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Sofia Fávero: "Sou travesti e ativista, são bandeiras indissociáveis"

Cada vez mais os ativistas negros, mulheres, gays e trans, além dos militantes de direita e de esquerda (os famosos coxinhas e petralhas), estão migrando suas atividades para as redes sociais. Na reportagem “Somos Todos Ativistas”, discutimos porque até os “textões” podem fortalecer a democracia.
"Apesar de ouvir que o ativismo deixa a vida mais chata, acredito que o saldo é sempre positivo", afirma Sofia Fávero, criadora da página Travesti Reflexiva. "As antigas piadas deixam de ser engraçadas, os filmes que gostávamos são analisados a partir de outra lente, nosso círculo de amizades é revisado, até mesmo as nossas relações familiares são afetadas por essa ótica." Conversamos com ela sobre ativismo digital:

Por que você entrou para o ativismo?

Sou travesti e ativista, são bandeiras indissociáveis. A travesti é uma pessoa que subverteu as normas que são empurradas antes mesmo do nascimento, com a atribuição de um gênero. Recusar ser homem e ser mulher não é um mero conflito, é perder a própria condição de sujeito e ser considerado antinatural. Dizer que não há certeza alguma dada pelo corpo faz com que toda travesti, ainda que não se reconheça dessa forma, seja uma ativista.
Quando deparam-se comigo e perguntam o que sou, é porque não há reconhecimento de humanidade em mim. A travesti traz uma nova forma de enxergar o ser humano e as contribuições sociais que nos modelam. Dizer que não há certeza alguma dada pelo corpo faz com que toda travesti, ainda que não se reconheça dessa forma, seja uma ativista.

Por que decidiu criar a página?

Cerca de 50 milhões de brasileiros acessam diariamente a mesma ferramenta que uso, o Facebook. Esse é o mesmo Brasil que mais mata travestis e transsexuais do mundo, foram mais de 600 assassinatos entre os anos de 2008 e 2014. O que faz desse canal um emergente veículo de encontro, de troca, de conscientização. O foco do ativismo virtual que exerço é despertar a empatia no outro e torná-lo protagonista de uma luta que não deveria ser só minha.

Você percebe uma diferença expressiva entre o ativismo online e o ativismo offline? Em que sentido?

A internet tem essa característica de pasteurizar a comunicação, de torná-la trivial. O diálogo acaba ficando abstrato, não sabemos mais o tom que foi usado, o que a pessoa realmente quis dizer com aquilo — algo que seria facilmente resolvido com uma leitura mais generosa. Além do poder que a máquina transfere, é como se o computador fosse convertido em um inibidor da moral. Aqui o certo e o errado às vezes se confundem. Não é que esses problemas não surjam pessoalmente, no ativismo offline, mas me parece que virtualmente são mais saturados.



'Se as pessoas parassem para refletir, elas saberiam que elas são muito mais do que seus órgãos genitais'. - Sofia Favero (Travesti Reflexiva) 

  Nesse semestre, eu estudei Filosofia Feminista lá no Espaço Cult com a filósofa Marcia Tiburi. No decorrer das aulas, ganhei inúmeros presentes: estudei a história do pensamento através da produção textual feita por mulheres - de Mary Wollstonecraft a Simone de Beuavoir, de Judith Butler a Beatriz Preciado.

Uma das páginas mais comentadas sobre pessoas trans* no Facebook é a Travesti Reflexiva. Sofia Favero tem 20 anos e mora em Aracaju, é ela por trás da 'personagem' que cativa diariamente milhares de pessoas interessadas em expandir sua mente quando o tema é gênero.

Sofia, assim como a maioria das pessoas queer, já sofreu e continua sofrendo preconceito: foi vítima de violência física num ônibus em Aracaju. Estudante de Psicologia, recentemente Sofia lançou o site O Estigma Trans, onde ela esclarece e ilumina questões sobre trans*, gênero e sexualidade.
Na entrevista concedida ao Disco Punisher, feita no final da noite, ela falou sobre feminismo, transfobia, o sucesso de sua página e revelou até um pouco sobre seu gosto musical.

