Uma Crossdresser Gordinha Complicada e Imperfeita

'Me arrependi de chamar a polícia', diz travesti brasileira detida em Dubai

Uma travesti brasileira que enfrenta um processo na Justiça dos Emirados Árabes Unidos por ter identidade masculina e se vestir como mulher contou ao G1, em entrevista por telefone, como ocorreu sua detenção e como estão sendo os dias no país até sua nova audiência, marcada para dia 23 de março. A brasileira, que não quis ter o nome divulgado, foi com uma amiga, também travesti, a passeio na metade de novembro ao emirado, e, segundo ela, foi expulsa de uma boate no dia 13 de dezembro. 
"Estava tudo indo bem no país, já tínhamos ido a outras discotecas aqui e nada tinha acontecido, não tivemos nenhum tipo de problema. Foi justamente nesta discoteca que fomos que os seguranças perceberam que éramos travestis. Não chegamos a ficar nem 20 minutos no local, nos chamaram e pediram nossos documentos. Quando viram os documentos, nos tiraram pra fora da boate, e foram bem grosseiros, mal-educados, mesmo. Como qualquer pessoa normal, pensamos: 'vamos ligar para a polícia, porque isso não pode acontecer'. A gente estava bem vestida, não estávamos com roupas curtas nem nada, eu estava com um macacão longo. A gente chamou a polícia, que não resolveu e nos levou para uma unidade. Ficamos dois dias presas", contou a brasileira, que diz se arrepender de ter chamado a polícia.http://1.bp.blogspot.com/-hSMJEf1oCQM/URjXR4mcZKI/AAAAAAAABs4/qJzS1r-0_rk/s1600/Biquini%2Be%2Ba%2BBurka.bmp
Segundo o Itamaraty, a primeira informação de que elas estariam detidas chegou à embaixada brasileira em 23 de dezembro. A assessoria de imprensa do ministério afirmou que está em contato permanente com elas e com as autoridades judiciárias dos Emirados "para garantir que tenham o mais amplo direito à defesa". As brasileiras, no entanto, disseram que estão sem advogados. Elas estão se mantendo com recursos próprios. "Temos uns amigos que estão ajudando a gente como podem, temos um pouquinho de dinheiro e estamos tentando nos virar e guardar."
A dupla não pode deixar Dubai, pois os passaportes estão retidos pelas autoridades. O Itamaraty não soube informar a pena máxima que elas podem receber, mas uma das possibilidades é a de que sejam deportadas.
A brasileira disse que foi bem tratada na cadeia. "Ficamos em celas separadas e as celas foram cobertas para ninguém nos ver." Após uma audiência, elas foram liberadas, mas os passaportes continuaram retidos. "Tínhamos conhecido umas filipinas que fazem a unha, e fomos procurá-las pedindo ajuda. Uma delas nos levou para casa, nós dormimos lá algumas noites e conhecemos através delas essa família de filipinos. A casa é minúscula, eles acordam muito cedo pra trabalhar e a gente acaba tirando a privacidade deles, mas eles são maravilhosos, não queríamos perturbar. Queremos ir para um quarto só pra mim e pra minha amiga."
Segundo a brasileira, não houve nenhum problema com o fato de serem travestis em qualquer momento até o dia da boate. Ela disse que as duas têm vistos e que passaram normalmente pela imigração do país - mesmo com os documentos mostrando identidades masculinas.
"Estamos com medo, não queremos que nada de mal aconteça com a gente. Ouvimos relatos de travestis que vieram pra cá e são presas, ficam no máximo sete dias e são deportadas. A gente não entendeu porque eles colocaram nosso processo pra julgamento. [...] A gente veio pra cá pra conhecer, jamais quisemos agredir, ferir as leis morais deles, nunca passou pela nossa cabeça isso."

Do G1
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Entenda o caso: Romário & a modelo transexual Thalita Zampirolli


"Ela é sangue bom, mas eu gosto de mulher", disse Romário

"Transexual sai com Romário e diz: ‘Somos amigos bem íntimos’”, diz a chamada do jornal O Dia desta terça-feira, 17, mostrando uma foto da modelo Thalita Zampirolli de mãos dadas com o ex-jogador. Num primeiro momento, pensei: E daí? Não é de hoje que sabemos que belas travestis e mulheres transexuais se envolvem com jogadores. Depois, pensei que o romance assumido de uma trans com um ídolo do futebol poderia contribuir com a causa trans e para a naturalização do relacionamento - que geralmente cai no amor clandestino ou "na pegadinha do Mallandro". Até que lamentavelmente vi a enxurrada de transfobia [ou despreparo] sendo derramada pela publicação, pela própria trans, por Romário e pelos leitores – muita gente na minha própria timeline compartilhando com deboche.

Primeiro, o jornalista tratou do affair como se fosse o acasalamento da mulher macaca. Perguntas óbvias como ‘Rola beijo na boca?’ ou agressivas e insistentes como ‘Qual é o seu nome de batismo?’, ‘Mas você tinha um primeiro nome, não é?’, ‘Ninguém diz que você é transexual... Ou diz?’ foram despejadas em cima da modelo. Questões que certamente não teriam o menor cabimento se o jornalista não estivesse munido da ideia de que o relacionamento com uma trans fosse digno de piada. Ou de que uma mulher transexual nada mais é que uma mulher e que tais perguntas destinadas a uma pessoa que lutou pela identidade feminina são no mínimo desrespeitosas.

Depois, senti meus ouvidos doerem com as respostas despolitizadas e munidas apenas de vaidade de Thalita – algo comum em algumas mulheres transexuais, que após passarem pela cirurgia de redesignação e mudança de documentos decidem viver apenas da passabilidade cisgênera, renegando a condição trans. Tanto que, ao receber o elogio de que tem a voz feminina, ela diz que por causa de sua aparência prefere viver de forma diferenciada, longe das lutas LGBTs e da prostituição. ‘Sou criticada por não apoiar manifestações LGBT. Eu vivo em outro mundo. Não apoio. Muitas manifestações pedem respeito, mas você vê hoje em dia nas paradas gays muita falta de respeito. Eles se beijam [???], transam na areia... Não apoio isso. Trabalho com vários gays, eles têm um padrão de vida diferente da maioria e poderiam pedir respeito de forma diferenciada”.

O que Thalita não poderia imaginar – talvez por ser "diferenciada" e não estar informada sobre o cenário T no Brasil [e este é um direito dela, mas infelizmente o mundo é um só] – é que Romário, seu amigo íntimo, fosse manifestar contra o romance público e negar tudo, dizendo que ‘ela não é mulher’ e que, por esse motivo, não teria rolado nada entre eles. Em seu Facebook, o ex-atleta alegou que Thalita é gente boa, sangue bom, é sua camarada, mas garantiu que certamente ‘casamento não iria rolar’, soltando uma gargalhada logo em seguida. ‘Disse que respeito o gosto pessoal de qualquer pessoa, mas volto a afirmar: eu gosto de mulher!’, escreveu.

Surgiram ainda a onda de comentários espinhosos abaixo da entrevista. ‘Quem diria o Romário pegando traveco...kkkk’, ‘Doutor Romário dando o ré no quibe’, ‘Quem diria... Romário que sempre foi um cara ‘machão’... Nada contra a opção homossexual, mas a gente se surpreende quando descobre que uma pessoa do perfil do Romário faz essa opção’. Um feedback claro de como a transfobia está presente no discurso, de como uma mulher transexual não tem a sua identidade feminina legitimada, de como o órgão genital ainda é visto como o destino, e de como uma transexual é percebida como um homem querendo se passar por quem não é. Ou seja, "uma farsa que deve ficar somente entre quatro paredes – jamais em público".

Porém, esqueceram de dizer para Romário [e para muita gente] que ninguém nasce mulher, torna-se mulher [como bem disse Simone de Beauvoir] por uma construção social e física. Esqueceram de dizer que a transexualidade não é o mesmo que homossexualidade e que o genital não define o gênero. Esqueceram de dizer ainda que a atração sexual não se explica, não é digna de questionamento e muito menos de deboche. Por fim, esqueceram de avisar a todos que [um pouco] de informação, respeito e consciência política faz bem para a sociedade em geral. Inclusive para nós mesmos e para a quebra dos nossos preconceitos internalizados, que nos fazem reproduzir muitas vezes o discurso do opressor.

