Header Ads

Como um homem trata uma mulher transexual

Nunca conto para os homens que conheço, logo de cara, que sou trans. Até porque não acho que eu deva andar com um outdoor na testa piscando: sou trans. Ao contrário de grande parte deles, não entro em contato com quem seja com o pensamento de “será que conseguirei levar esse fulano pra cama?”. Aí, quando eu conto, eles se sentem super ofendidos e enganados – é como se eu contasse que sou um animal extinto, que agora, em pé e falante, atravessei as fronteiras da ciência e da realidade para atormentá-los.

E, sempre perguntam após: mas você é operada?

Conto toda a epopeia de Camões para explicar o que é ser transexual (pois pensam que é ser travesti, drag, gay – enfim, qualquer coisa serve, até por que não sabem o que significa nenhuma dessas identidades, todas convergem para o mesmo ponto focal: a repugnância que a sociedade (incluso eles) sente por todas elas). Sempre com aquele discurso cheio de lógica: “não tenho nada contra gays, mas não os quero na minha frente”, ou pior, o discurso religioso: “não somos contra os gays mas contra o homossexualismo (sic)” – é como dizer não ser contra os homens, mas sim, contra a humanidade.

Conto de toda a burocracia do governo pra se realizar a cirurgia corretiva, pois acham que é como uma cirurgia plástica qualquer: um belo dia você acorda, olha no espelho e se diz: vou lá ganhar uma vagina e já volto.

Aí ficam receosos e perguntam depois de tudo isso: “Mas assim, você transa como?” -o medo é você dizer que gosta de penetrar.

Aí você diz que dentro do seu prazer sexual não inclui você penetrando (ainda que já tenha explicado que ser transexual é, no meu caso – para aqueles que vão dizer que não podemos fazer generalizações – ter repulsa à sua própria genitália), em seguida querem saber se você consegue ter ereção – o medo é você dizer que sim, e que o seu ereto é maior que o deles – pois como sabemos, homem, de um modo geral, não quer ter pênis menor que o de ninguém, já pensou a humilhação? Esclarece-se ao sujeito que a ereção não é possível.

Ele emite um interior sinal de alívio, que é sentido pelo fato dele continuar o assunto e então, a conversa descamba para a putaria (confessam até, às vezes, estarem excitados devido a esse papo de cunho tão sexual) ou para o ostracismo.

Até você contar que é trans, tratam você como uma deusa: a princesinha que apresentarão como a nora da mãe, e lhe cobrem de elogios, mimos e agrados, palavras gentis e convites mil. Depois que você conta que é trans, é como se você contasse que é garota de programa e ele vai tentar fechar negócio. E, por fim, quando veem que seu negócio não é esse, evaporam instantaneamente ou, evaporam, no caso do descambamento para o ostracismo, homeopaticamente.

É como se a partir do momento que você dissesse que é trans, todos elogios feitos à sua inteligência, ao seu bom papo, à sua simpatia e caráter tornassem-se vazios. Você deixa de ser tudo isso e passa a ser esse “problema” que você tem. Como Freud bem nos explicou em “Totem e Tabu”, tabu é tudo aquilo que é sagrado e profano, portanto, deve ser evitado – todos os que ousarem quebrar o tabu, imediatamente se tornam o próprio tabu e, se até então era o tabu que deveria ser evitado, a pessoa que o quebrou é que passa a ser evitada.

Como ousamos dizer que somos um tabu dentro da sociedade, esses homens se afastam e nos isolam, com medo de que eles próprios venham a se transformar no tabu.

Por um lado eu acho bom, pois isso mostra o quanto há homens que mentem para as mulheres com o único propósito de lhe conseguir favores sexuais ou convencê-las de suas capacidades para um relacionamento futuro, quando o que ele pensa mesmo é um modo mais rápido e menos desgastante de se satisfazer momentaneamente, por outro vejo o quão triste é essa sociedade, totalmente cissexista e falocêntrica.

Claro que, estou falando em linhas gerais, não sei quanto às demais, mas é o que acontece comigo, em 99% das vezes.

Nenhum comentário