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A corrida para encontrar o homem macho 100% masculino

A corrida para encontrar o homem macho, sem
feminilidades, sem ambigüidades: 100% masculino

Por Andréa Stefani, mulher transexual e militante LGBT do site: Parou tudo.com

Definitivamente eu falo sobre gênero há mais de 20 anos (contando nos dedos já é possível adivinhar a minha idade!). E neste espaço tenho trabalhado há vários artigos as inúmeras possibilidades de expressão e identificação com o gênero feminino e dos incontáveis tipos de mulheres e seus diversos papéis.

Entretanto, ainda não abordei com a devida consideração as masculinidades e os papéis dos homens. Pois bem, este artigo vai lançar sementes de debates (e proporcionar muito mais dúvidas que certezas!) sobre a busca dessa sociedade pelo masculino total. A procura do ‘homem mais homem’ e do ‘macho dos machos’.

A extraordinária maratona disputada todos os dias para que milhares de homens (e pessoas que se auto-identificam com o gênero masculino) sejam ‘lidos’ e compreendidos como O Masculino, elevado à potência extrema (da ordem dos números infinitos!), sem que haja quaisquer traços de feminilidades, de ambigüidades, de afetações reconhecidas como ‘coisas de mulher’ ou expressões emotivas que atrapalhem a masculinidade e a macheza perfeita.

É tão árduo esse calcar do ‘gênero limpo’, que grande parte dos homens (inclua-se, também: masculino) sofre nos divãs dos profissionais ou nos babalorixás, sofre dentro de casa, sofre no ambiente de trabalho exacerbadamente competitivo e sofre na sociedade duramente misógina, machista e sexista.

Percebam o resultado disso: há algum homem completamente feliz e realizado em ser obrigado a afirmar a cada segundo o machão destemido/impávido/cuspidor/valentão? Alguém arrisca a resposta? E se você, caro leitor, sentir dor? Precisar chorar? Estiver apaixonado? Presenciar o medo? Experimentar compaixão e externar amizade? Como fará para esconder tudo isso e não desmunhecar?

E por falar em amor, e se esse homem, inequivocamente macho (com esforço sobre-humano!), for objeto de um arroubo amoroso oriundo do gênero feminino? As mulheres vão esperar dele oposta e totalmente distante de qualquer afeminação. E se ele não conseguir a virilidade almejada por ambos? Acaba-se o affair? E se a sociedade, presente à cama deles, invocados por suas mentes temerosas - souber que houve um dedinho onde não poderia haver? E se o dedinho foi prazeroso? O camarada vai sofrer pacas! E a moça vai chorar copiosamente achando que o amado é gay. Essa é a tal da (pseudo) Teoria da Complementaridade dos Gêneros – TCG, que foi formulada nos salões de cabeleireiros, nos departamentos das revistas femininas especializadas e nas missas das seis.

Conseguiu acompanhar? Então, vamos piorar agora! Esse mesmo homem sente atração irresistível por travestis. Ama uma transgênero. Excita-se com a Crossdresser. Ele terá tranqüilidade para andar de mãos dadas com sua amada nos shoppings? Vai conseguir levar adiante a sua relação? Será plenamente feliz fazendo o jogo-de-faz-de-contas da sociedade? E se for ele mesmo o que busca um macho 100% homem? Quem será ‘a mulher’ da relação? E se não for para ter uma mulher? Dois homens podem ser felizes?

Que masculinidade e que virilidade são essas que essa sociedadezinha procura? Como manter o poder viril e o membro duro (metaforicamente) diante de tanta expectativa? E se o homem-macho-viril-ativo não quiser esse papel? Ele deixa de ser homem? Que homem é esse? E se nós mulheres nunca encontrarmos um homem assim? Serve os homens femininos? E os feministas? E se for uma mulher, serve?

Que tipo de homem ou identidade masculina você, minha leitora e meu leitor, está procurando?

Se for esse que descrevi aqui, não me avise. Eu prefiro os homens humanos, femininos ou não, que tenham mais dúvidas do que certezas. Por esse, sim, eu corro a São Silvestre para conhecer intimamente.

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