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'Eu sempre me senti mulher', afirma transexual um mês após cirurgia


Do alto do 13º andar de um prédio residencial no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, Luisa Stern tem muito a comemorar neste dia 8 de março: será o primeiro Dia Internacional da Mulher em que a advogada de 46 anos, que passou por uma cirurgia de mudança de sexo, se sentirá completamente integrada ao gênero a que sempre sentiu pertencer.
O procedimento foi realizado há exatamente um mês e sete dias no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). Não foi rápido e sem esforço. Entre grupos terapêuticos, consultas médicas e doses severas de hormônios, foram três anos de espera. Mas para ela, valeu a pena. “Eu sempre me senti mulher”, afirma, convicta, a transexual.
Ao som de Cazuza, a fã de música brasileira recebeu o G1 no seu apartamento e contou não ter nenhum arrependimento da mudança de sexo. “Transexualidade não é modismo. Precisa ter um desejo permanente, forte e definitivo. A cirurgia é irreversível e o tratamento tem que ser longo, até para evitar que por uma fantasia a pessoa faça e se arrependa”, explica.
Luisa atua como voluntária na ONG Igualdade – Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul. Nesta sexta-feira, ela quer estar ao lado das pessoas que ajuda em um ato na Assembleia Legislativa. “Quero marcar a data no sentido simbólico, coletivo. Para mim, todos os dias são dias de ser mulher”, argumenta.

Os cabelos vermelhos e um sorriso ainda escondido, muito pelo incômodo causado pelo procedimento, agora emolduram a face de quem nunca gostou da imagem no espelho. Luisa cresceu na Zona Norte da capital gaúcha, quase no limite da cidade vizinha de Alvorada. Em uma família tradicional, viveu ao lado da irmã, mãe e pai, que sempre a apoiaram, garante. “Quando criança eu já sonhava em ser menina. Mas este desejo ficou reprimido”.
Sua verdadeira identidade, no entanto, demorou para aparecer. “Tentei ter uma vida masculina, mas não consegui. Nenhum relacionamento era contínuo. Fui começar a me transformar já com uns 30 e poucos anos. Fui me assumir com mais de 40”, revela Luisa. O nome também foi mudado em maio de 2012 e Luisa prefere não lembrar. “Aquela pessoa já não existe mais”, justifica.
A transexual é uma das 300 pacientes avaliadas pelo Hospital de Clínicas desde 1998. O Programa de Transtorno de Identidade de Gênero da instituição já realizou mais de 100 cirurgias desde a sua fundação. “Quem tem a síndrome normalmente nasce convencida que não pertence ao seu sexo. Na adolescência, busca essa alteração espontaneamente, estranha seu próprio corpo, os órgãos genitais não se adequam ao que ela gostaria de ter”, explica Maria Inês Lobato, psiquiatra coordenadora do programa.

Segundo a Secretaria de Saúde de Porto Alegre, 41 pacientes foram encaminhados para a primeira consulta pelo SUS desde julho de 2011 até hoje. “A cirurgia é uma adequação, como se fosse uma plástica, que confere uma maior tranquilidade para o paciente. As tentativas de reverter com abordagem psicológica são ineficazes”, afirma Maria Inês.
Já em vida dupla, Luisa passou a frequentar bares e casas de show LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis). A comunidade cross-dresser lhe abriu as portas e mais tarde a cabeça, diz ela. “Fui morar sozinha com 20 e poucos anos. Gostava de me montar em casa. Foi um processo meio lento, mas acredito que no fundo eu sempre tive a certeza que queria viver como mulher. Só que tem toda a questão da repressão de fora e também interna. Foi bem difícil assumir”, desabafa.
Quando deu entrada no hospital em uma quinta-feira a noite para realizar a cirurgia, ela não tinha mais dúvidas. Até porque não havia mais volta. “Eu me senti bem. Acordei lúcida e entendia tudo”, conta Luisa, lembrando o momento em que abriu os olhos, já mulher, em um leito de hospital.
Em casa e de repouso há quase um mês, ela recebe visita da irmã, sobrinha e mãe, que mora no Litoral Norte do estado. Ansiosa pela volta à rotina, disse que irá ao grupo terapêutico que participava no hospital para contar sobre a experiência. “No começo existe muita confusão entre ser travesti e transexual. Cabe a cada um saber o que é”, aconselha.

Depois, ela que também é formada em contabilidade quer aproveitar o momento de transformação para investir na carreira profissional. Apesar de ter concluído a faculdade de direito em 2000, somente no ano passado Luisa adquiriu a carteira da OAB, sem a qual os bacharéis não podem advogar. 
Ser mulher, para Luisa, é a soma de um conjunto de fatores. Mas a aparência e a estética falam alto, como denunciam detalhes dos brincos, sapatilhas de onça e a decoração do apartamento onde ela mora. “Para a gente que nasceu no corpo errado, a questão da aparência é bem importante. É a gente conseguir se olhar no espelho e ver a figura feminina”, diz, realizada.

Fonte: G1



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