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Assumir-se: Sair do armário requer coragem...


‘‘Eu gosto da carreira militar e imaginava conseguir superar a vontade de ser mulher. Há cinco anos, parei de brigar contra a minha feminilidade’’ -Para a capitã X, a Marinha tem sido “supercorreta” na condução de seu caso.

Capitão-de-corveta X: O oficial que virou “a” oficial
Quem é o marinheiro que quer se tornar mulher
e como a Marinha do Brasil reagiu ao caso


Antero Gomes - Revista Epoca - 24/05/2008

Ele tem 36 anos e é capitão-de-corveta da Marinha, mas pede para ser tratado pelo pronome feminino “ela”. Não quer aparecer em fotos e teme que os 15 minutos de polêmica que protagonizou recentemente nas Forças Armadas prolonguem-se ainda mais, atrapalhando os rumos da nova rotina que pretende levar a partir do ano que vem, quando fará uma operação para mudança de sexo. Por isso, nada de nomes. O capitão X quer levar uma vida anônima. Ser apenas o fulano que virou “beltrana”. Em março deste ano, X mostrou coragem ao procurar seus superiores na Escola Naval, onde ocupava um cargo de chefe de batalhão escolar, e comunicar que estava tomando hormônios femininos (estrogênio) havia dois meses.

Capitão-de-corveta é o primeiro posto de oficial superior na Marinha do Brasil. X foi o primeiro oficial com tão alta patente a fazer uma revelação desse tipo. Em anos anteriores, sua história foi precedida por casos de militares da Aeronáutica e do Exército que tornaram públicas suas transexualidades. Mas eles pertenciam ao quadro de praças, não ao de oficiais.

“Quando eu fiz o anúncio, levava uma vida dupla havia dois anos”, diz X. “Na Marinha, eu me vestia de homem e, em casa, eu era uma mulher. Não suportava a idéia de ter de viver duas vidas num corpo só. Aquilo me agredia. Quando chegava do trabalho, colocava rapidamente a roupa no armário e o sapato debaixo da cama, para fugir daquela realidade.”

O depoimento angustiante dá uma certa medida do que leva uma pessoa a deixar para trás um passado com carreira bem-sucedida, mulher e, em alguns casos, filhos, para começar tudo de novo. “Antes, eu tinha procurado a ajuda de psicólogos”, diz. Há cinco anos, aceitou o que considera inevitável. “Parei de brigar contra minha feminilidade.”

O pai de X era oficial da Aeronáutica e dizia: “Faça Marinha, meu filho, porque é uma instituição muito séria”. Aos 15 anos, X entrou para o Colégio Naval. “Durante 21 anos eu vivi e respirei Marinha”, afirma. “Eu gosto da carreira militar e imaginava conseguir superar a vontade de ser mulher.”

Há dois anos, a capitã, que acumula um histórico de medalhas e conceitos altos em avaliações militares, começou a mudar seus hábitos. Passou a contar às pessoas de seu círculo íntimo o que se passava em seu mundo. Algumas amizades foram perdidas. Apesar de manter contato com a ex-mulher, mãe de seu filho de 4 anos, o casamento também terminou. “Tento, ao máximo, preservar meu filho. Por isso me exponho o mínimo possível”, diz.

Enquanto alguns amigos se foram, outros chegaram. Entre as novas amizades está Fabiane Clara, de 28 anos. Até abril, ela era terceiro-sargento do Exército. Trabalhava no 17o Batalhão Logístico de Juiz de Fora. Foi licenciada definitivamente depois de ter feito uma cirurgia para mudar de sexo. “Eu e a capitã passamos pelo mesmo problema. Por isso, é mais fácil ajudar uma à outra”, diz Fabiane.

