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Fonte de renda: Por dinheiro, travestis se expõem a doenças

Se o cliente é jovem e bonito e paga mais pelo programa, quase a metade dos travestis que atuam como profissionais do sexo em Rio Preto, 45%, deixa de usar preservativos e se expõe a doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids. A constatação é de um estudo inédito elaborado pelo Grupo de Apoio ao Doente de Aids (Gada) em parceria com a Associação Rio Pretense de Travestis, Transexuais e Simpatizantes (ARTTS).

Os dados revelam que a falta de profissionalização e oportunidade no mercado de trabalho convencional faz com que a necessidade da sobrevivência se sobreponha à prevenção. “A baixa remuneração é compensada pela quantidade de clientes e a falta de cuidados”, diz o coordenador do Gada, Julio Caetano. A pesquisa amostral foi realizada com 40 travestis entre 18 e 35 anos, moradoras de Rio Preto e que fazem programas. Estima-se que existam cerca de 100 travestis na cidade. Foram respondidas 22 questões.

Caetano afirma que o objetivo do estudo foi avaliar o perfil socioeconômico e a vulnerabilidade com relação ao HIV/Aids das travestis profissionais do sexo. Outra característica observada pela pesquisa é a baixa escolaridade das travestis: 47,5% não concluíram o ensino fundamental. “Essa característica reflete o processo de exclusão e de preconceito vividos pelas travestis nas salas de aula, fazendo com que estas desistam de continuar os estudos”, diz o coordenador do Gada. 


<= Mesmo com trabalho regular, Bruna Valin e Patrícia Trindade reforçam orçamento com programas

Foi isso que aconteceu com Pâmela (nome fictício). Ela deixou a escola quando estava no ensino médio e só agora, aos 33 anos, retomou os estudos. “A partir do momento em que me defini travesti, passei a ser motivo de chacota e não suportei a situação, preferi sair da escola.” Sem o apoio da família, ela foi morar na rua e, em pouco tempo, começou a fazer programas para sobreviver. Hoje, ela reconhece que a dificuldade faz com que as travestis aceitem imposições de clientes, como fazer sexo sem proteção.

O relato de Pâmela é confirmado pela pesquisa. Das 40 travestis que participaram do estudo, 25% não usam preservativo para não perder o parceiro. Além disso, a maioria delas, 58%, relata atender de 20 a 30 clientes novos por mês. As travestis são consideradas pelo Programa Nacional de DST/Aids, do Ministério da Saúde, como um grupo bastante significativo no perfil da epidemia do HIV/Aids no Brasil devido a sua história de vulnerabilidade social, que abrange exclusão, violência, preconceito e discriminação.

Fonte de renda

O estudo constatou que a atividade como profissional do sexo é a única fonte de renda de 62,5% das entrevistadas. Quanto ao valor mensal dos rendimentos, 64,5% delas faturam até três salários mínimos - cerca de R$ 1,5 mil. Outras 26% declaram conseguir até um salário mínimo por mês, R$ 510, e 9,7%, de três a cinco salários mínimos, podendo receber até R$ 2,5 mil.

A travesti Patrícia Trindade, 29 anos, trabalha como monitora no Gada, mas continua reforçando o orçamento com o trabalho de profissional do sexo. “Faço programa todas as noites. A gente sofre preconceito tanto por ser travesti como por ser profissional do sexo”, diz. Para Patrícia, faltam programas profissionalizantes voltados a esse público. “As portas do mercado de trabalho se fecham e nas ruas as travestis são obrigadas a fazer o que não querem para conseguir sobreviver.”

Mesmo com a carteira de trabalho assinada, a agente de direitos humanos e presidente da ARTTS Bruna Valin, 35 anos, continua na atividade de profissional do sexo. “Tenho um prazo para terminar com essa atividade. Quero fazer faculdade de Psicologia. É o meu sonho.” 

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