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Travestis têm cotidiano marcado pela violência

Antes de sair de casa para o trabalho, em uma das esquinas do bairro do Reduto, em Belém, a travesti Camila Ferraz, 20 anos, segue um ritual. Checa todo os utensílios que carrega na bolsa, pelo menos três vezes, e faz uma oração.”Eu sempre peço a Deus que abençoe o meu trabalho e me livre de qualquer situação de perigo”, afirma. Para ela, são essas orações que a protegem das constantes ameaças vividas pelas travestis nas ruas da Grande Belém. “É muito difícil uma travesti ou transexual que trabalha na noite e que nunca sofreu uma agressão. Seja física ou verbal, todas nós diariamente somos alvos da violência. A última que aconteceu comigo foi no início de junho, quando dois homens de carro pararam próximo ao local onde eu faço ponto, desceram do veículo e, do nada, começaram a me chutar e me jogar no chão”, revelou.

Os episódios descritos por Camila têm virado rotina nos pontos de prostituição de travestis e transexuais da Região Metropolitana de Belém. “Uma rotina, que permanece impune, pois nada é feito para acabar com essas constantes cenas de violência gratuita sofrida pelas travestis e transexuais profissionais do sexo. Sinais que demonstram claramente o crescente número de crimes com caráter de homofobia não só na capital, mas em todo o Estado”, afirmou Symmy Larrat, coordenadora do Grupo de Resistência dos Travestis e Transexuais da Amazônia (Gretta). Symmy informa ainda que, somente no ano passado, o Pará registrou 22 casos de homicídios envolvendo homossexuais e 50% desses registros foram com travestis.

De acordo com um relatório divulgado pelo Gretta no início de 2012, a Região Metropolitana possui três grandes prontos de prostituição de travestis e transexuais: rodovia BR-316, avenida Almirante Barroso e bairro do Reduto. “E são nesses pontos que mais encontramos histórias de violência sofrida por essa categoria. A prova disso foi a morte brutal da Bianca, ocorrida no último dia 17 de junho, numa travessa da Almirante Barroso”, ressaltou Larrat.

Testemunhas e vítimas do medo - Desde que começou a fazer programas nas ruas de Belém, aos 17 anos, a travesti Bruna Oliveira, 20, já perdeu a conta de quantas cenas de violência já foi obrigada a assistir. “E isso não tem hora para acontecer. As pessoas passam em seus carros, nos xingam, fazem chacota, atiram latinha, jogam água e muitas vezes, chegam ao cúmulo de sair dos veículos para partirem para agressões físicas, com socos, chutes e pedaços de pau. Uma realidade que, infelizmente, tem se tornado cada vez mais comum”, lamenta Bruna.

Apesar do medo, Bruna afirma que nunca passou por uma situação de violência. “Até eu mesma às vezes não acredito. Mas, no ponto onde trabalho, sou uma das poucas que nunca sofreu na pele nenhum tipo de agressão. Sempre quando percebo alguma situação de perigo saio correndo. Mas sei que nem todas às vezes terei a mesma sorte e tenho consciência que eu posso ser a próxima vítima”, declara.

Ao contrário de Bruna, a travesti Jennifer Lia, 25 anos, afirma que já foi agredida mais de dez vezes. E a maioria das agressões permanece impune, pois por medo de represálias de policiais, ela prefere não registrar o crime na delegacia. “Não adianta eu dar queixa, a polícia nunca faz nada. E para completar, eu sou hostilizada e sempre apontada como a acusada e nunca como vítima. Já cansei disso. No início das agressões até que eu procurava a polícia, mas depois de tanta humilhação, resolvi engolir a dor sozinha”, lamenta.

Segundo Jennifer, que faz programa na travessa Timbó, no bairro do Marco, a hostilidade de alguns integrantes da polícia é a maior causa para a inversão das acusações. E muitas vezes, a vítima é transformada em acusada. “Eu sei que existem muitos casos de travestis que roubam os clientes. Mas, assim como em qualquer outra profissão, existem profissionais e profissionais do sexo nas noites de Belém. Tem muita colega que rouba sim, mas a maioria trabalha direito. E por meia dúzia, todas pagam. Porque se uma travesti chegar à delegacia para registrar queixa contra o cliente, até que se provem, ou deixe provar, o contrário, a trava é a culpada”, denuncia.

Para a travesti Thayla Penélope, 21 anos, presa no final de mês de abril, suspeita de roubo qualificado, a maioria das travestis que fazem programa só roubam os clientes quando se sentem ameaçadas. “Existem muito casos de clientes que nos procuram, tem seus desejos saciados, mas na hora de pagar se negam e ainda nos humilham. Por isso muitas colegas se revoltam e pegam algum objeto deles, mas por uma questão de garantia. Sei que isso é lamentável e sei também, que não é regra, pois nem todas agem assim. Mas é terrível ser hostilizada por um cliente após um programa. A gente não obriga ninguém a nada, são eles que vão ao nosso encontro”, explica.

Homofobia é principal causa da violência

As denúncias apresentadas por Jennifer e Penélope são confirmadas pelo relatório do Gretta que aponta que 99% das travestis e transexuais que realizam programas na Grande Belém já tiveram problemas com clientes. Além disso, o estudo mostra que do grupo, 80% já sofreu abusos e maus tratos cometidos por policiais.

Para o psicólogo Carlos Alberto Amorim Caldas, o preconceito e a naturalização da homofobia é a maior causa dos crimes contra travestis e transexuais no Brasil. “A sociedade brasileira, preconceituosa, é cúmplice desses crimes, pois cada pai que diz que não aceita que seu filho estude com ou na mesma classe de homossexuais, cada médico que nos atende com discriminação nos serviços de saúde e, principalmente, cada família que não acolhe seus filhos homossexuais é cúmplice da violência homofóbica”, afirma.

Segundo ele, no caso específico de pessoas trans (travestis e transexuais) a homofobia assume um caráter muito mais forte. “Pois nesses casos, o preconceito também é machismo, racismo e misoginia (desprezo à figura da mulher) e o ódio naturalizado contra esse grupo de pessoas faz com que elas sejam discriminadas, espancadas e assassinadas todos os dias no país”.

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