O que diz a Marinha? Segundo um influente capitão-de-mar-e-guerra (o posto mais alto da carreira militar que não depende de indicação), a revelação de transexualidade, se tivesse sido feita no passado, poderia ser punida com prisão sumária. O posicionamento recente da Força sobre o caso, no entanto, mostra que as coisas podem estar mudando. “No meu caso, por ter estabilidade (mais de dez anos de serviço na Marinha)”, diz X, “devo ser reformada, com vencimentos proporcionais. É nesse sentido que estou conversando com o comando. Eles estão sendo supercorretos comigo. Até porque eu sempre tive uma postura de homem dentro do trabalho.” O comando da Marinha informou que vai aguardar a conclusão de estudos médicos, jurídicos e militares, para então adotar as “medidas cabíveis, mantendo sempre como orientação o máximo de atenção à dignidade humana”.

Por enquanto, X está de licença médica, que poderá ser prorrogada por até dois anos. Segundo a transexual, ao afastá-la para tratamento de saúde, a Marinha se baseou na Classificação Internacional de Doenças, elaborada pela Organização Mundial de Saúde. Na lista, “transtorno de identidade de gênero” aparece como uma doença.

Em outros países, as Forças Armadas lidam de diferentes formas com o homossexualismo e o transexualismo. Na Inglaterra, um veterano da Guerra das Malvinas foi expulso da Marinha em 1986 por ter mudado de sexo. Nos Estados Unidos, existe até uma associação que reúne veteranos transexuais. Ainda assim, a política das Forças Armadas americanas é “não pergunte, não conte” – homossexuais podem se alistar, desde que não alardeiem a opção sexual.

Em meio à polêmica, X tenta levar uma vida normal. No dia 16, recebeu a reportagem do jornal Extra, do Rio de Janeiro. De início, resistiu a se mostrar. Convencida a desvendar-se, pediu alguns minutos para se arrumar. Surgiu em um short curto de brim, casaco de moletom, com óculos escuros Dior e peruca ruiva. “Há muito tempo eu via a Roberta Close e me imaginava sendo ela”, disse. Controlados, o timbre e a entonação da voz reforçam a feminilidade da oficial.

Em sua defesa, X pode usar uma frase do Almirante Tamandaré que é conhecida na Marinha: “Honra é a força que nos impele a prestigiar nossa personalidade”. Frase dita em outro contexto, é verdade, mas que se aplica ao caso da capitã.

Uma marcha em Washington reuniu militares homossexuais pelo fim do preconceito. Lá, os veteranos transexuais têm até associação

Marinha afasta oficial transexual
Escola Naval do Rio pune capitão-de-corveta que admitiu tomar hormônio para virar mulher

Maria Luisa Barros - O Dia - 6/5/2008

Um novo caso de homossexualidade nas Forças Armadas está abalando a rotina da caserna. Desta vez, o militar é um comandante da Marinha. O oficial foi afastado este ano de suas funções por causa de sua opção. Ele comandava um Batalhão Escolar, na Escola Naval do Rio de Janeiro, no Centro. A instituição é responsável pela formação de oficiais.

Há mais de 10 anos na corporação, o capitão-de-corveta foi punido por seus superiores com o afastamento, pois teria revelado no quartel o desejo de se submeter a uma cirurgia para mudança de sexo. O caso está sendo mantido em sigilo pela corporação, que pela primeira vez se depara com uma situação envolvendo um oficial.

HORMÔNIOS NO CORPO

O comandante, que já foi casado e tem um filho pequeno, está de licença médica. O oficial, que mora no Rio de Janeiro, foi submetido a exame médico de rotina, feito a cada dois anos pela Marinha. O resultado da avaliação chamou a atenção do departamento médico. Havia um alto índice de hormônios femininos no organismo do militar.

O comandante foi novamente chamado pelo Serviço Médico para fazer exames complementares. A suspeita inicial era que se tratava de algo provocado por distúrbio ou alimentação. Para surpresa dos superiores, o comandante confessou que era ele mesmo quem, deliberadamente, estava tomando hormônios, pois pretendia virar mulher. O militar foi encaminhado para o serviço de psiquiatria da Marinha, mas novos exames teriam revelado que ele está em perfeitas condições de saúde.

