Header Ads

Transexualidade » “Desconstruí meu olhar e meu preconceito sobre travestis”

Daniela é casada com Sara há seis anos. Ela conta como é viver com uma travesti e seus dois filhos na Argentina. "Estamos muito bem, quase todos os dias".
Daniela* vive com Sara e os dois filhos em Buenos Aires. Ela conta como é a vida do casal antes e depois da transição da companheira.
"Sou parceira da Sara há quase seis anos (nos conhecemos há 20) e temos dois filhos, ­ uma menina de quatro anos e meio, e um menino de dois anos, mas eles são livres para reconhecer em si seu próprio gênero. A Sara é uma mulher trans, então nossos filhos são biológicos de nós duas.

Quando nos reencontramos seis anos atrás, Sara ainda socializava, ou seja, se apresentava e vivia como o cara que eu tinha conhecido na faculdade. Foram alguns anos até ela se sentir segura para compartilhar comigo algo maior do que um simples desejo de se travestir ou usar roupas femininas. ­ Sara realmente se sentia mulher e sempre havia se identificado com o gênero feminino.
Ainda que eu tenha conseguido aceitar e acolher o assunto na nossa relação, decidimos caminhar devagar e conversar abertamente sobre as mudanças que ela estava determinada a fazer. O caminho até essa configuração não tem sido fácil.
Lidamos com a nossa cota de preconceito e transfobia e os últimos anos foram de muito crescimento para mim, mas ainda me sinto no olho do furacão. Eu também tive que desconstruir meu olhar sobre todos os estereótipos de gênero e meu preconceito sobre travestis. ­ A Sara não é diferente de nenhuma menina trans ou travesti que trabalha na rua, ela só trilhou um outro caminho.
Quando eu estava grávida do nosso segundo filho, frequentava um encontro semanal noturno de preparação para o parto. Nesses dias, Sara aproveitava minha ausência para 'se montar' e eu chegava em casa para encontrá-­la maquiada, de saia, meia calça e... Feliz.
Uma das primeiras coisas que pedi para Sara não fazer foi tirar os pelos do braço. Por um momento, pensei que se vestir de mulher uma vez por semana bastaria. Foi difícil para mim entender que não haveria um meio termo. Quando isso aconteceu, comecei a desejar que a transição fosse rápida e que em questão de dias Sara pudesse se transformar quase que como mágica em uma nova pessoa, ­ uma mulher completa e 'passável', ou seja, quando uma pessoa trans consegue se transformar tão bem que 'ninguém diz' que nasceu de outro jeito.
Ainda que hoje eu acredite que a 'passabilidade' é absolutamente desnecessária e prejudicial para toda a causa trans e fonte de ainda mais opressão e preconceito, naquele momento eu tinha medo. Naquele momento eu não queria olhos voltados para minha família, eu não queria ser vítima de preconceito e eu tinha (e ainda tenho) muito, mas muito medo mesmo da intolerância e da violência.
Nunca sofremos nenhum tipo de violência física ou verbal. Caminhar pelas ruas com nossos filhos talvez iniba um pouco qualquer atitude mais agressiva. Nossos filhos são nossos amuletos. Mas os olhares são muito poderosos e agressivos também. Já perdi as contas da quantidade de pessoas que simplesmente param de caminhar ao cruzar nosso caminho, seguem a Sara com os olhos, de cima a baixo, olham para as crianças tentando encaixar tudo em seus pequenos moldes familiares pré-fabricados. Olham de novo pra ela e de repente dão de cara comigo, encarando de volta. Quando estou de bom humor sou capaz de um 'hola que tal?', mas já cheguei a soltar um 'que te pasa, señora?'. E seguimos.
Na escola somos o único casal homoafetivo (afinal, somos lésbicas!) e isso me incomoda um tanto. Gostaria de proporcionar um ambiente mais diverso para as crianças, mas por enquanto elas não tiveram problemas em assumir que 'papai' é uma menina e a chamam carinhosamente de 'Sassá'.
