítimas e abusadores são encorajados a procurar ajuda especializada.

RESULTADOS

Tabela 1


Dados quantitativos da amostra pesquisada (n = 111) %
Sexo Masculino 93,7
Feminino 6,3


Idade
18-25 18,9
26-35 41,4
36-45 30,6
46-55 8,1
+55 0,9

Orientação Sexual
Heterossexuais 84,7
Bissexuais 9,9
Gays 5,4

Estado Civil

Casados 31,5
Solteiros 52,3
Separados/ Divorciados 16,2

Escolaridade
Nível Secundário 16,2
Nível Universitário Completo 70,3
Pós – Graduados 13,5



Religião
Católica 53,2
Protestante 2,7
Espírita 12,6
Agnóstico 5,4
Ateus 5,4
Nenhuma 14,4
Outras 6,3


Práticas
Dominação/ Sadismo 32,4
Submissão/ Masoquismo 43,3
Switchers (“role reversal”) 15,3
Crossdressing 1,8
Podolatria 4,5
Outras 2,7

Participação da parceria
Sim 36,1
Não 25,2
Sem parceria fixa 38,7



Como podemos perceber na tabela 1, a grande maioria da amostra total (n =111), é composta de heterossexuais, mas cabe a observação de que apenas sete (6,3%) respondentes são do sexo feminino, sendo quatro (4) oficialmente casadas e três (3) solteiras. O número de pessoas com parcerias que possuem e praticam as mesmas fantasias sexuais, (36,1%), foi maior do que o esperado. Interessante salientar que, nas práticas sexuais envolvendo a Submissão e o Masoquismo (43,3%), apenas seis (6), são mulheres e heterossexuais, enquanto que o restante do grupo pertence ao sexo masculino independente de orientação sexual. A religião católica (53,2%) é a que tem o maior número de seguidores. O nível de escolaridade mostra-se elevado, sendo que 70,3% dos respondentes têm curso superior completo e 13,5% são pós-graduados.

CONCLUSÃO

Abaixo citaremos recortes de alguns relatos para ilustrar a parte qualitativa do estudo, onde os respondentes falam a respeito de como se sentem em relação às suas vivências sexuais e aos tópicos que foram abordados no questionário por eles respondido.

-SS, pós-graduado, fetichista, 35 anos, casado: “Quando tinha aproximadamente 5 anos, lembro-me que tinha tesão em vestir camisolas de cetim, gostava de urinar nelas e sentir o cheiro da urina por vários dias.....Desde criança percebi que tinha desejos “diferentes”, mas só fui entender de fato que esses fetiches não são uma “aberração da natureza”, há uns três anos com o advento da Internet....na net, vi, conversei e sei que tem gente com os mesmos gostos”.

- S, administrador de empresas, masoquista, 34 anos, casado, lembra: “Tinha uma brincadeira de policia e ladrão onde as meninas eram sempre da polícia e os meninos ladrões. As meninas corriam, pegavam e prendiam os meninos. Lembro que quando eu era preso sempre pedia para ser amarrado, pois senão fugiria, assim fui sem perceber desenvolvendo meu instinto de submissão ao sexo feminino...Uma fantasia que me marcou muito na infância e na adolescência foi a figura da “Mulher Gato” do seriado Batman.....hoje ao rever com olhos mais experientes dá para perceber uma explicita citação fetichista. A Mulher Gato era linda, aquela roupa em látex, bem justa e colada ao corpo...sempre que capturava os heróis , eles eram amarrados e ficavam aos pés dela ...sempre era mostrado a Mulher Gato em seu esconderijo sentada em uma cadeira tipo trono em um pedestal e seus ajudantes ficavam sentados no chão aos seus pés...às vezes ela dava um jeito de pisar em um ajudante...fetiche puro”.

-Fbond, importador, fetichista bondagista, 31 anos, casado, lembra: “Levo o bondage e o fetichismo extremamente a sério, não sou adepto de nada que provoque dor, mas gosta da sedução aliada à bondage, cinta-liga, roupas insinuantes (mas não vulgares), sou culto....descobri que era fetichista aos 8 anos de idade assistindo um filme do Jerry Lewis e hoje tenho um acervo com mais de 150 fitas do gênero....Considero-me uma pessoa extremamente amiga, por isso acho um absurdo comparações que coloquem um fetichista na casa dos “anormais”. Talvez até haja casos assim, mas não se trata da grande maioria”.