Afinal, enquanto ficamos presos a esse tipo de desserviço na mídia, Thalita continua considerando o beijo LGBT em público um desrespeito, Romário continua querendo abafar o relacionamento com uma transexual e deslegitimá-la como mulher, o leitor continua propagando as suas fobias na rede. E o que poderia ser uma linda história de amor, se transformou em mais uma triste manifestação de transfobia e outros preconceitos. E o pior: de todos os lados. 

Preconceito gera preconceito: Thalita que acha ofensivo um beijo LGBT em público e
Romário que não considera mulher uma mulher transexual
 

O ex-jogador de futebol e deputado federal Romário foi visto saindo de mãos dadas com uma morena depois de um show na madrugada de sábado, 14, e obrigou o paparazzo apagar as fotos, informou o jornal Extra. Nada teria tanta repercussão se, na terça-feira, 17, o jornal O Dia não divulgasse que a morena era a modelo Thalita Zampirolli, 24 anos, uma belíssima mulher transexual.

Thalita classificou o affair como “amizade íntima”. Romário alegou que a modelo era gente boa, camarada,  mas zombou que “não rolaria casamento” e que gosta mesmo é de mulher. Chateada, Thalita disse que é sim uma mulher e que, por viver em outro mundo da maioria das trans, não apoia sequer as manifestações LGBT e que considera beijos na Parada do Orgulho Gay uma falta de respeito. 

O discurso pegou mal para ele e, por sua vez, para ela.

Disposto a entender melhor a modelo e as palavras utilizadas anteriormente, o NLucon conversou com exclusividade com Thalita e deu a oportunidade para ela falar tudo o que pensa. A bela, que nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espirito Santo, e que mora no Rio de Janeiro, fala sobre a repercussão da exposição do caso, a atual relação com Romário, preconceito e movimento LGBT. Confira:

- Como você vem sentindo a repercussão da exposição de sua “amizade íntima” com o Romário?

Muitas pessoas estão me apoiando, mas outras estão me criticando, dizendo que eu aproveitei dessa amizade para ter dias de fama na mídia. Mas não é bem assim. Se eu quisesse me promover em cima de alguém, já teria feito há muito tempo, pois conheço e já saí com homens que estão em alta na mídia. Se eu quisesse armar, já teria feito isso há muito tempo. O que aconteceu foi que um paparazzo fotografou a gente – eu ainda estava de costas na foto – e o jornalista me ligou depois para conversar comigo. Eu só expliquei o que aconteceu, porque não devo nada e nem achei que teria essa polêmica toda.

- Mas você já trabalhava como modelo, tinha certa exposição e sabia que a história ia dar pano pra manga...

Eu sabia que ia gerar uma repercussão, sabia que poderia gerar uma piadinha ou outra, mas jamais que seria dessa forma. Nunca fui de expor a minha vida pessoal, mas a maneira como caiu na mídia não foi muito bacana para ninguém. O preconceito existe, sempre vai existir, mas nunca deixei que ele batesse na minha porta.  Sei do meu potencial de mulher e de profissional. Sei também que a minha família, que é a estrutura da minha vida, os meus amigos e parte do público estão me apoiando. Como ninguém sabia da minha vida pessoal e que agora ela se tornou pública, não sei como isso pode repercutir. Se vão querer saber mais do meu trabalho ou se as portas vão se fechar.

Thalita no flagra com Romário e mostrando o belo corpão

 - Como está a sua vida de lá pra cá?

Sinceramente, estou esperando por uma coisa melhor e também algo pior. A minha vida mudou muito esses últimos dias. De terça para cá, não tenho mais vida social, não podia sair nas ruas, o meu condomínio ficou cheio de jornalistas e fotógrafos, fiquei sem privacidade alguma. Só hoje é que consegui voltar aos pouquinhos ao meu ritmo. Fui à praia, fiz um treino aeróbico...

- Bom, não é de hoje que jogadores se encantam por belas travestis e mulheres transexuais. Arriscaria dizer por que vocês despertam tanta atenção nos homens?

As transexuais são muito vaidosas, se cuidam muito e acabam despertando essa atenção no público masculino em geral. Além disso, eles ficam curiosos: Como pode ter nascido de um jeito e ser uma mulher? O que mais escuto é o seguinte: “Você é mais bonita que muita mulher que nasceu mulher”.

- Romário declarou que gosta é de mulher, dando a entender que você não é uma. Como está o seu relacionamento com ele hoje?

A minha amizade e da minha parte não mudou em nada. Vejo o Romário da mesma forma, como a mesma pessoa, de um coração ótimo. Depois da repercussão, eu enviei uma mensagem, pedindo ajuda de como eu deveroa agir na mídia, pois não foi uma armação. Mas ele respondeu dizendo que eu deveria agir com inteligência, só. Eu estou sozinha, sendo que existem várias pessoas e assessores por trás dele, que o orientam. Fiquei um pouco chateada com a declaração, mas por mim a amizade continua.

 - Por outro lado, há quem disse que você também reproduziu o preconceito ao dizer que, por não viver neste mundo, não é a favor das manifestações LGBT e que não apoia sequer o beijo de um gay na rua... Não acha que pegou mal essa declaração?

Pegou mal, sim, pois muita gente veio falar comigo sobre isso, perguntando se eu levantava ou não a bandeira. Mas foi um mal-entendido, que vou deixar bem claro para você: Eu levanto a bandeira LGBT, da forma social, honesta e digna que muitos de nós vivem. Mas não apoio a vulgaridade dela e não faço parte da vulgaridade em que muitos LGBT vivem. Eu me excluo dessa parte e não quero ser reconhecida como tal. Por exemplo,  as pessoas têm que parar com essa ideia de que todas as transexuais são garotas de programa. Eu estou sofrendo com esses apontamentos agora, dizendo que eu sou garota de programa, generalizando e deduzindo só porque sou transexual. A gente tem que mudar o pensamento da sociedade que todas as pessoas são iguais.


 - Você citou na entrevista que há muito desrespeito na Parada do Orgulho LGBT. Você já frequentou a Parada? Onde viu o desrespeito?

Já fui a algumas manifestações LGBT e, antigamente, as famílias não tinham tanta participação como hoje. Hoje é uma festa, as pessoas querem curtir e muitas famílias vão assistir. Muitos vão para pedir respeito, dignidade, manifestar contra a homofobia, de forma diferenciada. Mas outros partem para este lado da vulgaridade. A última vez que fui a uma Parada foi no ano passado e vi algumas pessoas homossexuais praticamente nuas, vi pessoas transando na areia, vi pessoas se beijando na frente de crianças, idosos e famílias, agindo de forma vulgar. Só estou falando que não apoio a vulgaridade e que isso é algo que vi com os meus próprios olhos.

- Concordo que há excessos, assim como o carnaval também tem os seus excessos e muitos homens e mulheres [cis] héteros se amassam, ficam nus e transam – o que nos faz perceber que não é uma característica apenas de LGBT. O que pega é quando você coloca um beijo no meio disso tudo. Para você, um beijo gay em público é desrespeito?

Você quer saber o que eu acho de ver, por exemplo, dois homens se beijando em um shopping, com crianças e senhoras vendo? Não acho legal. A sociedade é preconceituosa e eles vão se tornar motivo de piada. Não pega bem para ninguém  e nem para o casal gay, que poderia se reservar. Mas quem quer dar, tudo bem. Eu só acho que existem lugares apropriados para isso e acho que seria um pouco agressivo para os idosos e crianças.

- Thalita, mas a questão está aí. O seu discurso de que as pessoas devem dar um beijo em locais apropriados é o mesmo que muita gente usa para te atacar. Muita gente diz que não pega bem para um jogador famoso ser visto publicamente com uma mulher transexual. Você não acha que, quanto mais as pessoas se acostumarem com um beijo gay, com o affair de uma personalidade com uma mulher transexual, a diversidade passa a ser encarada como comum, parte do ambiente, “normal”?
Sim, acho, porque nós vivemos em um mundo que está passando por um processo de mudança e, mesmo assim, há pessoas que ainda não aceitam esse tipo de relação homoafetiva. Não é que eu não aceite que pessoas homossexuais fiquem se beijando em público. O problema é ficar se esfregando, se agarrando de forma que não há necessidade. Este, sim, é um problema que temos que mudar, porque da mesma forma que um casal heterossexual faz isso e é feio, um casal homossexual se enquadra na mesma maneira. 

- Você tem convivência com homens gays?

