Uma Crossdresser Gordinha Complicada e Imperfeita

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Transição aos 55


Começou com uma brincadeira: o artista plástico dinamarquês Einar Wegener (1882-1931) posava vestido de mulher para a esposa, Gerda, produzir suas pinturas. Ele gostou da ideia, até assumir a identidade de Lili Elbe e passar por uma das primeiras cirurgias de readequação sexual da história, drama contado no filme "A Garota Dinamarquesa" (2015). A taxista paulistana Marcella Almeida, de 55 anos e 1,74m, começa a entrevista comparando-se ao casal de artistas. Ela já se vestia de mulher com roupas da irmã na infância e a ajuda de suas ex-mulheres enquanto se identificava como Marcus Vinícius. Foi só há seis meses que iniciou sua transição de gênero. Ela conta como tem sido à Universa.

"Tenho uma irmã um ano mais velha que eu. Aos 6 anos, eu pegava as roupas dela e me admirava no espelho. Adorava ser menina. Roubava as calcinhas e colocava batom da minha mãe. Gostava de boneca. Esperava todo mundo sair de casa para ficar me montando.

Quando adolescente, era bonito, loiro, olhos claros, e pegava muita menina. Quando elas dormiam, eu colocava suas roupas, ou trocávamos mesmo. Gostava do ser feminino, não para transar. Via uma mulher bonita e a invejava.

Minha questão não era ser gay, mas ser mulher. O problema é que, na minha juventude, não tinha acesso a tratamento no Brasil. E aceitei minha situação da seguinte forma: amo Ferrari mas tenho Chevrolet, então serei feliz com o que tenho. Nesses 55 anos, o Marcus Vinícius foi feliz como pode.

Vestia roupas das ex-mulheres

Casei duas vezes. Com a primeira mulher, fiquei cinco anos e tivemos um filho quando ela tinha 14. Ela sabia das minhas manias e transávamos vestidas de mulher, fazíamos trocas de roupas. A segunda mulher, com quem estava há 30 anos, me dava baby dolls.

De uns anos para cá, comecei a acompanhar casos de transição de gênero e imaginar como seria comigo. Estudei os locais em que poderia ser atendida e, há três anos, cheguei ao Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento, em São Paulo. Me inscrevi para o tratamento gratuito, e somente em maio de 2018 me ligaram para a triagem.

Eu sei que não serei 100 % mulher. Eu sou trans. São gêneros diferentes, e o importante é ser feliz.
Fiz exames de sangue para saber se podia tomar hormônio e não tive dificuldade para começar o tratamento. Fui a duas sessões com um psicólogo e, em junho, iniciei a terapia hormonal.

Sem orgasmos

A Marcella nasceu de julho para agosto deste ano, quando estava completando 55. Tomo bloqueador de testosterona. Já emagreci 20kg. Em 40 dias de hormonização, meu sexo encolheu 50%. As calcinhas nem me incomodam. Minha certidão de nascimento já foi mudada. Sempre achei que tinha cara de Marcella. Hoje, por causa do tratamento, choro à toa. Perdi 30% da minha força física. Parece que a massa muscular está derretendo, a pele está fina. Ainda faço depilação a laser. Ser mulher custa caro. Só não tenho orgasmo, mas prazer.
Minha mulher pediu para não fazer a transição. Ela teve um ataque, disse que ia colocar veneno na minha comida. Não pensou que minha vontade de ser mulher sairia das quatro paredes.
Ela vomitou, ficou mal. Contei o que faria no dia do aniversário da nossa filha, de 23 anos. Uma vez, ela foi atrás de mim no DST [sigla usada para o ambulatório]. Queria quebrar meu carro, abriu as portas do ambulatório.

A gente se ama muito. Brigamos pouco nesses 30 anos e ela criou meu filho do primeiro casamento. Mas estamos contornando. Ela procurou um psicólogo e já conheceu uma pessoa. Entramos no processo de divórcio.

Questionei muito a mim mesma se faria tudo isso. Foram 55 anos da minha vida analisando. E, como ela sabia disso, pensei que aceitaria mais fácil essa transição. Ela ama o Marcus e a Marcella, mas sabe que o primeiro não existe mais. Eu o enterrei. Quando a gente sai, ela me apresenta como uma amiga. 

"Enfiei a Marcella goela abaixo"

Minha mulher se culpa por ter me vestido de mulher durante todo esse tempo. Às vezes, dormimos juntos, e dia desses ficamos. Se ela me aceitasse assim, seria bom, porque sempre a amarei. É difícil perdê-la. Era infeliz quanto à minha sexualidade, mas feliz no casamento. Agora é o contrário. 
Arquivo pessoal
Marcella trabalha como taxista pelas ruas de São Paulo Imagem: Arquivo pessoal
Eu enfiei a Marcella goela abaixo. Simplesmente acordei, fui no departamento jurídico do transporte público de São Paulo e falei que ia mudar meu gênero. Fui no ponto de táxi que fundei, em Moema, e falei para todo mundo.
Meu filho mais velho, de 31 anos, foi a única pessoa que me ofendeu nesses seis meses de transição. Ele queria que eu me afastasse e o atendi.
Ele está preso após uma briga com um policial e fui na cadeia como mulher visitá-lo. O pessoal de lá falou que ele deveria tirar o chapéu para mim e se encher de orgulho pela coragem.
Minha filha aceitou e meus cinco netos estão aprendendo a conviver. Meus pais são falecidos e minha sogra, que mora conosco, é cega e tem Alzheimer. Não compreende. Acho que minha mãe iria se decepcionar, porque eu era um filho lindo. Minha irmã chora todo dia. Não consegue aceitar. Disse que nunca vai me chamar de Marcella.
Tive amigo que jantava na minha casa e hoje não olha na minha cara. Às vezes fico chateada, porque as pessoas à minha volta estão tristes enquanto deveriam me apoiar. 

Experiência com homens

Nunca tinha ficado com homem e, a princípio, achei que era lésbica. Tenho muito prazer com mulher. Mas conheci um carinha na rede social há dois meses, casado com uma moça e bissexual. Saímos algumas vezes e me senti maravilhosa. Tive muito prazer nos braços dele, porque me senti feminina. Nunca transamos. Me apaixonei como uma menina de 15 anos, e não soube lidar com a situação. Eu queria algo sério.

