Header Ads

Prostituição ’Transexual’: O fenómeno do negócio completo

Natasha, 19 anos. Está em Portugal há um ano. Começou a  prostituir-se no Brasil, com 15 anos
Natasha, 19 anos. Está em Portugal há um ano. Começou a prostituir-se no Brasil, com 15 anos - Foto: Sérgio Lemos







Prostituição: ’Transexual’

O fenómeno do negócio completo

No processo de homem para mulher conservaram o órgão. A indefinição dá-lhes dinheiro – e muito – no negócio do sexo. O fenómeno brasileiro tem sucesso em Portugal.


As curvas de Byanca acordam piropos e desatinam o trânsito lisboeta a cada bambolear de anca. Porque o decote é generoso e as pernas exageram em cima de saltos altos com altura para monumento. No Bilhete de Identidade, no entanto, Byanca não é Byanca: Tem nome de homem, escolhido pelos pais quando a registaram há 24 anos. Se bem que os predicados masculinos da brasileira não se esgotam no BI – tropeçam no órgão genital com que nasceu e preferiu manter.

Porque apesar do decote generoso, das pernas que exageram em cima de saltos altos com altura para monumento, apesar de – garante – se sentir uma mulher, ela mantém o pénis. Por escolha própria, por vontade. E é o corpo – de mulher com sexo de homem – o seu instrumento de trabalho, prostituta com uma agenda lotada de clientes. Nos sites da especialidade Byanca Di Castro não é filha única na montra de 'transexuais não operadas' que procuram clientes – mais de 90% são brasileiras que encontraram em Portugal forma garantida de enriquecer – vida bem diferente da maioria dos imigrantes. 'Não me privo de nada: Gosto e compro, vou ao cinema, passeio. Fora o que gasto com depilações, cabelo, massagens. No início, tudo o que ganhava enviava para o Brasil, agora não'.

A tabela de preços ajuda a entender o desembaraço consumista: 'Se no sexo for passiva cobro 50 euros por hora. Se for completa, passiva e activa, 80 euros. Ou 100, para me realizar. Quando cheguei, há 5 anos, chegava aos 150. Agora há o transformismo, os travestis, muita escolha. Por isso, o cliente muitas vezes prefere procurar homens de peruca que lhe vão dar aquilo que ele quer: a p* sempre dura, porque como eu sou hormonizada não me vou realizar com todos. Pode vir um e eu me realizo com ele, mas se calhar com o seguinte já não vou conseguir'.

Mas não se pode queixar da assiduidade da procura. 'Há dias que tenho um, há dias que tenho dez. Quem nos procura é um homem que idealiza a imagem feminina, sente-se atraído por mamas, por rabo, mas do que tem realmente vontade é de um pénis. Geralmente enquadram-se na bissexualidade. Não são gays: Os gays querem aparência masculina, querem barba, não querem curvas de mulher'. Muitos 'são casados. De aliança no dedo. Outros trazem a mulher, fazemos uma sessão de casal'. Há ainda aqueles que na clandestinidade do quarto vermelho optam por se mascarar. 'Tem muitos que chegam aqui de cuecas, pedem uma peruca, porque se querem sentir mulheres. Tenho uma gaveta cheia de acessórios para eles usarem. Até põem peitos de mentira, aquelas próteses para mulheres que têm cancro'.

Durante alguns anos Byanca acalentou a mudança de sexo completa. 'Sonhei muito tirar o pénis. Mas se tivesse feito a operação era uma pessoa frustrada. Na altura em que queria fazer eu era sempre passiva – mas na Europa a gente se torna mais activa no sexo pelo trabalho e por isso mantive. No fundo, gosto de ter os dois, embora me sinta mulher. E há outra questão: Mesmo que eu tivesse feito a operação nunca poderia dar ao meu namorado aquilo que ele quer – ser pai. Se pudesse gerar uma família, fazia, embora ele goste de mim do jeito que eu sou'. É português o peso da balança que a faz ponderar deixar os corpos de outros homens. 'É horrível que a pessoa de quem você gosta esteja na cama com outras pessoas, mas ele tem de pensar que quem está com clientes é a Byanca personagem e não a namorada dele'. Há muito tempo que deixou de pensar no futuro.

