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Alma feminina num corpo de homem, Chopelly enfrenta a hipocrisia


De todos os estigmas relacionados à transexualidade, Chopelly Glaudystton reafirma apenas um: o sonho de casar, ter filhos e construir uma família tradicional. Afora isso, faz parte da sua luta negar todos os outros, principalmente os estereótipos negativos que são associados ao termo como marginalidade, prostituição e depravação. Aos 28 anos, a jovem enjada no movimento LGBT vive há 8 anos o processo de adaptação do seu corpo ao anseios de uma alma feminina.

Alimenta a vontade de um dia poder se submeter à cirurgia de mudança de sexo, mas é realista: "É quase como tirar na loteria", avalia. Pelo SUS, em todo país são realizadas somente, em média, duas operações por mês, somente nos estados de Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo. É praticamente impossível pacientes de outras localidades conseguirem uma vaga na longa fila.

Secretária executiva da ONG Amotrans (Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco), aproveita suas folgas entre os plantões como técnica de enfermagem do Centro de Especialidades Médicas de Camaragibe (Cemec), para organizar o EntiAids (Encontro Nacional de Travestis e Transexuais que atuam na luta e prevenção à Aids) que acontecerá no Recife neste ano. O principal intuito do movimento é favorecer a identidade do transgênero fora da marginalidade, arrefecer o preconceito na sociedade e facilitar o acesso ao mercado de trabalho e a melhoria da qualidade de vida.

Chopelly é didática ao explicar dúvidas que pairam e se perpetuam no exterior do movimento LGBT. As pessoas costumam confudir drag queen, travesti e transexual, mas há diferenciações entre os termos. Drag queen é um artista, um homem que se veste com roupas femininas, geralmente chamativas, com o objetivo de fazer uma performance artística e não necessariamente é homossexual.

Já o travesti é o transgênero que transforma seu corpo para características femininas, mas não nega sua genitália masculina, até faz uso dela em sexo ativo. Já o transsexual é o indivíduo que se identifica psicológico e socialmente com o outro gênero mas tem o corpo "trocado" para a sua psique. "Travesti é quase um terceiro sexo, resolvido em si mesmo. Transexual é uma eterna busca da adequação do corpo para um alma incômoda dentro dele", esclarece.

Residente de um kitnet no famoso Ed. Módulo, na Boa Vista, ela leva uma vida normal para qualquer mulher: curte um bom pagode nos fins de semana, trabalha como funcionária pública, senta com as amigas na calçada para bater um papo tomando vinho, e aguarda o amor de sua vida.

Mas nem sempre foi tranquilo assim. Antes de compreender-se como transexual, Chopelly Glaudystton sofreu a inaceitação tanto própria quanto de quem lhe circunda. Ainda na adolescência, estudava num dos princicipais colégios particulares do Recife, "numa sala de 80 alunos, ninguém falava comigo. No trabalho, muitas meninas de vagas temporárias ficaram indignadas de ter de disputar espaço com uma transexual concursada e me tratavam com despeito", relembra.

Filha de pais funcionários públicos naturais de Limoreiro, conta que nos anos de sua juventude não havia diálogo sobre sua situação. Tanto para si quantos os pais e as irmãs, estava claros, apesar de não explicítos, os sinais de homossexualidade, já que Chopelly sempre se considerou um garoto afeminado. Mas não era lúcido o desejo de se tornar mulher e as dúvidas geravam conflitos internos e interpessoais.

Aos 20 anos, quis largar tudo e tentar a vida no Rio de Janeiro. "Juntei dinheiro para a passagem e fui parar na Lapa [bairro de movimentação de prostituição na capital fluminense] e comecei a buscar uma cafetina de travestis. Quando a encontrei, ela foi esclarecedora para a minha vida ao me despachar de volta afirmando que eu não tinha a menor vocação para travesti por que eu era uma mulher presa no corpo de um homem. Não havia muita informação sobre transexualidade naquela época, mas foi ali que entendi quem eu era", conta.

Assim que voltou da viagem, através do seu plano de saúde, começou tratamentos com fonoaudiólogo, proctologista (segundo ela, o ginecologista de toda trans), endocrinologista e psicólogo. "A cafetina me disse 'aproveite o que Deus já lhe deu, os pés e as mãos femininas, e corra atrás da mulher que existe em você'. E desde então em venho me 'montando' em busca de quem sou".

Para tanto, faz todos os sacríficios. Por mês, a conta é alta. Investe pelo menos R$ 40 nos salões de beleza para depilação, manicure e pedicure; R$ 100 em produtos cosméticos; R$ 130 em sessões de depilação a laser no rosto; quase R$ 200 em hormônios femininos, além de outras manutenções, como as próteses de silicones nos seios, que lhe custaram anteriormente em torno de R$ 4 mil. Para concluir o projeto, Chopelly precisaria de R$ 40 mil para fazer a cirurgia de mudança de sexo pela rede privada.

Ela conta que no fundo, a transexual é a mulher mais tradicional de todas, luta sim pela sua vida digna, corre atrás de um reconhecimento profissional, mas a felicidade plena reside no anseio de ter uma família. "Pode-se de dizer que somos aquele tipo criticado pelas feministas, queremos mesmo é cuidar de uma casa e do marido", comenta.

Para ela, esse é um dos principais motivos que muitas, mesmo que operadas, não assumam sua identidade, para não perder o que consquistaram com a exposição. A maioria dos homens jamais assumiria que ama uma transexual. Muitos relacionamentos sobrevivem apenas na clandestinidade, como um antigo amor de Chopelly, com quem esteve por sete anos até que não suportasse mais viver às sombras. O romance não resistiu ao seu desejo de assumir publicamente. "O Pernambucano ainda é um hipócrita, faz chacota e é intolerante por ignorância", afirma a transexual que batalha pelo fim da transfobia no Estado.

CASOS FAMOSOS - Dias após a eliminação da transexual Ariadna da Casa do Big Brother Brasil 11, Chopelly deixa claro que não é corporativista e crítica a semelhante que de acordo com sua opinião perdeu a oportunidade de visibilizar a causa da transexualidade. "Ela foi dissimulada, ao não assumir ela mesma se colocou na marginalidade e ainda reforçou alguns estigmas, a prostituição e a vulgaridade. Sua aparição não foi positiva para o movimento. Continua como está, para o brasileiro transexual é tudo 'veado', com vagina ou não", retruca.
Mas nem tudo são farpas, Chopelly admira corajosas admiráveis, que se destacaram pela beleza feminina e não pelo comportamento controverso como Roberta Close e a modelo internacional.

Do JC/UOL

2 comentários

CD ALEXIA SANTOS VIP disse...

Oi...só passei pra dizer que adorei a matéria com a Chopelly. E como sempre digo, o mundo não e cor de rosa! Precisamos pensar no depois também...
Beijinho no seu coração querida Kátia.Xau

Katia Steelman Walker disse...

Não tenha dúvida minha amiga... é preciso muita coragem e pensar nas decisões...