Header Ads

‘Você se casaria com uma travesti?’


Ela me disse ao telefone como era incrível ter me conhecido, a pessoa maravilhosa que eu era, e o quanto me adorava.
“É, tá bom”, disse eu, rindo. “Mas casar comigo você não quer, né?”
Foi apenas uma brincadeira minha, e a resposta foi um longo silêncio. Agora pensando nisso, eu pergunto a você, leitor, até que ponto é verdadeiramente a pessoa que importa para você.
Homem ou mulher, se você realmente encontrasse uma pessoa incrível em sua vida, mas para estar com ela você tivesse que enfrentar o mundo todos os dias, o que você faria?
Ir a um restaurante, ao cinema, ou até mesmo um mero passeio no parque comigo não é algo simples. As pessoas olham, observam, estranham e julgam o tempo todo.
Eu ignoro, já nem reparo mais nos outros, como se estivesse em uma bolha de mim mesma, um escudo de autoestima onde os olhares ricocheteiam e já não penetram mais. Porém, quem está comigo os sente inevitavelmente.
Deficiência
Imagino que seja parecido com ter uma deficiência muito visível ou uma característica muito notória, como cego, baixo demais, azul com listras alaranjadas, sei lá.
Entretanto, uma mera característica ou deficiência não vem carregada de valores negativos, certezas morais e acusações mentais. Estar com uma travesti, beijá-la, abraçá-la ou mesmo pegar em sua mão, vem.
Imagine chegar para o papai ou a mamãe e contar que está namorando uma travesti. Já pensou? Crie a cena em sua mente, seja você quem for, veja-se dizendo o quanto a ama e a pessoa maravilhosa que ela é.
Gostar?
Não sou fácil de gostar realmente de alguém, nunca fui. Relacionamentos e pequenos casos vêm e vão por toda a minha vida como brisas que me contornam e seguem adiante. Talvez levando um pouco de mim, às vezes deixando algum frescor, mas amores de verdade, daqueles que ficam marcados para sempre, foram mesmo muito poucos.
Gostar de mim o suficiente para estar ao meu lado de cabeça erguida, não é uma qualidade, a meu ver, é uma obrigação. Por isso, não sei se voltarei algum dia a ter alguém assim em minha vida, diante de tantas dificuldades somadas à minha assumida condição.
Claro que não espero que todas as pessoas tirem suas máscaras, mas acho que muitos relacionamentos terminam por conta delas. São mentiras demais, falsidades e teatrinhos demais que, muitas vezes, não podem ser sustentados por muito tempo. E quando a verdade vem à tona, longas construções afetivas desmoronam.

Somente quando expomos nossas mais profundas verdades é que podemos ter certeza de que a outra pessoa não estará gostando de uma imagem que passamos ou de uma mentira que contamos. E somente essa pessoa, igualmente exposta, será merecedora de toda nossa dedicação e adoração, digna mesmo da doação de nossa própria vida.
Ou não.

Acervo pessoal*Márcia Rocha é advogada, militante e travesti. Livre como poucas, vive sua vida o mais intensamente possível, criando suas próprias regras da mesma forma como criou seu corpo escultural. Uma mulher especial com algo a mais, que vive para ser e fazer feliz.

Por
MÁRCIA ROCHA* - Do Site Pau Pra Qualquer Obra

2 comentários

goiabatobias disse...

Namorei por 2 meses uma CD em transformação e estava para apresentar aos meus pais (inclusive já tinha data pra ela ir lá em casa), mas terminamos antes desse dia. Isso foi em 2010, hoje sou casado e minha esposa também é bissexual e sabe de todas que me relacionei.

Katia Steelman Walker disse...

Parabéns pela manifestação e pela iniciativa em expor sua realidade...