-Al Z, dominador, pós-graduado em análise de sistemas, 38 anos, casado, relata: “Desde pequeno eu apreciava quando via cenas em que apareciam mulheres presas, amarradas ou surradas (normalmente em filmes), mesmo desconhecendo totalmente o sexo... acho que era instintivo.....Despertei totalmente para minhas fantasias há uns cinco ou seis anos atrás quando entrei acidentalmente num site ...na época eu tinha 32 ou 33 anos e esse fato mudou totalmente a minha vida...O bondage e o spanking ( bumbum feminino), me excitam bastante e também outras formas de dominação física e psicológica, como por exemplo, transformar a parceira em uma cadelinha colocando correia e correntinha guia....Meu relacionamento com minha esposa é do tipo “padronizado”, ou seja, segundo ditam as regras religiosas e sociais para um casamento...Ela não sabe das minhas incursões no mundo virtual, nem tampouco que procuro alguém para realizar minhas fantasias no “real”. Sinto-me uma pessoa absolutamente normal....O que penso é que a sociedade é quem realmente tem medo de admitir que quem gosta de BDSM ( dentro do contexto erótico, é claro), é um ser humano normal. As pessoas buscam sempre viver cada vez com mais tesão e o BDSM é apenas mais uma forma alternativa de alcança-lo plenamente. ...Nunca abri o livro da minha vida tanto assim como estou fazendo com você, mas me sinto muito bem, porque isso estava me sufocando demais”.

-J, analista de sistemas, submisso, 32 anos, solteiro: “Sinto-me perfeitamente normal e até porque não privilegiado, por saber explorar a minha sexualidade de uma forma diferenciada e muito mais intensa do que a maioria das pessoas. Fico muito feliz por ter capacidade suficiente em entender o meu fetiche e tirar proveito dele de forma sadia, segura e muito peculiar”.

-N, assistente administrativa, bondagista, 26 anos, solteira: “Gosto de ser amarrada e imobilizada completamente, me sentir completamente vulnerável nas mãos do meu parceiro, mas não ficar passiva e sim relutar em estar amarrada, como se estivesse sendo obrigada a estar naquela situação, não aceitar passivamente que o outro me amarre, mas “fugir”, tentar me soltar, mas acabar sendo “vencida” pela força e técnica do meu parceiro...a privação dos sentidos como a visão e a fala....assim os mesmos ficam ainda mais aguçados, mas não saber o que a pessoa vai fazer é uma excitação sem igual... estar amordaçada é uma sensação incrível... Juntar tudo isso é uma sensação inexplicável ... Sinceramente, me sinto mais normal do que as outras pessoas, eu me sinto assumida. Acho que o que não é normal é as pessoas se podarem, ou mesmo viverem um relacionamento de aparências e procurarem fora do relacionamento a realização de suas fantasias...acredito que uma pessoa será completamente feliz quando procurar um relacionamento que lhe complete no todo... difícil, mas acho que mais difícil ainda é viver duas vidas...em uma delas você vai encenar... A sociedade em que vivemos é hipócrita... todos têm suas fantasias, mas para se encaixar no padrão “normal”, ninguém se assume e ainda critica e se escandaliza coma opção do próximo. Acredito que cada um é dono da sua vida e não tem que dar satisfação para ninguém do que gosta ou deixa de gostar dentro de quatro paredes, ou melhor, acho que devemos ser livres para vivenciar nossas fantasias e outras coisas cotidianas também, é claro, respeitando o limite e espaço do outro. Para mim o BDSM é uma forma de prazer, é um mundo vasto com muitas ramificações e cada pessoa escolhe dentro dessas a que lhe dá prazer ...eu escolhi a minha e não me incomoda o fato da sociedade não aceitar ou me achar uma aberração... eu me sinto mais normal que todos, pois sou sincera comigo mesma, me assumo e me aceito assim e isso me faz feliz ...”.

- M.H, dentista, crossdresser, submissa, 39 anos, casado: “Sou casada e minha esposa participa de tudo e me domina há mais de um ano...Como você pode perceber sou uma crossdresser submissa e como tal me porto. Sou uma sissy da minha esposa. Me visto sempre que posso feminina, tenho todos os afazeres da casa e sou uma mulher para minha esposa. Sou totalmente passiva e ela é ativa ....freqüentemente apanho e sou humilhada, o que adoro...fui descobrir que o que eu sentia e fazia estava em total sintonia com o universo BDSM, mais ou menos aos 18 anos. Mas sem saber que era uma postura BDSM, desde que me conheço por gente ...aos 6 ou 7 anos de idade...Adorava brincar de casinha com meus primos e primas e sempre eu era a empregadinha, sempre trabalhando e humilhada. Este era o papel que eu escolhia. Isto me dava prazer e no meu ponto de vista encaixa no BDSM...Aos 10 anos gozei a primeira vez quando pus uma saia de uma tia...gozei sem ao menos me tocar. Desde então sempre fui fora dos padrões , mas aos 16 anos notei que era “diferente”. Seria eu gay? Mas como ser gay se não me interessava e nunca me interessei por homens? Mas se não era gay, por que me fantasiava no papel feminino? ...As pessoas infelizmente vivem num padrão proposto hipócritamente por esta sociedade machista e repressora em que vivemos.”

