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Quarenta e cinco anos depois, o cabo da Aeronáutica José Carlos da Silva pode dizer e provar que é Maria Luíza.


MARIA LUÍZA: DAQUI PRA FRENTE, SÓ ELA

Quarenta e cinco anos depois, o cabo da Aeronáutica José Carlos da Silva pode dizer e provar que é Maria Luíza. Confira


Do Site: Parou Tudo - Por Marcelo Abreu - Clipping do Correio Braziliense

Maria Luíza fez 45 anos e tem um grande projeto: esquecer as mágoas e ser muito feliz. Foto por Edilson Rodrigues

Cinco anos depois, o cabo da Aeronáutica José Carlos da Silva pode dizer - e provar - que é Maria Luíza. Loucura? Pode parecer, mas é isso mesmo. Ele virou ela. Foram mais de cinco anos de luta, afastamento das Forças Armadas, humilhação, rejeição e preconceito. Há três meses, mais precisamente no dia 5 de abril, depois de se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, em parceria com o Hospital Universitário de Brasília (HUB), José Carlos saiu de cena para sempre. Maria Luíza, com novo sexo, entra para viver essa história daqui até o final.

Em setembro de 2000, o Correio Braziliense contou com exclusividade o drama de José Carlos. Com diagnóstico de transexualismo realizado em laudo da própria equipe médica da Aeronáutica, ele lutava para conseguir a cirurgia. Era o primeiro caso desse tipo nas Forças Armadas do Brasil. E até então tratado com todo sigilo. No documento de caráter reservado a que o jornal teve acesso, estava escrito: "Atrofia testicular por provável ação medicamentosa. Transexualismo". E o parecer: "Incapaz definitivamente para o serviço militar. Não é inválido. Não está impossibilitado total e permanentemente para qualquer trabalho. Pode prover os meios de subsistência. Pode exercer atividades civis".

José Carlos lutava, ao mesmo tempo, contra o afastamento da função - o único trabalho que teve ao longo da vida - e para ter direito à operação de mudança de sexo. "De uma hora para outra, depois de 22 anos de dedicação à Aeronáutica e de ter recebido medalhas pelos bons serviços prestados, eu fui considerada incapaz", lembra Maria Luíza. Amparada pelo Ministério Público, por meio da Promotoria de Justiça Criminal de Defesa dos Serviços da Saúde (Pró-Vida), ela começou a luta. Submeteu-se a avaliação de equipe composta por psicólogos, psiquiatras e cirurgiões. Não havia mais dúvida. A indicação era cirúrgica. José Carlos era uma mulher, psicologicamente, num corpo de homem. E, como tinha a cabeça de mulher, rejeitava a genitália masculina.

A vida dele tinha se transformado num tormento. Estava cada vez mais difícil para o rapaz goiano - que havia ingressado nas Forças Armadas aos 18 anos, que era casado e pai de uma filha (hoje com 20 anos) - conviver com a repulsa do sexo que carregava. "Eu não me olhava no espelho. Não conseguia nem mesmo fazer a higiene necessária no meu órgão genital", recorda-se.

Entre mágoa, decepção e incompreensão de todos os lados, inclusive de profissionais despreparados para lidar com a questão da transexualidade, José Carlos se agarrava à única esperança: virar, por meio da operação, a mulher com quem sempre sonhou. Em Brasília não existem equipes de médicos que realizem esse tipo de cirurgia. Foi aí que o cabo reformado soube que no HUB havia um programa de ajuda a transexuais. Ali, contou com ajuda de psicólogos. Sandra Stuard, a responsável pelo grupo, conseguiu firmar um convênio entre o HUB e o Hospital das Clínicas de Goiânia, ligado à Universidade Federal de Goiás. A cirurgia é regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina. Junto com Maria Luíza, mais 21 pessoas hoje fazem parte do grupo de transexuais do HUB, que tem pacientes de Brasília e do Entorno, e aguardam a vez para mudar de sexo.

Transformação

1996 Os primeiros exames e os problemas na corporação. Foto por Ronaldo de Oliveira

Depois de baterias de exames - clínicos e mentais (se for diagnosticado algum distúrbio psicológico, o paciente não é recomendado à cirurgia) -, o cabo foi finalmente considerado apto para a grande operação. Em abril, dia 5, às 8h, ele entra no centro cirúrgico. Por mais de quatro horas, fica ali. É uma cirurgia agressiva e radical. E sai, completamente entorpecida pela anestesia, Maria Luíza. "Essa primeira cirurgia foi a transformadora, a que construiu o canal vaginal. Devo fazer mais uma apenas para os retoques plásticos", diz ela, feliz como nunca.

