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Dominação masculina, homofobia e afetos mutilados



Existem então homens que não gostam uns dos outros? Que dizer das demonstrações que fazem os jogadores de futebol depois de marcar um gol? Não são “homossexuais”, não. E, entretanto, o que fazem nessas ocasiões chocaria os transeuntes, caso se tratasse de homossexuais no meio da rua, na vida cotidiana, afirmando-se como tais. Deve-se concluir daí que os estádios de esporte são uma válvula de escape de segurança para a homossexualidade masculina normal?
Laurent Dispot

… Acho que o que mais perturba quem não é gay é a forma de vida gay, e não os atos sexuais. [...] eu me refiro ao temor geral de que os gays desenvolvam relações intensas e satisfatórias apesar de não se ajustarem à idéia que os outros têm do que sejam essas relações. O que muitas pessoas são incapazes de tolerar é a possibilidade de que os gays sejam capazes de criar tipos de relações não previstas até agora.
Michel Foucault

Um homem de 21 anos golpeado no rosto com uma lâmpada fluorescente e, em seguida, espancado por um rapaz de 19 anos e quatro adolescentes, na Avenida Paulista, em novembro de 2010.

Um homem de 42 anos e um rapaz de 18, pai e filho, agredidos em uma festa agropecuária, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em julho deste ano. O pai teve a orelha direita decepada a dentadas.

Dois homens, de 30 e 33 anos, agredidos na Avenida Paulista por um grupo de sete rapazes, na madrugada de sábado passado. Um deles fraturou o dedo indicador direito e recebeu sete pontos na cabeça, devido ao corte provocado por uma pedrada.

Os três crimes, dos quais os dois primeiros repercutiram amplamente na mídia, compartilham uma característica, ao menos: a motivação homofóbica. Todavia, ao invés de presumirmos que a homofobia explica esses crimes, deveríamos, invertendo aquilo que se apresenta como uma evidência, adotar como pressuposto que a homofobia é o que precisa ser explicado.

Há uma segunda característica em comum entre os crimes, que os torna eventos privilegiados na discussão acerca da homofobia na sociedade brasileira. Os cinco homens agredidos são heterossexuais, fato que provocou perplexidade em várias pessoas, que, inesperadamente, descobriram que heterossexuais também podiam ser vítimas de violência homofóbica.

Quem reconhece a existência da homofobia como problema social tem a impressão de que os atos de violência estão seguindo em um crescendo. Convém sermos cautelosos, porém. Nos anos recentes, aumentou o interesse da mídia pela questão queer e, consequentemente, os crimes contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais passaram a ocupar um espaço maior no noticiário. No entanto, o aumento no número de crimes reportados pode não refletir necessariamente um crescimento da violência. Não obstante, pesquisas realizadas anualmente pelo Grupo Gay da Bahia – GGB indicam que o número conhecido de homicídios de glbt’s no Brasil foi de 122 casos em 2007, 190 em 2008, 198 em 2009 e 260 em 2010. Como nossa atenção é atraída não tanto por dados estatísticos de instituições oficiais e órgãos não-governamentais, mas pelos relatos jornalísticos, quando o interesse midiático diminuir, poderemos correr o risco de concluir, erroneamente, que houve uma diminuição da violência



Parece não ser difícil compreender por que o número de crimes homofóbicos aumentou nos últimos anos. Acredita-se que a causa sejam os discursos de personagens como Jair Bolsonaro, João Campos, Silas Malafaia, Myrian Rios et caterva, que pregam a intolerância e a segregação. Embora não despreze a relevância desses discursos públicos de ódio, os quais, sem dúvida, interpelam uma vasta audiência, opto por uma interpretação alternativa, uma narrativa descentrada de “personagens importantes” cuja ação impulsiona os acontecimentos sociais. Ao invés de estabelecer uma relação de causa e efeito entre o crescimento dos discursos de ódio e a expansão da violência, relaciono ambos os fatos a um terceiro fato social, a ampliação da visibilidade de glbt’s na vida cotidiana, nos espaços públicos e nos meios de comunicação, ou melhor, os significados perturbadores e explosivos dessa visibilidade.