Eu tenho amizade com gays, inclusive, o meu maquiador, cabeleireiro e várias pessoas que trabalham com moda, que é o mundo em que eu vivo, são gays. Eu tenho contato com eles e...

- E com outras mulheres transexuais?

Com outras transexuais, não. A única que conheci agora foi a Ariadna [ex-BBB], que me apoiou e escreveu um recado para o Romário. Já travestis, sim, pois no salão aonde eu vou também vão algumas travestis.

"Não acho legal um casal gay se beijar no shopping"

 - Em algum momento você teve alguma referência de mulher transexual? A Roberta Close, por exemplo, nunca foi uma inspiração?

Sempre olhei a Roberta mais como fã. Mas sempre fui de uma família de mulheres e minha maior inspiração foi a minha irmã mais velha.

- Por que muitas mulheres transexuais, depois que fazem a redesignação sexual, evitam falar sobre o passado?

Vou falar por mim. Depois da cirurgia, eu renasci, me tornei uma nova pessoa. O meu passado fica no passado e não vem mais ao caso. Eu sou uma mulher, quero ser vista como mulher e o que fui no passado fica no passado. Eu vivo o presente e sempre me vi como uma mulher.

- Para você, ser uma mulher transexual é um motivo de orgulho ou algo que você prefere esquecer?

Tenho orgulho pela pessoa que sou, por ter batalhado tanto para ser quem eu sou e conseguido realizar todos os meus sonhos. No começo, antes de a bomba estourar, eu não gostava de tocar no assunto, pois mexia muito com o meu psicológico. Mas hoje tenho orgulho de falar do meu passado. Passei por psicólogos, endócrinos, psicanalista e tinha 18 anos quando fiz a cirurgia. Sempre afirmei que era o que eu queria e que era a realização para me sentir mulher.  

- Você disse que é diferenciada porque não é garota de programa. Qual é a sua opinião sobre a prostituição no universo trans?

Não sou contra, pois cada uma escolhe o destino que quer traçar. Muitas não tiveram a vida que eu tive e uma família que as apoiassem. Para mim, a prostituição é um trabalho e nós não somos ninguém para julgar. O grande problema é quando generalizam que todas as transexuais são garotas de programa. Eu não sou, mas respeito quem é.

"Sou mulher, quero ser vista como mulher e o que fui no passado, fica no passado"

- Qual é o seu objetivo profissional?

Gostaria que as pessoas me vissem o meu lado profissional como modelo.

- Bom, é verdade que foi convidada para posar para a revista Sexy e que foi vítima de um golpe?

É verdade! Dois meses atrás me ligaram, falaram que era da revista Sexy e eu mesma negociei, pois não tenho assessor – o meu assessor de hoje é um amigo. Assinei o contrato, eles fizeram o pagamento e foi uma fraude. Eles pegaram a minha foto, que disseram que seria para a capa da revista, e jogaram na internet. Foi complicado porque eu divulguei o ensaio, todos pensaram que eu seria capa para nada... Entrei com um advogado contra essas pessoas, pois causou vários danos para mim.

- Hoje, você toparia um novo ensaio? Faria algo mencionando o futebol?

Se aparecer essa oportunidade, sim. Negociando tudo direitinho, eu faria as fotos, claro. E faria um ensaio sobre o meu time do coração. O Flamengo.

- Gostaria de deixar alguma mensagem para os LGBT que leram esta entrevista?

Quero dizer que todas as pessoas são dignas, que a beleza abre portas, mas não é tudo. A humildade, o coração e a dignidade devem estar acima de tudo. Que tenhamos respeito para sermos respeitados.

"A beleza abre portas, mas não é tudo", diz Thalita
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Marcela Ohio: A Transexual mais bonita do Mundo!


Para Marcela, a mídia brasileira se intimida com bons exemplos de travestis e transexuais
Por Neto Lucon

Dona de um rosto angelical, traços extremamente femininos e de um corpo de parar qualquer trânsito, a modelo Marcela Ohio, 18 anos, é a mulher transexual mais linda do mundo. O cobiçado [e árduo] título foi conquistado durante a nona edição do Miss International Queen, em Pattaya, na Tailândia, que concedeu pela primeira vez na história a faixa e a coroa ao Brasil. Foram 24 candidatas de 16 países, prêmio 10 mil dólares [que será usado para as próprias despesas do concurso], a futura redesignação sexual e uma exposição na imprensa asiática digna de uma verdadeira estrela.
De volta ao país, a miss recebeu o carinho do público – em sua maioria formado por LGBTT – e a repercussão do título na mídia virtual. Houve notas e fotos em vários portais, mas deu para sentir que a imprensa brasileira se intimidou com o feito histórico e, por que não,  com a hipnotizante beleza de Marcela. Afinal o concurso tailandês representa o Miss Universo e, digno de comparação, faz 45 anos que uma mulher cisgênero brasileira não fatura uma faixa – a última vez foi com a baiana Martha Vasconcellos, em 1968.
Nascida em Andradina, interior de São Paulo, Marcela é a filha caçula de três irmãos. Na infância, enrolava camisetas na cabeça e imaginava que elas eram os seus cabelos. Na adolescência, usou a arte da dança e da performance para se vestir com roupas femininas. Logo, colocou um mega hair e assumiu a identidade trans. Aos 17, foi convidada pela ativista e descobridora de belezas Majorie Marchi para participar da primeira edição do Miss T Brasil, em 2012, que abriu portas para o tradicional Miss International Queen. Agora, ela revela tudo em entrevista exclusiva [e aguardadíssima] ao NLuconConfira! 

- Com apenas 18 anos, você é a mulher transexual mais bonita do mundo. De que forma o concurso mexe com a sua autoestima?
Estou muito feliz pelo título, mas não posso negar que, ao mesmo tempo em que me sinto bonita e feliz com o meu corpo, acabo ficando mais exigente comigo mesma. Quando vejo uma gordurinha aqui ou ali, fico um pouco insegura, acho que estou ficando gorda e penso até em uma lipinho [risos].  Mas olha, não é obsessão, pois não faço academia e a minha alimentação não é das melhores [risos]. Controlo mais quando vejo que estou engordando, daí dou uma maneirada, boto freio. Dou sorte porque meu metabolismo é acelerado. Esteticamente, cuido mais da pele e do cabelo. Hidrato bastante, vou às clínicas de estética e faço vários tratamentos...
-Você sempre foi elogiada pela beleza? Como era o seu visual antes da transição?
Bom, sempre fui bastante elogiada pela aparência, pelos meus traços femininos e posso dizer que chamava atenção antes mesmo da transição. Falavam que eu era andrógina e que o meu rosto era bastante feminino.  No período escolar, era muito confundida com uma mulher [cis] lésbica, pois me vestia feito uma sapatãozinha: com calça larga, tênis all star, tinha um cabelinho um pouco comprido. Os meninos sempre me paqueravam, mas nada que possa ser comparado depois da transição, né? Geralmente me abordam até quando estou com o namorado do lado.

"A minha miss preferida é a Natália Guimarães, segundo lugar no Miss Universo"
-[risos] Ser miss sempre foi um sonho de criança?
Na verdade, o meu sonho sempre foi ser modelo e seguir essa carreira. Quando a Majorie Marchi [organizadora do Miss T Brasil] me convidou pelo Facebook, primeiro não acreditei muito que pudesse levar o título, mas depois senti que essa vontade foi despertada dentro de mim. Assisti a vários vídeos de concursos de beleza, pesquisei várias misses e tentei adequar o desfile de modelo com o desfile de miss. Afinal, ser mis exige outro tipo de gingado, outro propósito, mais simpatia, sorrisos e personalidade. A minha miss preferida sempre foi a Natália Guimarães [Miss Brasil 2007 e vice-campeã no Miss Universo 2007], então vi vários vídeos dela e me inspirei. Venci o Miss T, realizei esse sonho e fiquei sabendo do Miss International Queen, que passou a ser outro sonho.
- É verdade que você quase não foi à Tailândia porque de última hora não havia conseguido a passagem para o concurso?
Existiram vários fatores que quase impediram a minha ida à Tailândia. Primeiro, porque ocorreu um problema com a documentação e o meu passaporte de emergência não chegou a tempo da data que estava comprada a passagem. Então, no meu lugar, acabou indo a Roberta Holanda [segunda colocada do Miss T Brasil 2012] . O problema é que o patrocinador não cumpriu o combinado e não comprou a outra passagem para eu ir para a Tailândia. “Simples” assim! Olha, foram dias difíceis, de muita correria, em que eu fiquei muito nervosa, com medo de não dar certo e que vi tudo ir por água abaixo... Acabou que o meu namorado comprou a passagem para eu ir à Tailândia. 

