Header Ads

Donana é um dos travestis mais velhos e conhecidos e um dos líderes comunitários mais respeitados de Cuiabá.

Bettie Page - Imagem ilustrativa

Donana: mais antigo travesti de Cuiabá


Diário de Cuiabá - ALECY ALVES - Da Reportagem

Pelo nome de batismo, Tarcílio Gregório de Oliveira, um aposentado de 73 anos, é um completo estranho até mesmo na rua do bairro em que mora há quase meio século, o Ribeirão do Lipa, e onde foi presidente da Associação de Moradores por três mandatos consecutivos.

Já com o apelido de “Donana”, Tarcílio é uma lenda viva. A vida dele é uma mistura de realidade, fantasia e fatos curiosos. Com planos de transformar sua história em livro, há algum tempo ele vem fazendo anotações e reunindo fotos em um caderno.

Donana é um dos travestis mais velhos e conhecidos e um dos líderes comunitários mais respeitados de Cuiabá. Também, se não o único, um dos poucos, com certeza, pai de família que os filhos aprenderam a chamar de “senhora” por causa do hábito de vê-lo sempre vestido de mulher.

Pode soar estranho, mas é como “senhora” que o filho, a filha e os cinco netos chamam a atenção dele quando lhe dirigem a palavra, mesmo cientes de que a conversa está sendo com o pai ou avô. Esse também é o tratamento que ele recebe de todos com os quais se relaciona, sejam parentes, amigos, vizinhos e políticos.

Uma das curiosidades engraçadas da vida de Donana é seu relato sobre como ocorreu sua mudança de orientação sexual. Ele atribuiu à magia negra, trabalho de macumba feito pela ex-sogra, sua transformação de bom pai e bom marido no travesti que, na década de 70, fazia ponto em praças públicas de Cuiabá e desafiava a polícia.

Ele diz que nunca havia se entendido com a sogra e que, a partir do dia que comeu uma galinhada e um doce trazidos da chácara dela, nunca mais se relacionou sexualmente com a mulher e, desde então, não quis saber de namoro heterossexual.

Seis meses depois da “macumba”, conta, separou-se da mulher. Quando isso ocorreu, fez questão de ficar com os dois filhos. A ex-mulher, que tinha quatro filhos do primeiro casamento, concordou plenamente com a decisão dele.

Como travesti, Tarcílio, já com o apelido de Donana, desfilou como destaque das escolas de samba de Cuiabá. Durante quase 40 anos, era porta bandeira do carnaval cuiabano. Entretanto, por trás da alegria aparente dos desfiles, diz, havia um ser humano triste e depressivo, que por três vezes tentou suicidar-se.

“Eu bebia muito e brigava até que a polícia me levasse preso junto com as prostitutas que estavam na praça”, conta. “Não gostava daquela vida, sofria muito, mas não conseguia me libertar, sair daquele meio”, completa.

Dos travestis e mulheres de programa da época, Donana diz que não tem qualquer notícia. Sabe apenas, segundo ele, que a maioria já morreu.

Atualmente, Tarcílio é dono de um pequeno bar na rua Colômbia, no mesmo bairro onde tinha o prostíbulo. Ele abandonou as roupas femininas extravagantes, os vestidos e saias com muito brilho e a maquiagem. Agora, se veste como uma comportada “senhora”, que prefere calça comprida e blusas de manga.

Não consome nenhum tipo de bebida alcoólica e dedica grande parte do seu tempo a trabalhos sociais com crianças e idosos. Desde o início deste mês, como faz há mais de 10 anos, arrecada presentes e donativos para a festa de final de ano das crianças do bairro.

Por causa do respeito e liderança que exerce na comunidade, o apoio político dele passou a ser muito disputado pelos candidatos a cada pleito eleitoral em Cuiabá.

Nenhum comentário