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A realidade do mercado de trabalho da comunidade trans brasileira

Jornal-laboratório da Unicsul publica matéria sobre realidade da comunidade trans brasileira

Por Acácio Brindo - Para o Mix Brasil - Via: Cultura Crossdresser




A edição 34 do jornal "Cidadão", veículo laboratório dos estudantes de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, publicou uma matéria sobre a realidade de transgêneros no Brasil.


Confira texto na íntegra:

O mercado de trabalho está difícil para qualquer cidadão. Imagine para as pessoas “transgênero”. Elas são transexuais, drag queens e travestis em busca de uma oportunidade digna na sua área de formação.

Na maioria dos casos o preconceito começa na infância quando são descobertos os primeiros indícios de que algo diferente acontece. Diferente, sim, porém nada a ver com aberração ou doença como muitos pensam ou dizem.

A drag queen, estilista e maquiador Robytt Moon, faculdade incompleta de educação física, largou os estudos em Presidente Prudente (SP) porque estava descontente. “O preconceito está inserido nas pessoas e nos próprios gays. Não tenho interesse de voltar a estudar. Ganho mais como drag-queen e pretendo abrir minha loja”, diz. Ela vive afastada da família que não aceita seu trabalho e seu estilo de vida.

Em geral, a falta de apoio familiar é outro fator decisivo para o abandono dos estudos. A travesti Thara Wells - entrevistadora e escritora bissexta em Sorocaba (SP) - sobrevive da prostituição. Ela tem segundo grau completo profissionalizante técnico em contabilidade, fala três idiomas e fez alguns cursos como edições em vídeo, técnico em escritório e administração de empresas. Poderia estar em qualquer universidade e inclusive conseguir bolsa integral.

“Quando estudava eu era muito feminina, mas ainda não era travesti fisicamente. Mesmo assim, o preconceito vinha de todos os lados. Tinha trabalho em grupo e ninguém me queria por motivos de queimação de filme [vergonha]. Na hora do intervalo vinham agressões verbais e morais. O preconceito talvez seja um defeito de fábrica do ser humano”, afirma Thara.

“Todos os gays aspiram ao respeito e à aceitação hetero, mas, se nós mesmos não nos suportamos no sentido de que gay não gosta de transex, que não gosta de sapata [lésbica] que não gosta de drag queen, que não gosta da pintosa. Como queremos que os heteros nos aceitem e respeitem, se internamente não nos suportamos ”, diz Thara .

Alguns órgãos públicos esclarecem as pessoas “transgêneros”, como a Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual (Cads) e o Centro de Referência da Diversidade (CRD).

A Cads tem o objetivo de promover, estimular e divulgar toda ação que combata à homofobia, assim como criar um espaço de comunicação com a sociedade como um todo. O CRD oferece oficinas profissionalizantes, atendimento psicológico e social, espaço de conveniência, orientação sobre saúde e aconselhamento jurídico.

Ambos são ligados à Prefeitura de São Paulo e localizados na zona central da cidade. Apesar de recém criados, cumprem um papel importante. Entretanto, ao serem questionados sobre dados reais quanto ao mercado de trabalho, esquivam-se por meio de gerúndios com um “estarei te enviando ou conversando sobre o assunto após o feriado”. A reportagem procurou as duas entidades por duas semanas, em vão.

A maior parte das transgêneros trabalha como profissionais da noite. De acordo com a Articulação Nacional das Travestis e Transexuais (Antra), cerca de 90% delas estão inseridas na prostituição.

A drag queen e maquiadora Llady Metteora de Tatuí, na região de Sorocaba, nível técnico em nutrição e dietética, trabalhou por algum tempo nessa área e não gostou.
“Desde criança eu já era diferente dos meus amiguinhos na escola. Era um menino afeminado, mas creio que fui privilegiado aqui no interior, pois as pessoas são mais tolerantes. Atualmente como maquiadora tenho mais destaque e é o que amo fazer. No Brasil não existe graduação nessa área como na Europa e nos EUA, mas se tivesse que escolher outra área eu faria Letras”, diz Llady.

Entre os brasileiros, as transgêneros compõem a categoria que mais sofre preconceito na própria comunidade LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros). Formam-se poucas profissionais nas universidades e, mesmo com o diploma nas mãos, não conseguem atuar no mercado de trabalho para o qual estudaram.

O circo midiático faz a sua parte
Muita gente rejeita ser atendida por uma médica transexual, mas adora ver na madrugada de carnaval o baile Scala Gay que acontece no Rio de Janeiro.

A sociedade costuma rir da diferença e não a aceita com respeito e dignidade. Ao exibir programas desse tipo, a televisão também colabora para a situação de exclusão e não de aceitação como deveria ser. Não existem documentários ou filmes na programação aberta, e os poucos, feitos geralmente no exterior como “Transamerica” (2005) – Globo de Ouro de melhor atriz para Felicity Huffman - não passam na “Tela Quente” da Rede Globo. “Transamerica” ficou pouquíssimo tempo em cartaz nos cinemas de São Paulo.

Recentemente, o filme “Brokeback Mountain” (2005), do diretor Ang Lee, foi outro marco ao conseguir romper as barreiras de Hollywood. Na televisão, desde os anos 70, os programas de auditório como Chacrinha, Silvio Santos ou Bolinha tentavam de alguma forma dar visibilidade ao grupo e traziam travestis e transexuais em quadros de dublagem.

“A luz no fim do túnel poderia ser as leis mais rígidas de inclusão social, porém vejamos o exemplo das cotas para negros que geram polêmicas e controvérsias”, diz Llady Metteora. “O que concluímos disso é que antes de tudo o nosso pensamento deve mudar.

Devemos parar com a exclusão velada e compreendermos que, independentemente de usar saias, passar batom ou vestir uniforme militar, as transgêneros são seres humanos e têm direitos que não estão sendo assegurados pela Constituição”, afirma Thara Wells.

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