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Entrevista com a Diva trans, Natasha Dumont


Dona de cabelos negros, olhar marcante e corpo escultural, Natasha Dumont é um ícone de beleza trans desde os anos 90. Vencedora de merecidos 15 concursos de miss – nacionais e internacionais – a bela marcou a televisão brasileira e foi inspiração para uma geração de travestis e transexuais. 

Com talento para a arte e merengue latino, Natasha esteve no elenco dos mais importantes shows da noite LGBT e tomou conta do quadro de transformismo do Programa Silvio Santos, do SBT. Chegou a entrar como Cleópatra (com os seios de fora) e como palhaço, dublando Vanusa.
Natasha: "Não me sinto uma diva"
 
Tanta beleza e sensualidade à flor da pele também abriram inevitavelmente as portas para o mercado erótico. Natasha foi a estrela de vários filmes, performances e apresentações. Nos últimos anos – no auge dos seus 40 anos - a bela faz apresentações em uma boate na Espanha e na Áustria.

E foi durante uma vinda ao Brasil, na festa Las Divas, promovida pela Terças Trans, que o NLucon esteve frente a frente de uma das mais belas travestis que já existiram em todo o mundo. Natasha chega ao espaço sorrindo, encantando e fazendo altas e surpreendentes revelações.

Abaixo, uma entrevista com uma verdadeira diva:

- Você é uma das figuras que permeiam o imaginário trans. Qual é o segredo para se manter tão bela até hoje?

Olha, eu me cuido muitíssimo, procuro me atualizar a cada ano, mas acho que o principal segredo que me mantém até hoje é ter pessoas legais ao meu lado. Pessoas que me apoiam, incentivam, que estão comigo para o que der e vier. Afinal, nem sempre a gente está feliz ou animada. E eu preservo minhas amizades e as quero por toda a vida. O que posso dizer que tiro dessa vida é que as amizades são coisas mais importantes na carreira e na vida de uma trans.

- Conta como você se descobriu trans?

Comecei bem cedo, aos 12 anos. Sempre quis ser mulher e sempre falei isso para a minha família. Me assumi aos 10, falei o que queria e eles tiveram aquela reação normal de toda família. Mas depois viram que não tinha mais jeito, que eu era feminina desde muito criança, que sabia o que queria e foi de boa... Não tinha jeito, eu brincava com tudo o que era de menina e roubava as roupas da minha mãe (risos). A primeira vez que me vesti totalmente foi para participar de um concurso da minha cidade, em Sorocaba [interior de São Paulo] e eu não tinha nem 15 anos.

- Por falar em concurso. Você já esteve vitoriosa em inúmeros deles. Ser miss foi um sonho de criança?

Sempre gostei, assistia aos concursos de miss na TV e, quando era criança e adolescente, sonhava um dia ser miss também, carregar uma faixa, receber a gratificação das pessoas. Era um sonho e, depois que comecei a participar e por ventura ganhar, continuou sendo uma realização. Até hoje eu gosto deste evento e as pessoas sempre falaram que eu levava jeito. Foram ao todo quinze concursos vencidos.
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- A beleza abre portas?

Ai, a beleza ajuda bastante, mas vou te falar uma coisa. Se não tiver conteúdo, você não prevalece. Do mesmo jeito que a beleza te dá, ela te dirá. Você tem que ter muito mais que beleza para se firmar. Afinal, acontecer é fácil, permanecer é difícil. E eu já tenho bons anos de carreira...

- Como se descobriu artista?

Sempre via o quadro de transformistas do Silvio Santos e ficava encantada quando via uma travesti bonita, feminina. Eu ficava passada e queria aquilo lá para mim. Comecei a fazer show na minha cidade e conheci a Silvetty [Montilla], que sempre ia fazer show lá. Falei que queria vir para São Paulo e ela me ajudou, marcando shows em alguns lugares. Daí eu vim, comecei com as apresentações, fiquei de vez e adorei.

- Você diz que se inspirou nas travestis e transformistas do Programa Silvio Santos, mas muitas trans da nova geração dizem que você foi a inspiração delas justamente neste quadro. Como foi participar?

Foi simplesmente maravilhoso, porque o meio de comunicação me levou para a casa dos brasileiros. E, de certa forma, você passa a fazer parte daquela família. Durante a participação, recebi o carinho de crianças a idosos, homens e mulheres. Eu fico feliz quando as trans falam que servi de inspiração. Conheço muitas meninas na época de meninos e que hoje são travestis e transexuais belíssimas. Muitas já se operaram e ainda falam que se inspiram. Acho legal, é sinal de missão cumprida.
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- Qual o melhor momento da sua carreira? 
Foi o último concurso que ganhei na Suíça, o Miss Trans Diva, que só meninas lindas concorreram. Foi uma emoção única, pois concorri com Fabíola Nogueira, Amanda Marques, Marcinha do Corintho, que são trans belíssimas e muitas tailandesas. Foi em 2000 e até hoje sou chamada de diva por conta desse concurso.

E como é ser uma diva?

Não me considero diva, nada disso. Se eu ficar me achando, posso me desiludir muito. Nunca tive isso de me achar a melhor, a mais bonita, pois tem sempre alguém que pode superar isso. Acho que a beleza ganha muito com a humildade também. Então, sou simples e normal.

