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Travesti quase foi reprovado em banca de pós-graduação


A concepção das instituições de ensino como espaços de reflexão do conhecimento e partilha de culturas, etnias e experiências deveria fazer das universidades o local ideal para combater preconceitos. Mas certos acontecimentos no universo acadêmico insistem em provar o contrário: o preconceito ainda existe entre estudantes, professores e funcionários.

E a travesti Leilane Assunção, 29, sabe muito bem disso. Quando foi defender o seu projeto de mestrado, em 2006, um dos professores da banca deu nota 2 para a estudante, que por pouco não foi reprovada. “Sem nenhum motivo pedagógico, a professora me deu nota 2. O que ela não esperava era que eu tivesse recebido boas notas 9 e 10 dos outros dois componentes da banca. Passei na média, com nota 7 e não consegui a bolsa. O pior é que soube que ela ainda tentou diminuir ainda mais minha nota quando descobriu que tive média para passar. Mas ela não conseguiu”, conta Leilane.

A transformação de Leandro - nome de batismo - para Leilane aconteceu aos 24 anos e não mudou apenas a parte física. Segundo ela, o ‘nascimento’ de Leilane é um marco na sua vida acadêmica. “Desde que me assumi travesti venho mantendo uma estabilidade no meu currículo, não fui mais reprovada e sempre tenho boas notas. Ser Leilane trouxe equilíbrio para minha vida”, disse ela

Diferente do que aconteceu no mestrado, agora Leilane está focada no doutorado. Boa parte do seu tempo é dedicado às pesquisas, que têm como tema a cantora Clara Nunes.

De família evangélica e com mais cinco irmãs, a vontade de Leando de se assumir mulher existia, o que faltava era coragem. Ela sabia dos preconceitos que enfrentaria.

A rejeição da família e da escola e a falta de políticas públicas é para Leilane a mola-mestra para impulsionar as travestis às ruas. Para ele, hoje há uma banalização do corpo e cada dia a prostituição acontece mais cedo. A crítica do travesti atinge, inclusive, os grupos que apoiam os gays. “É a política do oba-oba. O mundo gay está esvaziado de discurso intelectual”, declarou. Apesar disso, Leilane acredita que a força de vontade de cada um pode ultrapassar barreiras.

Do Tribuna do Norte

"Travesti também tem sonho de cinderela"



A natalense Leilane Assunção cursa doutorado em ciências sociais, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Aos 28 anos, dos quais 18 foram vividos num corpo de homem, é a segunda transexual doutoranda no Brasil, também foi a primeira do RN a ingressar numa instituição de ensino superior.

Você é a segunda transexual brasileira a cursar doutorado. Quando você descobriu isso?
Eu não tinha nem acesso a essas informações sabe? Confesso que sempre fui muito desengajada dos movimentos sociais de cunho gay. Eu tenho uma crítica muito forte em cima desses movimentos, em termos de Natal pelo menos que é a minha experiência. Então, conseqüência inclusive desse desengajamento, eu acabei ficando alheia em relação a como isso estava acontecendo. Pra mim isso também foi uma surpresa, eu não sabia de nada. Resta saber quem vai ser a primeira a defender a tese né? Eu acho que uma corrida saudável acaba de se iniciar entre eu e ela. (risos)

Agora que você conhece as estatísticas, e a partir do momento em que isso se torna público, você se torna um exemplo. Como você lida com a responsabilidade de ser referência?
Há algum tempo eu comecei a ter clareza de que eu poderia em algum momento vir a desempenhar esse papel, principalmente quando eu me encaminhei pra terminar a graduação. A partir do momento em que eu terminei a graduação e entrei no mestrado, eu comecei a perceber o assédio moral de outros gays já me buscando como essa referência. E, confesso, é muito complicado porque as pessoas às vezes perdem um pouco a distinção entre a admiração e a imitação. Hoje, já no doutorado, com os amadurecimentos intelectuais que vêm se processando em mim, eu já começo a ter outra clareza dessa idéia de referência. Então, hoje eu compreendo um pouco melhor e acho que estou mais preparada para responder a essas solicitações, no entanto, essa coisa de “Leilane referência” eu quero que se manifeste como uma coisa intelectual, não como um modelo de transexual perfeita.

