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Afinal, o que é, hoje, ser um homem?

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Afinal, o que é, hoje, ser um homem?

Primeira peça de Contardo Calligaris leva um pai à internet para explorar fantasias

Beth Néspoli - Estadão

A julgar pela leitura do texto, tem tudo para provocar impacto - talvez rejeição e atração em iguais medidas - o solo O Homem da Tarja Preta, em cartaz no Teatro Eva Herz na Livraria Cultura. Basta observar o comportamento contraditório do brasileiro com relação à nudez - o escândalo provocado pelo topless, apesar da fronteira ínfima que o separa do aceito biquíni sumário - para compreender que há, sim, pecado do lado debaixo do Equador, ou seja, atitudes e temas interditos.

E certamente alguns deles perpassam essa peça, a primeira do psicanalista Contardo Calligaris a estrear para uma temporada - antes teve um texto encenado por apenas uma noite num evento no Espaço dos Satyros, na Praça Roosevelt. Resvala no bizarro a imagem de um homem heterossexual que, diante do computador, troca o terno por meias de náilon e, maquiado e sobre saltos altos, enquanto mulher e filho dormem, entra na internet para dar vazão às suas fantasias sexuais. Mais que isso, desfrutando a mesma solidão e despudor que se pode ter no consultório de um psicanalista, reflete sobre o próprio comportamento, revela fantasias e desejos, sem autocensura.

No papel desse homem, Ricardo Bittencourt, ator cuja larga experiência em teatro começou ainda na Bahia, onde nasceu. Nos últimos oito anos atuou no Teatro Oficina, onde Calligaris o conheceu. "Ali, numa conversa na noite paulistana, depois de eu ter assistido a um dos espetáculos de Os Sertões, ele me pediu que escrevesse um solo com esse título", conta o autor. Na direção do espetáculo, a atriz Bete Coelho, que coincidentemente já assinou um bela encenação de O Caderno Rosa de Lori Lamby, texto também de temática corajosamente erótica, definido por sua autora, Hilda Hilst, como "divertida bandalheira".

Bastaria a formação do autor para se imaginar que O Homem da Tarja Preta nada tem de banal. Nascido em Milão, Calligaris formou-se em Psicologia e Filosofia em Genebra, fez seu doutoramento em psicanálise em Paris, onde viveu sete anos antes de mudar-se para o Brasil na década de 80. Em 1994 foi morar em Nova York, onde instalou sua clínica e viveu dez anos. Há cinco, vive novamente em São Paulo.

Ao contrário do que possa parecer numa primeira leitura, o que está em questão não é o falseamento de identidade que o uso da internet permite ou a liberdade para fantasiar que o anonimato propicia. "A peça começa seu movimento pelo mundo das fantasias sexuais, mas segue a direção da perplexidade masculina. Começa pela sexualidade, mas vai além. O que é ser homem? Ainda é comum ouvir - seja homem -, até mulheres podem ouvir isso", diz Calligaris.

Embutido nesse imperativo, evidentemente, está uma chamada à potência. Ser homem é ser provedor, forte, bem-sucedido, corajoso. "Há duas máscaras tradicionais: o provedor de paletó de Wall Street e o garimpeiro da corrida do ouro. São exemplos norte-americanos, mas cujos similares podem ser encontrados em qualquer cultura." Ser ou não ser: Super-Homem ou simplesmente Clark Kent? Com sua identidade secreta, que lhe permite um feito extraordinário, esse personagem mergulha em conflito enquanto mulher e filhos dormem. Pressionado a manter sob o rosto e o corpo uma máscara rota num mundo em transformação, ele se debate nessa noite insone.

Bete Coelho avisa ter optado pela ausência de subentendidos. "Ele tem a liberdade da solidão, da qual o espectador compartilha, como voyeur, com a consciência de que está no teatro."

Serviço

O Homem da Tarja Preta. 60 min. 16 anos. Teatro Eva Herz (166 lug.). Av.Paulista, 2.073, Conj. Nacional, tel. 3170-4059. 5.ª e 6.ª, 21h. R$ 40. Até 19/6

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