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Transsexual: Austrália adota um anjo para expulsá-lo depois

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Transsexual: Austrália adopta um anjo para expulsá-lo depois

Nova Gales do Sul reconheceu a escocês de 48 anos o direito de surgir como sem género nos documentos, mas Camberra voltou atrás.

Nasceu homem há 48 anos, tornou-se mulher há 20 e, esta semana, o Governo do Estado de Nova Gales do Sul, Austrália, para onde emigrou da Escócia quando tinha sete anos, reconheceu que Norrie May-Welby não era uma coisa nem outra, mas antes cidadão de "género neutro". Norrie exultou com a decisão inédita, por entender que o género de cada qual não tem que ver com a genitália. E a Austrália adoptou o primeiro anjo da Humanidade ? é sabido que só eles não têm sexo. Durou pouco, porém, a bizarria, e anteontem o Governo de Camberra revogou, segundo a AFP, a declaração de pessoa assexuada. Para Norrie, o anjo caído, a luta continua.

"Esses conceitos de homem e mulher simplesmente não se aplicam a mim, não são a minha realidade. Se me forem aplicados, parecem uma coisa de ficção", afirmou May-Welby ao diário The Scotsman, radiante com a decisão das autoridades do estado australiano de Nova Gales do Sul, que lhe passaram a certidão de "género não-específico", culminando uma luta árdua para garantir direitos cívicos àqueles que não se vêm nem como homens nem como mulheres: os andróginos.

O documento, passado em concordância com uma recomendação, de 2009, do relatório da Comissão de Direitos Humanos da Austrália, beneficiou das interrogações levantadas pelos próprios médicos que observaram norrie mAy-Welby - num trocadilho com may well be, que em inglês significa pode muito bem ser. E os clínicos não conseguiram determinar o que poderia ser tal pessoa, se masculina ou feminina, após exames inconclusivos a um corpo cuja natureza foi cirúrgica e quimicamente modificada.

A primeira transformação ocorreu aos 28 anos, quando um rapaz, por não se rever na genitália que a Natureza lhe concedera, resolveu amputá-la. No livro Ultra Sex, ainda inédito, que o novel andrógino pretende publicar, mas cuja introdução está já disponível no seu site [http://webspace.webring.com/people/uu/ um_191/noz.html], Norrie precisa que, "na segunda-feira, 3 de Abril de 1989, algures entre as duas e as três horas da tarde, deixei de ter pénis e passei a ter uma vagina".

Não foi suficiente. "Após a operação, tentei viver a vida como uma verdadeira mulher", diz Norrie, revelando que, achando próprio socializar nos círculos heterossexuais, cedo descobriu que "no mundo 'hetero', eu era tratada como mentirosa se não revelasse a minha transexualidade, e como pária caso o fizesse. Fui abusada por homens, às vezes por ser transexual, na maioria só por ser mulher", confessa. Assim, "deixei de ir a bares hetero. Já não queria continuar a viver como uma mulher heterossexual normal".


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Norrie May Welby
http://www.may-welby.blogspot.com/

Os ácidos da revelação

Deprimida, e já como dirigente da Associação Transexual Australiana, Norrie viu a luz no Natal de 1990, quando experimentou ácido pela primeira vez: "Durante essa primeira trip, percebi quem eu era, deixando de me preocupar se era macho ou fêmea, ou, pelo menos, autorizei-me a descobrir quem eu era sem tentar ser masculino ou feminino. Sou apenas um ser humano". Mais tarde, Norrie evoluiu nas cogitações e percebeu que "mulher e homem são papéis que desempenhamos, coisas que fazemos. O género é desempenho. Dali em diante, resolvi aceitar a vida não como mulher (não homem) nem como homem (não mulher), mas como ser humano. De qualquer modo, eu não me podia definir com honestidade".

Nem Norrie nem os médicos, na medida em que, tendo abandonado o tratamento hormonal que havia seguido durante anos, manteve características femininas evidentes. Face ao imbróglio e aos argumentos legalistas de Norrie: "Se o meu passaporte me define como de género feminino, posso ser preso se entrar num país que considera o sexo à nascença como o verdadeiro". E se o passaporte indicar género masculino, "continua a haver dissonância com o meu aspecto, porque falo e movo-me como mulher", sublinha May-Welby.

Aparentemente, o pragmatismo das autoridades de Nova Gales do Sul seguiu a mesma linha de raciocínio e concederam-lhe, pela primeira vez no Mundo, um certificado de neutralidade sexual, operando um milagre por via administrativa: o registo do primeiro anjo reconhecido. Que caiu anteontem.

DO JN - Emano Madail

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