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‘Escola não é um espaço seguro para transexuais’, critica ativista em encontro na PUCRS


A ativista e transfeminista Maria Clara Araújo, que ficou conhecida nacionalmente após aparecer na mídia como uma das transexuais que poderiam utilizar seu nome social – nome que escolheram para si – ao realizar o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), esteve em Porto Alegre durante esta semana para participar de atividades promovidas pelos Diretórios Centrais de Estudantes da PUCRS e da UFRGS.
Ela alcançou ainda mais visibilidade ao ser aprovada no curso de Pedagogia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e lançar um manifesto, em seu Facebook, em que conta um pouco de sua história e sua trajetória enquanto mulher transexual, negra e de periferia.
“Quando uma mulher LBT (lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis) avança, nenhuma outra retrocede”, começou ela, diante de uma plateia de mais de 150 estudantes na PUCRS na última quarta-feira (13). Aplaudida de pé pelo público, a jovem de 19 anos provocou a plateia a refletir sobre a participação de transexuais na escola e no mundo do trabalho. “Quantas mulheres trans foram suas colegas? A escola não é um espaço seguro, tem um local predestinado para elas na sociedade. A maioria larga a escola pois não aguenta as violências que sofre”, lamentou.
Maria Clara contou que ela própria apanhou muito de colegas e, ao procurar a direção do colégio municipal onde estudava, ouviu do diretor: “Mas por que você não muda esse seu jeito? Por que se veste assim, usa lenço no cabelo, rebola?”. Ao continuar na escola, mesmo com essas dificuldades, ela percebeu que muitas transexuais e travestis seguiam caminhos diferentes. “Eu passei por um grupo de meninas um dia, a caminho do curso pré-vestibular. Como era de manhã cedo, elas estavam voltando para casa após se prostituírem durante a noite. E uma delas era minha amiga e me perguntou ‘por que você continua indo para a escola, o que faz num lugar daqueles?'”, narrou.
A necessidade de que os estudantes sejam tratados pelo seu nome social e possam utilizar o banheiro que desejarem também foi defendida por ela, que apontou que isso deve ser regulamentado e levado a sério. A estudante ainda mencionou o argumento utilizado por algumas pessoas de que, se as mulheres trans puderem usar o banheiro feminino, homens poderiam se vestir com roupas femininas para estuprar outras mulheres. “Estupro é dominação masculina, homem não precisa e não vai se vestir de mulher, fazer tratamento hormonal, trocar de nome para entrar no banheiro feminino e estuprar”, apontou.
 
Maria Clara contou que, ao se descobrir mulher trans, aos 16 anos, começou a usar roupas muito femininas e muita maquiagem, além de alisar o cabelo, para “suprir uma expectativa de como ser mulher”. “Eu pensava que não estava ‘sendo mulher suficiente’. Mas hoje eu sei que não preciso me construir em cima de estereótipo nenhum”, acredita.
Ela é contra a definição de pessoas trans como “alguém que nasceu no corpo errado”, assim como critica essas definições de como transexuais e travestis devem parecer e se portar, impostas principalmente pelo judiciário e pela medicina. Maria Clara ainda critica o fato da transexualidade ser considerada um distúrbio, afirmando que o que acontece é apenas “um corpo que foi lido da maneira errada”.
A jovem contou que foi acolhida principalmente pelo feminismo negro, após “despertar e construir sua identidade” enquanto negra. “Esse é o espaço que eu mais vi acolhimento e onde vi recorte de raça e classe. O transfeminismo ainda é muito acadêmico”, ponderou.
Questionada pelo público, ela explicou que a diferença entre travestis e transexuais é a autodeclaração, mas o primeiro é um termo que só existe no Brasil. “É uma palavra que era usada de forma pejorativa e as pessoas começaram a se apropriar. Em geral, são fatores socioeconômicos, a identidade transexual se tornou higienizadora, porque soa mais médico, mais chique, mais europeu, menos ligado à prostituição”, apontou ela.

O jornalismo, que para a jovem poderia cumprir um papel importante de trazer informação, opta por não fazê-lo quando se trata de pessoas travestis e transexuais. “A mídia pauta uma naturalização de que este é um ser de que nós vamos rir, mas sem visibilizar. Somos invisibilizadas e quando morremos, nos deslegitimam, então somos mortas duas vezes, pois o jornalismo nos mata também”, critica, lembrando que muitas vezes o nome social não é respeitado.
UFPE
Quando entrou na universidade, Maria Clara encontrou outras pessoas transexuais lá, mas não havia uma portaria voltada a elas. O reitor da UFPE afirmou, inclusive, que isso não acontecia pois “não havia demanda”. “Mas uma política pública não precisa acontecer só por demanda. Com o respeito à identidade, mais pessoas vão ser atraídas à universidade”, defende.
Após a atenção que seu caso recebeu, as próprias pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) da universidade elaboraram uma portaria voltada para seus direitos, que inclui o respeito ao nome social e uma diretoria para suas demandas. “A UFPE vai dar bolsa-auxílio para estudantes trans, está sendo pioneira nisso. Fiquei muito feliz de ver se tornar uma universidade plural”, contou.
Ela espera que casos como o seu ajudem outras pessoas a procurarem a universidade. “Falar sobre privilégios é reconhecer que tenho possibilidade e buscar ajudar, ir até elas e dizer ‘esse lugar é para você também, eu estou lá e se acontecer algo a gente se apóia’. Até porque por nós mulheres só nós mesmas, isso vale para todas”, colocou.

Do Sul21


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