Você já tinha amigos gays e transexuais antes? Como foi a aceitação desses amigos quando você resolveu virar transexual?
Já... Mudou radicalmente. Quando eu era gay eu tinha uma relação melhor com os outros gays, quando eu passei a ser transex, eu passei a ter uma relação melhor com os outros transex. Por que dentro do meio existe muita rivalidade, muita intriga, disputa entre gays e travestis. Muitos amigos meus gays passaram a me discriminar, pararam de freqüentar a minha casa, não mais me convidar à casa deles...

Então existe preconceito dentro do próprio meio...
Às vezes ele é até mais violento do que fora do meio. Não que isso vá servir para justificar o preconceito hétero em relação à homossexualidade, já que existe preconceito contra a homossexualidade dentro da própria. É outra dimensão do preconceito que precisa ser igualmente combatida.

Como foi esse processo de inserção na universidade? Você já era transexual antes de entrar na UFRN ou foi um processo que aconteceu durante a vida acadêmica?
Aconteceu durante. Antes de entrar na universidade eu via em filmes, em novelas, onde muitas vezes se mostrava a experiência universitária como um divisor de águas, e eu almejava isso. Para mim foi nesse sentido mesmo, eu entrei uma pessoa e hoje sou outra. Quanto ao processo de inserção, eu posso lhe dizer que não foi nada fácil e continua a não ser. Eu vou usar uma frase do velho lobo Zagalo que diz: “Vocês vão ter que me engolir”. E eu acho que é mais ou menos isso que eu estou fazendo com a UFRN, a universidade tem que me engolir. Tem que me engolir porque simplesmente eu tenho os méritos para isso. Eu venho, desde a graduação, construindo uma trajetória intelectual, sócio-cidadã de respeito, digna, abrindo esse espaço cada vez mais. E eu sei que quando eu abro esses espaços eles não são só para mim, em longo prazo, eles são para o gênero.

Você sofreu preconceito dos funcionários da universidade também?
De toda sorte de criaturas. Passando por funcionários, seguranças, estudantes, professores, visitantes... Em todos os meios sociais nós encontramos pessoas preconceituosas. Eu não sei quando é pior: se é quando elas são instruídas ou quando elas são ignorantes. Por que quando elas são ignorantes o preconceito é vulgar e quando elas são instruídas o preconceito é cínico. Eu não sei qual é o pior, mas prefiro o cínico porque me permite responder à altura.

Geralmente existe um preconceito familiar enorme quando se é gay, e muito maior quando se é transexual. Como a sua família encara a sua situação?
Hoje em dia está mais tranqüilo, exatamente por causa dessas conquistas que me deram legitimidade dentro de casa. Então, por exemplo, eu sou de uma família de professores, tenho três irmãs professoras, uma inclusive mestre em ciências sóciais pela UFRN, ela foi até o mestrado e parou, ou seja, eu vou ser a primeira doutora da família e eu sou a filha mais nova.

E na época? Como sua família encarou?
Foi o seguinte: eu venho de uma família protestante, puritana, passei a minha adolescência incólume sexualmente, eu perdi minha virgindade aos 19 anos. Mas, por quê? Porque eu estava envolvida dentro de um conflito moral muito pesado dentro da formação que eu tive, o conflito da descoberta da homossexualidade aos 12, dos 12 aos 15 eu passei por um processo de depressão profunda, de negação. Dos 16 aos 18 eu passei por um processo de aceitação, uma fatalidade da vida: eu sou assim, não vou poder mudar. Não adianta nada pedir a Deus para dormir e amanhecer menina que isso não vai acontecer, porque eu, na minha ingenuidade, aos 12 anos, criada em igreja evangélica, tive coragem de pedir isso a Deus. E aí aos 18 chegou aquele período da aceitação que eu não me contentava mais em representar um papel social pra agradar a minha família. Cadê as namoradas que nunca apareciam? Eu era delicado, franzino... Sai de casa e me assumi. Mas dos 18 aos 21 eu passei por outra depressão profunda. Eu me assumi e não conseguia ser feliz ainda. Pensei “não adianta, um homem nunca vai me ver como mulher e me satisfazer sexualmente como eu desejo na condição física masculinha em que estou”. Nessa fase eu já cogitava virar travesti, mas eu pensava “E a carreira acadêmica? E os amigos? E a família? E os empregos?”. Mas um dia eu chutei o pau da barraca e pensei que nada iria valer a pena se eu não fosse feliz. Sumi da vida familiar por seis meses e comecei o meu processo... Só que a vida me fez ter que voltar pra a casa da minha mãe sem nada, depois de 4 anos morando só, acima de tudo nessa condição nova que ela ainda não conhecia.

