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Governo cubano volta a pagar por operações de mudança de sexo

Governo cubano volta a pagar por operações de mudança de sexo

Yiliam Gonzalez, de vestido amarelo, cumprimenta vizinhos em Havana Foto: AP

Yiliam Gonzalez, de vestido amarelo, cumprimenta vizinhos em Havana; "Meu corpo não tinha nada a ver comigo" - Foto: AP

Olhar no espelho costumava incomodar Yiliam Gonzalez. "Eu me via, e meu corpo não tinha nada a ver com a pessoa que sou", disse Gonzalez, 28 anos, uma pianista que toca em casamentos e costumava atender por William antes de realizar uma operação de mudança de sexo custeada pelo serviço nacional de saúde cubano.

Gonzalez serve como prova de uma pequena mas notável transformação na revolução rústica liderada por Fidel Castro, Che Guevara e um grupo de rebeldes barbados e sempre másculos, que costumava punir os gays e os transexuais mas agora custeia operações de mudança de sexo.

Com altura de 1,83 metro, cabelos loiros à altura dos ombros, maquiagem pesada e uma carteira de identidade que ainda porta seu nome masculino, Gonzalez passou pela cirurgia em 2008. Ela é um dos oito cubanos que se beneficiaram de um programa criado em 1988 mas suspenso por duas décadas depois que muita gente se queixou de que o governo comunista do país tinha coisas melhores em que gastar seu dinheiro.

As cirurgias foram retomadas, com o estímulo de Mariela, filha do presidente Raúl Castro e a principal defensora dos direitos dos homossexuais cubanos, e outros 22 transexuais estão na fila à espera de realizá-la.

Mariela Castro afirma que o governo está procedendo de modo cauteloso, realizando apenas algumas operações a cada ano. "Houve muita resistência, porque a homofobia continua a ser forte em nossa cultura", ela declarou em uma recente conferência sobre sexualidade.

Nos anos 60, a oposição ao homossexualismo era feroz em Cuba, e homossexuais eram demitidos de cargos públicos, aprisionados ou enviados a campos de trabalho. Muitos se exilaram. Os transexuais, embora não sejam homosexuais, eram tratados da mesma forma.

Embora as piadas sobre gays continuem a ser tão comuns quanto o café forte, em Cuba, campanhas de mídia do governo agora desencorajam a homofobia. Centenas de homossexuais cubanos marcharam pela elegante alameda La Rampa, em Havana, no segundo trimestre do ano passado, apenas um ano depois que as autoridades haviam proibido um desfile do orgulho gay.

"Gostaria de imaginar que a discriminação contra os homossexuais é um problema que está sendo superado", disse o ex-presidente Fidel Castro em uma série de entrevistas ao jornalista francês Ignario Ramonet, entre 2003 e 2005. "Os velhos preconceitos e a mentalidade estreita serão cada vez mais coisa do passado".

Mariela Castro se esforçou para que o Estado reconheça formalmente os transexuais. Professora infantil treinada e sexóloga diplomada, ela dirige o Centro Nacional de Educação Sexual, e dedicou anos a convencer os governantes comunistas a enfim suspender a proibição a cirurgias de mudança de sexo - ainda que a resolução jamais tenha sido divulgada em público, de forma a evitar atenção indesejada.

"Esses processos de negociações às vezes são conduzidos de forma muito discreta", disse Mariela Castro, "de modo a não despertar fantasmas". Ela diz agora que as preocupações financeiras do passado eram usadas simplesmente para ocultar preconceitos.

Não é incomum que isso aconteça, disse Denise Leclair, diretora executiva da Fundação Internacional para a Educação Sexual, de Washington. "Em muitos países, as pessoas se queixam seriamente disso. A questão é propelida principalmente por crenças religiosas", ela afirma.

As objeções religiosas não são problema em Cuba, país oficialmente ateu já há décadas. Em lugar disso, muitos cubanos alegam que os cofres públicos estavam vazios demais para bancar esse tipo de operação, em cartas enviadas ao editor-chefe do jornal do Partido Comunista, Granma, depois que a primeira cirurgia cubana de mudança de sexo bem sucedida foi anunciada, em 1988.