Contei tudo para minha mulher. Uma vez, marquei de dormir com esse rapaz. Comprei camisola e mostrei para ela. Mas não aconteceu. Também fiquei com um modelo famoso, mas ele é casado e tem filha. Nos falamos até hoje. 
Eu me considero bissexual. Transei com uma mulher dia desses, mas tenho gostado mais de ficar com homem. Minha primeira experiência sexual com homem foi com um menino de 22 anos e foi maravilhoso porque tirei todas as vontades que tive durante esses 55 anos. 
Não sei se farei a cirurgia de redesignação sexual. Num primeiro momento, não queria mais usar meu órgão, mas os caras gostam assim e posso querer usar com uma mulher. Também não sei se colocarei silicone. Não quero ser uma miss. 
Nunca sofri nenhum tipo de agressão, nem tenho medo. Eu votei no Bolsonaro (presidente eleito), mas se ele acabar com o tratamento gratuito para pessoas trans, vou lá e compro os medicamentos.
Depois de ficar 55 anos dentro de um corpo que não é meu, nada me atinge. Pode chamar de travesti, trans, 'viado' mas o que me importa é minha família. Não dependo de ninguém para nada. Uma mulher que foi cliente minha por 20 anos não quer mais meu serviço como taxista, por causa da religião dela. Respeito, e quero que me respeitem também".

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"Sou prostituta e não quero ser salva": elas contam propostas que receberam



No clássico filme "Uma Linda Mulher", a personagem de Julia Roberts, uma prostituta, larga as ruas depois que seu cliente milionário, interpretado por Richard Gere, se apaixona por ela. Na dramatização da vida de Raquel Pacheco, a "Bruna Surfistinha", a personagem principal também larga a prostituição para se casar com seu primeiro cliente.

Histórias de trabalhadoras sexuais que são "salvas" do meio por homens mais ricos, que prometem pagar tudo a elas ou que propõem um relacionamento, são repetidas vez ou outra no entretenimento e também na sociedade. Mas será que estas mulheres realmente querem mudar de vida?

À Universa, prostitutas contam quais foram as propostas que receberam de seus clientes, quais os motivos para recusá-las e porque elas consideram que não precisam ser salvas de suas ocupações:

"Mesmo com outro emprego, não deixei de ser puta"
"Eu não recebia propostas em dinheiro, o que recebi foram propostas de emprego, como quando eu virei assessora parlamentar do Jean Wyllys [deputado federal pelo PSOL-RJ], mas nem por isso deixei de ser puta. Eu gosto disso. A gente convive com outras prostitutas e elas dizem que sempre precisam de uma renda extra em alguns momentos, como na vida de qualquer outra pessoa. Agora, falar para uma prostituta parar de se prostituir para trabalhar como faxineira, como manicure, para ganhar bem menos? É claro que elas não vão largar a profissão. Muitas tiveram a oportunidade de sair, mas não ganhariam tanto".

Indianare Siqueira, 47 anos, prostituta e ativista pelo direito de trabalhadores sexuais

"Me propôs R$ 15 mil por mês para ser amante exclusiva"
"Tive propostas de clientes 'apaixonados', que queriam que eu voltasse a advogar, que eu tivesse um relacionamento sério com eles, e não só rejeitei como nunca mais tive contato. Teve um indivíduo, que tinha cerca de 36 anos, mulher grávida de gêmeos e me propôs R$ 15 mil por mês para ficar só com ele, ser amante exclusiva. Deletei nas redes sociais e telefone. Ele insistiu com outros números, bloqueei todos. Eu sou da opinião de que nenhuma mulher, exceto as que são colocadas quando são menores de idade para serem exploradas, vira trabalhadora sexual sem vontade. Eu sou totalmente avessa a esse tipo de reprodução de discurso de que precisamos de alguém que nos tire deste caminho, acho antifeminista e contra a era da informação".

Claudia de Marchi, 36 anos, acompanhante de luxo e ex-advogada

"Não estou à espera de um príncipe"
"Um dos meus primeiros clientes pediu para eu deixar para lá o meu trabalho, disse que eu não precisaria me preocupar com nada, pois, dali para frente, ele cuidaria de mim, me sustentaria. Bom, nunca levei muito a sério essas propostas. Depender de alguém não é o meu objetivo. Isso eu já vivi quando era menor de idade e dependia dos meus pais. Agora, basta! Algumas mulheres atuam na área por necessidade, outras porque gostam, outras por ambição, mas todas atuam no meio porque querem. Poderiam procurar outro segmento, mas, por algum motivo, optaram por este meio. Não estou à espera de um príncipe que me salvará, me sustentará e depois irei me converter. Estou fora dessa!".

Maria Angélica, 20 anos, prostituta

"Todas as oportunidades de sair são, na verdade, trocas"
"Já tive várias propostas, algumas por pervertidos só querendo me enganar, dizendo estarem apaixonados --quando, na verdade, só queriam sexo grátis. Já tive propostas de pessoas que me ofereceram uma vida 'estável': apartamento, carro, comida, faculdade. Porém, eu teria que ser fiel a eles e, mesmo eles sendo casados, queriam que eu fosse somente deles. Caso eu os 'traísse', o acordo acabava. Resumindo, eu seria uma escrava a troco de pão. No geral, todas as oportunidades de sair são, na verdade, trocas: eu dou minha juventude para um cara velho e casado, e em troca ele me dá o que no momento eu preciso --no caso, dinheiro. Acho que ninguém precisa ser salva, entramos nessa vida por escolha: cada uma com seu motivo pessoal, mas todas por vontade própria".

Júlia Mar, 20 anos, acompanhante


Da Universa - Por Jacqueline Elise

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Transexual afastada da Marinha briga na Justiça para voltar a trabalhar

A vontade de voltar a trabalhar tem sido uma busca constante da segundo-sargento da Marinha do Brasil, Bruna Benevides, de 38 anos. Em 2015, ela foi afastada depois de assumir que é uma mulher trans. No último dia 6, a Justiça Federal determinou que Bruna retome o trabalho e que o nome dos seus documentos na corporação seja retificado.
A sentença, proferida pela juíza federal Geraldine Pinto Vital de Castro, determinou ainda que a motivação de transexualidade seja afastada como doença que impedia o exercício de Bruna na Marinha. (saiba mais aqui e aqui)

A militar, que também é diretora da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), esteve nesta quinta (22) no Campus de Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) para participar do evento “Respeita as mina” que tratou sobre a violência de gênero.

