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Gays e lésbicas norte-americanos sentem-se traídos por Obama

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Gays e lésbicas norte-americanos sentem-se traídos por Obama

Der Spiegel/UOL - Por Marc Pitzke - Tradução: Eloise De Vylder


Onde está nosso defensor ardoroso?

Cada vez mais americanos apoiam a igualdade de direitos para gays e lésbicas e se opõem à proibição de soldados homossexuais assumidos no serviço militar. Mas Barack Obama parece estar atrasado no que diz respeito aos direitos dos homossexuais - e as pressões para que ele tome uma atitude estão ficando cada vez mais fortes.

Nem mesmo a chuva os afastou. Primeiro, havia apenas um punhado, depois algumas dezenas e, finalmente, milhares de manifestantes. Eles caminharam de West Village em Nova York em meio ao trânsito até Union Square, cantando. Muitos carregavam postêres e faixas com dizeres como "Direitos civis já", "Igualdade para todas as famílias" e "Sem tolerância à intolerância".

Entretanto, uma das faixas mostrava uma foto do presidente dos EUA Barack Obama retratado na figura de duas cabeças do deus Jano. A cabeça da esquerda declamava o famoso slogan da campanha de Obama em 2008: "Sim, nós podemos". Mas a da direita dizia: "Não, não podemos."

A marcha recente em Manhattan foi oficialmente dirigida contra a recusa da Suprema Corte da Califórnia em anular o referendo da Proposição 8, que proibiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas muitos dos manifestantes - em sua maioria gays e lésbicas - tinham outro inimigo em mente: Obama.

A hipocrisia que os manifestantes percebem em Obama os deixa quase mais furiosos do que a própria Proposição 8. Na opinião deles, Obama amarelou diante da possibilidade de assumir uma posição pública durante os últimos eventos da eterna guerra da cultura americana em relação ao casamento gay - ao contrário das esperanças dos gays americanos. "Onde está Obama?", pergunta Lisa Ackerman, advogada que caminhou sob a chuva com sua namorada. "O silêncio dele diz muito."

De fato, onde está Obama? É a pergunta que tem sido feita cada vez com mais frequência por gays e lésbicas dos Estados Unidos. Apesar de seu ceticismo inicial, eles apoiaram Obama quase exclusivamente durante a corrida presidencial depois que Hillary Clinton foi eliminada. Em troca, Obama disse que seria um "defensor ardoroso" e prometeu, entre outras coisas, eliminar a famosa política de "não pergunte, não responda" do Pentágono em relação aos homossexuais no serviço militar e ajudar a abrir caminho para o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Mas os gays e lésbicas dos Estados Unidos continuam esperando em vão que Obama cumpra com suas promessas eleitorais. Enquanto os EUA em geral avançam na direção de atenuar as políticas homofóbicas, a Casa Branca se esquiva do assunto. Pior ainda, em relação a alguns temas, ela praticamente colocou novos obstáculos para os direitos dos homossexuais.

Na segunda-feira, a Suprema Corte dos EUA, do lado do governo Obama, recusou-se a ouvir o apelo do ex-soldado da infantaria do Exército James Pietrangelo contra a política de "não pergunte, não responda".

A lei de 1993, que proíbe soldados assumidamente homossexuais no serviço militar, diz respeito ao "interesse legítimo do governo pela disciplina militar", argumentou a procuradora-geral Elena Kagan no relatório do governo para a Suprema Corte.

Onde está o nosso New Deal?
A decisão da Suprema Corte foi apenas o último de uma série de incidentes que fizeram com que o lobby gay americano se voltasse contra o presidente. Além da NPNR (como é comummente conhecida a política de "não pergunte, não responda") e do casamento gay, os militantes homossexuais também estão frustrados com o progresso lento na luta contra a Aids e com a proibição de vistos e green cards para pessoas infectadas com o HIV. Para alguns, esses casos confirmam as suspeitas que eles já tinham em relação a Obama quando ele pediu ao pastor Rick Warren - que se opõe ao casamento gay - para oficializar a cerimônia de sua posse.

"Onde está nosso defensor ardoroso?" escreveu Richars Socarides, que foi conselheiro do ex-presidente Bill Clinton para assuntos homossexuais, recentemente no Washington Post. "Em relação a uma ampla variedade de temas - incluindo os direitos das mulheres, pesquisa com células-tronco e as relações com Cuba - o governo Obama mostrou estar disposto a explorar o momento de mudança para realizar uma reforma dramática. Então, por que não fazer o mesmo em relação aos direitos homossexuais? Onde está o nosso New Deal?

Deve-se reconhecer que Obama proclamou o mês de junho como o "Mês do Orgulho Gay, Lésbico, Bissexual e Transgênero", numa decisão considerada como um "bom começo" e aplaudida pelo ativista gay David Mixner em seu blog. Mas muitos militantes sentem que Obama está rindo pelas costas deles no que diz respeito a compromissos concretos.

Com sua reticência, Obama vai contra a tendência nacional. A luta por igualdade para os homossexuais se tornou uma "marcha quase inevitável", disse em entrevista à revista do New York Times o ex-governador de Nova Jersey Jim McGreevey, que assumiu sua homossexualidade e renunciou ao cargo em 2004. O casamento gay já foi reconhecido em seis Estados, e a maior parte dos militantes veem o referendo da Califórnia apenas como uma derrota temporária.