Nas duas últimas décadas ocorreram intensas e velozes transformações na vivência queer e nas representações de glbt’s por indivíduos heterossexuais. Preconceitos e discriminações não desapareceram, obviamente. Uma pessoa que tenha sido criança ou adolescente nos anos 1970 ou 1980, como eu, pode testemunhar a imensa distância entre uma situação de quase invisibilidade de glbt’s nas metrópoles brasileiras daquela época e o tempo presente. Nos discursos dos assumidamente homofóbicos e nos dos que se declaram não homofóbicos, um tropo recorrente é justamente o do limite e do excesso. Os corpos estranhos transbordam do gueto ou – semelhantemente ao corpo gigantesco e monstruoso do paranormal Tetsuo, que ameaça destruir a cidade de Neotóquio em Akira, de Katsuhiro Otomo – um imenso corpo glbt, massa disforme constituída de infindáveis corpos, se expande incontrolavelmente pela sociedade brasileira. Corpos deslocados, fora do seu lugar, corpos em excesso, em todos os lugares, corpos de atitudes grotescas e exageradas, corpos perigosos e ameaçadores. Um sentimento compartilhado de anomia social se instala, um medo coletivo de que a ordem social esteja ameaçada por mudanças disruptivas. Os pronunciamentos públicos dos porta-vozes da normatividade heterossexual vocalizam um pânico disseminado na sociedade, intensificam a intolerância e o ódio, mas não criam nem a intolerância nem o ódio. A homofobia é aprendida, produzida e reproduzida cotidianamente, de variadas formas, muitas das quais invisíveis para a maioria de nós, profundamente inscrita está em nossas mentes e nas disposições dos nossos corpos a normatividade heterossexual.

O perigo que ameaça a ordem social se agrava à medida que meios tradicionais de exercício da dominação heterossexista se revelam pouco eficazes ou ineficazes para solucionar o problema. A violência consiste tão-somente na manifestação menos ambígua e mais evidente da dominação, o exercício extremo da dominação quando os tradicionais modos simbólicos de dominação ameaçam falhar ou efetivamente falham. Os progressos da emancipação feminina foram acompanhados por um aumento da violência contra as mulheres. Analogamente, a maior visibilidade da população glbt, o reconhecimento da legitimidade das reivindicações dos movimentos queer pela opinião pública e pelo Estado, as conquistas sociais e legais provocam reações: o esforço pela preservação de uma ordem social em processo de possível destruição – ou o esforço pela restauração de uma ordem social perdida –; no limite, a violência. Aquele homem vítima de ataque homofóbico que teve a orelha cortada conta que os agressores disseram a ele e a seu filho, sintomaticamente: “Vocês estão mentindo, vocês são gays sim, pode dar um beijo aí que a lei libera”. O Estado, que deveria zelar pela manutenção da ordem, assegurando a proibição de demonstrações públicas de homoafetividade, não apenas não as veda e pune, mas as estimula. O indivíduo homofóbico se sente inseguro e desamparado. Como proceder com pessoas que se recusam a aceitar a legitimidade da dominação heterossexista?


Estou entendendo homofobia como um sentimento de rejeição e uma atitude de reprovação a indivíduos que apresentam ou aos quais se atribui características classificadas culturalmente como específicas do gênero oposto. No Ocidente, a representação dominante da homossexualidade e da bissexualidade continua sendo a da inversão do gênero. O desejo possui uma orientação natural, o gênero oposto. O homem gay ou bissexual deseja o que uma mulher deseja, deseja como uma mulher, é um homem invertido. A mulher lésbica ou bissexual deseja o que um homem deseja, deseja como um homem, é uma mulher invertida. A demonstração de emoções ou interesses ou a prática de atos considerados típicos do gênero oposto pode provocar a impressão de que o outro sente ou age como um indivíduo do gênero oposto, o que projeta sobre ele a suspeita de sexualidade anormal. O travestismo e a transexualidade consubstanciam o extremo da representação da inversão do gênero.


Por dominação heterossexista, estou entendendo um regime de relações de poder que, instituindo a compulsoriedade da heterossexualidade, impõe interdições e admite sanções à transgressão das normas de gênero e de sexualidade, sanções que, no limite, podem assumir a forma da violência física, conduzindo, em situações extremas, ao extermínio do outro. Consoante essa perspectiva, a homofobia não atinge somente glbt’s, produzindo efeitos independentemente da orientação sexual dos seus destinatários.

