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Agora eu estou começando a viver



Agora eu estou começando a viver

Do Tribuna on line - Redação - Por: ANDREA RIFER


Durante mais de uma década, ela aguardou o grande dia. E ele chegou em 8 de julho, quando realizou o primeiro procedimento cirúrgico. Na semana passada, mais uma etapa. Uma segunda cirurgia (agora estética) marcou o fim de uma batalha. Ou melhor, o começo de uma nova vida. A transexual Patrícia (nome fictício), professora concursada da rede municipal de ensino de Santos, conseguiu na Justiça, em novembro do ano passado, o direito de realizar a transgenitalização (cirurgia para mudança de sexo) com o recurso antecipado pela Caixa de Pecúlios e Pensões dos Funcionários Municipais de Santos (Capep). Passados mais de quatro meses do final do embate, Patrícia se sente realizada e diz que a sensação é de ter nascido agora. Sem exageros, explica que tudo em sua vida mudou para melhor: desde a forma de se relacionar com o mundo até o simples gesto de passar um creme no corpo, e não hesita em afirmar que mesmo com toda a dor que sentiu por causa da operação "passaria tudo de novo, se fosse preciso". Com o sonho realizado, Patrícia começa a se preparar para uma nova batalha. Vai acionar a Justiça para trocar o nome e o sexo em todos os documentos. Enquanto isso não acontece, a professora faz planos: quer escrever um livro para contar a sua história (antes, durante e depois) e servir de exemplo para outros transexuais.


Procedimento complicado

Agora, fazendo a cirurgia, deu para entender todo o processo, como é feito. Porque é uma cirurgia muito complicada, muito séria. Eu fiquei internada oito dias. É uma cirurgia que mexe com você. Acho que mexe com todos os órgãos do seu corpo. Você tem que estar muito bem-preparada para fazer, porque ela mexe muito funcionalmente com o seu organismo, e você fica muito debilitada psicologicamente. A medicação é muito forte, são muitas horas de cirurgia.


Sem esperança

Depois que eu fiz a cirurgia, minha vida mudou. Eu acho que é um mito dizer que as pessoas fazem uma cirurgia como esta e se arrependem. Ao contrário, eu acho que a cirurgia devolveu minha vontade de viver. Mudou totalmente. Eu estava num momento muito difícil da minha vida, até sem esperança porque essa cirurgia saía, não saía. Eu estava levando porque eu levo o meu trabalho, levo os meus estudos, levo sempre minha vida profissional à frente. Mas em mim mesma, eu estava morrendo a cada dia.


Nasci agora

Eu perdi tanto tempo da minha vida, de juventude, que parece que eu tenho pouco tempo para resgatar tudo o que foi perdido. Nasci agora. Agora, eu estou começando a viver. Eu passei por todos os processos novamente durante essa cirurgia: da infância, da adolescência, da virgindade, de tudo.



A cirurgia não teve nenhum foco sexual. Embora as pessoas perguntem muito sobre como é a sensibilidade. A sensibilidade é normal. Eu ainda não tive contato sexual, porque estou recém-operada, mas tenho a preservação de todos os sentidos. As pessoas se preocupam muito sexualmente, mas o principal é o quanto esta cirurgia foi importante para minha vida.


Quando acordou da cirurgia

Eu senti um alívio, como se alguma coisa muito boa tivesse acontecido e uma coisa muito ruim tivesse ido embora. Não sei se eu estou conseguindo explicar, mas eu estou sentido uma sensação de paz. Embora seja uma cirurgia muito sofrida e dolorosa, eu passaria tudo de novo, se fosse preciso.


Sem fantasmas

Hoje para eu tomar banho, eu me sinto em paz. Para dormir, eu me sinto em paz. Para passar o creme no meu corpo, eu me sinto em paz. Tudo muda, sabe? Eu vou trabalhar feliz, eu volto feliz, eu vou à praia feliz, eu me troco feliz, eu vou a um bar feliz. Eu não tenho mais aquele fantasma que me perseguia de estar com uma coisa que não era minha.


Alívio para todos

Até o meu pai ficou aliviado com a cirurgia. Eu acho que para ele foi uma sensação muito boa, e para minha mãe e todos os meus familiares. Todo mundo presenciava meu sofrimento. Minhas amigas me deram um grande apoio antes, durante e depois. Minhas amigas de trabalho foram muito companheiras e tiveram a todo momento do meu lado.


Questão social

Esta cirurgia me devolveu a vontade de viver. Por isso que eu falo que foi uma mobilização para salvar a minha vida. Eu acho que a questão sexual é muito deturpada, porque tudo foi envolvido como se fosse apenas uma questão sexual e estética. Mas era uma questão muito social e de vida. A urgência da cirurgia, ela vem disso, dessa mudança.