  • Quando você percebeu que era uma mulher?
Isso vem desde quando eu era criança. Desde que eu me entendo por gente eu já sabia que eu não era um menino.
  • Como você se sentia?
Fui obrigada a me reprimir por questão de sobrevivência. Ou me reprimia ou vivia violências simbólicas e psicológicas. Para amenizar, tentei me enquadrar no padrão. Mas era tentar esconder o rabo de um pavão. Me vestia como um homem, mas eu não era um. Eu falo que era o oposto: me travestia de homem. Era na verdade um disfarce para amenizar a violência.
  • Sofria muito preconceito?
Direto. Era só repressão. Mas naquela época eu não entendia. Hoje lido de forma tranquila porque estou na militância. Passei a entender que não é uma coisa só comigo, é uma questão estrutural. Antes o discurso vinha disfarçado de amor. Diziam “vou te bater porque te amo e quero te consertar” ou “vou te colocar de castigo porque Deus te ama e ele quer te salvar”. Isso acontecia comigo e acontece com muita gente até hoje.
  • Você pensou em parar de estudar?
Não. Eu entendia que o único caminho era estudar. Eu sabia que se eu parasse, o que me restaria era sofrer um processo de marginalização que é imposto para a maioria das pessoas trans.
Como você decidiu entrar para a Marinha?
Sou de Fortaleza, no Ceará e vivia em uma família muito conservadora. Pensei em fazer a prova no Rio de Janeiro porque eu tinha o sonho de ter minha liberdade.
  • Como foi no início?
Passei no concurso quando eu tinha apenas 17 anos. Foi muito difícil. Quando cheguei no Rio comecei a viver uma vida dupla. Eu me travestia de homem para trabalhar. Fiquei nesse disfarce por uns 18 anos.
  • As pessoas na corporação desconfiavam?
Sim. Por mais que eu não verbalizasse nada, as pessoas percebiam. Eu sofri bullying, mas também recebi apoio. Só que chegou um momento que comecei a questionar o que estava fazendo com a minha vida. Decidi reivindicar meu lugar de mulher na sociedade sem me preocupar com o que iam pensar de mim.
Como foi depois de ter assumido que é trans?
Fui encaminhada a junta médica que me deu um laudo de incapacidade por transexualidade ser considerado um transtorno. Fui afastada temporariamente para me cuidar.
  • O que passou na sua cabeça?
Eu pensava que nada que eu falasse ia mudar. Hoje tenho um laudo médico dizendo que eu sou transexual. Sinto que sem esse laudo eu não existiria porque minha experiência de vida não é válida.
  • E como se inseriu no movimento social?
Foi nessa época que fui afastada temporariamente, de 2014 para 2015. No ano passado me deram um laudo definitivo de incapacidade para o trabalho na Marinha. Foi aí que procurei a Defensoria Pública e acionei a Justiça Federal.
  • Você tem algum medo?
Toda vez que vou ao banheiro, tenho miniataques cardíacos. Fico com receio de ser botada para fora, porque isso é uma realidade. Quando vou embarcar já fico com um frio na barriga por tantas vezes que tive que apresentar um documento com uma foto que não era eu mesma. Era super constrangedor.
  • O que te move nessa luta?
Luto pela sobrevivência daqueles que não tem a oportunidade que eu tive. Quando você vê os índices de morte e que a estimativa de vida das pessoas transexuais é de 35 anos, me sinto na obrigação de falar por essas pessoas.
  • Você voltou a trabalhar?
Ainda não. O processo está correndo em primeira instância. A luta não começou comigo. Antes de mim foram oito travestis e transexuais das Forças Armadas que lutaram pelo direito de trabalhar. O meu caso é o primeiro que consegue uma decisão favorável.

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"Homem? Nem pensar! Eu gosto é de mulher", diz caminhoneira trans e lésbica


 Foi só após realizar a transição de gênero, em 2010, que a caminhoneira Fabiana Ferreira, 58, passou a ter a vida sexual ativa. Antes disso, quando ainda tinha o órgão sexual masculino e se chamava Hamilton, ela se considerava sem interesse por relações amorosas, tanto com homens quanto com mulheres.

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"Parece que antes [da operação] eu era uma pessoa neutra. Achava alguns homens bonitos e queria me parecer com uma mulher. Mas me envolver com homem? Nem pensar, cruz credo! Só para amizade e poucos. Eu gosto é de mulher", diz Fabiana, que afirma nunca ter transado com um homem e, hoje, se define como mulher trans lésbica.
"Toda vida parece que eu tinha vontade de ser feminina. Fiquei muito bem depois que fiz a cirurgia. Agora me sinto mais feliz."
O desejo por mulheres, no entanto, só apareceu de verdade depois de mais de um ano da cirurgia. "Quando operei, fiquei um ano e quatro meses sem fazer nada, sem ter prazer algum. Depois deste tempo, consegui transar com uma mulher. No dia, lembro que era quase 23h e liguei para a doutora que me operou, dizendo que eu tinha conseguido."
Antes de passar pela transição, Fabiana chegou a se envolver com uma mulher, com quem tem um filho, hoje com 28 anos. "Quando eu ainda era do sexo masculino, uma mulher invocou comigo. Ela tinha quatro filhos e largou do marido por minha causa." Os dois acabaram morando juntos. "Aí, por incrível que pareça e depois de muita insistência dela, tivemos um filho."   

A vida na estrada para uma mulher

Segundo o Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), existem cerca de 180 mil mulheres habilitadas para dirigir caminhão no Brasil. Elas representam apenas 6,5% do total de motoristas de caminhão no país. Mas, apesar de ser uma profissão predominantemente masculina, Fabiana, que começou a dirigir carretas em 1986, garante que nunca se intimidou.
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A caminhoneira Fabiana Ferreira Imagem: Divulgação
"Nunca dei moral para ninguém. Se eu desço em um ponto, pode ter 50, 60 pessoas, não olho na cara de ninguém, vou onde tenho que ir e falo com quem tenho que falar." Apesar de se comportar assim, ela não nega que exista preconceito --mais na forma de piadas. "Você tem que fazer de conta que não está vendo nada e vai levando a vida. Se for ligar para isso, você não vive. Você vegeta."
Além disso, Fabiana diz que acha muito bonito ver uma mulher dirigindo caminhão e nunca deixaria de fazer algo por causa da opinião dos outros. "Não é só o homem que tem direito de trabalhar [dirigindo]. A mulher também tem. Às vezes, a mulher até faz as coisas melhor do que o homem, mas eles não querem aceitar", acredita.
Fabiana, recentemente, se aposentou e já sente falta da estrada. "Eu gostava do que fazia, das amizades que a gente faz viajando e da liberdade. Caminhão é um vício. Agora que estou sem trabalhar, fico com a cabeça estressada." Para não ficar parada, ela planeja abrir sua própria transportadora.