Também tive um probleminha com o vestido, que não ia sair e acabou saindo, sem grandes problemas. E, no meio disso tudo, descobri que além do vestido de gala e do traje típico, que foram feitos pelos maravilhosos Henrique Filho e Michelly X, eu precisava de mais um vestido. Chegou um momento em que eu mesma pensei em desistir e que todos à minha volta pensaram que não daria certo... É por isso que dedico essa faixa e essa coroa ao meu namorado, que foi quem mais me ajudou, aos meus pais, à Majorie, à Michelly, ao Henrique e a todo mundo que me apoiou diretamente e torceu por mim.
- Como foi a viagem à Tailândia?
Embora eu tivesse me preparado durante um ano, cheguei lá e vi uma cultura muito mais diferente do que imaginava. Não falo inglês fluente e eles não falam um inglês que dá para entender direito. Fiquei perdida no aeroporto, não entendia tailandês e as pessoas só faziam mímica para mim [risos]. Liguei chorando para o Brasil e já comecei a sentir saudades. A sorte é que um brasileiro me ajudou, preencheu a ficha e deu tudo certo. Depois veio a fase de adaptação da cultura diferente e, claro, da comida. Muito frango com legumes, meio apimentado, meio açucarado e muitos frutos do mar... Já nos dias que fiquei lá no hotel foram mais tranquilos, pois fiz várias amizades.

"Na Tailândia, a travesti e a transexual não são vistas como prostitutas"
- Chegou a fazer amizade com as demais misses? De quem se aproximou mais?
Fiz amizade com a Miss Indonésia, Miss Austrália e Filipinas. Também ficava muito com a Roberta [Holanda, segundo lugar no Miss T Brasil]. Também havia outra Miss Brasil concorrendo com a faixa brasileira e outra miss do Brasil que estava com a faixa da Alemanha. Depois do concurso, me aproximei bastante da Miss Estados Unidos e da Tailândia, pois estávamos sempre juntas para as entrevistas. Ficamos bem próximas.
- Na Tailândia a transexualidade é encarada com muita naturalidade como é passado para o Brasil?
Não é que eles aceitem mais ou que não ocorra preconceito, mas a visão que eles têm sobre a trans é diferente. Quando alguém fala que é travesti ou transexual, ninguém associa diretamente à prostituição ou à marginalidade. Lá,  o mercado de trabalho é mais aberto e vemos com muita frequência trans trabalhando em shopping, hotéis, como advogadas, em todos os campos. 

Porém, ao mesmo tempo em que eles dizem não há preconceito, a Miss que ficou em segundo lugar [a Miss Estados Unidos] foi tratada como lady boy [nome que se dá às garotas de programa do local] e ficou bastante chateada. Ela chegou a mencionar o ocorrido em um programa de televisão, disse que nunca havia passado por isso e os apresentadores ficaram bem sem graça. Quanto a mim, não passei nenhum tipo de constrangimento. Muito ao contrário, todos os tailandeses sabiam do concurso, conheciam as candidatas e muitos diziam que torciam pelo Brasil. Fui muito exaltada por todos.
- Você sabia que era a favorita ao título?
Tinha a consciência de que era a favorita, sim, porque eles deixaram transparecer em alguns momentos. Por exemplo, quando íamos aos canais de televisão, sempre me chamavam: “Cadê o Brasil? Cadê a número 16?”. E algumas ficavam irritadas, pelo meu nome começar a ser repetido muitas vezes e reclamaram de que eu era a preferidinha do país. 

No começo, fiquei feliz por esse reconhecimento espontâneo e por essa atenção toda, mas depois fiquei insegura. Pensava que, já que algumas estão reclamando, eles não iriam me dar o título, pois daria briga, seriam julgados, iriam falar que teve máfia. Em uma entrevista, uma das meninas reclamou até do tradutor, alegando que ele estaria traduzindo de maneira diferente do que eu falava.

"Ser miss é sorrir até quando estamos com fome ou verdadeiramente tristes"
- Quando você escutou o seu nome como vencedora, o que passou pela sua cabeça?
Na hora, não caiu a ficha. Fiquei meio assim: “Será que sou eu mesmo a Miss” [risos]. Fiquei sem reação e só com o tempo foi caindo a ficha. Quando eu já estava com a faixa, com a coroa e depois, ao chegar ao hotel...
- O que aconteceu depois de o concurso terminar?
Um jantar com todas as misses vencedoras do Miss International Queen, da primeira até eu. A segunda e a terceira colocada também participaram desse jantar e as outras voltaram para o hotel, que foi ao lado desse restaurante. Mas, vou ser sincera, eu estava muito cansada com toda a dedicação, muito esgotada com tudo, que acabei participando do encontro e logo fui dormir.
-O que as pessoas não sabem sobre os concursos de miss e que você, depois de participar dos maiores, gostaria de informar?
Muitas trans vão participar com a ilusão de que terão uma vida de glamour... Mas adianto que o glamour do palco é uma ilusão. É um trabalho extremamente cansativo, em que se acorda muito cedo e que não é fácil vencer. Acordava entre 3h e 4h da manhã para começar a me arrumar e estava pronta às 6h para um dia repleto de atividades. 

Além disso, temos que ralar, batalhar e sorrir sempre.  Sorrir até quando estamos com fome ou quando estamos verdadeiramente tristes. Tive vontade de desistir diversas vezes, mas resisti. Você pode reparar que , quando eu estou com a coroa do Miss International Queen, estou abatida, o meu olho estava vermelho e meio caído, muito cansada. Cansada, mas feliz, né? [risos]. Pensei nas meninas que se dedicaram e que não conseguiram...
- Ser bela livra você dos preconceitos?
Não, imagina, o preconceito é igual. Pode ser a mais bonita, o preconceito vai existir e aparecer da mesma maneira. É só prestar atenção quando passamos pela rua. Eu passo e escuto: "Olha ali, é um...". Em outros lugares apontam como uma maneira de querer desqualificar a mulher que sou. É complicado, já sofri preconceito, mas não fui alvo direto de preconceito. Nunca sofri uma agressão física, por exemplo.
- O que achou da visibilidade que a mídia brasileira deu à sua vitória no Miss International Queen?
Sinceramente, foi bem longe da visibilidade que eles dariam se uma mulher [cis] brasileira tivesse ganhado o Miss Universo. O Brasil e a mídia ainda se sentem intimidados para dar uma visibilidade positiva para as trans. Sei que os grandes portais divulgaram o concurso, falaram que eu ganhei, exatamente como ocorreu com o Miss T Brasil 2012, mas foi superficial se considerarmos a importância do evento. 

Depois do concurso, voltei ao Brasil e nada mais se falou, não ocorreram muitas entrevistas, não houve interesse em dar continuidade nesse trabalho. Acredito que isso ocorre, primeiro por eu não ter um grande nome, mas principalmente porque em geral  a mídia está acostumada a cobrir o estereótipo do grupo, dar visibilidade para o lado da marginalidade, da prostituição, da fofoca. Acabam que não sabem o que fazer quando temos algo novo para falar.

Na Tailândia, por exemplo, eu era abordada em shopping, todo mundo sabia quem eu era, pois a cultura é um pouco diferente... Lá, o concurso tem uma popularidade bem forte e equivale ao Miss Universo. Hoje, penso em voltar à Ásia, pois lá haveria mais trabalhos e, como já tenho um nome e visibilidade, seria mais fácil fazer, seguir e manter a minha carreira. Eu amo o Brasil, mas não vou esperar muito para os convites.