Leclair diz que uma cirurgia de mudança de sexo de masculino para feminino pode custar entre US$ 10 mil e US$ 25 mil nos Estados Unidos, mas que o preço pode ser até quatro vezes mais alto, a depender das opções escolhidas. Cerca de uma dezena de médicos realizam entre mil e duas mil cirurgias como essa a cada ano, nos Estados Unidos.

Canadá, Reino Unido, França e Brasil, entre outros países, oferecem cirurgias de mudança de sexo financiadas pelo governo.

San Francisco começou a pagar pelas cirurgias de mudança de sexo dos funcionários públicos municipais em 2001, e Fort Worth, Texas, está estudando a possibilidade de fazê-lo. Alguns grandes empregadores dos Estados Unidos, como a IBM e a Universidade da Califórnia, negociaram contratos com suas operadoras de planos de saúde a fim de cobrir o procedimento, conhecimento medicamente como "cirurgia de redesignação sexual", e outras empresas de seguro-saúde começaram a cobrir pelo menos parte do tratamento requerido.

Ainda assim, Leclair diz que a maior parte das grandes operadoras norte-americanas de planos de saúde não cobre esse tipo de tratamento. Cuba não revela o quanto custam as cirurgias de mudança de sexo, mas os médicos do país são funcionários do Estado e seu salário médio mensal é de cerca de US$ 20.

A despeito da recessão mundial, que atingiu Cuba de forma especialmente dura e levou Raúl Castro a anunciar cortes não especificados nos gastos com a saúde, a filha do presidente diz que o Estado não poderia deixar de executar as cirurgias.

Gonzalez diz que os oponentes da ideia "não fazem ideia de como sofre uma pessoa transexual. É uma prisão da qual é impossível sair".

Gonzalez sabia que era diferente quase desde o momento que nasceu. Aos quatro anos, já preferia roupas e brinquedos de menina, e seus pais a colocaram em terapia. O governo a designou oficialmente como transexual em 2000. Seis anos mais tarde, Mariela Castro conseguiu aprovação para a retomada das cirurgias, e Gonzalez esteve entre os primeiros beneficiários.

Dois especialistas da Bélgica executaram a operação, com, a ajuda de uma equipe de médicos cubanos, em um trabalho que durou oito horas. Gonzalez não quis revelar a data exata da operação ou os motivos para que tenha sido selecionada.

Leclair diz que 40% dos transexuais têm impulsos suicidas. Mas Gonzalez diz que namorado com quem vive há sete anos impediu que ela se deprimisse. "Ele sempre viu a mulher em mim e me aceitou como eu era", disse. "Mas não podíamos fazer sexo de maneira completa até agora".

Gonzalez não pode se casar, no entanto, porque ainda não recebeu permissão para mudar seu nome na carteira oficial de identidade. Até lá, também não poderá retomar seu trabalho como pianista em casamentos, embora deseje fazê-lo, e tampouco pode voltar a estudar, já que seu nome não serve à mulher que se tornou.

É um problema que a cubana Olivia Lam conhece muito bem. Ela nasceu Alfonso Manuel, e está esperando há dois anos por uma cirurgia de mudança de sexo.

Embora seu nome não tenha sido mudado, as autoridades permitiram que tirasse uma nova foto para sua carteira de identidade - e a foto a mostra vestida de mulher.

"A foto sou eu, ainda que o nome não seja", disse Lam, 43 anos, uma pessoa gregária que fala movendo os braços, o que faz com que os brincos sempre presentes em suas orelhas balancem alegremente.

As duas mulheres afirmam acreditar que a demora em mudar os documentos se deva à lentidão da burocracia cubana, e não a alguma forma de resistência de parte do governo.

Lam, que trabalha como cabeleireira em seu apartamento de dois quartos, começou a se vestir como mulher aos 21 anos. Embora esteja oficialmente classificada como transexual desde 2008, não sabe quando - ou se - a aprovação para a cirurgia de mudança de sexo será concedida.

E ainda que o governo agora a aceite, Lam reconheceu que conseguir que sua família faça o mesmo não foi nada fácil. "Não creio que meus pais desejassem que o filho deles fosse diferente", ela disse, "mas compreendem que uma pessoa não é assim porque quer".

Por: Will Weissert Da Associated Press - Via: Terra

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