- ZZ, assistente de faturamento, podólatra submisso, 34 anos, casado: “O meu relacionamento com minha esposa é o melhor possível em todos os sentidos. Ela sabe de minha atração por pezinhos, tanto é que começou a trata-los bem melhor e de vez em quando, quando transamos, ela me dá umas boas chineladas e eu gosto muito. Desde que não prejudique física ou emocionalmente ninguém e ambos estejam de acordo, vale tudo na prática sexual entre um casal. Sobre como a sociedade vê e julga os meus atos, isso para mim não tem a mínima relevância”.

- JP, advogado, sádico, 38 anos, casado: “Sinto-me um privilegiado por ter certos interesses sexuais diferentes da maioria das pessoas e sempre conseguir realizá-los. O BDSM é muito complexo, pois existem diferentes níveis de SM e me incluo em um intermediário...algumas práticas me soam indigestas, como por exemplo a coprofagia, humilhação em público, perfurações, cortes ou queimaduras, mas como diz o ditado, “ se feito com o consentimento de ambos o problema é deles...”.

Podemos sugerir que as pessoas que fizeram parte da amostra pesquisada, longe de representar a totalidade de indivíduos com práticas sexuais não convencionais na sociedade brasileira, sentem-se em sintonia com suas diversas preferências sexuais, as quais são experienciadas como prazeirosas , sentindo-se também privilegiadas por terem uma sexualidade “diferenciada ” daqueles que vêem no sexo e nos papéis convencionais , a única forma de expressão para o amor, intimidade e para a realização de suas fantasias sexuais. Não podemos afirmar pelos dados colhidos e relatados, que os praticantes de BDSM e Fetichismo que participaram desse estudo, possam ser chamados de “parafílicos”. Preferimos descreve-los como praticantes esclarecidos, bem informados, e conscientes daquilo que consideramos como variações na expressão da complexa sexualidade humana adulta.

É muito clara a importância do uso da Internet na formação de uma subcultura BDSM consensual no Brasil, não só para a comunicação, obtenção de informações entre praticantes afins, mas também como um mecanismo de inclusão social, reunindo milhares de pessoas que compartilham das mesmas fantasias e práticas sexuais não convencionais. Esse estudo foi possível, justamente pela facilidade de acesso, anonimato e a facilidade que a Internet proporciona para todos os seus usuários. Cooper et al (2000, p 6), sustenta que a Internet oferece a oportunidade para a formação de comunidades virtuais, onde indivíduos isolados e discriminados, como por exemplo, gays e lésbicas, podem se comunicar entre si sobre assuntos sexuais que sejam de interesse dessa comunidade.

Ao se darem conta do número de pessoas “iguais”, a sensação de isolamento e de ser “diferente” diminui ou desaparece e um novo sentido de “pertinência” (“belonging”) e identidade surge para aqueles que, anteriormente ao advento da Internet, sentiam-se “anormais” e “fora do padrão” por não terem com quem compartilhar e dividir seus anseios e suas fantasias devido ao preconceito e estigma em relação a tudo o que se desvia da “norma” ou “padrão”. Podemos sugerir que a Internet pode servir como um “salva-vidas” virtual” , pois ao dar aos praticantes de BDSM, fetichismo e outras minorias sexuais, a oportunidade de “sair do armário”, proporciona um ambiente onde não há repressão, preconceito e onde tudo é possível no mundo da fantasia, dando também a oportunidade para que essas fantasias saiam da “virtualidade” e possam ser concretizadas no mundo “real”. Segundo Bader (2002, p 259), o porque de algumas pessoas “atuarem” ( “act out”) suas fantasias e outras não, não encontra uma resposta fácil. Ainda segundo a perspectiva teórica deste autor, é mais fácil compreender porque uma pessoa desenvolve determinada fantasia ou prática sexual, mas raramente pode-se afirmar o porquê ela “atuou” ou simplesmente a manteve a nível de fantasia .

O mundo tem passado por mudanças tecnológicas quase impossíveis de serem acompanhadas na área da concepção da vida humana: o bebê de “proveta” e a inseminação artificial são práticas corriqueiras antes impossíveis de serem imaginadas e concretizadas, como o é agora, a possibilidade da clonagem de seres humanos em laboratórios. O novo assusta, provoca medos e inseguranças e sentimentos de desproteção. Mas é inegável que mudanças nas mentalidades estão a caminho nesse novo milênio. A tradição judaico-cristã que forma a base religiosa da sociedade brasileira há séculos, mostra-se anacrônica perante os fatos mencionados e pelo o que ainda está por vir. A tão propagada vida “naturalmente heterossexual” dos animais, que serviu como justificativa para o encarceramento do desejo sexual e do prazer pela instituições religiosas, começa a cair por terra com as últimas pesquisas científicas sobre a vida sexual dos animais, as quais demonstram que as “práticas contra a natureza”, são parte também da sexualidade animal ((www.subversions.com/french/pages/science/animals.html).

