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Você sabe o que é crossdresser?


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Você sabe o que é crossdresser?

HOMENS SE VESTIREM DE MULHER NÃO TEM RELAÇÃO DIRETA COM PRÁTICAS (HOMO)SEXUAIS; A QUEBRA DE BARREIRAS RELACIONADAS A CONVENÇÕES DE GÊNERO DIALOGA COM DIVERSAS INSTÂNCIAS DA VIDA SOCIAL E COMPREENDÊ-LAS É IMPORTANTE NA QUEBRA DOS PRECONCEITOS (este texto foi publicado no Ideias deste domingo)

Anna Paula Vencatto* - Florianópolis - AnexoIdeias

Homens vestidos de mulher estão presentes há bastante tempo na literatura, filmes, conversas, piadas e momentos da vida social, como as festas à fantasia ou o carnaval. De modo geral, essas pessoas são representadas nesses espaços através de uma certa veia cômica, através do prisma do risível. Ao longo de minha pesquisa de doutorado com homens que se vestem de mulher ou crossdressers, pude notar que esta prática, para eles, nada tem a ver com esta idéia de cômico. Pelo contrário, as pessoas com quem convivi ao longo de minha pesquisa levam bastante a sério a idéia de se montar. Uma crossdresser pode ser definida como alguém que eventualmente usa ou se produz com roupas e acessórios tidos como do "sexo oposto" ao seu "sexo biológico".

Há diversas formas de praticar crossdressing, com graus variados tanto em termos de tornar a prática pública, quanto em graus de intervenção e mudança corporal. Algumas crossdressers se montam apenas para ficar em casa, algumas apenas usam um ou outro acessório ou roupa (um salto, uma calcinha, uma saia), outras se montam por completo (com roupas, acessórios, saltos, perucas e maquiagem). Algumas contam para famílias, cônjuges e amigos, outras mantêm este lado de sua vida em absoluto segredo. Algumas depilam o corpo todo, algumas deixam o cabelo crescer, algumas fazem unhas e sobrancelhas, outras apenas mascaram os traços da masculinidade quando se montam, por meio de truques que vão aprendendo ao longo de suas vidas. A montagem das crossdressers é eventual e isso implica em entender que elas têm uma espécie de vida dupla: há a vida montada e a vida desmontada. Essas duas vidas, na maior parte dos casos, estão absolutamente dissociadas uma da outra.


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Admiração pelo feminino

Para as crossdressers, o prazer de se vestir de mulher reside no ato de parecer feminina, o que explica, por exemplo, a preferência por serem chamadas por pronomes femininos quando montadas. Todas as crossdressers escolhem um nome feminino e um sobrenome, o qual usam nos momentos em que estão en femme. De modo geral, as crossdressers se inspiram e buscam realizar em suas montagens coisas que observam nas mulheres e que admiram ou em coisas que elas vêem nas mulheres e acham bonito ou interessante. Há um grande investimento emocional e também financeiro feito por essas pessoas para se montarem. Há várias crossdressers que, inclusive, investem mais em comprar roupas para o lado feminino que para o lado masculino. Algumas têm armários inteiros de roupas femininas caso morem sozinhas ou as pessoas com quem moram saibam do crossdressing. Outras guardam as coisas de se montar em uma mala ou mochila, que escondem em algum lugar da casa, do escritório ou do carro.

A produção da feminilidade - ou da "mulher" que se quer ser - aparece nos discursos como algo que tem impacto em suas vidas afetivas, tanto no que concerne a família e amigos, quanto no que concerne a seus relacionamentos amorosos. Evidentemente, os impactos são diferenciados para cada tipo de relação. Nas relações com família, de modo geral, há certa política "não pergunte, não fale" ou, mesmo, um segredo absoluto sobre a prática. Uma das pessoas com que conversei ao longo de minha pesquisa relata que, conforme as maquiagens que lhe eram favoritas e pertenciam à mãe e à irmã eram percebidas por estas como "mais usadas do que deveriam", as mesmas deixavam de ser compradas.