"Este é um movimento por direitos civis", disse Evan Wolfson, diretor-executivo do grupo de defesa de direitos Freedom to Marry, para o famoso colunista assumidamente gay do New York Times Frank Rich. "E Obama ainda não deu atenção à isso". Wolfson compara o momento a 1963, quando os movimentos de direitos civis para os negros estavam estagnados. A virada, disse ele, só aconteceu quando o presidente Lyndon B. Johnson foi estimulado a agir. Os democratas não têm "uma personalidade nacional para defender a causa" dos direitos civis homossexuais, disse Wolfson, e Obama não mostrou nenhum sinal de que está disposto a seguir o exemplo de Johnson.

Muitos gays não querem aceitar a falta de atitude de Obama. "Por quanto tempo mais devemos dar a ele o benefício da dúvida em relação aos assuntos GLBT, e quando é que devemos falar mais alto?", pergunta Mixner em seu blog. O lendário ativista Cleve Jones, que concebeu a mundialmente famosa Aids Memorial Quilt [colcha de retalhos em homenagem aos mortos pela doença], pediu para que os gays e lésbicas marchassem a Washington em 11 de outubro, para se reunir no Lincoln Memorial, local do famoso discurso "Eu tenho um sonho" de Martin Luther King.

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Cresce o apoio para gays no Exército
"Seu tempo se esgotou, senhor presidente", disse o estilista Stephen Dimmick, de Nova York. "Seu silêncio em resposta aos apelos ensurdecedores da comunidade gay é uma desgraça". Dimmick lembra do silêncio de outros presidentes dos EUA: Ronald Reagan não usou a palavra Aids até 1987, quando mais de 20 mil americanos já haviam morrido com a doença.

Em particular, Obama pediu paciência. Em maio, ele convidou representantes de importantes grupos homossexuais para a Casa Branca. Ele, entretanto, não os recebeu pessoalmente, mas o chefe-adjunto de gabinete da Casa Branca Jim Messina discutiu "estratégias legislativas" com eles.

De acordo com as notícias do site "Politico", um militante recentemente deixou clara a urgência do assunto para Messina num jantar de gala para levantar fundos em Los Angeles, do qual Obama participou. O ativista confrontou Messina no banheiro do Beverly Hills Hilton. Enquanto isso, numa manifestação do outro lado da rua, um grupo protestava a favor de Dan Choi, um linguista do Exército fluente em árabe que estava prestes a ser exonerado por causa de sua homossexualidade.

A falta de sentido do Exército em expulsar um soldado cujas habilidades são extremamente necessárias e difíceis de encontrar não passou despercebida pelo público americano. Uma pesquisa recente da Gallup descobriu que quase 70% dos americanos são a favor de homens e mulheres abertamente homossexuais no serviço militar, e até mesmo a maioria dos conservadores - 58% - não se opõe a soldados declaradamente homossexuais no serviço militar.

Obama disse que quer eventualmente abolir a política do "não pergunte, não responda" - mas, de acordo com seu assessor Ben LaBolt, "de uma forma sensata que fortaleça nossas Forças Armadas e nossa segurança nacional". LaBolt acrescentou: "Até que o Congresso aprove a legislação banindo a lei, o governo continuará a defender o estatuto quando for desafiado no sistema judiciário."

Rachel Maddow, lésbica assumida e âncora do canal a cabo MSNBC, não está satisfeita com essa postura. Em seu programa, ela mostrou recentemente um vídeo da campanha eleitoral no qual Obam prometeu anular a política de NPNR, dizendo: "tudo o que é necessário é liderança".

As frentes do debate não estão mais divididas entre as linhas partidárias, mas sim entre as gerações. Numa pesquisa da CBS em abril, 42% apoiavam a legalização do casamento de mesmo sexo, 9% a mais do que em março - e quase duas vezes mais pessoas do que em 2004. Entre as pessoas abaixo dos 40 anos - a chamada "geração Obama" - o apoio é de 57%.

Até o ex-vice-presidente Dick Cheney, cuja filha Mary é lésbica, não tem nada contra o casamento gay e diz isso publicamente - o que o torna mais progressista em relação ao assunto do que Obama. E a tentativa mais agressiva de desafiar a proibição ao casamento gay na Suprema Corte parte da aliança entre dois ex-arqui-inimigos políticos: o famoso advogado Ted Olsen, que representou George W. Bush na disputa legal em relação à eleição presidencial contestada de 2000, e seu ex-rival David Boies, que representou Al Gore. "Isso não é uma questão republicana ou democrata", disse Olson ao apresentador da CNN Larry King.

Mas a Casa Branca aparentemente quer lidar primeiro com os assuntos "menores" que dizem respeito à comunidade homossexual, como o fortalecimento das leis contra crimes de segregação e acabar com a proibição de vistos e green cards, e da naturalização para pessoas HIV positivas, que estão em vigor desde a era Reagan.

Mas, para muitas pessoas, isso simplesmente não é suficiente, Obama é um "covarde, um intolerante e um mentiroso patológico", atacou James Pietrangelo, ex-soldado cujo apelo foi recusado pela Suprema Corte, numa entrevista à revista Time.

Pietrangelo disse que Obama gastou mais tempo para escolher seu cachorro Bo e brincar com ele do que trabalhando pelos direitos homossexuais desde que assumiu o poder. "Se houvesse milhões de negros na posição de cidadãos de segunda classe, ou milhões de judeus ou irlandeses, ele teria agido imediatamente."

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