'Não idealizo. Hoje em dia ele está apaixonado por mim, mas ele é hetero, está procurando uma família, isso está tudo bem claro. Chateia um pouco: não poder ser a família que ele quer. Porque ele não tem vergonha de mim – vamos ao shopping, ao cinema, só não conheço os pais porque eles não sabem que ele namora uma trans. É um rapaz normal, um assalariado honesto'. A solidão, desfeita a vida a dois, é um dos medos recorrentes. 'Assusta-me a velhice. Somos muito sozinhas, não temos ninguém. Talvez um dia consiga montar um cabeleireiro e sair da vida, me garantir sem precisar disto'.

Longe estão os tempos em que respondia pelo nome masculino. 'Comecei a mudança aos 17 anos, a tomar hormonas. Em seis meses comecei a notar diferenças: A primeira foi os pêlos mais finos. Depois ganhei anca, mamas'. Mais tarde insuflou cada peito com 700 mililitros de silicone, operou o nariz e a barriga rumo a um corpo cada vez mais feminino.

'Tirar o piu-piu para quê se é assim que me sustento? É melhor fazer programa [prostituição] do que roubar, traficar ou prejudicar alguém'. Palavra da sedutora Natasha Kelly, 19 anos, que abana a cabeça à hipótese de operar o pénis. 'No espelho eu vejo uma mulher e é só por esse nome que respondo. Se me chamam pelo meu de homem nem olho, não identifico comigo, mas uma coisa sou eu, outra é o meu trabalho e eu preciso do piu-piu para trabalhar'. Abalou de casa, em Mato Grosso, aos 15 anos.

'Desde essa altura que sou trans, comecei a tomar as hormonas – ainda tomo – mas os programas começaram mais tarde, antes trabalhei numa loja. Quando disse à minha mãe que era gay ela disse: ‘Usa camisinha’. Aqui em Portugal se um filho diz que quer ser mulher os pais põe para correr'. Chegou sozinha ao sonho europeu, embora – tal como a maioria – tenha vindo aconselhada por amigas, mas desiludiu-se à chegada. 'Não há o glamour que imaginava. E pensava que os homens portugueses estavam à espera que fosse passiva, mas querem é que eu seja o macho da relação'.

Os preços variam entre os 50 e os 100 euros. 'Duzentos, com deslocação a hotel'. Desde que o telefone toque, Natasha trabalha o dia todo. E não pára de tocar. 'Quanto mais atender, melhor. O meu recorde foi 21 num dia. Tenho que batalhar pelas coisas que quero. Mais um ano em Portugal e consigo realizar o meu sonho: Comprar uma casa no Brasil, na minha cidade-natal, e trabalhar noutra coisa'. Sem alterar uma vírgula ao corpo que hoje tem – é evidente o orgulho que tem quer nas curvas de mulher quer no sexo que lhe paga as contas ao final do mês.

Miuky Suzuky não é tão exuberante. Parece uma menina a preparar-se para as aulas da faculdade, quando abre a porta, mas na realidade está em trânsito entre clientes. A jornada laboral começou de manhã e promete estender-se pela noite mas arranjou uma folga para falar com a Domingo. Chegou a Portugal há cinco meses e ainda não lotou a agenda de contactos. Mas garante que valeu a pena a troca. 'Aqui ganha-se mais, porque há menos transexuais do que no Brasil, os preços são os mesmos'.

No site, ‘vende-se’ como 'activa e passiva, pronta a realizar todas as fantasias, super agradável e super carinhosa'. Em pessoa, é difícil acreditar que não tenha nascido mulher. Ela, que também mantém o pénis. 'Nem sequer penso em mudar. E acho que para mudar tem de dar vontade, tens de ter mesmo a certeza que é isso que queres, ainda não me sinto preparada e não sei se algum dia vou sentir'.

Porque o corpo andrógino não é somente instrumento de trabalho – é também instrumento de prazer: Miuky, ao contrário da maioria das ‘trans não operadas’ – que namoram homens – tem 'uma relação estável' com uma ‘transexual’ que também mantém o genital biológico. 'Conhecemo-nos em São Paulo e imaginamo-nos a voltar para lá um dia. Gostamos uma da outra tal como somos e nos sentimos mulheres, claro. Andamos na rua de mãos dadas e assumimos a relação'. Além do amor partilham casa e profissão – o que implica saberem sempre quando a outra está com um cliente. 'Temos imensos ciúmes mas é uma forma de ganhar dinheiro'.

