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Principe da Índia veio para a Parada Gay em São Paulo

Principe da Índia veio para a Parada Gay em São Paulo

Manvendra Gohil é da nobreza indiana, é homossexual e quer fazer evento semelhante ao paulista em sua cidade natal

Ivan Martins - Revista Epoca
Lilo Clareto
SÃO PAULO 40 GRAUS
Gohil na Avenida Paulista, durante a Parada Gay. Agora ele quer fazer o mesmo em sua cidade natal

Na última vez que avistei Manvendra Singh Gohil, ele acenava para a multidão do alto de um carro de som, na Avenida Paulista. O 33º príncipe de Rajpipla, herdeiro de uma linhagem indiana de 600 anos, estava trajado dos pés à cabeça como marajá e suas joias brilhavam ao sol. Tímido, ele sorria para os travestis e repórteres que o cercavam e parecia paralisado pela música eletrônica e pela multidão, estimada em 3 milhões de pessoas. Muito magro, moreno e comprido, uma espécie de Dom Quixote oriental, o príncipe havia se convertido em atração da 13ª Parada Gay de São Paulo, realizada no domingo 14 de junho.

O convite para vir ao Brasil partiu de Douglas Drumond, um empresário brasileiro da hotelaria e ativista gay. “Ele tem um trabalho social com aidéticos que se parece ao meu. Eu quis mostrar a ele como eram as coisas por aqui”, diz Drumond. Ele coordena uma ONG chamada Casarão Brasil, que assiste homossexuais pobres do centro de São Paulo. Drumond procurou o príncipe na Índia porque ele já era uma celebridade na comunidade gay globalizada. No início deste ano, Gohil participou de um reality show da BBC britânica – The undercover princes, os príncipes disfarçados – no qual se passava por plebeu e tinha de arrumar namorado. Antes disso, fora entrevistado no programa de Oprah Winfrey, em outubro de 2007, por conta de sua homossexualidade. Ela tornou-se pública – e o príncipe notório – em 2005, quando saiu do armário em entrevista a uma repórter do jornal de sua cidade.

“Foi a primeira vez que alguém da nobreza indiana declarou-se publicamente homossexual”, diz o príncipe, num inglês carregado de sotaque indiano. O caso repercutiu em todo o país. Embaraçados, seus súditos (por tradição, uma vez que os direitos da realeza foram abolidos na Índia em 1971) queimaram bonecos com seu nome pelas ruas de Rajpipla, uma cidade de 40 mil habitantes no Estado de Gujarat, na fronteira com o Paquistão. Os parentes tentaram caçar seu título de príncipe herdeiro e deserdá-lo. Não funcionou. Ao final, diz Gohil, com gestos tranquilos, tiveram de aceitá-lo. “Em meu país é crime dois homens praticarem sexo, mas a lei não diz nada sobre ser homossexual”, afirma.

Quando Gohil saiu do armário, bonecos com
seu nome foram queimados nas ruas de Rajpipla

O príncipe tem 43 anos e conta sua história com certo fatalismo. A princípio é difícil acreditar que uma pessoa de aparência tão frágil e modos assim resignados tenha comprado tamanha briga, mas há explicações. Aos 26 anos, ele casou-se com uma moça também da nobreza. O casamento foi anulado 15 meses depois, por ausência de intercurso carnal. “Eu não sabia que era gay. Não sabia nada sobre essas coisas”, diz ele. Criado numa bolha de rituais e tradição, Gohil diz que não tinha com quem discutir sensações e inquietações. O casamento foi sua hora da verdade. Em 2002, a pressão para que ele voltasse a casar – e produzisse um herdeiro – acabou no que ele chama de “colapso nervoso”. O príncipe foi internado numa clínica psiquiátrica por duas semanas e os médicos fizeram ver a seus pais que sua inclinação sexual era irreversível. Daí até assumir publicamente, em 2005, foi um passo. “Eu não queria viver cercado de mentiras e fofocas”, diz ele.

No domingo passado, em São Paulo, Gohil parecia à vontade com a exuberância dos brasileiros. Enquanto caminhava pelas ruas adjacentes à Parada Gay, as pessoas lhe dirigiam saudações indianas – as palmas das mãos juntas e uma ligeira inclinação da cabeça para baixo – e gritavam Hare baba! Hare baba! É a exclamação de espanto popularizada pela novela Caminho das Índias, da TV Globo. “As pessoas pediam para segurar e beijar as minhas mãos, de uma forma muito respeitosa”, ele disse ao telefone, pouco antes de embarcar de volta a seu país. Só respeito? Não houve romance brasileiro para o príncipe das Índias? “Não, não”, diz ele, rindo sem jeito. “Não arrumei namorado.” Do Brasil, ele levou a ideia de enfrentar o preconceito e organizar ainda neste ano uma Parada Gay em sua cidade natal. Gohil ficou muito entusiasmado com a liberdade e a quantidade dos gays em São Paulo. Mas ele mesmo antecipa que não vai ser tão fácil em seu país, dividido entre conservadores hindus e ultraconservadores muçulmanos. Bem, se a Parada indiana não prosperar, o príncipe tem outros projetos em andamento – além da agricultura orgânica em terras da família, sua atividade profissional. Um projeto é orientar um filme sobre sua vida, que está a cargo de um nobre indiano simpatizante do movimento gay (o.k., há 500 famílias nobres na Índia...). O outro projeto é a adoção de um filho, que daria continuidade à linhagem de Rajpipla. “Adoção é um costume comum na Índia”, diz ele. “Acho que ninguém vai me criar problemas.” Bem, há sempre São Paulo.


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