Internet

Muitas crossdressers relatam que só entenderam o que sentiam a partir de pesquisas realizadas na internet e que foi nestas pesquisas que encontraram um nome para aquilo que faziam ao longo de suas vidas. A internet é apontada como o meio que facilitou também o acesso e contato com outras pessoas que também compartilhavam desta prática. Ela aparece como o instrumento que torna factível que se constitua um grupo, independente de limites físicos ou relações que perpassem a necessidade de se encontrar pessoalmente. Há, inclusive, grupos de crossdressers dentro e fora do Brasil que se organizam basicamente pela internet. Esses grupos até podem se encontrar presencialmente em algum momento, mas é a internet que torna o encontro entre muitas dessas pessoas possível.

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Desejo e preconceito

Um dos estereótipos mais comuns que cerca esta prática é o fato de que, em nossa sociedade, associa-se usar roupas do outro sexo à idéia de homossexualidade. O crossdressing não deve ser visto como algo relacionado a homo, hetero ou bissexualidade. É importante que se entenda que essas formas de expressão da sexualidade não influenciam e nem têm relação com o desejo de vestir-se com roupas socialmente atribuídas ao sexo oposto. São desejos de ordens diferentes e que não tem correspondência direta entre si.

As histórias sobre como e quando começaram a se montar são variadas. Algumas crossdressers contam que vestir roupas de mulher é algo que já lhes despertava interesse desde a infância, ao mesmo tempo em que, desde muito cedo, também sabiam que aquilo seria visto como algo "errado" e, nesse contexto, deveria permanecer oculto. Outras relatam que a adolescência foi o momento em que começaram a sentir vontade de se montar, e aproveitavam os momentos em que estavam sós em casa para brincar com os armários de suas mães, irmãs ou tias. Há também homens que só na vida adulta passam a se interessar pelo crossdressing, como o caso de uma das interlocutoras de minha pesquisa que descobriu que queria se montar bem depois dos filhos tornarem-se adultos e de ser avô.

O desejo de "montar-se" e a efetivação desse desejo constituem-se em uma experiência única e importante para suas auto-estimas, suas auto-imagens e para suas percepções enquanto "pessoas completas". Contudo, na hora de pesar para quem contar ou se vale a pena tornar pública a prática - uma vez que algumas saem para a rua quando estão "de meninas" -, elas lidam sempre com o fato de que há preconceitos relacionados ao que fazem. Assim, para além do desejo e dos prazeres que estão relacionados com o crossdressing, acabam negociando com dificuldades, entre elas tratá-lo como algo que deve/precisa permanecer apenas no privado e, preferencialmente, em segredo.

Algumas angústias relatadas pelas crossdressers em relação a se montar dizem respeito ao que fazer quando o desejo de vestir-se do "outro sexo" aparece, a como operacionalizar as coisas para tornar este desejo algo que possa ser efetivado, assim como decidir para quem se pode contar e como contar, os riscos da falta de aceitação e, também, às crises morais relacionadas ao fato de praticarem crossdressing. A exposição ou não do fato de se montarem é uma questão delicada, já que existe a possibilidade real de perdas de amizades, empregos e laços familiares quando se decide "sair do armário".


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Os termos

  • Crossdresser: pessoa que às vezes usa ou se produz com roupas e acessórios tidos como do "sexo oposto" ao seu "sexo biológico".

  • Cd: diminutivo de crossdresser

  • "Se montar"/ "se vestir de mulher": ato ou processo de travestir-se, (trans)vestir-se ou produzir-se com roupas "do outro sexo".

  • Estar en femme: estar montada

  • S/O (Supportive Opposite): pessoa do sexo oposto da cd que a aceita e apoia nesta prática. Pode ser uma amiga, namorada, esposa, irmã, etc. É comum que as S/O's sejam esposas ou namoradas. De qualquer modo, nem toda cd tem uma S/O.

* Anna Paula Vencato é professora do departamento de sociologia da UFSCar, doutoranda em antropologia pela UFRJ, mestre em antropologia social pela UFSC e licenciada em pedagogia pela Udesc, tendo como temas de pesquisa: gênero, sexualidade e crossdressing.

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