Relacionamentos

É lógico que agora eu não tenho mais aquele fantasma de conhecer um rapaz e falar para ele assim: olha, eu tenho uma coisa para te falar. Eu nem sei como falar, porque eu sou uma mulher e vou falar para ele que não sou uma mulher. Então, no meio da relação, eu acabava não querendo mais encontrar com a pessoa, eu fugia.


Preconceito

É aquela coisa né, as pessoas ligam e falam: eu quero falar com a pessoa tal. Mas sou eu. Mas aqui está registrado que é do sexo masculino. Não, mas sou eu. Ou senão você apresenta o documento e as pessoas ficam olhando e fazendo aquele interrogatório. E tem também essa falta de respeito da saúde pública. Porque nós temos o direito de usar o pseudônimo e toda vez que você vai ao médico, você passa por constrangimento.


Polêmica na cidade

Eu acho que a cirurgia trouxe tanta discussão para o Município, foi tão polêmica. Que sirva de exemplo para que as pessoas que estão na mesma condição não desistam.


Escolha do profissional

É o sonho da sua vida, então tem que ser assim uma coisa muito bem-feita, por uma pessoa que saiba fazer. Às vezes a gente vê algumas coisas na internet tão malfeitas, aberrações feitas por pessoas que não conhecem, que não têm a técnica, fazendo cirurgias em algumas pessoas que estão em situação tão desesperadora, que acabam caindo na mão de qualquer profissional e depois acabam sofrendo para o resto da vida. A minha luta foi para fazer a cirurgia com ele (o médico Jalma Jurado). Depois da cirurgia, ele pegou na minha mão e disse: 'olha, agora você é uma menina'. Eu fiquei tão emocionada, chorei.


Não é um conto de fadas

Eu me sinto mais à vontade para estar aberta a relacionamentos, para conhecer uma pessoa, para me mostrar para ela. É lógico que a cirurgia não é um conto de fadas, que os problemas vão desaparecer, que vai surgir um príncipe encantado, que vai me levar num cavalo azul e que eu vou casar e ser feliz para sempre. Mas vai melhorar para mim, para eu me relacionar com outra pessoa. O mais importante agora é que eu posso me relacionar com uma outra pessoa, porque estou me sentido feliz, estou me sentindo bem para isso.


História contada

Eu fiquei muito sensibilizada porque o jornal não contou a minha história pessoal, ele contou o drama de uma transexual, de quem tem essa questão anatômica, essa disfunção orgânica. E eu acho que isso foi muito importante, porque a gente vê tanta notícia triste, de assalto, de morte, e o jornal se mobilizou por uma causa que é um pouco esquecida. Eu tenho só a agradecer.


Mudança de nome

Eu acho que algumas situações ainda podem acontecer (de ser vítima de preconceito). Mas eu estou me sentindo tão feliz, que vou ter um enfrentamento melhor agora. Eu estou mais fortalecida com tudo. Às vezes eu passo no supermercado e eles pedem meu RG e fica aquele comentário, tem essas coisas. Há essa questão do preconceito. Quando eu mudar o nome, pode ser que isso seja apagado. Mas eu também não estou mais ligando para isso.


Salvaram minha vida

Eu não estava na mão de um sequestrador, na mão de um bandido, mas eu estava com a minha vida em risco. Então eu acho que o advogado, o juiz, o jornal A Tribuna, a psicóloga, o médico salvaram a minha vida. De uma outra forma, mas salvaram a minha vida.

Histórico
Patrícia foi definida como transexual em 1994 e encaminhada para o Hospital das Clínicas, em São Paulo, para iniciar tratamento com médicos do Serviço de Endocrinologia. O transexualismo é um transtorno previsto no Código Internacional de Doenças.

Desde 2003 aguardava para realizar a cirurgia pelo SUS. Como a fila é muito grande, buscou meios de fazer o procedimento na rede particular. Com a recusa da Capep em adiantar o recurso solicitado por Patrícia e que seria devolvido pela professora com desconto na folha de pagamento, ela acionou a Justiça. No dia 9 de novembro do ano passado, o juiz da 2a. Vara da Fazenda Pública de Santos, Márcio Kammer de Lima, deferiu liminar ordenando a antecipação do dinheiro. Mesmo assim, a autarquia ainda resistiu e levou quase oito meses para liberar a verba.

A operação de Patrícia foi realizada em Jundiaí pelo cirurgião plástico Jalma Jurado, um dos maiores especialistas em transgenitalização do País. O procedimento, que teve custo de R$ 25 mil, levou cerca de seis horas e a professora ficou internada durante oito dias, período em que foi acompanhada por sua mãe.

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