Header Ads

Fina Estampa da Homofobia


Outro dia li que “Fina Estampa” voltou a servir ao autor, Aguinaldo Silva, como veiculo para fazer propaganda de si mesmo, por conta de um hotel ou restaurante no qual seria sócio. Faz sentido. É um autor que na falta do bom gosto, extremamente apelativo e no afã de audiência se vale do merchandise social fundamentalista, atacando e esteriotipando os homossexuais.

Incrível que esta pessoa de idade provecta, pasmem, muitas décadas atrás já encenou lutar pelos direitos de gays no jornal "Lampião da Esquina". Parece que esta não se trata da primeira pernada dada por ele. Segundo se tem notícias, aquele autor brilhante que sabia escrever com qualidade e contéudo, refiro-me a Dias Gomes, conheceu semelhante faceta de Aguinaldo Silva e teria morrido sem jamais voltar a falar com mesmo.

Nem sei dizer o que é pior nessa obra de última categoria. É um remake retalhado de várias outras do mesmo autor. Só posso chegar a conclusão que possivelmente reflete a vida de quem é supostamente ridículo, por natureza. Aliás, "estampa" no dicionário significa "reprodução, espelho".

Vira e mexe, a tal personagem, mordomo "CRO", um capacho, bem afetado, é tratada no feminino ou com apelidos absolutamente desrespeitosos e depreciativos, tal qual não era incomum no tratamento de outrora quando, para gays, o politicamente correto ainda não se aplicava.

Desafio este senhor da boa idade, autor de folhetins popularesco, a dar o mesmo tratamento e adjetivos dispensados ao seu personagem gay para um personagem negro ou para um personagem evangélico em sua atual novela, mantendo a mesma impunidade. Ele faz isto porque sabe que pisotear homossexuais nesta terra, até hoje, não dá em nada. Essa novela tem as cores fortes da covardia. Não me espantará se, consequentemente, passar a ter cores de sangue nas avenidas paulistas da vida.

Antigamente, bem antigamente, era frequente homossexuais usarem hobby para tentar se sentir 'mulherzinha'. Gays com roupas justinhas, lencinhos no pescoço, que andavam com cachorrinhos eram tratados da forma retratada nessa coisa. Enfim, era tudo aquilo que os pais não queriam para seus filhos que, quando descobriam a orientação sexual do filho, com repulsa, imaginavam que se homens, transvestir-se-iam de mulheres e sempre pagariam ou sustentariam um homem para obter sexo, e se mulheres, virariam mulher macho. Exatamente o jeitinho de ser desta novela, onde o "viadinho" é uma fêmea torta, longe de ser uma digna transgênera, e a personagem principal, apesar de hetero, aparentava ser mulher machuda.

Óbvio que existem homossexuais masculino efeminado ou feminina masculinizada, os quais não podem ser renegados e merecem evidente respeito. A crítica que se faz é a revoltante constatação que este autor, em especial, parece que propositadamente gosta de mostrar a homossexualidade como algo bizarro, diferente e ridicularizado. Basta lembrar que antes deste CRO, já tivemos em 'Suave Veneno' os afetados e avacalhados Ualber e seu empregado Edilberto (alvo sempre de chacotas), assim como na 'Senhora do Destino' o ameneirado carnavalesco Ubiracy, ou seja, repetições do mesmo tema, sempre com o mesmo escárnio tendo como alvo gays.

Dá a impressão que o autor da novela se congelou numa época determinada da sua vida, onde há mais de quarenta anos atrás, os guetos frequentados eram velhas boates nas quais, algumas vezes, muitas lésbicas se comportavam como cavalheiros e a maioria dos gays como gazelas afetadas.

A sensação que tenho é que o autor, já cansado, buscou em sua experiência pessoal transmitir na novela seus valores, através de seus personagens 'esquisitos'.

