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Acompanhada da mãe, travesti sobe no salto e lidera Parada da Diversidade Sexual em Cuiabá


Preta, jovem e travesti. Garota de programa que mora na periferia. Essa é Xica da Silva, rainha e “cara” da 13ª Parada da Diversidade Sexual de Cuiabá. Escolhida para ser a representação da luta pela liberdade para exigir os mesmos direitos que um cidadão heterossexual é acostumado a cobrar. Liberdade para dizer “sou gay e tenho orgulho disso”.

“Estou aqui para buscar mais respeito. Mostrar para sociedade que nós existimos. Colocar as travestis nessa batalha. Queremos mais educação, mais respeito, mais dignidade”, imperou a travesti de 23 anos, do alto de um salto fino, vestida com um longo azul que contrastava com seu cabelo com meticulosas tranças rastafári. “Estou me sentindo”, repetiu várias vezes sobre como estava feliz e linda.

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Não perdia o sorriso nem ao contar que era garota de programa e sofria violência moral durante o trabalho. “Eu faço curso para ser auxiliar administrativa. Eu falo que ser garota de programa não é vida por causa dos perigos, da violência. Não tanto física”, explicou enquanto era puxada para ser levada ao trio-elétrico e animar a manifestação.

E quem a acompanhava era a mãe, Maria Ester Moreira, 42, que desde quando a filha “saiu do armário”, aos 12 anos, enfrentou a desaprovação dos irmãos para criar Xica com amor e carinha. “Foi um choque, mas eu não ia expulsar ela de casa. As famílias tem que amar seus filhos como ele são”, contou.

Cadê o político que estava aqui?

A Parada da Diversidade é um dos poucos protestos que se faz com festa. Com alegria e amor, mostram a toda sociedade que os homossexuais existem sim e não vão voltar para o armário. E, de excluídos, passam a celebridades. Por todo percurso, curiosos filmam, tiram fotos, especialmente com as travestis – em geral, as mais marginalizadas no dia-a-dia.

Mas, se a manifestação é tão leve e agregam, aonde estão os políticos? Muitos agradecimentos foram feitos a alguns deles que teriam ajudado ao movimento acontecer: ao prefeito Mauro Mendes (PSB), ao presidente da Assembleia Legislativa, Guilherme Maluf (PSDB), ao suplente de senador Cidinho (PR). Contudo, apesar de ajudarem, nenhum deles estava lá.

O vereador Alan Kardec (PT) foi o único a usar da palavra no palco montado em frente a Câmara. Criticou o conservadorismo de todos os poderes legislativos. “Tenho três anos de mandato e há três anos enfrento dificuldade para discutir a pauta LGBT, em fazer as audiências públicas”, asseverou.

E alguns ajudaram e não foram ao evento, outros atrapalham as pautas diárias do movimento. Nesse ano, tanto a Câmara dos Vereadores quanto a Assembleia Legislativa aprovaram, sem discutir com a classe dos educadores, a retirada da discussão de gênero das escolas de Cuiabá e das estaduais no restante do Estado.



Isso em um momento em que pesquisas avançam no sentido de que gêneros são uma construção social e, nas escolas, reproduz-se uma ideia de hierarquização do homem e da mulher em uma cultura de violência.

“Não podemos mais aceitar nenhum tipo de violência, que é algo muito além do homicídio. Precisamos chegar a um ponto onde todos os homossexuais possam dizer ‘vivo, amo e tenho orgulho de quem eu sou’”, pontuou Gabriel Henrique, um dos organizadores.

E as pessoas?

Apesar de um sol de 40º graus, uma umidade relativa do ar abaixo dos 10% e de todo o preconceito, mais de três mil pessoas se uniram a 13º Parada da Diversidade Sexual de Cuiabá, segundo a Polícia Militar. Mais de cinco mil devem ter passado pelo movimento em variados momentos, fora os expectadores que estavam pelas ruas e lojas.

A concentração começou às 14h na Praça Ipiranga, com poucas pessoas, mas nunca tímidas, afinal uma parada da diversidade já começa dizendo a que veio, com muito barulho, cores e animação. Pouco a pouco o movimento encorpou. Dois trios elétricos e uma limusine  se perdiam em meio a um fluxo de cores, pessoas e amores.

Também encorpou as palavras de ordem: “Não existe terceiro sexo, só a sua ignorância”. “Eu beijo homem, beijo mulher, tenho direito de beijar quem eu quiser”. “As bi, as gay, as travesti, as sapatão tão tudo organizada pra fazer revolução!” E também os discursos: “Nós nunca mais vamos voltar para o armário” “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos” “Não queremos privilégios, queremos nossos direitos”.
E assim seguiu-se o protesto, que saiu às 16h da Praça Ipiranga, subiu da Avenida Getúlio Vargas até a Praça 08 de Abril e desceu a Avenida Isaac Póvoas até a Rua Barão de Melgaço, aonde terminaram, em frente a Câmara Municipal de Vereadores, às 17h40, aonde terminaram em um ato contra a retirada da discussão de gênero do plano das escolas municipais. 


 
Do Olhar Direto

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