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"Admiro muito meu filho pela coragem que ele sempre teve", diz mãe de travesti

Antes de Marcelo nascer, a enfermeira Magali Regina Reis, 47 anos, podia jurar que estava grávida de uma menina.

A gestação foi bem tranquila. Segundo ela, a complicação só apareceu na hora do parto, quando teve eclampsia, a famosa crise de hipertensão, que fez com que mãe e filho fosse obrigados a passar vários dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). “Depois que recebeu alta ele ficou bem. O Marcelo sempre foi uma criança muito saudável e bonita até os 4 anos. A partir daí começaram as crises de asma, bronquite, e ele acabou emagrecendo bastante”, lembra.

Já na infância, Magali percebeu que o filho era muito retraído e tinha um jeito afeminado, que ficou ainda mais aparente com a chegada de sua irmã. “Ele ficou muito apaixonado pela Bruna, pelas coisinhas dela, então, quando fez 8 anos, decidi levá-lo pela primeira vez a um psicólogo. Ele adorava brincar de boneca, gostava da Xuxa, desenhava florzinhas no caderno e tudo isso quando ainda era muito novinho, ou seja, não tinha qualquer malícia sobre o que estava fazendo”.

Durante conversa com os pais de Marcelo, a médica disse abertamente que o menino tinha fortes traços e tendências de homossexualidade e que eles teriam de aprender a conviver com isso.

“Não vou dizer que não foi um choque. É muito difícil você lidar com a questão da homossexualidade, não por você, mas por todo o preconceito que você sabe que o seu filho vai sofrer. Tanto é que só comecei a deixá-lo sair de casa com 18 anos porque tinha muito medo de alguém bater, machucar ou fazer alguma maldade na rua. E também eu tinha aquele sentimento de negação, de não querer enxergar”.

Com o tempo, ela decidiu dar um basta ao sofrimento e passou a olhar o filho de uma outra forma. “A partir do momento que comecei a aceitar que ele era assim mesmo, que era meu filho, e eu tinha de amá-lo e respeitá-lo da forma que fosse o martírio acabou”, conta.

Marcelo, por sua vez, nunca precisou sentar com os pais para explicar sua orientação sexual. “É engraçado que o pai dele sempre aceitou muito mais do que eu. Quando o Marcelo começou a se vestir de mulher para mim foi muito mais difícil do que para o meu marido. Eu já ficava mais incomodada, tinha um pouco mais de vergonha e não gostava que as pessoas perguntassem na rua, acho que até pelo fato de ser professora e conhecer muita gente”, explica Magali.

Apesar disso, a relação de amor e carinho nunca deu lugar ao preconceito. Mesmo com a dificuldade de lidar com o assunto no início, Magali soube superar seu constrangimento. “Acho que o próprio Marcelo não escolheria isso para a vida dele porque muitas portas se fecham em relação ao trabalho, ao respeito. Meu filho é muito inteligente, é formado, pós-graduado, mas sempre enfrentou dificuldades para arrumar emprego justamente por conta das opções que escolheu seguir. O fato de ser gay não faz dele uma pessoa melhor ou pior do que ninguém, apenas diferente”, ressalta a mãe.

Dentro de casa, Marcelo sempre foi tratado igual aos outros dois irmãos, Bruna e Eduardo, de 23 e 22 anos, respectivamente. “O Marcelo é muito bem resolvido, sempre assumiu as coisas de peito aberto e nunca teve vergonha dele mesmo. Nunca precisei enganar ninguém como vejo por aí muitos homens que são gays, não se assumem, acabam se casando, são infelizes e fazem outras pessoas infelizes. Eu admiro muito meu filho pela coragem que ele sempre teve”, destaca.
A morte de Marcelo e o nacimento de Monique

Em 2007, Marcelo, que é formado em Jornalismo, tomou uma decisão que para ele é irreversível: decidiu se assumir como mulher 24 horas por dia e, desde então, nunca mais usou uma roupa masculina.

“O Marcelo, na verdade, morreu, você está falando com a Monique [nome escolhido em homenagem à apresentadora Monique Evans, de quem é fã]. Criei a Monique em 2001. Até 2007 ela era uma vampira, só existia na noite, mas depois disso ganhou vida própria em todas as atitudes, ocasiões e circunstâncias. Sim, eu faço xixi sentadinha”, diverte-se ela que não aceita mais seu nome de batismo. “Meus pais ainda têm dificuldades para me chamar de Monique, então eles falam ‘filha’. Às vezes soltam o outro nome, mas tentam se policiar ao máximo porque sabem que eu não gosto”, diz. "Já meus irmãos e os outros familiares só me chamam de Monique", completa.

Magali admite que quando o filho decidiu mudar a identidade sentiu muito medo do que pudesse acontecer. “Eu sabia que ele enfrentaria mais preconceito ainda, mas quando o Marcelo me disse que era uma pessoa triste e que quando se olhou no espelho, vestido de mulher, se sentiu realizado, eu não tive mais nem o que falar, nem pensar. Para mim o importante é isso: ele se reconhecer e ser feliz”.

Aos 27 anos, Monique viaja por todo o país fazendo shows e eventos e, de vez em quando, ainda encontra tempo para fotografar como modelo. “Meus documentos ainda estão com o nome Marcelo, mas as fotos são atuais, de menina, então em qualquer lugar que eu precise apresentar meu RG as pessoas logo entendem que se trata de uma travesti”, explica.

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Quando está na casa da família, em Taubaté, no interior de São Paulo, ela tem uma vida normal e um guarda-roupa recheado de roupas, sapatos e maquiagens, como qualquer mulher.

“A gente vai ao salão de beleza, ao shopping, onde ele quiser. Não temos nenhum problema com isso. Quando o Marcelo faz shows eu ajudo a escolher o figurino e a pagar, principalmente, porque as fantasias são sempre muito caras. Dou roupa de mulher para ele no Natal, se vejo algo bonito, extravagante, e acho que é a cara dele eu compro. E se ele um dia quiser fazer uma cirurgia de mudança de sexo eu não só aprovo, como acompanho, ajudo, cuido, faço o que for. Quem sou eu para dizer que não?”, questiona.

Para Monique, Magali não só é sua mãe, como também sua melhor amiga. “Ela é minha vida, meu porto seguro. Temos uma relação de amizade maior do que a relação entre mãe e filha. É a pessoa que procuro para me aconselhar, me ajudar e dividir meus segredos e experiências”, conclui.

Do EBAND

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