"Só posaria nua se já tivesse feito todas as cirurgias"
- Acredita que, assim como a Lea T, precisamos que a mídia internacional dê visibilidade para valorizarmos uma modelo brasileira?
Penso que sim, mas várias combinações de fatores também são importantes. A Lea, como você citou, foi apadrinhada pelo Riccardo Tisci, fez Vogue e, além disso, tem a importância do nome do pai dela, o Toninho Cerezzo, que foi um grande jogador brasileiro. Então, teve algo diferente que ajudou a deixar o nome dela em evidência. Mas acredito que, se conseguir fazer carreira internacional, as portas do Brasil estarão mais abertas.
- Com a faixa e a coroa do Miss International Queen, o que você pretende agora? Vai seguir na carreira de modelo?
É claro que espero que abra espaço para a minha carreira de modelo, que haja mais trabalhos e que eu consiga viver do meu trabalho. Mas  meu objetivo é ser reconhecida pelo meu trabalho e, por meio dele, trazer uma visibilidade diferente para as trans. Uma visibilidade que não é só a minha, mas que a sociedade infelizmente não está acostumada. Afinal, adoraria mostrar a relação que tenho com a minha família, falar do início da minha carreira, que começou como miss - assim como muitas artistas da televisão começaram. Quero poder lutar pelas causas sociais, a favor do meio LGBT e contra a transfobia. Quero usar o meu nome e a minha imagem para ajudar no que for preciso.
- Pedi para a ativista Aleika Barros, que foi a primeira brasileira a ficar entre as finalistas do Miss International Queen, em 2007, fazer uma pergunta: “De qual maneira você pretende representar um grupo que sofre tantas discriminações? Você se sente preparada?".
Sinto-me preparada, sim. Sei que vou passar por muitas barreiras e por preconceitos, mas estou disposta a lutar por todos os tipos de realidade e levar informações importantes para a sociedade. Afinal, presto solidariedade a todas as trans do Brasil, pois sei que a situação de uma travesti ou de uma transexual não é fácil e que a maioria não tem culpa de estar jogada na marginalidade.

O preconceito e a exclusão começam logo da família, que geralmente não aceita e expulsa as trans para fora de casa. Como a maioria é menor de idade, não consegue terminar o estudo, pois há muito preconceito nas escolas. E, sem escola, sem o apoio familiar e sem capacitação para um emprego, muitas vão procurar a rua para se prostituir e sobreviver. É tão difícil que nem mesmo os salões de beleza, que é tido como uma profissão mais fácil para se entrar, aceita profissionais trans.
- Qual é o principal problema e a solução na vida de uma trans?
Bom, o apoio ou a exclusão da família são determinantes para o futuro de uma trans. Ter a aceitação e o respeito dos pais é maravilhoso, pois  se a nossa mãe e o nosso pai estão do nosso lado que se danem os outros. A nossa autoconfiança fica maior, a gente se livra de muitas marcas desnecessárias e ganha mais força para enfrentar o preconceito de fora. Acredito que, para a realidade atual mudar, deveria haver um trabalho maior com as famílias LGBTs. Pois é dentro de casa que muitas sofrem agressão e é por meio deste preconceito que vários outros se desenrolam automaticamente: na escola, no mercado de trabalho, na prostituição...

"Pior preconceito é de dentro de casa"
- Hoje, estão querendo despatologizar as identidades trans, que continua nos catálogos de doenças do DSM - Manuel Diagnóstico  e Estatístico das Doenças Mentais - e a CID - Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, da Orgnalização Mundial. Concorda?
Concordo que deva despatologizar, pois a transexualidade é algo natural, está na pessoa, vem de dentro, nasce ou, como dizem, está na alma. Não concordo que seja doença, pois é uma característica da própria pessoa. Acredito que todos os problemas psicológicos que possam existir estejam mais relacionados ao resultado do preconceito que o grupo sofre. A doença é o preconceito, é a transfobia.
- Você disse em uma entrevista que não sentiu dificuldades para assumir a identidade de mulher transexual... Como foi o processo e a reação das pessoas próximas?
Na escola, foi algo bem natural, pois os meus colegas foram se acostumando. Eu era bem feminina, bem andrógina, era assumidamente homossexual e a turma de amigos sempre foi a mesma. Quando aumentei o cabelo com mega hair, todos encararam com naturalidade, mas não foi bem isso o que aconteceu quando cheguei em casa... Para os meus pais, foi um baque, um choque. 

Meu pai não aceitou de imediato, queria até tirar o meu cabelo e eu respondi: "Não vou tirar nada, vou continuar do jeito que estou e, se vocês não me aceitarem e me agredirem, eu vou para a polícia". A partir desse dia, não falaram mais nada. Aos poucos, foram digerindo a situação, até que eles passaram a me aceitar completamente.  É importante dizer que o meu pai nunca me desrespeitou e me deu até o silicone de presente para participar do concurso [Miss T Brasil, em 2012]. Hoje, a nossa relação é amorosa e é extremamente importante. Quando venci o Miss, eles ficaram super contentes, parece até mais do que eu [risos].
- Você disse que se assumiu primeiramente homossexual. Como foi o seu processo de descoberta?  Conta como foi a sua infância...
Se eu disser que a minha infância foi sofrida, estarei mentindo. Foi uma infância maravilhosa! Mas tenho que falar que, por conta da transexualidade, passei momentos de muita confusão. Desde sempre pegava roupas da minha mãe e, com três anos, já adorava maquiagem, gostava de brincar de boneca e das atividades consideras de meninas. 

Lembro até que colocava uma camiseta na cabeça e ficava brincando que ela era o meu cabelo [risos] Ou seja, até a minha adolescência já sabia que tinha alguma coisa diferente dos outros meninos, só não sabia o que era. Até que, quando dançava em Andradina, conheci uma trans e comecei a me interessar por esse universo. Era me contou o que era, o que acontece e as respostas começaram a surgir. A partir daí, comecei a vestir roupas femininas para ir a shows sertanejos e a churrascos. Mesmo apenas montada, as pessoas me viam como mulher.
- Durante o concurso, o seu namorado deu várias declarações bem fofas sobre você. Onde se conheceram e como é a relação de vocês?

Nós nos vimos na balada e ficamos aquela noite juntos - sem ele saber que eu sou uma mulher transexual. Até que uma amiga em comum contou para ele sobre mim e ele lidou bem. Depois, me convidou para o cinema - assistimos Se Beber Não Case 3 - e ficou rolando mãozinhas, namorinho e nada de assistir ao filme [risos]. Logo ele me pediu em namoro e na semana seguinte estávamos morando junto. Foi tudo muito rápido e está ótimo. Faz seis meses que estamos juntos.
Marcela Ohio no site da Playboy como a Garota do Espelho; acima, editorial de Roberta Brandão
- A revista Playboy já incluiu uma foto sua em um concurso no site oficial... Como foi?
Foi um concurso em que elegiam as "Gatas do Espelho". E, quando inaugurou, fui uma das primeiras selecionadas. Mas, veja só, não fui eu quem enviou a foto e só me dei conta depois da repercussão. Várias pessoas me adicionando, vários meninos vindo atrás de mim, e depois me contaram sobre esse concurso. Ah, fiquei feliz de ter a beleza feminina e trans no meio de outras mulheres comuns.
- Assim como a Roberta Close, Thelma Lipp e a Ariadna, posaria nua?
Posaria se já tivesse feito a cirurgia [de redesignação sexual, popularmente conhecida como mudança de sexo]. Mas atualmente faria algo mais artístico, sem estar totalmente nua. Também acredito que não posso usar o título de Miss International Queen, nem a faixa e nem a coroa no ensaio. Tudo o que tenho que fazer no Brasil e que possa gerar algum comentário eu tenho que falar e pedir um posicionamento deles. Só posso estar envolvida em trabalhos e notícias positivas. Nada de festas, baladas, tudo direitinho... [risos]. 
- Só um adendo. A Roberta posou algumas vezes para a Playboy e, na primeira, ela não havia feito a redesignação sexual... Não mostraram nada, mas foi antes da cirurgia...

Sério? Não sabia disso. Então, se for algo assim, sem mostrar nada, eu acho que seria mais viável. Mas tudo deve ser bem negociado, né?
- Com certeza! E, hoje, qual é o seu sonho?

É ser uma angel da Victoria's Secret ou fazer uma participação no desfile. Afinal, nem todas que participam são angels, algumas só desfilam... E, se eu conseguisse algum dia, fazer parte deste desfile, seria um sonho realizado. Mas também tenho o sonho de ser reconhecida pelo meu trabalho e ter dele o meu sustento. Quero o que toda mulher quer: poder trabalhar, comprar as suas coisas, viajar, ser independente e feliz. E o que todo e toda LGBT quer: viver em um mundo com mais respeito e aceitação. 
"Meu pai é que me deu as próteses de silicone"/ foto: Roberta Brandão.
"A transexualidade é algo natural, está na pessoa"
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Entrevista Maite Schneider


A atriz, depiladora, webdesign e ativista Maite Schneider sabe as dores, as pelejas e as delícias de ser desbravadora, pioneira e mulher transexual há 41 anos. Nascida em Curitiba, capital do Paraná, soube desde cedo que se identificava com o universo feminino - embora não houvesse referências de outras mulheres transexuais [além de Roberta Close] e tampouco informações sobre o assunto [pelo menos na ponta dos dedos, como o Google, Facebook, Twitter e afins]. 

