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"Morrer como um Homem" confirma João Pedro Rodrigues como talento português

"Morrer como um Homem" confirma João Pedro Rodrigues como talento português

Isabela Mota, especial para o Último Segundo

“Morrer Como Um Homem”, terceiro longa-metragem do talentoso cineasta português João Pedro Rodrigues, revigora sua força no cenário cinematográfico mundial. Criador de um universo sempre criativo e surpreendente, Rodrigues escolheu um elenco não profissional para abordar os sentimentos conflituosos que inquietam a vida de Tônia, travesti experiente em fim de carreira.

Embora o universo drag queen não seja exatamente uma grande novidade no cinema, João Pedro Rodrigues declarou em Cannes, onde estava pela exibição do filme na mostra “Un Certain Regard”, que o longa vai contra o espetáculo. “É a antítese de ‘Priscilla, Rainha do Deserto’", afirmou o diretor. Sem dúvida, “Morrer como um Homem” traz um frescor que escapa à maioria dos cineastas que se debruçam sobre o tema.

Divulgação

João Pedro Rodrigues volta-se para universo transsexual em "Morrer Como Um Homem"

Tônia, um travesti veterano de Lisboa, tenta seguir com o seu cotidiano de estrela de uma boate, mas tem sua posição ameaçada por um belo travesti que conquista amiúde os fãs do estabelecimento. O homem por trás da maquiagem e dos seios de silicone de Tônia é Antonio, pai rejeitado pelo filho inconsequente e já crescido, Zé Maria. A relação entre pai e filho é mal construída na narrativa, mas ao menos serve para suster um sentimento que Tônia reserva ao jovem namorado, Rosário, um dependente químico irresponsável que desperta no travesti o sentimento materno que nunca pôde exercer com seu único descendente.

A vida que Antonio construiu na artificialidade de um corpo híbrido, que se veste de mulher, mas nasceu homem, é reafirmado pelo formato musical em que o filme se instala em diversos momentos. O gênero musical é, por excelência, antinaturalista em sua intenção; ele sela um compromisso com o mundo do cinema, e não com o mundo real. Assim, outros recursos estilísticos, como a alteração da cor natural de alguns planos, flagram essa mesma vontade do diretor de incitar a criação de um universo postiço, capaz de simular sentimentos verdadeiros através de meios falsos.

João Pedro Rodrigues filma “Morrer Como um Homem” com total liberdade, sem se prender a formatos ou a limitações que podariam seu estilo. Há duas cenas que exemplificam melhor essa sua marca peculiar. Em um passeio no cemitério, Tônia e Rosário cantam uma melancólica música do início ao fim. Parados, lado a lado, em movimento somente porque uma esteira fora de quadro os conduz, o casal prenuncia a presença da morte, que os envolve e parece se aproximar.

Em outro momento do filme, um filtro avermelhado toma a tela e dá um toque de inverossímil na noite que canta para floresta. Literalmente. Uma lua tão grande quanto falsa cativa a atenção de Tônia, Rosário e um casal de travestis, que estão em uma clareira e ouvem com encantamento a música que é executada de forma integral.

A virada que o filme provoca com o momento da floresta mágica, curiosamente, é seguida de um redirecionamento mais naturalista que culmina na deteriorização da saúde e da carreira de Tônia. O travesti sempre ficou dividido entre os cumprimentos da religião, que condenam à insatisfação quanto ao sexo com que se nasce, e as exigências do amor, pois seu namorado era a favor da troca de sexo. Morrer como um homem é, no entanto, um sinal que legitima sua retirada de uma batalha que não lhe tem mais apelo. Vencida pela doença que consome seu corpo, Tônia faz sua escolha final.

O novo longa de João Pedro Rodrigues é interessante e confirma seu estilo, que deveria despertar não só a curiosidade do público gay, mas também a de todo aquele que gosta de acompanhar os primeiros passos de um talentoso jovem realizador.


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