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Filme 'O Diário de Márcia' revela a subjetividade de uma transexual

A Cooperativa Filmes a Granel, criada para viabilizar obras audiovisuais de baixíssimo orçamento, lança mais um título de sua safra de filmes. O curta-metragem “O diário de Márcia”, dirigido por Bertrand Lira, tem sua estréia neste sábado, dia 16, às 20h., e apresenta um relato pessoal e intimista de Márcia, transexual paraibana, sobre o dilema de viver o universo feminino num corpo de homem, enquanto espera retirar o último vestígio do sexo que atormenta sua existência. A primeira exibição pública de “O diário de Márcia” acontece no Cineespaço do Mag Shopping, um complexo de quatro salas recém-inaugurado em João Pessoa que traz a marca cineclubista do seu proprietário Adhemar Oliveira ao apoiar o cinema produzido localmente. O documentário de 20min de duração tem o apoio do Sebrae-PB, Núcleo de Produção Digital (NPD-PB), Aliança Francesa e Pigmento Cinematográfico. Com este filme, Bertrand finaliza sua trilogia sobre a intolerância sexual iniciada com dos documentários “Homens” (2008), co-dirigido com a capixaba Lúcia Caus, e “O Rebeliado”, seu primeiro longa-metragem, patrocinado pelo FMC, que serão exibidos no 3º Thessaloniki International Lgbt Short Film Festival e o 13º Long Film Tributes _que acontecem simultaneamente em maio na cidade de Tessalonika, na Grécia.

O documentário “O Diário de Márcia” conta a história de Márcia Gadelha, transexual paraibana, 46 anos, pedagoga e cerimonialista da Câmara Municipal de João Pessoa. A partir do ponto de vista da própria protagonista, documenta sua história utilizando uma narrativa em tom intimista nos moldes de um diário, em primeira pessoa, onde Márcia “faz anotações” de momentos importantes de sua existência: a infância, a adolescência e a fase adulta. Não são apenas registros dessas fases da sua vida. Ela tece comentários, elocubrações sobre sua existência, tentando entender a rejeição familiar (avós, pais e irmãos) à sua conduta “inadequada” para um “macho” e a violência (física e psicológica) a ela infligida, principalmente pela família. Ela será a primeira transexual a ser submetida na Paraíba a esse procedimento pelo Sistema único de Saúde (SUS).

O filme tem uma abordagem reflexiva, isto é, sua narrativa discute o próprio processo de realização de um filme do gênero documentário. Aparentemente, o diretor permite que a personagem opine sobre a condução da narrativa, o que se realiza em parte. A protagonista relata sobre o medo que vivenciou na infância e adolescência com os constantes achincalhes da vizinhança e dos colegas de escola. Medo que levava o então garoto Marquinhos a fugir do convívio social; a enrijecer a postura do corpo e a se fechar no seu mundo. Quando adolescente, a família o leva a um psiquiatra que, acreditando na transitoriedade de sua condição, lhe recomenda esportes “masculinos” como natação e judô como terapia para a cura do seu “desvio”. A família investe pesado na esperança da mudança prometida pelo psiquiatra. Nesses esportes, o garoto conhece o assédio sexual dos colegas e do professor. O “tratamento” recomendado pelo especialista em nada o faz mudar.

Na fase adulta, busca conforto para seus conflitos existenciais no espiritismo kardecista. No grupo espírita, microcosmo da sociedade lá fora, sua aceitação é dividida entre os que lhe aceitam e os que o discriminam. Decepcionado, busca, e encontra, na umbanda e, depois, no candomblé, o apoio que precisa. E se torna praticante dessa religião, sem deixar de lado totalmente o espiritismo. Agora, ela se considera “espírita candomblecista cristã”. Profissionalmente, Márcia está integrada ao quadro de funcionários da Câmara Municipal, aparentemente, sem conflitos relevantes. Da mesma forma, foi contratada, como reabilitadora, pelo Centro Integrado de Apoio ao Portador de Deficiência (Funad). Na época, à medida que se tornava mais efeminado nas atitudes e no figurino, menos oportunidades lhe eram apresentadas. Apesar disso, a personagem se mostra orgulhosa das conquistas alcançadas profissionalmente.

Com esta obra audiovisual, Bertrand Lira pretende colocar a discussão sobre a violência social contra os que agem e pensam diferente. Por mais avanços, do ponto de vista legal, que as chamadas minorias tenham alcançado, a intolerância a opções individuais ainda tem uma forte presença na sociedade brasileira e, em particular, no universo local de mentalidade machista e patriarcal. Discutir essa questão se reveste de importância no contexto atual de luta e militância pela aceitação e afirmação social dos grupos LGBT. Além do conteúdo pedagógico que a proposta se reveste, pois o desconhecimento do outro gera o medo, o preconceito e a violência”, conclui o cineasta que também assina o argumento e roteiro do filme.

Do Paraiba Agora

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