Como ela reagiu a isso?
Quando eu cheguei em casa ela quase caiu pra trás. E começou a combater de todas as formas, ela tinha vergonha quando o pessoal da igreja chegava. Eu entendo o lado dela... Na época foi muito dolorido ver isso, mas serviu pra mostrar que a vida não é como a gente quer, a vida é como ela é! O tempo foi passando, eu virei bolsista CNPQ na graduação, minha orientadora foi lá em casa e me elogiou, eu terminei o curso, entrei no mestrado, mamãe fez uma festa de aniversário pra mim e vários professores meus foram, me elogiaram também. E o tempo todo naquele diálogo dentro de casa: “mamãe, o fato de eu ser travesti não significa que eu não tenha valores, que eu não tenha moral, dignidade”. Então, de tanto bater nessa tecla, de tanta conversa, de tanta conquista, eles cansaram de lutar contra. Eu sei que não é uma satisfação, acho que, com a idade que eu tenho, minha mãe queria que eu tivesse uns três filhos e fosse pastor de uma igreja evangélica.

Você luta pela cirurgia de mudança de sexo pelo SUS. Como anda o processo?
Acho que não vai sair tão cedo... O ministério da saúde baixou uma portaria que os hospitais universitários têm que adaptar, tem um prazo, mas me parece que aqui em natal esses encaminhamentos estão muito lentos, muita desinformação. Já fui no (hospital) Onofre Lopes e disseram que não tem ainda nenhuma previsão. Está sendo muito combatido na justiça pelas bancadas católica e evangélica que consideram que o dinheiro que está sendo gasto nas cirurgias de transexuais é dinheiro publico, desviado de obras prioritárias. Eles entendem como um esforço absolutamente supérfluo de um indivíduo que nasceu num corpo com o qual não se identifica, de transformá-lo. Se eu morasse num grande centro, como São Paulo, certamente eu estaria bem mais próxima de conseguir isso. Eu estou indo no meu ritmo, o doutorado é uma prioridade acima dessa, hoje. Então, é muito nesse sentido, mas se eu morrer antes de fazer minha cirurgia não terei ido em paz.

Quais são seus planos para o futuro?
De imediato, é um doutorado brilhante, com intercâmbio na Alemanha, levar minha formulação às últimas conseqüências, se é que eu posso dizer assim... Eu quero ampliar meus horizontes intelectuais de trabalho, de epistemologia da ciência. Logo imediatamente depois, eu pretendo prestar concurso para alguma universidade federal brasileira. Não sei se da UFRN, mas, eu me vejo sendo professora da universidade publica brasileira. Me vejo com a cirurgia feita, o nome mudado, às vezes me vejo bem carola, conservadora, numa clássica família burguesa, travesti também tem sonho de cinderela. E às vezes me vejo também como uma mulher pós-moderna, independente, morando sozinha... A vida é quem vai me mostrar.

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http://www.bookofjesus.org/images/tvzzb6mmmrtuejj0n.jpg Por Tahiane - Do Caió Subterrâneo.

Essa entrevista foi meu trabalho da 3º unidade da disciplina Oficina de Texto III, gostei muito do resultado e resolvi publicar aqui. Eu não fiz foto, então essa foto foi retirada na cara-de-pau do DN online. Espero que gostem.

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