Percorreu um caminho solitário, iluminou por si só a existência, fez loucuras com o corpo que vestia [experiências traumáticas num período em que sequer era possível esperar a criticada fila do SUS] e sofreu violências [morais e físicas] de quem a observava. Por fim, com muita coragem e sensibilidade, conseguiu transformar as dores e cicatrizes em arte, em informação e em gritos de militância: um deles, na charmosa Casa da Maite, um site com clipping de notícias, colunistas, ajuda psicológica e jurídica. 

Atriz e diretora, também está envolvida em projetos transgressores. Interpretou Maria [a mãe de Jesus, e não a Madalena] em uma peça, e Deus em um editorial de moda [antes mesmo de Lea T]. Falou sobre a sua vida na novela Viver a Vida, em 2010, e quase entrou para o BBB11. Recentemente, esteve em um filme ao lado de três atrizes transexuais. E, claro, está sempre atuante em campanhas e manifestações políticas que acredita.

Com grande parte dos seus sonhos realizados, como a mudança dos documentos e a operação de redesignação sexual, Maite poderia muito bem viver no anonimato - como a maioria. Porém, investiu na visibilidade de sua condição e se tornou um exemplo para o grupo. Ela agradece, mas diz ser um anti-exemplo. Concordamos mais com Jô Soares, jornalista que a entrevistou em 2011: "É uma pessoa vitoriosa e uma mulher corajosa". Também uma das mais importantes ativistas do cenário LGBT brasileiro: 

Confira entrevista exclusiva!

- Atriz, poetisa, escritora, depiladora, web design e militante... Quais dessas funções ocupam maior parte do seu tempo e quais delas traz maior prazer? 

Ai, que difícil! Varia muito de época, pois às vezes estou focada no teatro, com os ensaios, apresentações... Em outras, como agora, estou focada em um longa. E a clínica e a militância ficam encaixadas entre essas funções. O único trabalho que eu mantenho sempre é o site. É um filho, que faço há 15 anos e que me proponho a continuar – sempre! Mas gosto de tudo e encaro cada função com a sua peculiaridade. Amo teatro, pois amo estar em cena e tenho a sorte de trabalhar com diretores bem legais. Porém, não dá para viver de teatro em Curitiba, infelizmente. O cinema não é um verdadeiro caso de amor, pois não é a minha área, mas vou de curiosa, pois envolve arte e estou aprendendo a achar seus encantos e paixões. Agora, a depilação, além de profissão, é um bem que eu faço para a humanidade, pois detesto pelo [risos].

- [risos] Por conta dessa agenda cheia, ficamos meses marcando esta entrevista. Você consegue encaixar a sua vida pessoal em meio aos diversos trabalhos?

Claro! O meu foco é a minha vida pessoal e procuro trabalhar principalmente com aquilo que tem relação comigo. Não distingo o meu trabalho da minha vida, pois quando recebo uma proposta tento sempre unir o útil ao agradável. Quando criei a Casa da Maitê [site e clínica de depilação masculina], por exemplo, quis que ela se tornasse uma casa para não ficar tão distante de mim e das pessoas. Quando não estou bem, digo que não estou boa e tento seguir o meu ritmo. É claro que tenho responsabilidade, seriedade na profissão, mas já aconteceu de eu não estar bem e, por exemplo, desmarcar uma cliente de depilação, que voltou em outro dia. Portanto, quem me ver em um projeto, já sabe que eu estou 100% envolvida nele.

Trabalhos de Maite na moda, cinema e teatro

- Você disse que o projeto atual é um longa. Pode adiantar alguma novidade dele pra gente? 

O título provisório é “As Feras”, é dirigido por Serge Barroso e Wesley Conrado e fala da história de uma mãe, em que eu interpreto, e a sua filha de 17 anos, que eram milionárias, mas que atualmente sobrevivem da pensão do ex-marido, moram em um buraco e ainda acreditam que são divas [risos]. Quando o ex-marido dela diz que está em outra relação e que não vai mais depositar o dinheiro, elas saem enlouquecidas na rua com um revólver e passam a assaltar igrejas, matar e a mãe acaba cafetinando a filha... É um filme muito bacana de uma turma de 60 pessoas, das mais variadas áreas, que se formaram em Cinema na FAP [Faculdade de Artes no Paraná]. Deve estrear no fim de 2014.

- É mais uma personagem que foge do óbvio. Lembro que em sua estreia você chegou a interpretar a Maria, mãe de Jesus, e que recentemente foi Deus para um trabalho de modelo. Como repercutiram esses ousados trabalhos? 

Curiosamente, esses dois trabalhos foram do Alexandre Linhares, que trabalhou no teatro e, depois, se tornou designer de moda.  Na peça, ele me convidou e disse: "Maria engravidou virgem do Espírito Santo, então uma transexual também poderia engravidar". Eu achei o máximo, mas foi um boom polêmico, pois uma das Assembleias falou mal da peça em uma reportagem e disse que faria até uma manifestação no dia da apresentação. Acabou que todos os ingressos foram vendidos e eles, que fizeram toda a divulgação espontânea, nem apareceram por lá [risos]. Já, na grife, as pessoas também acharam um desrespeito e abarrotaram o site da Veja. Falaram mal, mas nem se deram o trabalho de ver o que se tratava, pois não era ofensivo. Eu representava Deus como uma unidade cósmica.

- Incomoda o título de atriz trans?

Não, porque hoje em dia pouca coisa me incomoda - inclusive me chamar de Alexandre não me incomoda, desde que não seja de maneira pejorativa. Também não me sinto ofendida quando falam que eu sou travesti, pois a referência que eu tenho hoje da terminologia e da vivência  é positiva. É um processo de maturidade, contexto e foco.

- Você tem DRT de atriz, já estrelou inúmeras peças de teatro, esteve em filmes... Acha que a televisão, embora tenha alguns casos, ainda não está preparada para uma atriz, que é transexual? 

Mas quem disse que não tem trans lá? É lógico que tem. Acredito que não tenha trans públicas que trabalhem e que comprem essa ideia. Mas com certeza existem trans lá dentro, que já passaram pelo processo há muito tempo e que sabem que, se falarem [sobre o passado], podem enfrentar dificuldades. Para mim, essa dificuldade é pior porque tenho uma vida pública e militante. As pessoas acham que estarei com a Constituição embaixo do braço, como se fosse uma evangélica ao contrário, só que com a Constituição [risos]. É claro que milito quando vejo determinada cena de preconceito, quando alguém manda o negro sair do elevador e ir no de serviço, mas nunca vesti uma camiseta 100% trans.  É curioso esse cenário no Brasil porque a militância não é vista com bons olhos pela mídia, ao contrário de outros países. A Angelina Jolie, por exemplo, é reverenciada pelo trabalho de militante, mas aqui ela seria vista como barraqueira.

Maite acredita que várias atrizes transexuais já estão figurando na telinha da tevê: "Elas só não são públicas"

- E por qual motivo não temos essa representatividade trans nas novelas? A arte não deveria ser mais aberta com as artistas e a diversidade?

Temos artistas competentes, como a [Maria Clara] Spinelli, que já ganhou prêmio [no cinema, pelo filme Quanto Dura o Amor?]. Mas isso tem que partir do diretor, autor e roteirista. O Miguel Falabella já poderia ter colocado há séculos uma trans, já que ele é uma pessoa acessível e que traz essa possibilidade em seus trabalhos. Agora, talvez seja uma limitação da emissora ou dos patrocinadores. No teatro, por exemplo, um diretor disse que eu jamais poderei fazer Julieta, embora o Romeu seja feito por um gay. Já houve peças em que o patrocinador, após ver o meu nome no elenco, dizer que pagaria, mas que não queria o nome da empresa no material.

- A maioria das mulheres transexuais vive no anonimato e prefere renegar o passado depois da cirurgia de redesignação sexual. Por qual motivo você sempre bateu na tecla da visibilidade trans?