O passar dos anos te preocupa?

Quando eu tinha 20 anos, morria de medo de ter 30, morria de medo de ficar velha. Depois que passei dos 30, achei normal. E agora que tenho 40 é tranquilo. Você não dá conta que está ficando velha porque as pessoas que você conhece estão envelhecendo junto com você, é algo natural. E a gente tem que se gostar em todas as fases. Eu sou vaidosa, mas estou muito feliz com o que eu vejo no espelho.
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E continua linda mesmo. Na sua performance, você traz as músicas dos anos 90 ou se atualiza?

Me atualizo, claro, é muito importante para continuar. Não dá para ficar fazendo música de 2000 agora em 2013, pois não tem a ver. Eu fazia muita salsa antes, que eu adorava e ainda procuro fazer quando tenho oportunidade.  Mas veja, até a Thalia e a Gloria Stefan mudaram. Procuro fazer música mais atual, dance, que tem a ver comigo.

Atualmente você mora na Áustria e Espanha. Como é a sua vida fora do Brasil?

Meu dia a dia é supersimples. Adoro sair, ir ao cinema, tenho uma vida social legal. Não espero muita coisa das pessoas, não espero que alguma coisa aconteça na minha vida, eu sempre luto por mim. Faço shows fora do Brasil, mas lá é diferente, pois tenho que fazer strip-tease total. As pessoas não acreditam quando você falam que é trans, então você tem que mostrar tudo. No começo, eu ficava com vergonha, mas agora já me acostumei. Quando não estou fazendo shows, saio com minhas amigas, vou para festas, beijo bastante. Gosto de balada...

Já viveu o seu grande amor?

Já vivi várias vezes, pois não acredito que o amor seja um só. Cada fase é uma fase. Existem pessoas que você gosta mais ou menos, mas sempre dá para acontecer e todas são importantes. E posso dizer que tive sorte nos meus relacionamentos, não tive azar, não (risos). Tive três homens que realmente posso considerar grandes amores, que se relacionaram comigo durante anos e que eu conheci toda a família... Ah! E foram todos brasileiros. De fora, só tive ficantes. Os homens não acreditam em mim, dizem que eu não tenho cara de uma pessoa fiel. E olha que eu sou, viu? Agora, estou sozinha, namorando eu mesma.
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O que tem de pior na vida de uma trans? 

Foi o que eu disse lá no começo: são as más companhias. Elas destroem a sua vida. Já conheci muita gente  má índole e infelizmente não dá para discernir quem é quem em um primeiro momento. Só vamos descobrir convivendo... Existem pessoas que não querem fazer a história delas, elas querem ser você. E não existe isso, você tem que lutar para realizar tudo aquilo que quiser. Mas sempre penso assim: quando uma pessoa magoa a outra quem perde é ela, pois você até que enfim se livrou de alguém assim.

O que ninguém sabe de você e que você se sente tranquila para contar?

Apesar de sempre me verem alegre, eu tive uma forte depressão, fiquei muito mal. Mas graças a Deus meus amigos me ajudaram a sair. Isso nem minha mãe sabe, pois não conto, pois não adianta nada ficar falando. Eu estava na Espanha, me roubaram mais de 100 mil e fiquei muito mal. Não queria sair de casa, queria morrer, queria me matar. Os amigos me deram uma força, mas tive que tirar forças de dentro de mim.

- E como você superou?

Olha, comecei a pensar que teria que viver o hoje, daqui para frente... Que não iria adiantar pensar no que passou, pois não iria adiantar, o tempo não iria mudar e não daria mais para mexer no que foi. Eu tinha que lutar, esquecer o passado, pois era a única maneira. Vivi cada dia, focando no futuro... Hoje, estou bem, graças a Deus. .

Se arrepende de algo?

Não posso falar que tenho arrependimento, pois talvez tivesse que passar pela experiência. E talvez fizesse tudo de novo.

- O que acha da nova geração de trans?

Acho que cada dia elas começam bem cedo e eu entendo, pois quando você é trans assumir-se é uma necessidade. Você sente-se mulher, não tem como segurar mesmo. Eu acho legal, pois quanto mais ongs, associações, grupos, mais a nossa situação melhora. Até para a cabeça da população em geral, porque por mais que exista um número maior de trans, a cabeça das pessoas é muito pequena no assunto, ainda existe muito preconceito. Não é tão liberal, penso eu.

- Qual o conselho que você dá para as novas travestis e transexuais?

Tenha muita fé em primeiro lugar, porque é difícil esse nosso meio. Se valorize, se goste e não deixe que ninguém te coloque para baixo.
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Neto Lucon e a diva Natasha Dumont

- Qual é o seu sonho hoje? 

Graças a Deus, realizei quase tudo o que eu quis. Hoje, gostaria de conhecer os Estados Unidos. É uma vontade, não é bem um sonho. Acho que a gente aprende muito viajando...

- Estar em sua frente dá a impressão de estar em frente a um livro cheio de mistérios. Pensa em escrever uma obra?

Penso, é isso que eu vou fazer agora. Vai ter muita verdade, pois as pessoas me veem de maquiagem, a noite, feliz, mas no dia a dia a gente é bem diferente. As pessoas vão gostar...
 
Do Nlucon
 
 
 

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