DP - Qual a exigência e a pauta que os ativistas trans* deveriam ter nesse momento? SF: Então, no Brasil?
DP - Pode ser! SF: Eu acho que a maior pauta seria a do nome social mesmo. Não só a do nome social primeiro, essa é um paliativo, uma redução de danos. E depois do nome civil. Já existe até a lei João Nery.  Eu acho que a questão do nome civil é o básico, é por onde começa. Se você não tem nenhum nome, como é que vai poder fazer um cadastro, como você vai se matricular, como vai poder estudar, por exemplo? Se você já tem o nome, pelo menos você já tem a "faca" na mão.
DP - Essa seria a política mais importante que vocês têm em pauta atualmente? SF: As políticas públicas LGBT são muito voltadas para doenças sexualmente transmissíveis e AIDS. Você só vê o público LGBT relacionado a isso. Não é a toa que em São Paulo, o único centro com ambulatório para transexuais e travestis, é o mesmo local que cuida das doenças sexualmente transmissíveis.
Vivemos em uma cruzada para existir. Essa não pode ser a única pauta do LGBT. Não é só disso que precisamos.

O grupo mais contaminado é o de mulheres casadas com heterossexuais, não é mais o dos gays, lésbicas ou travestis. Então, temos de parar de achar que o Governo só tem de distribuir camisinha e gel - isso eu compro na farmácia. Eu quero meus direitos!

DP - Eu também acho que esse é um problema sério da nossa cultura. Precisávamos pautar-nos em mais direitos políticos sólidos... SF: Sim, também. A gente tem uma imagem muito ligada à sexualidade, muito sexual, então as pessoas pensam que é só isso que tem em relação ao movimento LGBT. A pessoa que é trans* e nasceu desalinhada de seu gênero também tem sua privacidade, e geralmente as pessoas não respeitam, acham que podem perguntar o que quer. As mulheres são sexualizadas em filmes, novelas. Os homens adoram duas mulheres se beijando. Os gays são sexualizados e as travestis mais ainda, muitos caem até na prostituição...
DP - Esse eu também acho que é um dos nossos maiores problemas. No meu curso de Filosofia Feminista, por exemplo, não havia ali nenhuma representatividade de uma mulher negra ou trans*. Temos de levar em consideração que cultura no nosso país é um bem bastante caro. SF: E isso é bem triste também na verdade, não é? Porque na minha sala também só existe uma mulher negra, e na faculdade inteira, apenas uma mulher trans*, que sou eu, então acaba que a nossa vida se torna bastante solitária. Academicamente nem se fala.
DP - Vejo o mundo como um inferno, e fui socialmente construído como gay. Agora me encontro num momento 'contra sexual'. SF: Como assim?
DP - Acredito que a sexualidade é uma armadilha, e que devemos escapar dela. Você acredita que o pink money engoliu o movimento gay? SF: Francamente, acho que sim! Pegue a Parada Gay como exemplo: é sobre casamento 'gay', união afetiva 'gay'. As travestis e transexuais não entram na conta. Houve uma agora aonde o nome social não chegou nem a ser tema, foi só um subtema. O que dá dinheiro mesmo é o pink money. Por mais que o gay seja discriminado, ele ainda é aceito na sociedade. O gay é a primeira pessoa depois de ninguém, e a travesti é a quinta pessoa depois de ninguém. Não existe nenhuma empresa querendo se ligar com travestis e transexuais, mas existem empresas que se associam a homens cis-homossexuais.
DP - De que forma você enfrenta o preconceito no seu dia a dia? SF: De todas as formas (Sofia suspira). A partir do momento em que eu saio pela porta de casa, eu já sei que vou sentir preconceito. Não existe um dia em que eu não sinta preconceito por ser quem eu sou.
DP - Sempre fico pensando, quanto mais 'queer', quanto mais 'marginal', mais complicada a aceitação da família. Como foi a aceitação dos seus pais?
SF: Eu acho bastante complicada a assistência para uma pessoa transexual, porque essa assistência tem de vir de várias formas: jurídica, saúde, dinheiro para comprar os remédios, hormônios... Então é muito difícil existir uma família que aceite.
Com a minha mãe, foi mais tranquilo. Ela sempre soube. Com minha irmã, minha avó também. Meu pai não mora em minha casa, e é separado da minha mãe. Ele não fala comigo até hoje.