Sinceramente, não tive escolha. Quando comecei, há 15 anos, não havia muita opção na internet, só existia a BBC do Mix, um chat, não tinha Google, não existiam livros ou teses acessíveis sobre o tema. A única referência era a Roberta Close, que dava entrevistas na televisão, mas que vivia em um mundo diferente, de glamour... Ao mesmo tempo, quando passavam os debates no programa da Sílvia Poppovic, as meninas davam o depoimento de costas, com voz de pato, como se ser transexual fosse uma coisa suja, maldita, errada. Até entendo que era para preservá-las, mas parecia que era errado. Então, quando criei a Casa da Maitê não quis ficar de costas, quis ficar de frente. Decidi criar o site depois de teclar com várias pessoas no chat e elas sempre me perguntarem as mesmas coisas. Para facilitar, escrevi todas as dúvidas na página e, a partir delas, eu conversava sobre outros assuntos. Acabei sendo a única que falava de frente e de maneira bastante tranquila. Para mim foi ótimo, pois, me conhecendo, fui conhecendo outras pessoas.

- Em nenhum momento pensou em acabar com a Maite e passar a viver como mais uma mulher? 

Quando fui trocar o nome dos documentos, a [jurista] Maria Berenice Dias perguntou se eu não queria usar outro nome feminino, tirar as fotos do meu site, ser Maria... Naquele momento, cogitei. Na época, estava namorando uma pessoa que não subia na empresa, mesmo tendo todos os pré-requisitos e que descobrimos posteriormente que o motivo era por estar comigo e ter essa condição pública naquela empresa familiar. Então, pensei que havia deixado de ser uma questão minha, particular, para ser algo que afetava outras pessoas. Além disso, achava que já havia feito a minha parte para o grupo...

- E o que te fez continuar nessa caminhada? 

 A transexualidade é uma qualidade inerente e quem gostar de mim vai ter que gostar do jeito que eu sou. Mas vou tentar explicar porque continuei: Fiquei até os 23 anos sem sair de casa, não queria, não conseguia. Tinha medo das pessoas por já ter sofrido dois casos de violência, com exames de corpo de delito, hematomas e o descolamento do nariz de tanto apanhar. Por mais que eu tivesse muita sorte, que a minha família estivesse do meu lado, foi difícil, não foi algo como "ai, que delícia, sou menina e vamos lá". Estava na dicotomia entre homem e mulher e achava que passaria a vida na marginalidade, me entupindo de hormônio, tendo que lutar contra a sociedade e não queria ser mártir ou a salvadora. Quando o médico falou sobre a cirurgia, disse: "coloca um cérebro que converse com o meu corpo". Não tive paz e neste período tive dois relacionamentos afetivos com casos de violência... Foram anos e anos de terapia. Comecei a me reerguer quando vi outras pessoas passando por aquilo e que eu era uma felizarda por ter uma família como a minha. Comecei a fazer militância e estar em projetos e palestras que achava legal. E percebi que isso era importante, que as pessoas me escreviam contando as suas dificuldades e que eu poderia ser bem mais útil. Eram meninas dizendo que apanhavam, que não conviviam bem com os pais, que eram vítimas de preconceito... E eu fui conversando, ajudando e percebendo que o trabalho de formiguinha tinha resultado.

Trabalho de João Evangelista Souza

- A Casa da Maitê é o maior site voltado para o grupo trans e certamente você deve ser bombardeada por muitos pedidos de ajuda e dúvidas. Consegue se envolver com os casos? 

Me envolvo com todas as dúvidas, pessoas e histórias, porque tudo é muito pessoal. Recentemente, estive próxima de uma menina de uma cidade pequena do Nordeste com quem eu trocava e-mails e que dizia que a família era preconceituosa, que havia muita violência e estupro, inclusive feito pelo próprio pai. Ele dizia "que ser mulher era se submeter àquilo". Bom, conversamos durante seis meses e eu chegava a ligar para ela, que sempre chorava muito. Até que ela parou de mandar e-mail, ninguém mais atendia os meus telefonemas e eu recebi um e-mail da mãe dela, dizendo que ela havia se matado. Poxa, fiquei pensando: Será que eu não poderia ter feito mais coisas por ela? Será que era mesmo a mãe dela ou era ela que entrou em uma crise e quis acabar com a conversa? Então, não tem como não se envolver.

- Que triste. Me conta uma experiência de ajuda positiva...

Tive contato um transexual masculino, que conheceu a minha sobrinha, de 12 anos, e que a minha irmã chegou dizendo que os dois estavam tendo um caso lésbico. Chamei a minha sobrinha para vir em casa, coloquei um documentário sobre a minha história e disse: "Eu não acho justo eu entrar na sua vida sem que você entre na minha". E ela me contou que ele era um amigo, que gostava de conversar e que ele era um piá [homem]. Eu chamei ele  para vir em casa e ele apareceu com a mãe, uma advogada, que contou que desde cedo ele tinha excesso de testosterona, que já usava faixa no peito e que tinha o corpo todo tatuado aos 11 anos... A minha irmã, que é psicóloga, separou os dois e, tempos depois, ele apanhou dos próprios inspetores de alunos. Entramos com um processo contra o colégio e demos todo o apoio para ele. Hoje, ele  tem 16 anos, me liga, traz a namorada nova para eu conhecer e o mais legal é que ele, que só tirava nota baixa, passou a ser um dos melhores alunos. Já fez, com a autorização da mãe, a retirada dos seios. Aos 18, vai fazer a histerectomia. Sabe, eu não tive isso, mas acho legal e importante fazer parte de outras realidades, com menos sofrimento, com menos dor.

- Como é ser exemplo para o grupo? 

As minhas experiências não são bons exemplos, são loucuras. Não quero ter uma seita de Maitês, pois sou mais um anti-exemplo. Já testei muita merda, já fiz muita cagada no meu corpo tentando me operar. Sabia que silicone líquido fazia mal e fui lá, com a bombadeira drogada, aplicar. Já fiz merdas com hormônios, testes com o meu corpo... Mas, por ter essas experiências, aprendi e sei falar dos outros caminhos...

- Você venceu uma dura batalha para conseguir a cirurgia de redesignação sexual [popularmente conhecida como mudança de sexo]. Ela muda em quê na vida de uma mulher? 

Para cada pessoa muda alguma coisa. Mudou muito para mim porque eu não era uma pessoa que tinha vínculo com o meu corpo. Não gostava, não limpava e tive até problemas, como um início de câncer peniano. Mudou porque, como poderia ser uma pessoa sexual se não me sentia tranquila em me tocar? Nem sabia o que era trans, mas tinha um caso de ódio e tentei suicídio aos 11 e aos 15, achando que eu tinha um problema e que teria que acabar com esse problema. Poderia ter um buraco para fazer xixi, mas não queria aquilo. Tive uma série de erros e fui atrás de eu mesma fazer. Vale lembrar que não existia esse bando de hospitais fazendo, era outro mundo. Hoje, reclama-se de uma fila de 2 anos, mas e antigamente, que não tinha fila alguma?

- Mas o que muda definitivamente na vida prática? 

 A cirurgia é vendida como um pote de ouro, mas o que muda mesmo é o olhar de você sobre você. O olhar do outro, da sociedade, sobre você não vai mudar com a cirurgia. Se o outro te via como mulher, vai te ver como mulher. Se o outro te via como traveco, vai continuar te vendo como traveco.  É por isso que muitas se escondem e vivem uma vida infeliz, com medo de serem "descobertas". Várias colunistas do meu site me escrevem pedindo para tirar do ar os textos e que não querem mais contato comigo. Tem uma que foi morar na Europa, vive um casamento e ficou super infeliz quando um amigo, que não sabia nada sobre o passado, comentou que a boca dela era meio de homem. Na verdade, as pessoas acham que a cirurgia é o grau final e faz parte do processo evolutivo para ser mulher. É vendida como uma maravilha e o caminho para a felicidade. Pode realmente ser o caminho, quando é o caso da pessoa. E esta é pergunta que ela deve fazer para ela mesma. Não é um médico e nem o meu site que vai dizer quem ela é. É só a própria pessoa. Tem gente que acha que só porque é passiva é transexual. Tem gente que acha que só porque estuda não é travesti. E tem quem acredita que é transexual só porque é bonita. Mas você pode, sim, ser transexual e prostituta. Pode ser travesti e ser passiva e ser bonita. Tudo pode, mas a única pessoa que pode saber quem você é, é você.

