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Para Clodovil, "dar a bunda não era honra nem desonra"

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Para Clodovil, "dar a bunda não era honra nem desonra"
Por Sérgio Ripardo* - A CAPA

Clodovil esperou 60 anos para sair do armário, ou seja, para falar abertamente sobre sua homossexualidade. Ninguém duvidava, claro, mas a militância sempre o pressionou a levantar bandeira. Figura pública, com acesso à mídia, o costureiro poderia ter sido uma voz importante na defesa da igualdade dos direitos, no diálogo com a sociedade sobre a questão LGBT. Não o fez. Talvez por causa de seus fantasmas internos. Talvez por descrença. Talvez por medo ou preguiça. Talvez por ignorância.

"Não é um privilégio ser homossexual. É um privilégio você valorizar a sua vida e fazê-la digna de Deus. O resto é besteira. Desde quando é honra ou desonra dar a bunda?", disse Clodovil, em entrevista a Sérgio Miguez publicada pela "G Magazine" em abril de 2005.

Mas o contexto da infância e adolescência de Clô talvez forneça pistas sobre a sua demora em aceitar ser apresentado como um gay assumido, embora sempre fizesse ressalvas: "Não me vejo fazendo apologia gay", repetia. O discurso religioso fervoroso e provinciano sempre fez parte de sua vida, no interior de São Paulo. Ele adorava falar em Deus, algo que ajuda a explicar seu sucesso no reduto de senhoras católicas, alvo de seus programas televisivos, público que lhe deu muitos votos.

Nos anos 50, quando chegou à capital paulista, Clodovil foi contaminado pela visão elitista e burguesa das compradoras de suas roupas. Até o fim de sua vida, ele valorizou símbolos de status. Sua retórica é toda pontuada pela divisão entre o mundo dos ricos e dos pobres. De olho nos emergentes, Clô sempre martelava a ideia de que alguém, mesmo de origem humilde, pode ter bom gosto, refinamento: "Título de nobreza é tão acidental quanto nascer pobre."

Devido à sua obsessão de ser aceito como membro da elite ariana, reflexo talvez de sua baixa auto-estima, Clô também flertava com o racismo e causava polêmicas com declarações ofensivas a minorias, como negros e judeus. Essas posições reacionárias o isolavam da militância. Quando foi há três anos o terceiro deputado federal mais votado na eleição em São Paulo, a notícia foi recebida com frieza pelos ativistas.

Em 2006, durante um trabalho da Folha Online para elaborar a lista dos 10 gays mais infuentes do país (whit.me/aQOivM), mergulhei na história dele. Foi quando me dei conta de que Clô deve ter sido o primeiro gay que reconheci na televisão. Na infância, eu via o "TV Mulher", nas manhãs da Globo, em que o costureiro rabiscava no papel desenhos de vestidos. Eu ficava olhando aquela figura afetada. Lembro das risadas da minha mãe quando ele começava a xoxar alguém ou dá muita pinta. Na minha cabeça, eu achava apenas que era um homem diferente.

Clô era mestre em disfarces, sabia fingir e inventar histórias como ninguém. "Quantos gays você conhece que mentem que são héteros?", perguntava o homem que mandava seus entrevistados olharem para a "câmera da verdade". Segundo Clô, era o momento em que as pessoas mais mentiam. Mas o que mais sentirei falta dele era sua capacidade de surpreender, de ser notícia a qualquer custo. Quando estrelou o musical "Eu e Ela", ele apareceu em cena de meia arrastão, sandálias altas, unhas dos pés pintadas de vermelho e paletó e camisas masculinos. Essa é a imagem que o resume e a que vai ficar guardada na minha memória.


* Sérgio Ripardo é jornalista e autor do "Guia GLS SP" (Publifolha). Fale com ele: http://sergio.ripardo.blog.uol.com.br/

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