Nossa mudança para a Argentina não foi, em princípio (ou conscientemente) guiada por este cenário ou pela transição da Sara, mas hoje sei que isso tudo teve um enorme peso na nossa decisão [Daniela e Sara viviam em São Paulo antes da mudança]. Buenos Aires apareceu como alternativa em comparação aos preços absurdos de São Paulo, com a facilidade de termos suporte familiar por aqui e da nacionalidade da Sara ajudar em muitos processos burocráticos.
A Argentina é um país bastante avançado em políticas LGBT e tem uma comunidade trans extremamente ativa e organizada. Para se ter uma ideia, tudo que tivemos que fazer para Sara solicitar a mudança de nome na sua certidão de nascimento foi comparecer ao registro civil e preencher um formulário com pedido de retificação de nome e gênero. Simples assim. As crianças ainda não têm documento argentino e não faço ideia de como seria ter que retificar as certidões de nascimento e os RGs delas. Arrisco dizer que talvez seja mais fácil pedir o documento argentino com as informações corretas e que não deve haver caso semelhante nos cartórios brasileiros, e adoraria abrir o precedente.
Tenho medo de precisar viajar e não conseguir sair do país porque os nomes não conferem. No Brasil nenhuma pessoa trans tem o direito a retificar seu nome e gênero nos documentos antes de passar por anos de psicoterapia para provar que sabe quem é. Não é à toa que a taxa de suicídio é tão alta dentro deste grupo e que muitas têm depressão e problemas psiquiátricos. Atribuo isso aos anos que passam 'no armário', à opressão, à falta de autoestima que tudo isso gera. Mas claro que para a tradicional família brasileira (e mundial) o caminho é inverso entre causa e consequência.
Para mim, a revolução disso tudo chegou a isso: respeitar a natureza de uma pessoa. Sentir-­se vítima de preconceito é algo inominável. Ser agente desse tipo de opressão ou justificar a transfobia com argumentos biológicos, religiosos e heteronormativos é, no mínimo, demonstrar uma visão bastante estreita e ignorante da diversidade humana.
A compreensão automática da questão a meu ver só é possível para pessoas realmente esclarecidas e sem preconceitos ­ ou com pouco preconceito, porque é muito difícil avaliarmos nosso preconceito até estarmos sentados com ele na mesa do bar (ou na mesa da cozinha)... acho que para todas as causas das ditas 'minorias', vale um mesmo raciocínio: você nunca vai saber o que é se sentir discriminado se não estiver na pele da pessoa que sofre a discriminação. Você não pode julgar um sentimento se ele não é seu. E você deve se calar e rever o seu discurso. Não há nada mais abominável do que discurso opressor disfarçado de opinião.
É tudo parte de um grande processo e eu também estou passando pelo meu processo, de entender, aceitar e até de poder questionar. Somos bastante companheiras e conversamos muito sobre nossos limites e liberdades. Estamos muito bem, quase todos os dias. É uma luta que decidimos encarar.
A família dela sabe. Aceita, mas não sabe lidar. Acham que sabem lidar, mas não entendem, ­ e talvez nem possam entender, ­ a dimensão da luta diária. Minha família sabe, e a distância física colabora para que eles não tenham que lidar completamente com nada disso. Tenho uma tia que simplesmente não consegue pronunciar o nome da Sara nas conversas pelo Skype. É difícil. Alguns amigos sabem, aceitam e tentam, com todo amor, fazer a transição junto com a gente. Este movimento que fazem, de acolhimento e não de repúdio, ­ seja pelo tempo que temos de história de vida, seja porque têm a mente aberta, ou seja por amor, ­ é, em certa medida, o mesmo movimento que eu tive que fazer, desde que tudo isso veio à tona.
Tenho dois filhos com essa mulher! Pensar no futuro sem ela, por mais difícil que possa ser ter que encarar de volta os que nos encaram diariamente, me pareceu, depois de um longo tempo de digestão, um futuro muito vazio e infeliz".
*Daniela pediu para não ter seu sobrenome publicado.

 

Nenhum comentário