Como situação extrema, a violência homofóbica ressalta a relação indissociável entre a dominação heterossexista e a dominação masculina.


Quem pratica a violência homofóbica?

A maior parte dos agressores são homens. Refutemos a hipótese simplista e equivocada de que os homens agressores sejam todos homossexuais enrustidos. Alguns certamente o são; todos, não. A educação masculina é uma educação consagrada a formar um homem heterossexual viril, uma educação que forma um homem que não deve expressar sentimentos (femininos), de afetos reprimidos, de temperamento dominador e potencialmente agressivo. Uma amiga minha relata que muitos homens, o percebendo como um menino sensível e delicado, se sentiam desconfortáveis na presença de seu filho mais velho, quando ele era criança. De hábito, os homens se aproximavam dele o cumprimentando de uma maneira masculinamente apropriada, com socos. Essa educação cuja moralidade julga a violência uma manifestação natural do comportamento masculino, a valorizando como um modo de afirmação da identidade masculina heterossexual e como um meio de resolução de problemas, está diretamente relacionada às agressões contra mulheres e às agressões contra glbt’s.

O fato de que a maioria das vítimas da violência homofóbica sejam homens gays ou bissexuais, travestis e transexuais femininas não está dissociado do fato de a maior parte dos agressores serem homens. Como o masculino é o polo dominante na estrutura binária das relações de poder entre os gêneros masculino e feminino, a masculinidade (heterossexual) é demasiado frágil, sobre ela incide um número superior de interdições. Com efeito, o sexo frágil não é, jamais foi, o feminino. O sexo frágil é o masculino, objeto de uma vigilância opressiva e incessante, destinada a garantir que um indivíduo se torne e continue sendo, verdadeiramente, um homem (heterossexual). A mera suspeita de que possua sentimentos, interesses ou atitudes femininos ou de que possa ser homossexual é suficiente para solapar a autoridade de um homem. Com frequência, em certos espaços, em determinadas posições, um mulher necessita exibir atributos masculinos para conseguir obter e conservar autoridade.

À parte a ideologia essencialista, uma versão do naturalismo da heterossexualidade, que hoje predomina entre a população glbt e que é publicamente reiterado por lideranças dos movimentos glbt’s organizados, os atos homoeróticos e bi-eróticos, o travestismo e o transexualismo desestabilizam as representações e as práticas normatizadas de gênero e de sexualidade, denegando a naturalidade evidente em que estariam fundamentadas.

Quem são as vítimas e quais são os pressupostos da violência homofóbica?

Homens gays ou bissexuais não são homens. Apenas aparentam ser. Não se é possível ser um homem não-heterossexual. Gays e bissexuais são indivíduos que se desviam da (verdadeira) masculinidade.

Travestis e transexuais femininas operam um ato radical: renunciam à própria masculinidade. Estas, literalmente.

A masculinidade da lésbica e do transexual masculino é falsa, porque carece do suporte do pênis. Não se é possível ser um verdadeiro homem (heterossexual) sem um pênis.

Como a lésbica, a mulher bissexual não existe. Toda mulher é heterossexual. Existem somente episódios de homoerotismo feminismo à disposição do prazer masculino (heterossexual).



Do total de 260 homicídios registrados no Relatório Anual de Assassinato de Homossexuais de 2010, do GGB, 54% das vítimas eram homens (140), 42%, travestis (110), 4%, mulheres (10). Um estudo da Prefeitura de São Paulo acerca da violência homofóbica na cidade indica que a maioria das vítimas foram homens. Uma pesquisa do Programa Rio sem Homofobia informa que no estado do Rio de Janeiro, em um período de um ano e cinco meses, a maior parte das vítimas de crimes de homofobia também foram homens.

