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Dois lados de uma mesma moeda

Dois lados de uma mesma moeda

Leonardo Sales - Fonte: deliriummmm

O recente caso do capitão-de-corverta da marinha que realizou uma polêmica operação de mudança de sexo (nota do blog - quem conhece o assunto sabe que "ele" não operou) trouxe à tona um assunto que já não escandaliza tanto quanto na época em que a transexual Roberta Close chamou a atenção do país. Apesar disso, muita gente ainda não sabe a diferença entre transexualismo e pessoas que vestem roupas usualmente próprias do sexo oposto, por fetiche, independente de sua orientação sexual. São os chamados crossdressers, ou simplesmente, “CDs”, como eles se autodenominam.

Em seu trabalho de conclusão de curso, o psicólogo Carlos André investigou a fundo a formação da identidade sexual do seleto grupo de pessoas que realizam esta forma milenar de exercício da sexualidade. Segundo ele, a maior dificuldade na realização da pesquisa foi conseguir com que os praticantes falassem sobre o assunto, uma vez que a maioria se mostra bem reservada e preocupada com a revelação de suas identidades. “A grande maioria das pessoas que são crossdressers teme a vulgarização do tema“, afirma.

Para alguns, considerados aberrações ou até mesmo perigosos, os crossdressers, muitas vezes, são rejeitados no mercado de trabalho e pelas próprias famílias. Segundo o pesquisador, a dificuldade de definir um limite entre a sexualidade humana normal e anormal reside no fato de que estes conceitos estão mais relacionados a atitudes sociais do que a dados científicos. Assim, a determinação do que é ser um crossdresser seria, segundo ele, uma construção social. “A determinação de roupas específicas para o sexo masculino e feminino varia em cada cultura”, conclui.

Segundo a psicóloga clínica Eliane Kogut, a maioria dos crossdressers é composta por homens casados. “Quando no papel masculino, não apresentam trejeitos afeminados e quando “montados” embora suavizem os gestos e voz, não se apresentam como uma mulher afetada ou como um homem efeminado, ou ainda como uma caricatura”, afirma a especialista em sexualidade, que ano passado publicou um livro sobre perversão e orientou Carlos André em seu trabalho de conclusão de curso.

De acordo com a tese de doutorado da autora, travestis são considerados crossdressers, entretanto a maioria dos praticantes dessa forma de satisfação erótica não utiliza hormônios nem cirurgias plásticas para se assemelharem ao sexo oposto. Dentre os casos observados, distingui-se o de homens heterossexuais que usam determinadas peças femininas escondidos das parceiras e em outros casos, as utilizam como item de fantasia para incremento da relação sexual, prática conhecida como eonismo.


É o caso do CD M.H, casado há 15 anos: “Sou casado e minha esposa participa de tudo e me domina há mais de um ano…Como você pode perceber sou uma crossdresser submissa e como tal me porto. Sou uma sissy da minha esposa” afirma o dentista de 39 anos.

Algumas pessoas encontram na internet a solução para suas angústias e medo da rejeição. O médico e professor universitário de 43 anos, Zara, afirma na entrevista, em sua forma de “sapo” (termo usado quando o crossdresser não está travestido): “Como homem sou heterossexual e como mulher sou lésbica.” Em busca de respostas ao desejo que o persegue desde a infância, ao se deparar com casos na internet, sobreveio-lhe um alívio pela descoberta da existência de outros iguais.

“Nem me lembro quantos anos tinha quando usei as primeiras peças femininas de minha mãe. Quando ficava sozinho em casa, eu corria para o quarto dela para poder vestir suas roupas”, relembra Zara, que pediu para que sua identidade verdadeira fosse mantida em sigilo absoluto.

Além de contribuir para a aproximação dos Crossdressers em sites sobre o tema ou listas de discussão, a rede mundial de computadores facilitou a diferenciação dos travestis, das transexuais e das drag-queens. Aos poucos as letras CD (CrossDresser) apareceram e passaram a designar homens que gostam de vestirem-se de maneira feminina.

O site www.bcc.com.br (Brazilian Crossdressing Club) é um exemplo da integração virtual entre CD’s. Com mais de 500 membros assinantes, o site do Clube criado em 1997 disponibiliza relatos, biografias, história do crossdresing e divulga eventos e encontros entre os associados, que pagam R$ 120,00 de anuidade.

Encontro de Crossdressers em São Paulo

Carlos André acredita que talvez estejamos andando no sentido de compreender um pouco mais sobre a questão. Ele afirma que os sujeitos crossdressers não apenas desejam viver e serem aceitos como sendo de natureza oposta a de seu sexo biológico e conclui afirmando que superam as características físicas de homens, e vivificam suas identificações com o gênero feminino, por meio de suas performances que os auxiliam na constituição de seus corpos, desejos e paixões.

Leonardo Sales

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