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A história de Kamila Barros: A voluntária transexual que celebra respeito no Rio 2016

"Quando não tinha mais barreiras, eu resolvi encarar. Falei para a minha mãe que ia ao salão colocar cabelo. Coloquei a roupa que levei e o mega hair também. Demorou umas seis horas. Entrei no salão menino e sai menina. Tirei um peso. Hoje em dia, me identifico. Sou o que sou, o que sempre quis ser. Não tem mais espaço para mentiras."
Sem mentiras, hoje ela é Kamila Barros. E contou assim ao ESPN.com.br sobre o dia em que tomou a decisão de realizar seu sonho de ser mulher. A transexual vive seus novos dias há cinco anos e, a partir deste sábado, vai comemorar mais uma conquista: seu nome de mulher está estampado no crachá que carregará no pescoço para trabalhar como uma das 50 mil voluntárias dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Atrás do cartão de identificação estará seu nome de batismo, Jair, mas quem se importa? "Sempre gostei de esporte. Então pensei, por que não? Me inscrevi e deu certo. Na inscrição tinha um espaço em que eu podia colocar o nome que queria ser chamada. Coloquei Kamila. O Comitê Organizador está de parabéns. Me respeitaram muito. Atrás do crachá, terá meu nome do RG. Mas não importa porque ninguém vai ver."
Por trás do rosto sereno, que transparece alegria, bondade e, agora, paz de espirito, há marcas que o preconceito e o medo deixaram. Ela e a mãe vieram para o Rio de Janeiro há cinco anos, quando seu pai, também chamado Jair, faleceu por um câncer. Antes disse, ela se ‘escondia'. Pelo estilo ‘durão' que via no pai, nunca teve coragem de assumir quem era - ou queria ser.
"Com meu pai nunca tive... nunca foi afeto de pai e filho. Ele era alcoólatra, tinha muitas brigas com a minha mãe. Isso foi me dando um amargo dele. Não quis me assumir para não gerar conflito. Cheguei a levar uma suposta namorada em casa para enganar. Era lésbica. Teatro dos dois (risos). Não tive coragem. Mas hoje eu contaria, sem medo. Fiquei mais forte."
Os preconceitos deixaram Kamila mais forte. Quando ainda morava em Natal, começou a trabalhar como técnica de enfermagem logo depois que começou a tomar hormônios. E então, sem mais nem menos, foi demitida.
"Todo mundo sabe (o motivo). Eu já estava com feições femininas. Foi o primeiro preconceito forte que sofri. Eu fazia o que eu gostava, que era a ajudar o próximo. Como doeu, não penso em voltar para a enfermagem. Só quero um trabalho digno. Mando currículo e está Jair. Aí quando chego veem que é outra pessoa. Falam que vão ligar, e não ligam."
A dificuldade em conseguir um trabalho forma levou Kamila à prostituição. Nesse momento da conversa, ela avisa que não gosta muito de falar sobre isso. Mas fala. "Não gosto. Faço porque tenho que pagar minhas contas e a sociedade não me dá chance de mostrar que tenho valor. Já tive cliente que saiu comigo e depois, quando me viu na rua, virou a cara."
O sonho de Kamila, além de ser mulher, sempre foi ser atleta. Praticante de muitos esportes na infância e jogadora assídua de vôlei aos fins de semana no Rio, era goleiro no futsal. Mas abriu mão do projeto para ser transexual porque tem silicone nos seios, no bumbum e no quadril e acha que acabaria se machucando com as quedas nos jogos.
Ser mulher também ainda não é um sonho totalmente realizado. "Só serei feliz por completo quando eu fizer a operação. Mas no SUS tem muita fila. Conheço gente que está esperando já nove anos. E no particular é muito caro. Uns R$ 30 mil. Mas estou juntando o dinheiro em um cofrinho e se deus quiser vou conseguir. Também falta mudar o RG. Vai facilitar para conseguir um emprego."
Enquanto isso, ao menos pode comemorar a conquista de ter sido aceita como é no time de voluntários dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Rio de Janeiro. Uma entre os mais de 50 mil que vão trabalhar de 5 a 21 de agosto e de 7 a 18 de setembro. Kamila começa a jornada neste sábado, das 8h30 às 15h. Vai coordenar uma equipe de atendimento ao público nos eventos de ciclismo, maratona aquática e triatlo.

Do ESPN

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