Em operações plásticas Miuky gastou 8000 euros (peito e nariz) para ficar com cara e corpo de boneca. São as operações que a maioria faz. 'No início a minha família assustou-se. O meu irmão ainda hoje não entende, é difícil acostumar-se'.

Natalie sabe que sim. Ela que nasceu Jorge no Brasil, há 21 anos, numa família de classe média que não encarou pacificamente as alterações no corpo. 'Desde pequena sentia atracção por homens mas queria ser mulher, não me sentia gay. Vestia a roupa da minha mãe às escondidas e com 12 anos conheci uma transexual que me ensinou a mudar o corpo com as hormonas'. O pai, 'um polícia superpreconceituoso', descobriu a artimanha numa tarde de praia em que a obrigou a entrar no mar.

'Foi um choque para eles quando viram que eu era um menino com peito. Acharam que tinha uma doença e me levaram ao médico. Acabei por contar das hormonas, então cortaram o meu cabelo, deitaram as minhas roupas de menina fora. Só mais tarde acabaram por aceitar. A minha mãe chegou a dizer: ‘Se você quer namorar homem, namora discreto. Mas não te transformes em mulher’'.

Antes de aterrar em Portugal poisou em Itália – 'mas tive problemas com droga e tive de sair de lá' – e em Espanha, onde começou o ofício e casou com um português. 'Ele é muito ciumento. Mas eu digo-lhe sempre: ‘Se quisesse uma santa ia na igreja’. Ele não quer que eu atenda negros, brasileiros, nem jovens, nem sequer que seja passiva. Quer que só atenda velhos e seja activa. Eu não ligo, atendo todos os que telefonam, não faço selecção'.

Natalie recebe em casa, em Famalicão – tal como Byanca tem um quarto profissional e um quarto pessoal paredes- -meias no mesmo apartamento. 'Quando vem um cliente tenho de baixar as persianas e trancar o meu marido na sala porque ele tenta ouvir e espreitar. O namorado de uma amiga invadiu o quarto e bateu no cliente, não quero que isso aconteça'. Se não está 'queimada', gíria profissional a evitar. 'O site tem um fórum onde os clientes falam sobre nós. É uma pressão muito grande. Se temos um pêlo no cotovelo eles vão lá escrever, se estamos mal escovadas também'.

Todo o cuidado é pouco no que toca aos detalhes do serviço. Pela mesma razão não exclui o pénis do cardápio. 'Se fizer agora essa operação vou perder muito dinheiro e muitos clientes. Talvez com uns 40 anos eu faça, porque acho feio um transexual velho com pénis'. O rol de razões não fica por aqui. 'Também tenho medo porque a irmã do meu namorado é operada e quando tirou o pénis ficou doida. Está sempre a dizer: ‘Pareço a Angelina Jolie não pareço?’'. Trabalho não lhe falta, não se pode queixar. 'Recebo do mais bonito ao mais feio, do mais novo ao mais velho. Uma vez apareceu um senhor de 60 anos, com um sobretudo. Por baixo tinha um vestido tigresa, sapato tigresa, até o cordãozinho de pérolas'. A maioria vem 'com medo, olhando para todo o lado. Pedem para a gente deixar a porta aberta para não encontrarem os vizinhos'.

O menu de preços praticado também ronda os 50-100 euros. 'Recebemos mais do que uma prostituta e temos mais clientes. A gente entra nos sites e os rapazes dizem: ‘Nunca estive com nenhuma trans, tenho vontade de saber como é’'. Vêm pela curiosidade mas acabam por ficar. 'A maioria volta. Alguns têm dinheiro para gastar. Outros dizem que andaram a juntar o dinheirinho o mês todo para nos poderem visitar'. Todos as encontram nos anúncios onde se mostram sem nada a esconder – embora bem diferentes de como vieram ao Mundo. Mas sabem, também todos, com o que podem contar. Incluindo o extra de serviço.