MILITAR QUER POSTO

O oficial apresentou requerimento para permanecer na ativa, ocupando posto de chefia e mantendo a mesma patente de capitão-de-corveta. Afastado de sua função na Escola Naval, o comandante aguarda resposta superior para o seu pedido.

Através de sua assessoria de imprensa, a Marinha informou que o caso está sendo analisado e que não vai se pronunciar sobre o militar no momento.

Casos de expulsão nas outras Forças

Assim como a Marinha, Exército e Aeronáutica também enfrentam ações de militares transexuais que pedem a reintegração a suas funções. O terceiro-sargento do Exército Fabiano de Barros Portela, 26 anos, mudou de sexo em março, conforme O DIA revelou. Fabiane, como prefere ser chamada após a cirurgia, tenta voltar para seu trabalho, na ala de enfermagem do 17º Batalhão Logístico de Juiz de Fora (MG). “A pessoa que se declara sofre enorme pressão para se aposentar. Mas quero continuar trabalhando normalmente”, afirma Fabiane, que na semana que vem entrará na Justiça contra a União.

A primeira transexual a obter identidade militar feminina no Brasil, a cabo da Aeronáutica Maria Luiza da Silva, 47 anos, também luta para ser admitida na FAB.
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Oficial da Marinha, de 36 anos,
fala pela primeira vez sobre sua decisão de virar mulher


Antero Gomes -
Extra - 19/05/2008

Durante os últimos 24 meses, o capitão-de-corveta X., de 36 anos, viveu uma crise de identidade dentro do Corpo de Oficiais da Armada da Marinha. Quando estava de serviço na Escola Naval, o militar se vestia e tinha postura de homem. Em casa e entre amigos, X. vivia como mulher. Foi dessa forma, vestindo elegantemente um short de brim azul, um casaco de moletom, óculos escuros Dior e uma peruca ruiva que ela - gênero de tratamento pelo qual pediu para ser tratada pela reportagem - falou pela primeira vez sobre a polêmica em que se envolveu recentemente ( o que você acha da operação de mudança de sexo? ).
" Eu via a Roberta Close e me imaginava sendo como ela "

- Há muito tempo atrás, eu via a Roberta Close e me imaginava sendo como ela. Estou há 21 anos na Marinha, que é uma instituição muito séria. Quando fiz a opção pela carreira militar é porque eu gostava, mas pensava, ao mesmo tempo, que, no internato (Colégio Naval), eu poderia esquecer tudo aquilo (ser mulher) - disse X., que preferiu não divulgar o seu novo nome.

Em março deste ano, a transexual procurou seus superiores para lhes informar que estava tomando hormônios femininos há seis meses. E mais: que pretendia fazer uma cirurgia de redesignação sexual (mudança de sexo). Foi uma decisão difícil, depois de reprimir por 21 anos o que considera sua verdadeira identidade.

" Não consigo mais suportar o fato de ter que me vestir de homem "

- Eu fui a vários psicólogos. Há dois anos, entretanto, não consigo mais suportar o fato de ter que me vestir de homem, de ter que ter uma postura de chefe na frente dos aspirantes a oficiais.

Querido entre seus comandantes e tendo recebido medalhas e notas altas ao longo de sua bem-sucedida carreira militar, X. está conversando com seus superiores, amigavelmente, para encontrar a melhor forma de se desligar da corporação. Provavelmente, será a reforma. Mas, por enquanto, a transexual está de licença médica por tempo indeterminado.

Casamento e filho de 4 anos

Àqueles que pensam que trocar de sexo é um capricho, o psiquiatra Sérgio Zaidhaft tem um recado:

- Viver como homem, mas sentindo-se mulher, é bastante angustiante. Para alguns, é uma questão de vida ou morte (fazer a operação).

X. abriu mão de muita coisa. Quando era homem, ela foi casada e, dessa união, nasceu um filho de quatro anos. Agora, está se separando.

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