Nos curtas Palmeyra e  Quatro Fíntchy

- O que você teve que descobrir sozinha depois da cirurgia? 

Na verdade, você tem que aprender a se descobrir.  E começar a descobrir aos 30 o que uma menina descobre aos nove . É diferente uma punheta de uma siririca e é diferente uma siririca de uma neovagina, assim como é diferente cada vagina. E ninguém te explica, só falam: "dilata, senão fecha, dilata, dilata". Parece que a única preocupação é que o canal não feche. E não é bem assim. Eu estava com o discurso da mídia, que é lindo, e com as palavras de pessoas como a Roberta Close, que só falavam coisas lindas. E eu estou indo para a minha 14ª cirurgia. A última, eu espero!

- Você está prestes a completar 41 anos. Como se sente? 

Fisicamente me sinto super bem. Devo fechar o ciclo das cirurgias e me sinto com tudo, inteirona, gostosa, sexy. Estou empoderada de todas as coisas e vivo a plenitude de tudo isso. Quis viver os 20 e não pude, quis viver a infância e não pude, então os quarenta anos é a primeira idade em que eu posso viver plenamente. É claro que dá uma câimbra que eu não tinha, que fico cansada às vezes e que não fico na balada até altas horas, mas estou vendo tudo com mais lucro que revés.

- Hoje, qual é a sua luta? 

 A minha luta é contra o discurso único, é contra a determinação "Ser trans é... ".  Sou contra as definições, pois, mesmo que eu mande um link geral falando sobre elas, vão surgir novas questões. Infelizmente, os grupos antigos de militância querem um discurso único, da ovelhinha seguindo a cartilha. Mas, em minha opinião, devemos ser mais libertadores. O [escritor e jornalista] João Silvério Trevisan diz e eu concordo: "Eu quero ter o direito de ser anormal. Afinal, o grupo LGBT poderia estar um passo a frente nessas amarras sociais, mas estão voltando ao clichê". Não acho ruim, mas desde que seja por vontade própria e não porque foi imposto ou porque seremos mais aceitos. Muitas trans querem operar para ter o direito ao nome feminino e para serem mais aceitas, como se fazer a cirurgia fosse curar todas as dores do mundo. Mas nem sabemos se ela quer realmente fazer e, às vezes, nem ela sabe se quer e está carregada desses preconceitos.

- Em tempos de Felicianos e Malafaias, você esteve frente a frente com Jair Bolsonaro em um debate do Superpop (RedeTV). Como foi esse encontro? 

Primeiro, as pessoas devem, sim, colocar as suas ideias, inclusive o Bolsonaro. Afinal, ele foi votado para estar no lugar em que está por causa daquele discurso cruel. Logo, não dá para mandar ele se foder, pois aquele discurso representa uma grande parte da população, que pensa que o pai deve sim bater no filho gay. Fiquei chocada em ver essa sociedade-família-evangélica que só fala de ódio, mas sabia que a melhor maneira de se combater um discurso preconceituoso é tentar entendê-lo e jogar o próprio discurso contra ele mesmo. Perguntei se o Bolsonaro acreditava em Deus, disse que ele estava incitando a violência com aquelas palavras e que recebo e-mails de gays que apanharam de seus pais por causa dele. O que me deixou triste é que o programa chegou ao fim e todo mundo começou a dar o contato para shows e afins, e eu falei: "Quero é deixar o site da ouvidoria da Câmara para denunciar esse deputado".  E, quando acabou, ele pediu para tirar uma foto comigo. Respondi: "O senhor só pode estar brincando, né?". E ele disse que não era brincadeira, que tinha “até tirado a foto com a sapatão”, no caso a Thammy, e que não via problema. Virei e fui embora, claro.

Maite vive atualmente, aos 41 anos, a sua primeira fase plena

- Já esteve filiada a alguma Ong ou grupo? 

Uma vez entrei no grupo Dignidade só para cuidar da questão das Paradas, que não existia em Curitiba. Estive na frente das cinco primeiras Paradas da Diversidade até ela se tornar o boom que é hoje. Saí porque, enquanto houver demanda, a Parada não pode ter uma cara só e ela estava muito veiculada a minha imagem. Além disso, a Parada era da Diversidade, tinha o movimento do catador de papel, do cigano, do negro e o Dignidade passou a dizer que teria só o gay. E eu não concordei porque o movimento gay é um grande presente, pois dá a possibilidade de conversar com outros movimentos, promover uma ponte com outros grupos. Então, não participo mais do trio, não subo no palco, mas continuo indo porque considero importante. Também ajudei a fundar o Trans Grupo Marcela Prado, que foi o primeiro grupo unicamente trans do Sul do Brasil, e depois que o grupo foi instituído, eu saí fora. Quando o grupo começou a andar por conta propria, sai, deixando para que outras pessoas cuidassem, mas continuo ajudando como voluntaria em todas as ações feitas pelo TransGrupo Marcela Prado e que eu acredite. Assim como eu outras ONGS.

 - Durante muito tempo, você quis entrar para o Big Brother Brasil, da Globo. Tem ainda essa vontade? 

Em 2011, fui até o fim da seleção ao lado da Ariadna. Mas eles queriam uma que fosse solteira, que não fosse conhecida e, na época, já havia ido ao programa do Jô. Eu também estava namorando e frisei que não havia possibilidade de me envolver lá dentro. Já faz dois anos que eles não colocam, então quem sabe role dessa vez.

- Acha que rolou preconceito com a saída da Ariadna na primeira semana? 

Não. Foi um jogo que ela fez e que não deu certo. Ela sabia exatamente o que eles queriam, pois você sabe se vai ser a santinha, o vilão, só pelas perguntas que eles fazem. Ela jogou, não quis falar sobre o passado, jogou e não conseguiu. Mas se ela tivesse ficado com alguém lá dentro ela ficava até o fim do programa.

- Qual foi o seu momento de glória? 

Foi na minha formatura, a minha primeira faculdade. Até então, fiz Direito e parei. Fiz Letras e não me encontrava. Voltei para a faculdade aos 36 anos e fiquei quatro anos focada nos estudos. Pegar o certificado foi um orgulho, sabe, de ter conseguido concluir, de ter o nível superior, de ter ido todos os dias para a aula, de exercer essa vida acadêmica. Foi a prova de que não tem idade para a gente fazer tudo a qualquer hora. Foi um respiro de vida, para um 40 anos mais poderoso.

Vamos torcer! E, hoje, qual é o seu sonho? 

Quero morar em São Paulo, poder viver plenamente de arte e das coisas que eu gosto. Gostaria que meus sonhos fossem mais possíveis e que eu pudesse participar de mais testes. Poderia até não passar, mas que me servisse de incentivo para eu me aperfeiçoar e correr atrás de uma nova oportunidade.

Vamos torcer por Maite no Big Brother Brasil!

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Sobre este blog

Aqui eu não sou homem ou mulher. Sou um adepto do crossdresing. Sou uma Crossdresser - CD ou CDzinha. Desde os 9 anos, adoro lingeries e roupas sexyes. Levo uma vida normal masculina e tenho uma vida clandestina feminina.

Me proponho aqui a falar um pouco de tudo, em especial das Crossdressers, dos transexuais, dos Travestis e da enorme comunidade
LGBT existente em todo o mundo. Um estilo de vida complicado e confuso (para alguns)... Este espaço também se presta para expor a minha indignação quanto ao ódio e preconceito em geral.

Observo que esse é um blog onde parte do que aqui posto pode ser considerado como orientado sexualmente para adultos, ou seja, material destinado a pessoas maiores de 18 anos. Se você não atingiu ainda 18 anos, ou se este tipo de material ofende você, ou ainda se você está acessando a internet de algum país ou local onde este tipo de material é proibido por lei, NÃO siga 'navegando'.

Sou um Crossdresser {homem>mulher} casada {com mulher - que nada sabe} e não sou um 'pedaço de carne'.

Para aqueles que eventualmente perguntam sobre o porque do termo 'Crossdresser GG', eu informo que lógico que o termo trata das minhas medidas. Ja que de fato visto 'GG'. Entretanto alcunhei que 'GG' de Grande e Gorda, afinal minhas medidas numéricas femininas para Blusas, camisetas e vestidos são tamanho: 50 e Calças, bermudas, shorts e saias são tamanho: 50.

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