"O que mais admiro na Fabiana é sua liberdade"

A história de Fabiana virou um documentário, que foi exibido, recentemente, na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival Mix Brasil, também realizado em São Paulo e dedicado à produção audiovisual LGBT.
A diretora do documentário, Brunna Laboissière, conheceu Fabiana ao pedir carona para ela. "Já viajei muito de carona e gosto de ouvir as histórias dos motoristas. Em geral, sempre eram caminhoneiros homens, mas, uma vez, indo para Goiânia, conheci a Fabiana. Viajamos por dois dias", lembra Brunna.
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Imagem: Divulgação
"Na hora, não me liguei que ela era uma mulher trans. Muitos amigos dela nem desconfiam que ela é trans. A Fabiana não fica falando muito sobre isso."
Brunna conta até que, em uma das exibições do filme, perguntou para Fabiana se poderia convidar uma das colegas evangélicas da caminhoneira. A mulher nem imaginava que ela era uma mulher trans e lésbica.
Questionada sobre o que aprendeu com Fabiana, ao longo das filmagens, diz: "O jeito que ela leva a vida é tremendo, apesar de todas as dificuldades que tem. Ela também tem uma intuição muito forte e segue seu coração. Fabiana é pura liberdade. Ela não deixou o mundo e a sociedade sabotarem quem ela verdadeiramente é."
A previsão é de que o documentário "Fabiana" chegue às salas do cinema nacional no primeiro semestre de 2019.


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C&A abre vagas de emprego exclusivas para travestis e transexuais


Em parceria com a ONG Transempregos, a C&A abriu mil vagas exclusivas para travestis e transexuais. A intenção da empresa é proporcionar um espaço no mercado de trabalho para esses profissionais que muitas vezes sofrem preconceito durante a disputa por um emprego.
As vagas anunciadas são para trabalhos temporários agora no fim de ano, em mais de 270 lojas da C&A espalhadas pelo Brasil. O candidato deve ter ensino médio completo, mas não precisa ter experiência anterior na função. Alguns pontos serão considerados diferenciais positivos, como ter atuado em atendimento ao cliente, interesse em moda, entre outros.
Os interessados devem se inscrever na Operação de Loja da C&A. As informações sobre as vagas e como será o processo seletivos estão disponíveis no link.
A Transempregos é uma organização que ajuda na inserção de pessoas travestis e transexuais no mercado de trabalho formal. A instituição também oferece capacitação às empresas, com foco em Recursos Humanos e Departamento Jurídico, a fim de construir um ambiente de trabalho mais humano e inclusivo.
Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% dos travestis e transexuais do Brasil acabam marginalizados na sociedade. Com baixa escolaridade e o preconceito das empresas, a prostituição se torna o único meio de sobrevivência.

DO B9

Em 2017 a A C&A apostau, mais uma vez, na diversidade e sua campanha publicitaria apresentando uma mulher trans - AQUI

 
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Priscila Reis: Transexual disputa campeonato feminino de fisiculturismo e trabalha em oficina

 
Ela chama atenção por onde passa. Gerente da oficina de troca de óleo do pai, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a fisiculturista Priscila Reis, de 26 anos, não suja de graxa as unhas bem pintadas, mas bota ordem na equipe masculina que controla. O que muitos clientes nem desconfiam é que a bela morena de 1,70 metro nasceu num corpo de homem e começou a transição sexual apenas aos 18 anos.

No início do mês, a moça ficou em segundo lugar num concurso de fisiculturismo feminino, em Saquarema. E entrou para a história do esporte ao se tornar a primeira transgênero brasileira a participar de uma competição apenas com mulheres cis (que se identificam com o seu gênero biológico). Ela ficou em 2º lugar.

— Tinha visto um caso na internet de um homem trans que disputou um campeonato com outros rapazes e passei a acreditar que era possível eu competir com outras mulheres. Procurei a IFBB- Rio (Federação Fluminense de Fisiculturismo e Fitness) e contei da minha vontade — explica Priscila.

Para a surpresa da atleta, a federação a autorizou a competir, mas fez algumas exigências:
— Falaram que eu precisava estar com a minha certidão já trocada para o gênero feminino e também pediram um teste mostrando que minha taxa de testosterona deveria ter menos de 10 nanomol. Foi muito bacana, porque os organizadores revelaram no final do concurso e não rolou resistência das outras meninas — conta.
Funcionária do pai, Priscila diz que precisou esperar um tempo para conseguir manter a boa relação que tem com a família, atualmente:
— No início foi bem difícil para eles entenderem a minha transformação. Mas, com o tempo, meus pais foram percebendo que não era uma questão de moda ou promiscuidade.

Era uma necessidade que eu tinha. Tanto que trabalho para ele. Priscila conta que ela mesma passou um período sem conseguir se aceitar e chegava a ficar com homens sem revelar que era transexual.





— Foi um período em que eu não tinha segurança comigo mesma. Mas, hoje em dia, isso já não é uma questão para mim. Sempre deixo clara a minha história. Tenho as minhas qualidades e apenas nasci num corpo errado — diz a fisiculturista, que não conta por nada qual era o seu nome de batismo: — Isso já não tem a menor importância na minha vida.

Por trabalhar numa oficina mecânica, Priscila diz que costuma lidar com muitas cantadas dos clientes, mas que tem um ótimo relacionamento com os funcionários:

— Muitos homens chegam aqui, pedem o cartão da loja e, quando vão embora, me ligam dando cantada. Há também os caras que fazem piadinhas, mas os meus funcionários são homens muito bem-resolvidos e me defendem muito.

Do Extra


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Reflexão e Desabafos: Travestis e Transgêneros são marginalizadas

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"Muitas Travestis e Transgêneros são marginalizadas por se envolver a profissões ligadas ao sexo . Embora algumas estejam nessa vida por opção do chamado " Dinheiro fácil " (embora pelo que elas precisam aguentar eu não diria ser tão fácil assim) Muitas só estão vivendo essa vida porque não conseguem ingressar no mercado de trabalho por puro preconceito.

Muitas vendem seus corpos porque precisam comer, beber, pagar aluguel e contas , dar de comer aos seus filhos etc. Tudo porque muitos empregadores nos negam trabalho.

