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Crônica: Um casal quase perfeito

Um casal quase perfeito
Jasson Ferreira Lima - cronicjf@gmail.com - Primeira Edição

Por fim, estavam os dois na delegacia das mulheres, a espera de serem atendidos pelo delegado, que naquele começo da manhã já havia esbofeteado a mesa umas duas vezes. O policial assistente na recepção comentava maldosamente:
- Parece que o dotô brigou com a mulher em casa.
É provável que ele não tenha brigado, todavia, é um certo drama o sujeito ouvir uns esculachos da mulher e depois ainda ter que aturar reclamações de mulheres maltratadas por maridos carrascos. Contudo, mesmo aborrecido ele tentava segurar a paciência e ouvia a vítima enquanto segurava o texto da Lei Maria da Penha nas mãos, matutando uma forma de enquadrar o caso em algum artigo para fechar o inquérito. Lá fora, no pátio da delegacia, policiais curiosos olhavam para algum caso novo que chegava. E na recepção, o atendente com a mão no queixo já sabia por antecedência que cada mulher que se aproximava para uma informação, era uma mulher surrada.
De repente, um travesti que estava na sala de espera soltou a língua incontrolavelmente aos presentes dizendo:
- vocês sabiam que também tem homem que apanha?
Esta pergunta deixou todos surpresos, mas o atendente sem dá uma palavra confirmou o que dissera o travesti acenando o polegar pra cima. E o travesti continuou:
- Homem também minha gente, é violentado. E a parte que mais dói nele quando a mulher bate, sem pena, é o bolso. O cabra quando não presta é um desastre na vida de qualquer mulher, mas também quando é besta, é de se ter dó. E isso é o que elas não têm quando lhe tira tudo, o deixando só de cuecas. Veja aquele senhor que está conversando com aquela senhora: eles não são marido e mulher, ambos foram surrados pelos seus parceiros em casa.
O delegado ouvindo isso abriu a porta um pouco e disse:
- É isso mesmo. Todos são iguais perante a lei. E o homem precisa urgentemente de uma delegacia especializada também. Porque, o que existe de homem sensível e frágil sendo maltratado e explorado por uma mulher dominadora, não está no gibi. Aliás, não devia existir essa divisão de delegacia, a lei penal já existe pra todos, e assim sendo, esta lei de violência contra a mulher é desnecessária. E a mulher não é ser humano? Ôxe! Que confusão da mulesta!
Depois de dizer essas coisas o delegado fechou a porta e entrou, e todos ficaram calados. Um advogado que ali estava dizia, por outra, que a Lei Maria da Penha era constitucional, e era preciso que ela existisse como sinal de alerta para esses casos de violência. Porque queira ou não, a mulher é o lado mais frágil fisicamente.
E no meio destas divagações jurídicas no ambiente policial, aquele senhor com aquela senhora continuavam a conversar, e só tinham olhos um para o outro. Agora se deram as mãos e a conversa parecia bem interessante para os dois. Disse o travesti, depois que os dois falavam de suas vidas e dificuldades com seus respectivos cônjuges, que eles não passavam de dois desmoralizados e apanhados. E afirmava:
- Esse homem pra mim não tem nenhum sentimento. É um cínico e sem amor próprio. Mas talvez sirva pra ela que é uma bandoleira, e que já apanhou por ter causado ciúme em seus cafajestes. Em todo caso, pior situação é a dele, porque homem surrado é muita desmoralização pra um dia só. E devido a sua cara de corno manso, é bem capaz do delegado nem acreditar em sua história.
Mas o fato é que aqueles dois surrados se encontraram na delegacia; e pelo jeito, “rolou um clima” que brotou de suas mágoas e perfídias. Ambos tinham algo em comum, eram pessoas que tinham fracassado em seus relacionamentos por causa da violência. Quando foram atendidos, despediram-se na porta da delegacia e prometeram se reencontrar. Coisas de quem se conhece e bate uma paixão repentina. O travesti que não é nada bobo, dessa vez murmurou baixinho:
- Acho que esses dois nasceram um para o outro. Despediram-se aos afagos e suas histórias são bem parecidas. Ela apanhou porque foi pega na cama com outro, e ele porque descobriu que era traído. Veja que homem safado! Apanhar porque descobriu suas pontas. Isso é fim de mundo. Olha que casal perfeito, a junção de um chifrudo com uma quenga. Já pensou se isso dura? Um dia quando eles forem comemorar os dez anos de união, as línguas maldosas vão dizer: Hoje a rua está em festa por dez anos de “cornagem”.

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