DP - Você acha que a sexualidade é uma escolha? SF: Não! A escolha é externalizar isso, gritar para o mundo, mas você não pode escolher uma emoção, por exemplo, você não pode escolher não sentir medo ou alegria. Para mim, a sexualidade funciona desse mesmo jeito. Não consigo ver a sexualidade como uma escolha, a escolha fica em bater no peito...
DP - Se tem algo que você faz muito é bater no peito. Seu ativismo colabora ou atrapalha na sua vida afetiva? SF: Eu não tenho vida afetiva (risos). Sério... Não sei o que é vida afetiva. Não tenho. As pessoas me perguntam muito isso, e é um tabu bem grande, as pessoas até pedem na página 'Sofia, vire lésbica!', mas elas não sabem da metade...
DP - Mas é uma escolha não ter vida afetiva? SF: Também! Como eu tomo muitos hormônios e inibidores de testosterona, acaba que eu não tenho muita libido...
DP - A sua página do Facebook é um sucesso. O que você pretende fazer com ela? SF: Depois da página do Facebook, vou construir o site - mas tudo é bem complicado, minha sobrinha nasceu hoje, não tenho tempo. Mas fico feliz, abro o site, e fico olhando ali! Faço o título e fico meia hora, olhando ali... Acho que eu tenho TOC ou algum transtorno de atenção. O site ainda está em construção, mas a página continua ativa, e sempre que existe alguma pergunta que eu acho válida, eu posto lá.
  DP - Seu site vai ser fenomenal! Se a página já é genial, imagine o site...
SF: Eu sou sozinha, eu não paguei nada pelo domínio, não paguei layout. Eu alimento a pagina sozinha, faço todo o conteúdo (Sofia suspira). E ainda tenho que escrever meu livro...
DP - Como vai ser esse livro? SF: Eu não sei... Acho que vai ser em terceira pessoa. Não quero que seja em primeira pessoa, porque acho muito cansativo biografias que sejam assim. Queria que contar a minha estória.
DP - Você quer fazer literatura também? SF: Não tenho vontade nenhuma de criar estórias, a minha própria estória já é muito extrema. Uma hora eu estou lá em cima, e outra lá embaixo. Se eu for criar, seria baseado em estórias que eu já vivi, então vou me preocupar em fazer isso primeiro mesmo.
DP - O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você que elas ainda não sabem? SF: Não sei (risos). Bom, gostaria que as pessoas soubessem que eu sou bem chata, na realidade. Esses dias estava conversando com uma amiga e ela disse 'Nossa, como as pessoas gostam de você, né? Deve ser porque elas não te conhecem de verdade... ' e eu disse 'Não é, menina? Ninguém sabe a peça!' (risos). É, na verdade, eu sou bastante chata!
DP - Eu te acho incrível! (risos). O que você acha da produção de subjetividades desse feminismo que tem surgido nas redes sociais? SF: Tudo isso é produção humana, certo? Não deixa de ser um conteúdo válido... Eu não sei se entendi o foco da pergunta, você quer falar sobre o movimento que exclui a transexual ou do movimento atual feminista que exclui o homem?
DP - Eu entendo o feminismo como uma corrente social e filosófica que precisa trabalhar a opressão produzida pelo machismo e fazer uma interseccionalidade política, que dê assistência a pessoas gays, travestis, ou de qualquer sexualidade que não seja vigente. SF: Eu também penso pelo lado das meninas que constroem o feminismo, porque deve ser muito chato que a sociedade deposite todas as expectativas em um movimento só. Eu concordo que o feminismo tenha de combater o racismo, o machismo, a homofobia, a lesbofobia. Existem outras questões também: elitismo, classicismo. Até o capitalismo... As pessoas esperam que o feminismo junte tudo isso e lute contra, mas não dá pra lutar contra tudo isso em um movimento só, acho que acaba perdendo o foco.
Existem várias vertentes do feminismo - mesmo você sendo homem, sendo gay, você pode se declarar feminista. Existem outras vertentes do feminismo que não vão te acolher nessas condições de forma alguma.