Porém São esses mesmos empregadores que muitas das vezes de maneira hipócrita nos procuram pelas madrugadas deixando suas esposas em casa em busca de nossos serviços após baterem com a porta de um emprego formal em nossa cara. Nada contra minhas amigas que vivem de seu corpo por opção.

Mas muitas de nós como eu queremos estar em uma Empresa mostrando nossa competência e profissionalismo... e não aturando... bêbados... drogados... bandidos... pelas madrugadas correndo risco de vida.

Se temos essa visão por parte da sociedade é porque a própria sociedade fecha as portas para nós. E como precisamos comer...beber...vestir...pagar as contas... bem advinha o que nos resta.

 Eu particularmente não sirvo pra viver na vida . Sou romântica demais pras ruas podres da madrugada. Mas ainda não passei por uma situação extrema pra saber até que ponto iria . E peço a Deus nunca passar pra descobrir. Que Deus me ajude a nunca me ver sem opção".

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Trans filma escondido momento em que chefe a assedia sexualmente

A americana Makana Milho (foto a lado), transgênero, 21 anos, filmou o momento em que seu chefe a assedia sexualmente no horário do trabalho. Makana conta que trabalha como faxineira em uma empresa e Honolulu, no Havia (EUA) quando no horário do expediente foi abordada pelo chefe Harold Villanueva Jr, 47 anos.

Ela disse que estava limpando o banheiro quando ele chegou e deu um "beliscão" em seu bumbum e depois a chamou para ir até o carro. A americana percebeu que ia ser assediada e resolver filmar tudo escondido com o celular. O homem disse que queria fazer sexo e que, em troca, "ajudaria a funcionária na empresa". 

Em entrevista ao jornal The Daily Beast, ela conta que o chefe já havida 'dado em cima dela outras vezes e que estava na cara que ele a 'obrigaria a fazer algo'. Ressalta ainda: "Tive medo. Cheguei a pensar que ele fosse tentar me violentar, mesmo ali, no estacionamento".

Após publicar na internet, a transmissão que dura em torno de 30 minutos, teve mais de 200 mil visualizações e cerca de 10 mil compartilhamentos.

No início do assédio, o chefe pede para que Makana faça sexo oral nele e avisa que "se você fizer sexo comigo, poderá sair mais cedo do trabalho hoje".

Para fugir do assédio, a funcionária avisa, durante a filmagem, que preferia fazer sexo com camisinha e que iria buscar ali perto um preservativo. "Fiz isso para escapar", confessa a trans.

Após ela dizer que não queria fazer sexo com ele e ouvir de volta muitas ameaças, a jovem consegue escapar e posta as imagens no facebook, marcando a polícia da cidade que acabou prendendo o chefe. Ele ficou detido e foi solto após pagar fiança.

Em nota, a empresa se posicionou dando uma suspensão a Harold e disse que vai aguardar o resultado da investigação e afirmou ainda que ele poderá até mesmo ser demitido. Mokana trabalha como temporária na empresa por determinação da Justiça. Ela cumpre pena por ter furtado uma bolsa em uma loja de luxo em 2014.

Nas redes sociais, a americana chegou a ser acusada de que teria "estimulado o chefe" a fazer tudo aquilo. Ela responde as acusações: "Absurdo. Estava trabalhando. Já tinha sofrido assédio, mas precisava ficar na empresa até o último dia por determinação da Justiça" e ressalta ainda que não fez nada. "Ele quem começou a me assediar e tentou passar a mão em mim algumas vezes" e que fez isso porque muitas mulheres, trans e até mesmo homem passam por isso.

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O que as empresas podem fazer para incluir pessoas trans no mercado de trabalho

Enquanto muitos não consideram mais o gênero como um assunto estritamente binário, ainda há muito estigma ligado à transição de identidade de gênero no trabalho. A conscientização em relação ao tema aumentou, mas há muitos desafios quando se fala de questões de transgêneros no mercado de trabalho.

O presidente americano, Donald Trump, recentemente assinou um decreto banindo algumas pessoas trans de servir no Exército. E, segundo uma pesquisa conduzida pela Rádio Pública Nacional (NPR, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, mais da metade dos professores trans no país enfrentam assédio ou discriminação no trabalho.

No Brasil, o cenário é mais sombrio. Segundo levantamento da organização Transgender Europe, 868 pessoas foram mortas em crimes motivados por transfobia no Brasil entre 2008 e 2016, o que coloca o país no primeiro lugar entre as nações com maior número de mortes de transexuais no mundo.

A cultura de violência e a discriminação contra esse grupo também resulta em uma alta taxa de evasão escolar - 82% dos transexuais não concluem seus estudos, de acordo com uma pesquisa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Outra consequência da discriminação de gênero e sexualidade no Brasil é que 61% da comunidade LGBT escondem sua identidade de gênero ou sua sexualidade no trabalho, segundo dados do instituto Center for Talent Inovation.

Como melhorar as condições de trabalho para a população trans?

Então, nesse contexto, como é sair do armário como trans no trabalho? E quais são as diretrizes para os empregadores em relação a funcionários trans?

Claire Birkenshaw fez a transição de gênero quando dirigia um colégio no norte da Inglaterra. Ela relembra sua vida antes da transição. "Superficialmente, eu era bastante feliz, muito sociável, mas por dentro havia um temor interno sobre quem eu era desde a infância. Era a única coisa na minha vida sobre a qual eu não era sincera."

Sua maior preocupação assim que ela tomou a decisão de mudar sua identidade de gênero foi a "rejeição de todos". "Eu tinha muito medo porque eu sabia que assim que contasse não haveria volta, era isso. Você sai do armário de vez", disse.

No fim das contas, a experiência de Birkenshaw foi majoritariamente positiva, mas ela reconhece que outras pessoas precisam de tempo para se ajustar à mudança. "Como tudo na vida, algumas pessoas levarão com facilidade, mas outras terão mais dificuldades", diz ela. "Enquanto eu passo por essa transição, outras pessoas terão que passar por essa transição emocional e psicologicamente também. Mas o tratamento geral em relação a mim teve dignidade e respeito."

Birkenshaw diz que precisou "cavar fundo" para encontrar a confiança ao encarar colegas e alunos, mas que "os jovens foram realmente incríveis. Um [aluno] veio até mim e disse 'bom dia, senhora', e eu respondi 'você é a primeira pessoa a me chamar de senhora'".