O psicólogo que a acompanha no HUB, Leandro da Cunha Pontes, de 23 anos, avalia que a cirurgia deixou Maria Luíza melhor. "Ela está mais autoconfiante, menos amedrontada. No transexualismo masculino, com retirada do pênis, é como se retirasse um peso do paciente. Sem a cirurgia, freqüentemente as pessoas recorrem a automutilação, o que contribui para aumentar a depressão e a ansiedade", explica ele. Com essa preocupação, nos próximos dias 28 e 29 será realizado no HUB um seminário sobre transexualidade, aberto à comunidade.

No meio da tarde de ontem, no apartamento funcional onde mora no Cruzeiro Novo (a desocupação do imóvel está na Justiça, já que a Aeronáutica luta para que o cabo saía dele), Maria Luíza recebeu o Correio. De saia preta, blusa rosa-choque, sandálias de salto e unhas pintadas de vermelho-vivo, ela falou sobre a tão sonhada cirurgia e de como pretende viver daqui para frente.

Sentada no sofá de dois lugares da sala, de pernas cruzadas, com a voz ainda meio rouca e pausada, Maria Luíza avalia: "A cirurgia me trouxe um sentimento de libertação enorme. E esse bem-estar comigo mesma supera até mesmo a dor que senti no pós-operatório". E revela um segredo: "Chorei quando toquei no meu novo sexo pela primeira vez. Agora, eu me olho no espelho, gosto do meu corpo. É como se tivesse havido uma mágica na minha vida". Em cima de uma estante, dois porta-retratos com fotos de Maria Luíza, tiradas recentemente. De José Carlos ela não guardou nem mesmo as fotos. "Pra mim, é agora apenas um nome…"

Amparada e lúcida

2000 Reformado por ser considerado transexual. Foto por Ronaldo de Oliveira

Na penteadeira do quarto, além de uma boneca Barbie com vestido vermelho de festa, há batons, escovas e um estojo em forma de coração, onde ela guarda as bijuterias. "A coisa mais importante da minha vida foi essa cirurgia. Acho que agora passo por qualquer situação com mais força", garante. E diz, como catarse: "Não quero ser olhada como uma pessoa diferente. Quero ser olhada como mulher. É isso que se sempre fui, pelo menos psicologicamente. Só faltava a cirurgia".

Num determinado momento da conversa, o repórter se confunde com as palavras e pergunta: "Você, agora, se sente mais amparado e lúcido?" Antes de responder, ela o corrige: "Amparada e lúcida. É isso que você perguntou?". E prossegue: "Minha luta daqui pra frente será para mudar meu nome na Justiça. Sei que vai ser difícil, mas meu advogado já entrou com o pedido…"

Maria Luíza completou 45 anos de idade. "Foi o aniversário mais feliz da minha vida", suspira. Planos de futuro? "Apenas ser feliz". Vida sentimental, um companheiro? "Não estou preparada para pensar nisso agora. Tenho coisas mais importantes com que me preocupar…"

Essa é a história do menino que nasceu José e virou Maria Luíza. E agora pode provar. Uma história cheia de ironias. "Minha mãe fez uma promessa. Se eu fosse menino, iria me dar o nome de José. Se fosse menina, Maria. Minha avó materna era Luíza. Hoje, sou Maria Luíza. E decidi que seria Luíza desde meus 13 anos de idade. Naquela época, eu já sabia que era mulher". Essa é uma história, antes de qualquer coisa, de coragem.

A cirurgia transgenital

O procedimento é feito com a construção de um túnel na região do períneo, entre o ânus, a uretra, a próstata e a vesícula seminal. Para se fazer o revestimento do túnel, abre-se o saco escrotal, retirando-se os testículos, única parte que não será aproveitada na cirurgia. A parte interior do membro é esvaziada e parte do corpo cavernoso é retirada, preservando-se a glande (cabeça), que vai virar o clitóris. Em seguida, o pênis vazio é invertido, usando-se a própria pele para revestir a cavidade da vagina.

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