Para onde vamos, já que os conceitos e normas psico-sociais, religiosas e culturais, que definiam a noção de “normalidade” , não mais se aplicam à sociedade pluralista que se nos apresenta? A nossa tradicional ética sexual seguida há centenas de anos, não mais se adequai às mudanças sócio-culturais e aos novos desafios do Século XXI. Vivemos numa sociedade plural, onde começam a se tornar visíveis as mais diversas expressões da sexualidade humana adulta, as quais querem ser aceitas, reconhecidas e legitimizadas. Expressões sexuais que demonstram maturidade, respeito e consciência entre aqueles que as praticam.Cabe salientar que, por se sentirem confortáveis e em egossintonia com suas práticas sexuais, tenha sido este o motivo que tenha levado esses indivíduos a participarem desse estudo A linha que separa as práticas consensuais BDSM e as práticas sexuais ditas “perversas” “é muito tênue. Mas é importante que se saiba distinguir umas das outras.

E com base nesta distinção, o presente estudo demonstrou que, apesar de limitado no seu alcance, é um direito humano legítimo ser “diferente” da maioria e conseqüentemente, ter essa “diferença” respeitada e aceita pelos demais.

REFERÊNCIAS

Animals prefer Homossexuality to Evolution. Retrieved January 17, 2003, from www.subversions.com/french/pages/science/animals.html

Bader, M. J. (1997). Arousal. The Secret Logic of Sexual Fantasies. Thomas Dunne Books, pp 259-260.

Brame G, Brame W & Jacobs (1993). Different Loving. The World of Sexual Dominance & Submission. Villard Books, NY, pp 49, 358.

Ceccarelli, P.R (2000).Sexualidade e Preconceito. Artigo publicado na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, SP, III, 3, 18-37. Retrieved October 10, 2002, from: www.ceccarelli.psc.br

Classificação Estatística Internacional Das Doenças e Problemas da Saúde (ICD-10). Retrieved May 7, 2002, from www.desejosecreto.com.br/revisef65.html

Cooper A et al. (2000). Cybersex. The Dark Side of the Force. Taylor& Francis, p 6.

Fog, A (1992). Paraphilias and Therapy. Nordisk Sexology, vol10, pp 236-242. Retrieved October 1, 2002, from www.ipce.info/ipceweb/Library/98-053r_fog_eng.htm

Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 4a Edição DSM-IVtm (1995). EditoraArtes Médicas, Porto Alegre, 1995, p 495.

Martins, Maria Cristina, Grassi, Maria Virginia F C (2001) American Women and Internet Infidelity. Abstracts Book. 15th World Congress of Sexology, June 24-28, Paris, 2001, p 149.

MCDougall, Joyce (1997). As Múltiplas Faces De Eros. Martins Fontes, SP, 2001, pp 186, 188, 192.

Moser C, Madeson JJ (1996). Bound to be Free. The Continuum Publishing Company, NY, 2000, pp 24, 25, 31, 63.

Paschoal H, (2002). Sem Mistério. Uma Abordagem (Na) Prática de Bondage, Dominação, Sadismo e Masoquismo. Editora Cia do Desejo, Campinas, SP, pp 14, 16, 22, 27, 68.

Scott, G G (1997). Erotic Power. An Exploration of Dominance and Submission. Carol Publishing Group, p3.

The National Coalition for Sexual Freedom. Retrieved July 24, 2002, from www.ncsfreedom.org/what.htm

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Aqui eu não sou homem ou mulher. Sou um adepto do crossdresing. Sou uma Crossdresser - CD ou CDzinha. Desde os 9 anos, adoro lingeries e roupas sexyes. Levo uma vida normal masculina e tenho uma vida clandestina feminina.

Me proponho aqui a falar um pouco de tudo, em especial das Crossdressers, dos transexuais, dos Travestis e da enorme comunidade
LGBT existente em todo o mundo. Um estilo de vida complicado e confuso (para alguns)... Este espaço também se presta para expor a minha indignação quanto ao ódio e preconceito em geral.

Observo que esse é um blog onde parte do que aqui posto pode ser considerado como orientado sexualmente para adultos, ou seja, material destinado a pessoas maiores de 18 anos. Se você não atingiu ainda 18 anos, ou se este tipo de material ofende você, ou ainda se você está acessando a internet de algum país ou local onde este tipo de material é proibido por lei, NÃO siga 'navegando'.

Sou um Crossdresser {homem>mulher} casada {com mulher - que nada sabe} e não sou um 'pedaço de carne'.

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