Após sua transição, Birkenshaw recebeu apoio de pessoas inesperadas. Ela lembra de ex-alunos que entraram em contato para dizer "estamos muito, muito orgulhosos de você". Até mesmo pessoas que ela nunca havia conhecido entraram em contato. Alguém escreveu para escola dizendo que leu a história da professora no jornal local e só queria dizer "muito bem".

Birkenshaw diz que sua capacidade de desempenhar seu trabalho como diretora da escola não mudou com a transição. "As principais habilidades que você tem, a forma como trabalha com as pessoas e o seu conhecimento continuam exatamente os mesmos", diz.

Uma diferença que ela percebeu desde a transição, porém, é que ela se sente "um pouco mais emotiva" que antes. Mas, como explica, os motivos para isso são complicados e multifacetados. Birkenshaw não sabe "se é porque agora você tem permissão para demonstrar suas emoções, se os hormônios têm algum efeito ou se é apenas a liberação de emoções reprimidas após uma vida inteiro ocultando sua identidade e permitindo que sua verdadeira identidade apareça".

Do ponto de vista de Birkenshaw, as coisas mudaram para melhor nos últimos 15 anos, considerando a visibilidade de pessoas trans e a maior acessibilidade a informações sobre o assunto. Ela também menciona o impacto da internet, que permite que alguém em transição de gênero possa ver "que pessoas fazem a transição no mundo todo. E isso faz uma enorme diferença, perceber que não é só você. Não é só você com você mesmo".
Como as empresas podem lidar com a questão

Então, quais são as diretrizes para os empregadores que têm pessoas trans em suas equipes? E quais são as dificuldades práticas que pessoas trans podem enfrentar no trabalho?

Beck Bailey, da Campanha de Direitos Humanos dos Estados Unidos (HRC, na sigla em inglês), que defende direitos LGBT, diz que houve mais progresso do que pensamos entre as grandes empresas multinacionais e americanas no apoio a funcionários trans.



Bailey diz que o fato mais surpreendente é que "o mundo corporativo americano trabalhou muito para apoiar seus funcionários trans e não-binários". Em 2002, a HRC fez um índice de políticas, práticas e benefícios, acompanhando o progresso desde então. "Quando começamos nossa pesquisa em 2002, apenas 5% das empresas tinham proteções contra discriminação, e hoje 97% das empresas que participam [do índice] têm essas proteções."

No Brasil, também há uma busca pela integração de pessoas trans no mundo corporativo, ainda que tímida se comparada a outros países. A plataforma Transempregos, por exemplo, foi criada para incluir pessoas trans no mercado de trabalho. Em 2014, 12 companhias queriam usar o serviço e, em 2017, houve um crescimento de quase 300% com 46 empresas cadastradas.

Então, como seria uma política de recursos humanos inclusiva no mercado de trabalho moderno?

"O mais fundamental e importante é colocar em prática uma política não-discriminatória e antiassédio", diz Bailey. "A partir daí, eles podem construir coisas como benefícios iguais."

Uma política de RH mais inclusiva significa, por exemplo, que uma pessoa trans possa ter acesso a terapia de hormônios pelo plano de saúde da empresa - caso contrário, essas pessoas não terão os mesmos benefícios que seus colegas cisgêneros.

Houve uma mudança significativa nessa área. Entre as companhias monitoradas pela HRC, em 2002, "zero empresas tinham planos de saúde completamente inclusivos para pessoas trans, e hoje temos 79%".

E também existem maneiras de uma companhia apoiar as pessoas que estão em transição no trabalho, como facilitar a mudança de nome nos documentos da empresa ou permitir que expressem seu gênero de acordo com o código de vestimenta que fizer sentido para elas.

Para Bailey, educação e treinamento são fatores-chave, assim como "diálogo e conversas que abrem espaço para as pessoas entenderem colegas trans e até clientes trans".

O que, no ponto de vista de Bailey, levou a essa mudança? "Os empresários americanos e os empregadores de multinacionais no mundo inteiro realmente entendem que diversidade e inclusão são bons para os negócios, para atrair [e] manter a melhor força de trabalho."

Uma consequência dessa abertura dos negócios à diversidade é ter mais opções para recrutamento, mas também pode favorecer a empresa em termos de reputação no olhar de possíveis novos funcionários. "Há pessoas que não fazem parte da comunidade trans, mas veem esse tipo de política como indicador do compromisso da empresa de ser um lugar acolhedor para se trabalhar."

As mulheres podem achar difícil subir na carreira considerando quão dominada por homens é a cultura corporativa, mas as pessoas trans enfrentam esse mesmo desafio. "Há muito preconceito contra as pessoas trans", diz Bailey. "Mesmo que elas passem como pessoas trans, as mulheres trans enfrentam o mesmo tipo de sexismo e misoginia que as mulheres cis". Da mesma maneira, algumas pessoas trans lidas como homens "encontram novas aberturas, especialmente se são brancos, com o privilégio masculino que não tinham antes da transição".

Enquanto pode ser mais fácil realizar a transição no trabalho e o apoio a funcionários seja maior do que há 30 ou 40 anos, sem dúvidas muitos desafios persistem.
Da BBC 
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sargento trans da Marinha Bruna Benevides conseguiu liminar que garante que seja reintegrada ao serviço militar


O dia da Marinha do Brasil é (foi) celebrado nesta segunda-feira, 11 de junho. Coincidentemente, essa também foi a data na qual foi divulgada uma derrota imposta pela Justiça ao conservadorismo da instituição. Conforme antecipado pela Coluna de Ancelmo Gois, o Tribunal Regional Federal da 2ª região (TRF-2) negou recurso da União que pretendia cassar uma liminar favorável da segundo-sargento trans da Marinha Bruna Benevides, que foi afastada após revelar sua condição. Ela conseguiu reverter na Justiça, ainda que de forma temporária, a tentativa da Marinha de reformá-la compulsoriamente.