DP - Então, e esse é o 'feminismo ruim'. É o 'feminismo' que não entende que a real revolução é a travesti, a real revolução é a pessoa trans*... SF: Eu não encaro como um 'feminismo ruim'. Eu encaro como um feminismo que demonstra o que pensa a sociedade. O que a gente vê hoje é que essas pessoas sejam excluídas, que estejam à margem... Por que seria diferente com esses movimentos? Até mesmo o movimento que exclua a travesti e o transexual, eu compreendo. Só não compreendo a transfobia, mas compreendo quando dizem 'Olha, Sofia... Eu não vou lutar a sua luta e juntá-la com a minha'.
DP - Você realmente consegue compreender isso? Eu, de verdade, não conseguiria! SF: Ah eu compreendo, acho legal quando deixam as coisas claras assim, pra mim, fica perfeito. Mas o que acontece geralmente são falas assim 'Sofia, você é um homem, você tem piroca, você tem cromossomo XY, você nunca vai ser mulher, você não tem útero, você não tem ovário'. As pessoas acham que saúde é só física, mas não, a saúde também é mental. Isso me agride, é uma forma de desrespeito. Existe essa diferença entre esse feminismo que não se importa, e esse feminismo que não machuca. E esse feminismo é o mais ferrado, pela atitude transfóbica. A mulher tem a luta dela.
DP - Um dos ativistas trans* mais célebres do Brasil é o Laerte, e ele bate muito na questão do uso de pessoas trans* em banheiros públicos. Você sofre também com a questão do banheiro público? SF: Depende. Na realidade, pra não sofrer esse tipo de situação, eu nem entro no banheiro, não uso banheiros públicos. Agora na minha faculdade, me conhecem, então, sabem que sou travesti, agora é que eu não entro no banheiro mais mesmo.
DP - Você acha que sua vida seria mais fácil se você morasse em outro lugar, isto é, você acredita que o machismo que é produzido no Nordeste é diferente do machismo do Sul, do Sudeste? SF: Não sei... Não acho que seja assim tão diferente. Eu tenho amigas do Norte, do Sul, de todos os cantos, e todas elas sofrem pela transfobia. A base é a cultura machista, e o Brasil todo é um país muito machista. Todas elas são vistas como 'homens de saia'. Tem a Daniela Andrade que é de São Paulo e eu sempre a vejo postando esse tipo de coisa, do quanto ela sofre na cidade dela.
DP - Como você acha que podemos combater a crença de que só depois da cirurgia o homem ou mulher trans* se torna seu sexo referido? SF: Rapaz! Existe essa noção entre algumas pessoas, assim como existe a noção de que mesmo com a cirurgia não vai mudar nada. Pegue como exemplo a Ariadna, ela tem cirurgia e ainda passa por esse estigma. É um beco sem saída. Mas acho que se as pessoas parassem para refletir, elas saberiam que elas são muito mais do que seus órgãos genitais. Quem garante que mulher que 'nasce' mulher é mulher de verdade? Ninguém sabe o que se passa dentro das pessoas. Nem o rosto deveria ser o meio de se julgar uma pessoa - porque nem todo mundo consegue transitar o corpo inteiro para o outro gênero.
DP - Você consegue ou você não consegue? SF: Depende da roupa, do dia, da iluminação (risos)...
DP - Você acha que dá para ser o que se é sem passar por esse tipo de 'mutilação'? SF: Acho que dá para ser sim! Eu tenho amigas que me acham uma menina comum! Esses dias uma mulher veio me perguntar qual absorvente eu usava e fiquei pasma (risos). 'Como assim, mulher? Eu não uso isso não!”“. E só depois que ela se tocou...
DP - Sofia! O que você tem ouvido no seu iPod? SF: Kylie Minogue! Muita Kylie Minogue! Escuto várias coisas... É que eu gosto de muita coisa 'poc poc' (risos). No meu celular só tem Britney! (risos). Gosto de Björk, MPB. Só não gosto de arrocha, pagode e axé.
DP - Deve ser muito difícil fugir de axé no Nordeste? SF: Nossa muito! Meus vizinhos só escutam isso... Você não tem ideia!
DP - AWN, muito obrigado pelo papo, Sofia! SF: Cheeeeeeiro, meu bem! <3 br="">
Por: Alisson Prando

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