Header Ads

Homens de saia: os homens vão ganhando alternativa no seu guarda-roupa limitado.

Exercício de moda, alternativa válida ou provocação barata? Seja qual for a sua escolha, acredite: as saias masculinas podem estar chegando cada vez mais perto do seu guarda-roupa. Essa é uma afirmação que faz levantar as sobrancelhas de qualquer rapaz que é pego desprevenido. Mas, afinal, qual é o problema?

A saia cortada para eles não é novidade. Roupa tradicional dos povos antigos, ainda sobrevive em algumas culturas de raízes orientais e bretãs. No mundo da moda, ela aparece com frequência nos desfiles de estilistas conceituais e dos mais ousados - Jean Paul Gaultier é um clássico do assunto; por aqui, Alexandre Herchcovitch já fez das suas.

Recentemente o assunto tem voltado à tona. Muito por culpa de Marc Jacobs, que adotou o look camisa branca + saia preta para tudo (inclusive na sua recente passagem pelo Brasil). Na última temporada de desfiles masculinos, os japoneses Comme des Garçons e Yohji Yamamoto investiram nelas. Seis meses antes, o americano Thom Browne causou burburinho com uma coleção cheia de saias. E elas também foram parar em editorial da revista Fantastic Man, só para citar alguns exemplos.

Mas entre o campo fashionista e as ruas, há um grande abismo. E o "homem comum" ainda não se vê arriscando uma saia no seu cotidiano, principalmente no Brasil. Para o estilista João Pimenta, que é habitual defensor da peça e fez um elogiado desfile de inverno 2009, o bloqueio é psicológico: "Acho que o problema é a falta de segurança. Eles se sentem vulneráveis sem o cavalo da calça".

Mário Queiroz, que desfilou uma interpretação própria do kilt escocês no seu último inverno, analisa o caso com ressalvas. "A saia surge como um momento de brincadeira, até mesmo como uma fuga de uma realidade muito chata da moda masculina. É uma boa artimanha para fugir do ordinário," diz Mario. "Mas não acredito nela como roupa do dia-a-dia. Para um homem comum, que não tem nenhuma fantasia na cabeça, essa saia não significa nada".

A realidade parece ser outra para o administrador Emerson Gomes, kiltmaker nas horas vagas. Seu site X-Kilts recebe uma média significativa de oito pedidos por mês, vindos do país inteiro. Fanático por kilts, Emerson criou uma linha inspirada na peça escocesa, mas adaptada para o Brasil - com lã leve e visual menos tradicional. Ele é um adepto da peça na vida fora do trabalho, mas reconhece que sua escolha chama mais a atenção: "uma vez estava em Campos do Jordão e acabei virando atração de um grupo de turistas".

Test drive
Pois foi para testar os olhares que eu sai às ruas com quatro saias na bagagem. Foram três dias de pernas livres, dia e noite, em ambientes e públicos diferentes - dos engravatados da avenida Brigadeiro Faria Lima aos moderninhos da rua Augusta, passando pelos camelôs do Largo da Batata.

E as reações, acredite, foram mais brandas do que se pode esperar. Os amigos aprovaram e os estranhos nem estranharam tanto. Claro que recebi olhares enviesados em todos os lugares, mas não fui perseguido por nenhum grupo com tacapes nas mãos, como imaginava. Nem os bêbados de rua de Pinheiros, minha última esperança, quiseram se meter.

A mais discreta é a de Mario Queiroz, que sobreviveu até mesmo a um ônibus lotado na hora do rush. Provavelmente por ser usado sobre calças, as sobressaias do estilista acabam funcionando mais como um acessório extra.

Mais polêmica (e também a mais confortável), a cinza e curta de João Pimenta ganhou reações diversas. Um segurança do Shopping Iguatemi chegou a me abordar, cheio de amizade, para perguntar se eu usava lingerie feminina. Ela também gerou piadinhas entre um grupo de garotas do Studio SP - em teoria, lugar de "gente moderna". No menos cool Bar do Bahia, legítimo pé sujo da Augusta, a aceitação foi mais branda - e gerou até elogios de clientes.

A saia preta e comprida, também de Pimenta, produzida especialmente para esta reportagem, venceu com louvores. Sobreviveu até mesmo a um almoço em boteco no Largo da Batata, com abordagem zero. Assim como um dos modelos da X-Kilt, que passou praticamente despercebido.

Para quem nunca tinha usado uma saia "a sério", eu aprovei a peça com folga e já separei um espaço no guarda-roupa. A sensação é boa, depois de passado o nervosismo inicial. É preciso paciência e cuidado para inserir uma saia no seu look. Além dos kilts - encomendados ou arrebatados em brechós - ainda é quase impossível encontrar modelos feitos para o corpo masculino.

Na sua caçada, cuidado com a modelagem. Afinal, as saias delas são feitas para realçar curvas que você não quer ter. Nossas saias são mais retas, seguindo a linha do corpo. Ainda relutante? Torça para que os shorts-saia - ou, melhor, as skorts (em inglês, mistura de skirt com short) - saiam da passarelas e ganhem a vida real.

Fato é que, aos poucos, os homens vão ganhando alternativa no seu guarda-roupa limitado. Mas, meu amigo, se as mulheres só conquistaram o direito pleno de usar calças há menos de 70 anos, para que pressa? Uma perna de cada vez, e vamos que vamos.

Do Chic/IG

Nenhum comentário