Para justificar o afastamento, a Marinha alegou que Bruna Benevides era incapaz de exercer o serviço público devido a um quadro de "transexualismo", ainda que a segundo-sargento tivesse desempenhado por quase 20 anos seu trabalho com excelência dentro da instituição. A corrida da militar para tentar garantir o direito de desempenhar a atividade — para a qual foi aprovada em concurso público na década de 1990— começou há cerca de quatro anos quando ela decidiu revelar a seus superiores que era uma mulher trans. Antes disso, os longos cabelos crespos não existiam, em uma tentativa de se adequar ao papel masculino que precisava representar para ir ao trabalho.
— Como consegui jogar o jogo que estava posto, consegui passar por cima da maior parte dos problemas. Até que passei a me contestar. Antes eu pensava 'sou militar, vou dar esse orgulho a minha família, vou alcançar o prestígio', mas nunca foi suficiente, porque eu não era de fato feliz. Então eu resolvi que não queria 'ter' e sim 'ser', e quando eu decidi isso eu resolvi falar com meus superiores. Até então, eu tinha uma dupla identidade. Estrategicamente, ali eu precisava estar com a farda masculina, o cabelo curto — conta ela, explicando que no ambiente privado continuava levando a vida conforme sua verdadeira identidade: de mulher.
Depois de falar com o chefe imediato, Bruna deixou de fingir ser o que não era. Com a permissão do comandante do setor, deixou inclusive os cabelos crescerem. Mas, tratada com respeito pelos colegas, o preconceito veio de forma institucional quando, pouco depois, o caso chegou nas instâncias superiores e ela foi encostada compulsoriamente por uma licença médica na qual sua "doença" era diagnosticada como " transexualismo". Assim ficou por cerca de dois anos, tentando reverter o quadro administrativamente, mas quando o afastamento atingiu por licença atingiu o tempo limite, a militar decidiu que precisava entrar na Justiça.

— Quais as limitações laborais que eu tinha? O que impunha que eu não pudesse desempenhar funções como militar? Eu não tinha nenhuma questão física e nem psíquica. Foi horrível, eu me senti a pior pessoa do mundo. Eu saí de casa aos 17 anos para me dedicar à Força e no final estava sendo dispensada porque estava usando saia — questiona. — A questão é burocrática e social. Quem tem um transtorno (de adaptação) não sou eu, são as forças armadas.
Após resistir à judicialização do caso, Bruna finalmente concluiu que entrar na Justiça era a única alternativa. No ano passado, ela obteve, no dia do Marinheiro, comemorado em 13 de dezembro, a primeira vitória: uma liminar que determinava, em caráter de urgência, que fosse reintegrada ao corpo militar. A Marinha então entrou com recurso, que foi derrubado pelo TRF-2 no dia 24 de maio, mantendo a determinação de que Bruna volte a trabalhar.
— A liminar foi cumprida parcialmente, a gente aguarda uma sentença de mérito. Bruna foi novamente agregada à Força e voltou a receber como uma militar da ativa, mas o que ela quer não é o salário. Ela está brigando pelo direito de trabalhar, exercer sua profissão — explica o defensor da União Thales Arcoverde Treiger, que faz a defesa da segundo-sargento. Treiger explica que a justificativa apresentada pela Marinha causou uma "impressão muito ruim" pela falta de elementos que justifiquem o afastamento da segundo-sargento.

— As Forças Armadas argumentam que o problema é a impossibilidade de Bruna sair do quadro de servidores masculinos e ir para o feminino, questionam que vestiário ela usaria na instituição. A Bruna é uma mulher, ela sempre foi e sempre vai ser. Espero que a partir de agora, a administração pública veja isso como uma coisa muito natural. O Supremo já reconheceu o direito das pessoas trans, que agora podem mudar o nome (sem necessidade de cirurgia de mudança de sexo) — disse.
Segundo Bruna, a decisão é um marco para garantir aos transexuais o direito à dignidade, em um contexto que faz com que, diariamente, essas pessoas sejam levadas à informalidade:
— A população trans não consegue trabalhar nos empregos formais. Quando a gente se depara com uma pessoa como eu, que teve oportunidade de se formar e mesmo assim é atingida pelo preconceito vemos o que faz com que grande parte de nossa população seja empurrada para a prostituição.

Do O Globo - Fotos Reportagem o globo e DCM
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Curso qualifica travestis e transexuais para o mercado de trabalho

Curso de gastronomia deve chegar ao Rio nos próximos meses. Na Maré, há um projeto semelhante

Ao assumir a opção de se travestir e a identidade afirmada por um novo nome feminino, muitas portas se fecharam para Anderson Palma e Francisco Teixeira, dentro e fora de casa. No mercado de trabalho, o preconceito foi a principal barreira para que eles se desenvolvessem profissionalmente. Mas essas dificuldades ficaram para trás. Hoje, são aceitos como Bia Mattos e Alessandra Martinelly no lugar onde trabalham. A oportunidade de emprego com carteira assinada foi resultado do programa de capacitação 'Empregabilidade de Pessoas Trans Cozinha & Voz', que forma travestis, homens e mulheres transexuais em situação de vulnerabilidade para o cargo de assistente de cozinha.

O curso, uma ação em conjunto entre o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), teve conteúdo desenvolvido pela chef Paola Carosella. A segunda turma do projeto celebrou a formatura na última terça-feira. As aulas aconteceram na Faculdade Hotec, em São Paulo. Segundo a OIT, a intenção é que o programa de capacitação seja levado para outros estados em breve, como Rio de Janeiro, Goiás, Pará e Bahia.
Bia Mattos e Alessandra Martinelly participaram da primeira turma, que concluiu as aulas em novembro. Em pouco tempo, o encaminhamento para a vaga de emprego já promove transformações em suas vidas. Alessandra morava em um abrigo e conseguiu alugar um apartamento no segundo mês de trabalho. "Mudou tudo, pois agora tenho maior liberdade e privacidade. Minha intenção é dar entrada em uma casa própria no ano que vem", projeta Alessandra, que atua como assistente de cozinha em um outro abrigo.
Aos 39 anos, é a primeira vez que ela tem carteira assinada. "Tentei emprego muitas vezes. Mas as chances não aparecem para uma travesti. Até hoje faltam oportunidades para a gente sobreviver de forma digna. Por isso que muitas caem na prostituição, por necessidade de sobreviver. E isso é cruel", diz.
Para Bia, que trabalha num restaurante, a oportunidade de emprego surgida após o curso está possibilitando a retomada dos estudos. "Estou concluindo a escola e pretendo cursar faculdade de gastronomia. Nós podemos. Basta força de vontade", diz.
Coordenadora pedagógica da Faculdade Hotec, que abriga o projeto 'Empregabilidade de Pessoas Trans Cozinha & Voz', Beatriz Rampim conta que os alunos saem do curso com novas perspectivas não só de trabalho, mas de vida. "A autoestima melhora muito. Eles passam a acreditar que têm possibilidades reais de entrar no mercado de trabalho formal, com carteira assinada", diz Beatriz.
Além da capacitação na cozinha, o curso também contempla aulas de poesia, com as atrizes Elisa Lucinda e Geovana Pires.
COZINHA NA FAVELA
Um projeto semelhante está sendo estruturado no Complexo da Maré pelo Grupo Conexão G de Cidadania LGBT de Favelas, que fica na comunidade da Nova Holanda. No momento, a instituição busca financiamento para construir uma 'cozinha trans' na região. "As políticas públicas de empregabilidade não chegam à população trans das comunidades. E a falta de oportunidades é mais uma agressão que a gente sofre. Temos quatro chefs de cozinha na Maré que são travestis. Elas comandarão o projeto, que vai seguir o mote 'nós por nós mesmas'", antecipa Gilmara Cunha, diretora geral do Grupo Conexão G.
Com a cozinha implantada, a proposta, segundo Gilmara Cunha, é que o projeto possa ser um caminho para o empreendedorismo. "A ideia inicial é vendermos o que vamos produzir em eventos de empresas parceiras. Essa atuação vai mostrar a forma correta de enxergarmos a travesti, para além do imaginário erótico, ligado ao fetiche", diz.
O Grupo G está com edital aberto para jovens que irão atuar na prevenção de DSTs na Maré. Os candidatos selecionados receberão bolsa-auxílio.