Crianças e adolescentes homossexuais com traços afeminados que morem pelo interior do país são as maiores vítimas. Já para os homofóbicos essa novelinha é uma festa. Todo preconceituoso quer encontrar apoio para justificar, de alguma maneira, o seu preconceito e sua crença de pretensa superioridade. Os coleguinhas da escola, pior, os próprios familiares destes menores, com pouco acesso à informação e à cultura, se valerão de uma personagem ridícula e grotesca para torturá-las, dia a dia.

De uma forma geral, acho detestável considerar que uma mente aparentemente doentinha, que parece ter contribuído escrevendo alguns trechos da bíblia, me inspire a piedade ao se fantasiar com o que há de pior do mal gosto, seja na aparência daquilo que vemos e ou na demonstração da seletiva mentalidade discriminadora, negando-se a se respeitar e a respeitar outro. Mas são assim os personagens, doentes e ultrapassados.

Esclareça-se, a idade do autor não explica a razão de sua forma de ser e pensar que induz concluir se encontrar cada vez mais retrograda. As pessoas idosas merecem respeito, até porque sabem o valor que esta palavra possui.

O engraçado é que se alguém diz a verdade para o autor da novela, este se faz de vitima e indignado, porque, segundo ele, os gays melindrados não teriam alcançado o seu profundo conhecimento revelador que “cada um é único”, como se com isto estivesse desvendando o Segredo de Fátima e justificasse a irresponsabilidade de propagar a possível incitação de homofóbicos mais atrevidos, resultando em agressões verbais e físicas aos homossexuais.

Sim, porque se alguém humilhar um gay como fazem os personagens e até figurantes desta novela tão impunemente, aquele estará sendo jurídica e criminalmente ofendido na sua honra, quanto mais se a vítima levar uma surra na praia porque os seus frequentadores heterossexuais considerarem que a orientação sexual homossexual seja suficiente para justificar tal prática.

Tudo bem, cada um é cada um. Se até hoje ele foi e é chamado por tais adjetivos como o seu personagem, não me cabe julgar. Até posso, por gentileza, chamá-lo da mesma forma por carinho. Mas se fazer de vítima não dá. Lamentável este vitimismo de Aguinaldinho ou seja lá como ele gosta de ser chamado pelas pessoas que passam por ele na rua ou praia, quando passeia com seus cachorrinhos, se tiver.

De qualquer forma, pelo menos ele é coerente. Fornece modelo de comportamento para que homofóbicos isultem os homossexuais de veado, bichona, e outros adjetivos, sempre com forte carga de humilhação, e, em sua lógica, compreensivamente, recrimine com veemência que um ator de seu personagem seja confundido como homossexual, porque, no seu entender, é prejudicial. Sendo ele um homossexual assumido, fico tentando imaginar como se enxerga e vive.

Enfim, o tal personagem CRO da novela ‘Fina Estampa’ é a cafonalha repugnante do momento que faz sucesso pelo escárnio e por ser um pária. Parece que foi educado por aquelas mariconas solteironas, solitárias, de idade avançada que pela cara não se distingue mais se se trata de uma vó ou vô, que mora numa casa cheio de bibelôs e estatuazinhas pretensiosas numa estante, usam lencinhos e echarpes, e para seduzir uma companhia apelam para o dinheiro, com muito discurso de poder e marcas ricas e famosas, apenas para esconder a sua própria miséria.

Infelizmente, os remédios sociais e jurídicos existentes não tem dado conta do grande mal que é a homofobia, mas existem remédios fabricados por grandes laboratórios farmacêuticos que poderiam ajudar muita gente que não acredita em terapia a se tratar.

Essa novela é prova que o tempo pode ser aproveitado com coisas realmente muito melhores, mais saudáveis e ricas culturalmente e que a aposentadoria de algumas pessoas pode representar um grande ganho social.

Ah, saudades da última novela de Ricardo Linhares e Gilberto Braga.

Do Direitos Fundamentais LGBT

Nenhum comentário