Com base no inventário dos modos de representação das vítimas, no qual dominação masculina e homofobia foram relacionadas, proponho uma hipótese para se compreender os dados apresentados. As mulheres lésbicas ou bissexuais não são apreendidas como uma ameaça, ao menos não como uma grave ameaça, não apenas porque um homoerotismo feminino que objetifica a mulher é tolerado, ou melhor, demandado pelo desejo masculino heterossexual, mas sobretudo porque, ao operarem a inversão, não conseguem nunca ascender à masculinidade (verdadeira). A segunda parte da consideração é válida também para os transexuais masculinos, que jamais se tornam homens de verdade. Mulheres lésbicas ou bissexuais, transexuais masculinos: invertidos farsantes que, conquanto também sejam vítimas da homofobia, parecem não ser percebidos como um sério perigo para a manutenção da dominação masculina. Em contraposição, homens gays ou bissexuais, travestis e transexuais femininas são representados como uma séria ameaça, porque confrontariam a própria essência da masculinidade (heterossexual). O campo das dominações masculina e heterossexista se assemelha ao das relações de poder que se constroem no interior e em torno de uma instituição presente em sociedades tradicionais, a casa dos homens – ou, para utilizar uma célebre imagem ocidental, o Clube dos Meninos das histórias em quadrinho da turma da Luluzinha, onde “menina não entra”. As mulheres que, desobedecendo à proibição, adentram a casa dos homens são punidas, como também o são os homens que transgridem as normas do local, principalmente se revelam seus segredos. Os homens se afiguram como uma imensa irmandade, uma vasta casa dos homens, onde as mulheres, ainda que entrem e ajam como homens, se encontrarão sempre eu uma posição de inferioridade determinada pelo sexo biológico ao qual pertencem, e de onde os próprios homens estão proibidos de sair. Aqueles que ultrapassam o limiar, que ousam sair, gays ou bissexuais, travestis e transexuais femininas, violam o pacto tácito que une os homens, se arriscando a sofrer pesadas sanções.

A mulher lésbica ou bissexual é comumente representada como uma mulher a quem falta um homem, que precisa de um homem. Como toda mulher, não pode viver sem estar submetida à dominação masculina. Ofende-se o homem gay ou bissexual, a travesti e a transexual feminina com a acusação de que não são homens, se lhes exige que virem homens. No imaginário sexista e homofóbico, no primeiro caso se deve reapropriar o corpo feminino, restabelecer a dominação, no segundo, punir quem não cumpre com seu papel.

O vínculo entre sexo e poder está centrado no pênis. A ausência do homem no ato sexual lesbiano destitui todo homoerotismo feminino de conotação sexual: sem pênis não há sexo. Mulheres não fazem sexo entre si; no máximo, brincam. No caso do sexo gay, o problema de novo é a ausência do pênis. Um homem pode praticar sexo gay sem se considerar e sem ser julgado veado, desde que exerça o papel de ativo, dominante. Somente o homem que atua como passivo é estigmatizado como veado. Entretanto, não pelo fato de se permitir ser penetrado, por dar o cu, como em geral se supõe, mas por não penetrar, por não comer, por não usar o pênis, símbolo do poder masculino.

A definição de homofobia que adotei oferece a vantagem de apreender em uma perspectiva ampliada os efeitos da dominação heterossexista. O homem que não se sente e jamais se sentiu atraído por um homem e que, na infância, foi proibido de dançar balé é tão vítima da homofobia quanto a travesti espancada ou a lésbica estuprada para se tornar heterossexual. Não estou tentando igualar modalidades diversas de opressão, violência e trauma. Homofobia mata. O slogan é verdadeiro, não há dúvida. Todavia, a homofobia produz muitos efeitos, não apenas ofensas, agressões, assassinatos. A maioria dos efeitos não vemos e não sentimos. Por vezes, as próprias vítimas não os veem e não os sentem. Fatalmente, por não os vermos e não os sentirmos, os reproduzimos. A homofobia conforma e orienta representações, valores, sentimentos e práticas que compartilhamos. Está na base das relações inter e intragenerizadas de toda a nossa sociedade. Mata e também mutila nossa capacidade de afeto – tanto nas mulheres como nos homens, mas principalmente nos homens. A afetividade mutilada é a indiferença ou o ódio. Para a indiferença, a violência sofrida pelo outro não tem importância. O ódio produz violência.

Do Amalgama - por Fabiano Camilo


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