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Um voto conservador pelos direitos dos gays americanos

Primeiro a quebrar a unidade republicana no Senado estadual de Nova York ao anunciar seu voto a favor do casamento gay, em junho deste ano, James S. Alesi alega que a decisão foi uma questão principalmente de consciência. Mas não só. Em 2009, juntamente com sua bancada, o senador opôs-se a um projeto de lei similar, que havia sido proposto pelo Partido Democrata. Dois anos - e alguns votos a menos - depois, o senador tomou consciência de que sua escolha não só contrariou suas convicções pessoais, como lhe trouxe um ônus político. “Meus eleitores da comunidade gay ficaram muito desapontados e eu perdi votos nas eleições legislativas estaduais”, conta Alesi. “De lá para cá, fui percebendo o quão angustiante minha decisão havia sido para as pessoas cujas vidas foram negativamente afetadas por ela. Prometi a mim mesmo que se tivesse a oportunidade de votar essa medida novamente, optaria pelo ‘sim’”.

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Nos Estados Unidos, cada membro da federação conta, além da Assembleia, com um Senado estadual. Nessa Casa, representantes de cada região do estado, como Alesi, têm um voto de peso em decisões polêmicas, como a do dia 24 de junho. Em entrevista ao site de VEJA, o senador descreve como transcorreram as negociações partidárias para a votação do projeto de lei que autorizará o casamento gay em Nova York a partir deste domingo. Ele conta que reflexões pessoais e estratégia política o fizeram mudar de posicionamento e o seu voto foi um dos quatro que decidiram a aprovação da medida.

O que fez o senhor mudar de ideia quanto ao casamento gay, apesar do posicionamento do seu partido? Eu sempre fui a favor da igualdade entre casais homo e heterossexuais. Mas, às vezes, no mundo político, as decisões são tomadas por razões estratégicas e não por convicções pessoais. Há dois anos, quando votamos o casamento gay pela primeira vez, o Partido Republicano era minoritário e optou por votar, em conjunto contra a medida. A intenção era evitar que a legenda perdesse votos nas eleições legislativas estaduais, que estavam muito próximas. Mesmo os democratas colocaram a medida em votação muito mais por estratégia política do que por qualquer outra razão. Eles sabiam que o projeto não seria aprovado. O resultado da decisão republicana foi que nós reconquistamos a maioria do Senado estadual e hoje controlamos a casa. Mesmo assim, meu voto não representou minhas convicções pessoais, o que foi muito angustiante. Eu prometi a mim mesmo que se tivesse a oportunidade de votar essa medida novamente, optaria pelo “sim” sem pensar nas consequências.

Algo ou alguém influenciou a sua decisão? Tenho que ser honesto e admitir que minha reflexão quanto ao casamento gay evoluiu com o decorrer do tempo. Há dez anos, todos pensavam de maneira muito diferente sobre o assunto. Hoje, não somente creio que essa é a decisão correta, como sinto-me muito apaixonado pelo tema. Muitos críticos dizem que nos Estados Unidos nós pregamos muito a igualdade, mas não a estendemos a todos.

Assim como na votação de 2009, neste ano o senhor também recebeu recomendações de votar com a sua bancada? Desta vez, nos foi dada a oportunidade de votar independentemente. Mas tivemos de divulgar nossos votos ao partido antes da votação e já sabíamos que a medida seria aprovada.

A maioria das religiões cristãs é contra o homossexualismo. Como cristão, a sua fé não pesou na hora de fazer a escolha? Essa não é uma questão religiosa, mas de igualdade de direitos civis. Quem deve decidir isso é o estado e não as igrejas. Eu vi muitos cristãos, que estavam rezando comigo, e eram contra o casamento gay. Mas, por outro lado, havia outros, na mesma igreja, querendo que a medida fosse aprovada por serem a favor da igualdade de direitos.

O senhor acredita que alguns republicanos sentiam-se inclinados a votar “sim”, mas optaram pelo “não” por questões estratégicas? Talvez uns cinco ou seis.

O senhor enfrentou alguma retaliação por causa de seu voto? Há dois anos, sim. Meus eleitores da comunidade gay ficaram muito desapontados e eu perdi votos nas eleições seguintes. Na área em que vivo, em Rochester, Nova York, existe uma comunidade GLBT (de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) relativamente grande. Não só eles, mas também seus familiares, amigos e colegas de trabalho são uma voz importante no meu eleitorado. Desta vez, eu tinha uma visão melhor do que meus eleitores esperavam. Na vida política, repito, você também evolui conforme a sociedade evolui nessas questões. Eu fui percebendo o quão angustiante minha decisão foi para as pessoas cujas vidas foram negativamente afetadas por ela. Vi que, diante da maioria do meu eleitorado, eu havia feito algo errado.

A sociedade americana também está se tornando mais tolerante? Não usaria a palavra “tolerante”, por que não é uma questão de tolerar os gays, mas de ampliar a igualdade civil. Hoje, as pessoas estão trabalhando ao lado de gays assumidos, elas têm filhos ou irmãos que são gays. Não há mais famílias gays e famílias heterossexuais, há famílias mistas. É difícil não ser tocado pela causa com tantas pessoas assim ao seu redor. Tudo isso se deve ao fato de que os homossexuais não mantêm mais sua vida em segredo, logo, a consciência sobre o tema é muito maior que há 10 anos. Não há só tolerância, mas sensibilidade.

Em que setores da sociedade americana essa mudança aparece mais? Entre os jovens e as pessoas de meia idade, na faixa dos 40 e 50 anos. Observando com cuidado é possível ver uma mudança expressiva de mentalidade ocorrendo nos Estados Unidos. Uma lei federal permite que casais gays adotem uma criança em qualquer parte do território americano. Mas se olharmos pouco tempo atrás, nos anos 1960, havia até leis contra casamento inter-racial.

O que a aprovação dessa lei em Nova York representa para os Estados Unidos? Nova York é um estado muito progressista. Em questões como essa, os nova-iorquinos tendem a aceitar mais as diferenças, já que convivem diariamente com nove milhões de pessoas completamente distintas em religião, país de origem e valores. Eu me lembro que quando estávamos discutindo a questão, um dos meus aliados disse: “Vamos votar essa medida e acabar com isso de uma vez”. Ao que eu respondi: “Não. Se aprovarmos esse projeto em Nova York, não estaremos terminando nada, apenas começando. Será o início de um movimento que nascerá em Nova York e se espalhará por todo o território americano”. Nosso estado é, de muitas maneiras, o lugar para onde todos os olhares dos Estados Unidos e do mundo se voltam. Ele pode liderar uma mudança nacional de atitude.

Da Revista Veja

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