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Entrevistar transexuais exigiu quebra de pré-conceitos, relata Caroline

Caroline Kleinübing
A repórter Caroline Kleinübing
acompanhou a transexual Júlia,
professora de música em Juiz de
Fora (Foto: Zé Paulo Cardeal)

A primeira pergunta que fiz quando pude conversar diretamente com uma transexual foi: "Tem alguma coisa que eu não deva te perguntar?". Saí de casa com essa dúvida e achei melhor sanar assim, logo de cara. A resposta foi: "Nada!". Num tom de quase desdém, a reposta - óbvia pra ela - esclareceu muitas coisas pra mim.

Automaticamente organizei meu pensamento de um modo diferente. Tive certeza de que o mundo dela não era o mundo das transexuais, era o meu mundo. O mesmo de todos. Porque afinal, as muitas diferenças, quaisquer que sejam, não poderiam segmentar os diferentes em mundos alternativos, mas deveriam nos ensinar a compartilhar para não nos sentirmos obrigados a conviver nesse mesmo mundo.

A resposta para minha primeira pergunta me fez acreditar que, estando inseridas na mesma realidade, ainda que com experiências tão diferentes, não haveria nada que eu não pudesse perguntar. Então perguntei tudo. Dúvidas minhas e dúvidas de todos. Sobre sua história pessoal, a descoberta interna e externa, a forma de encarar os outros na rua, na escola ou no supermercado. A briga para se sentir inteira e igual, as reações, os medos, as dificuldades. Ela soube me mostrar a forma como a sociedade encara essas questões de gênero e sexualidade enquanto a acompanhei, de ônibus, até o trabalho. Não precisei perguntar à Júlia sobre as vitórias, elas eram a síntese das respostas.

A naturalidade com que trato esse tema é proporcional ao que aprendi. Uma reportagem em que a maior motivação do personagem foi ter mudado os órgãos genitais na metade da vida é um desafio grande. E exigiu, desde o princípio, que eu limpasse todas as impressões que tinha, os conceitos pré-formados, a mistura do que se acha com o que se ouve falar para tentar sair do óbvio, que na maioria das vezes é cheio de estereótipos e peca por não mostrar a riqueza das exceções.

Encontrar a Júlia - e também a Kayla e a Thaiyss - e conhecer outras tantas que não foram ao ar no programa, foi o resultado de algumas noites tensas. É difícil eu me sentir nervosa, mas as visitas ao Hospital Universitário Pedro Ernesto me fizeram sentir. Tínhamos que trazer resultados que dependiam de mais do que boa vontade ou dedicação e que também não viriam através da insistência naquela situação. Eu precisava conhecer as pessoas certas, nos dias certos. E essas pessoas teriam que estar dispostas a fazer o que a Júlia fez. Falar de si própria sem nenhum pudor, para muito além da sala da sua casa. Isso tudo diante de uma série de restrições, impostas pelo Hospital, que impediam que documentássemos nossa busca e que tornavam inviável uma reportagem para a televisão. Ao menos aos moldes do Profissão Repórter.

Foram três visitas ao ambulatório, num intervalo de três meses. De cada uma delas vim embora com um número de telefone. Além de Juiz de Fora, fomos a Curitiba e Niterói. Acho que me comportei igual com as três, embora com cada uma delas a relação fosse diferente - porque os estágios do tratamento eram diferentes. Kayla ainda tem alguns anos pela frente para que possa se submeter à operação. Da última vez que conversei com Thaiyss ela era a primeira da fila; hoje está em casa, trabalhando, recuperada da operação que adequou seu órgão genital ao seu gênero pscicológico. Só Júlia está no Profissão Repórter da semana, mas as três foram responsáveis para que eu não tivesse vergonha de querer saber como fica o corpo depois dessa operação, pra poder ter plena certeza de que ficamos exatamente iguais. Guardadas as nossas diferenças.

Para quem quiser procurar ajuda médica:

Hospital Universitário Pedro Ernesto, Rio de Janeiro
Serviço de Urulogia - Ambulatório de Urologia Reconstrutora
Atendimentos às quartas-feiras, das 8h às 13h
Consultas pode ser agendadas pelo (21) 2587-0000 e também pelo urolab@uerj.br



Do G1

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