'NÃO IA TER PRAZER SEXUAL'

Shayene, 35 anos, é a excepção à regra. Brasileira, em Portugal há 4 anos, é empresária no ramo da beleza e não faz vida na prostituição. Apesar disso mantém o pénis, embora as formas femininas sejam evidentes – e o gosto por se ver mulher ao espelho. 'Não fiz a operação porque uma trans operada não tem prazer sexual e isso é importante para mim. Sei que vou encontrar um homem que me aceite como sou'. João Décio Ferreira, único cirurgião a operar transexuais em Portugal, contradiz: 'As transexuais operadas têm prazer como qualquer outra mulher'.

'A MINHA AVÓ VESTIA-ME COMO UMA MENINA EM CRIANÇA'

Os conflitos com a identidade começaram cedo. 'Quando os meus pais se separaram fui viver com a minha avó, que me passou a vestir de menina. Acho que meteu na cabeça que eu era uma neta. Quando a minha mãe descobriu deixou de falar com a minha avó e voltou a vestir-me de menino'.

Na adolescência os 'shows de trans e drag queens na TV fascinavam-me e nessa altura resolvi mudar o corpo. Percebi que não ia ser feliz como homem'. A mãe expulsou-a de casa mas, mais tarde, acabaram por se reconciliar. 'Embora ela me chame filho, não de Byanca'.

'HÁ UM ACORDO ENTRE SEXO REAL E IDEAL'

Para a psicóloga brasileira Vilma Silva, que trabalha num grupo de apoio a transexuais no Brasil, 'existem vários níveis na identificação da transexualidade. Há um grupo que consegue manter-se com o genital masculino, sentem-se confortáveis, não implicando nenhum transtorno na prática da sexualidade. Ou seja, conseguem adequar o sentimento feminino à natureza biológica, há um acordo entre sexo real e sexo ideal.

Outros não têm o menor interesse no seu pénis enquanto órgão executor do seu desejo erótico – nesses casos, nos transexuais o desejo de serem mulheres é tão forte que tentam a castração ou preferem mesmo o suicídio'.

'AS VANTAGENS ECONÓMICAS PODEM EXPLICAR' (Íris Monteiro, Sexóloga clínica com experiência de trabalho e investigação nas questões da transexualidade)

- Só é considerado transexual o que altera o sexo biológico?

- Existem casos excepcionais, que optam por uma vivência intermitente ou por uma aceitação do género biológico e do papel de género estereotipado. Contudo, o mais comum é existir uma necessidade de adequação da genitália à identidade de género.

- Haverá muitos portugueses com esta opção quase andrógina?

- Portugal não será excepção. As necessidades de mercado facilitam e exigem o surgir de fenómenos até então não detectados. Não estamos a falar de um grau mas sim de estados diferentes. Estados que são geralmente confundidos com a transexualidade, pela sociedade ou pelos próprios.

- O que poderá levar uma pessoa a manter o sexo biológico quando aparentemente quer fazer acreditar que é do outro?

- Várias opções podem explicar, nomeadamente as vantagens que daí possam advir: Pessoais, sociais e até económicas. É uma forma de atingir um fim. Contudo, uma coisa é o que vimos, outra é a realidade sentida pelo próprio.

- Terão uma percepção distorcida da sexualidade?

- A identidade e a sexualidade também são conceitos diferentes, uma coisa é quem eu sou e outra é o meu comportamento sexual e com quem eu estou ou quero estar sexualmente. Certamente estes indivíduos sabem quem são e sabem com quem estão ou querem estar sexualmente, distorcida será é a imagem que transmitem aos outros.

NOTAS

SITES

Nos sites são tratadas por ‘gatas’ e ‘viptransex’. Um anúncio pode custar 300 euros por mês.

SILICONE

Depois dos tratamentos hormonais os implantes de silicone são o segundo passo.

PORTUGGAL

Único país com mais mulheres a quererem ser homens que o contrário.

RONALDO

O futebolista brasileiro Ronaldo envolveu-se com três travestis em 2008 achando que eram mulheres.

TRAVESTIS

A morte de João Lobato, no Brasil este mês, está a ser investigada. 'Havia orgias com travestis'.

FAMA

Roberta Close é uma das transexuais mais famosas do Mundo. Foi operada em 1989 mas só aceite em 2005.

NÁDIA

Nádia Almada, portuguesa, venceu o ‘Big Brother’ em Inglaterra depois de confessar a transexualidade.

Do Correio do Amanhã - Portugal - Por: Marta Martins Silva


Nenhum comentário