Por Bernardo Costa - O Dia
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TRF-2 mantém decisão que proíbe reforma de militar transexual da Marinha

Por entender que não há urgência para a Marinha reformar compulsoriamente uma mulher transexual e deixar de tratá-la por seu nome social, o desembargador Marcelo Pereira da Silva, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (RJ e ES), negou efeito suspensivo a agravo de instrumento da União. O recurso questiona tutela de urgência que impediu que a militar fosse retirada da ativa e exigiu que ela fosse tratada pelo gênero que escolheu.
Há mais de 20 anos na Marinha, a segundo-sargento foi afastada do serviço em 2014 por incapacidade temporária após ter sido diagnosticada com “transexualismo e dislipidemia mista (altos níveis de colesterol e triglicéridos no sangue)”. Em 2017, após laudo de incapacidade definitiva, a Marinha iniciou um processo de reforma compulsória da mulher trans.
Ela então foi à Justiça. Alegou que está em perfeitas condições de saúde e que a Marinha lhe negava o registro de seu nome social na carteira de identidade funcional e nos assentamentos. Assim, pediu que a Marinha seja impedida de continuar seu processo de reforma e que respeite seu nome social nos assentamentos militares e no tratamento pessoal.
Em defesa da Marinha, a Advocacia-Geral da União argumentou que a militar não poderia ser transferida. Isso porque a medida só é permitida entre oficiais, e segundo-sargente não é um cargo desse nível. Além disso, os procuradores federais sustentaram que a mulher trans entrou na Marinha em um posto que só admitia vagas masculinas. Sem autorização legal para transferi-la, isso violaria o princípio da legalidade, disse a AGU.
A 27ª Vara Federal do Rio de Janeiro concedeu tutela de urgência ordenando que a Marinha paralise a aposentadoria da militar e mude a forma de tratamento dela. Em sua decisão, o juiz apontou que a autora foi afastada de suas atividades diversas vezes por ser transexual, uma vez que uma das terapias recomendadas para isso é se vestir e portar de acordo com o gênero desejado — o feminino. E isso, para a Marinha, conflitaria com a atividade militar.
Porém, o julgador destacou que “não se verificou em nenhum momento redução da capacidade cognitiva ou física da parte autora em razão da busca de sua identidade de gênero”. Pelo contrário: médicos relataram que a ansiedade e a depressão da segundo-sargento diminuíram depois que ela se assumiu como mulher.
“Portanto, a transexualidade não determina, por si só, a incapacidade laborativa, nem incompatibilidade funcional com sua condição de militar da ativa da Marinha do Brasil. Veja-se que a manifestação da AGU nem sequer faz referência ao laudo médico, limitando-se a defender a tese segundo a qual não seria possível a transposição do quadro masculino para o feminino”, ressaltou o juiz federal.
A seu ver, aceitar a tese da União de que é proibida a transferência do quadro masculino para o feminino “equivaleria a dizer que transexuais não podem ser admitidos no serviço militar”. E isso, de acordo com ele, violaria “frontalmente” o artigo 3º, IV, da Constituição. O dispositivo prevê como objetivo fundamental do Brasil “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
Sem suspensão
A AGU recorreu da decisão, pedindo a atribuição de efeito suspensivo ao agravo de instrumento, mas o desembargador federal Marcelo Pereira da Silva negou o requerimento.
Em sua opinião, a Advocacia-Geral não demonstrou o perigo da demora na suspensão do processo de reforma da militar e na retificação de seus documentos — o que foi efetivamente determinado pela tutela de urgência.
Clique aqui para ler a íntegra da decisão.
Processo 0000511-73.2018.4.02.0000

Do CONJUR
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Aqui eu não sou homem ou mulher. Sou um adepto do crossdresing. Sou uma Crossdresser - CD ou CDzinha. Desde os 9 anos, adoro lingeries e roupas sexyes. Levo uma vida normal masculina e tenho uma vida clandestina feminina.

Me proponho aqui a falar um pouco de tudo, em especial das Crossdressers, dos transexuais, dos Travestis e da enorme comunidade
LGBT existente em todo o mundo. Um estilo de vida complicado e confuso (para alguns)... Este espaço também se presta para expor a minha indignação quanto ao ódio e preconceito em geral.

Observo que esse é um blog onde parte do que aqui posto pode ser considerado como orientado sexualmente para adultos, ou seja, material destinado a pessoas maiores de 18 anos. Se você não atingiu ainda 18 anos, ou se este tipo de material ofende você, ou ainda se você está acessando a internet de algum país ou local onde este tipo de material é proibido por lei, NÃO siga 'navegando'.

Sou um Crossdresser {homem>mulher} casada {com mulher - que nada sabe} e não sou um 'pedaço de carne'.

Para aqueles que eventualmente perguntam sobre o porque do termo 'Crossdresser GG', eu informo que lógico que o termo trata das minhas medidas. Ja que de fato visto 'GG'. Entretanto alcunhei que 'GG' de Grande e Gorda, afinal minhas medidas numéricas femininas para Blusas, camisetas e vestidos são tamanho: 50 e Calças, bermudas, shorts e saias são tamanho: 50.

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