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No país dos crimes transfóbicos, travestis e transexuais lutam por visibilidade

O Estado de Minas conversa com cinco pessoas que contam como lidam com o preconceito e as batalhas para serem reconhecidas, no dia dedicado à comunidade.

“Em todos os meus aniversários, eu soprava a vela do bolo e fazia o mesmo pedido: quero ser um menino.” Já aos 3 anos de idade, Nathan Phellipe, de 25, identificado como mulher ao nascer, em virtude de seu sexo biológico, percebeu que não se encaixava com o gênero imposto. Agora, reconhecido legalmente como homem, ele mostra com muito orgulho seu novo documento de identidade. No Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais, comemorado hoje, Nathan, Anyky Lima, de 61, Gisella Lima, de 35, e Lucca Najar, de 25, relatam como encaram o preconceito diário e as lutas por direitos de reconhecimento perante a lei e a sociedade.

Com uma camisa polo azul, cabelo cortado rente à cabeça, barba aparada e perfume caprichado, Nathan Phellipe é um cidadão como outro qualquer – ou ao menos gostaria que assim fosse. Ao contrário do que muitas pessoas ainda pensam, gênero não é uma opção. “Desde muito pequeno sabia o que sou. Lembro-me de quando vi minha mãe trocando o absorvente e perguntei: ‘O que é isso?’ e ela respondeu: ‘Você vai saber quando ficar mocinha’. Foi então que pensei e disse: ‘Não, não serei mocinha porque eu sou um menino.”’ E foi dessa maneira ingênua e, ainda, espontânea, que a “garotinha”, que chorava durante a noite por não pertencer àquele corpo, se afirmou pela primeira vez. Inicia-se, assim, uma nova etapa da vida.

Hoje, formado em design e cursando a segunda graduação, o jovem vive com a leveza de se sentir seguro em relação à própria identidade, mas ainda enfrenta os preconceitos da sociedade por ser um transexual. Dados divulgados pela ONG Transgender Europe (2016) apontam que o Brasil ocupa o 1º lugar em crimes por transfobia no mundo. Em Belo Horizonte, 96,4% dessa população já sofreu algum tipo de violência física, 74,5% suportou ameaças e 46,8% foi estuprada. São os números mais recentes da pesquisa “Direitos e violência na experiência de travestis e transexuais na cidade de Belo Horizonte: Construção de um perfil social em diálogo com a população”, do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT (NUH), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os dados foram tabulados em 2015.

“Minha mãe não me aceitava. Quando criança, ela me batia com uma panela de pressão”, afirma a travesti exemplo de luta e resistência Anyky Lima, de 61, vice-presidente do Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual de Minas Gerais (Cellos). “É por isso que visibilidade trans é importante, justamente, para mostrar que não existe foco para essa população. Meninas e meninos são assassinados com requintes de crueldade diariamente e nós não temos nenhum órgão de competência que nos apoie. É como se nós não existíssemos”, diz.

Aos 12 anos, Anyky foi expulsa de casa e passou dias na rua. Foi quando conheceu uma pessoa que a levou para Vitória (ES). A partir dali, ela se prostituiu até completar 50 anos. Outra militante da causa trans, Gisella Lima, de 35, explica como o preconceito afeta direitos básicos como cidadã, levando pessoas trans a buscar trabalhos informais. “Era adolescente quando fui expulsa da escola por conta da discriminação de professores e colegas de turma”, conta Gisella. O estudo da UFMG aponta também que somente 59,4% das travestis e transexuais de Belo Horizonte completaram o ensino médio. “A prostituição pode ser uma opção para pessoas que querem o ofício, mas não pode ser a única. É importante ter a garantia do emprego formal”, afirma Gisella. “O lugar de uma pessoa trans é onde ela quiser”, completa.

TRANSIÇÃO O estudante Lucca Najar, de 25, usa o YouTube para levar informações sobre preconceito, convívio familiar, machismo, nome social e transição de gênero. Lucca conta que tentou se encaixar em várias tribos femininas antes de se compreender como homem trans. Com a ajuda da família, da namorada e da psicóloga, ele se entendeu. Portanto, há um ano, o jovem começou a medicação com testosterona e registra em vídeo todo o processo: “Se assistir do primeiro ao último vídeo já verá a diferença. Olha! Já está começando a nascer uma barbinha”, conta o jovem, alisando os pequenos pelos no rosto.

O processo de transição pode variar. Dalcira Ferrão, psicóloga, conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-04) e militante LGBT, explica que a grande maioria das pessoas trans tem desejo em realizar processo de hormonioterapia para as modificações estético-corporais, “mas não necessariamente querem se submeter a procedimentos cirúrgicos”.

Já Clara Houri, de 20, decidiu passar pela cirurgia de transgenitalização, imposto a ela por sua condição biológica. Há dois anos, faz uma ‘vaquinha virtual’ para realizar seu sonho. “Minha genitália me incomoda pra fazer coisas diárias como xixi, tomar banho e ter relações sexuais. Eu não consigo nem pensar nela”, desabafa Clara. Para o procedimento, a jovem precisa de R$ 38 mil. No Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais, diversas atividades serão realizadas na capital mineira para repercutir o tema. Hoje, ocorrerá às 14h a concentração para a “Marcha em luto pelo direito de viver – travesti e trans”, na Praça Sete, no Centro de BH. Já na terça-feira, será inaugurado o “Cine Diversidade”, onde serão exibidos filmes relacionados a temas do universo LGBT, no MIS. A programação completa pode ser conferida no em.com.br.

Você sabe as diferenças?
GÊNERO, SEXUALIDADE E SEXO BIOLÓGICO
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, gênero é diferente de orientação sexual. Dalcira Ferrão, psicóloga, conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-04) e militante LGBT, esclarece todos esses pontos.

Cisgênero – Toda pessoa que se identifica com as características do gênero designado a ela no nascimento.

Transgênero – Toda pessoa que não se identifica com as características do gênero designado a ela no nascimento. Nesse caso, podemos dividir entre o grupo denominado “dimensão identitária” (travesti, mulher transexual e homem transexual) e “dimensão funcional” (crossdressers, drag queens, drag kings e transformistas).

Identidade não binária ou Genderqueer – Termo “guarda-chuva” para identidades de gênero que não sejam exclusivamente homem nem mulher, estando, portanto, fora do binarismo de gênero masculino e feminino e da cisnormatividade.

É importante ressaltar que o gênero é diferente de orientação sexual, podendo se comunicar, mas um aspecto não necessariamente depende ou decorre do outro. Em outras palavras: “pessoas transgênero são como as cisgênero, podem ter qualquer orientação sexual – nem todo homem e mulher é 'naturalmente' cisgênero e/ou heterossexual”, explica a psicóloga Dalcira Ferrão.

Nome social 
O governador Fernando Pimentel garantiu, por meio de decreto publicado neste sábado no Diário Oficial Minas Gerais, que em todos os segmentos da administração pública estadual, travestis e transexuais poderão utilizar o nome social e terão reconhecida a sua identidade de gênero.Organizações e coletivos voltados à proteção e luta por direitos LGBTs, em especial os que visam à plena cidadania da população de travestis, transexuais e transgêneros no estado, enviaram na última semana a carta ao governador solicitando a assinatura de um decreto. O nome social refere-se à forma como a pessoa travesti ou transexual se identifica e é socialmente reconhecida. O intuito é garantir o direito de toda pessoa à livre expressão de sua identidade de gênero, de forma que o nome de registro ainda não retificado não possa ser indutor de constrangimentos e preconceitos.  

Do EM

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